Katsuki estava no vestiário, depois do treino de herói da tarde. Ele tinha insistido em continuar até o último segundo, então só estava ele e Kirishima terminando de se vestirem. Para o infortúnio de sua sanidade mental, Kirishima estava com uma camisa estupidamente apertada.

— Cara, acho que eu vou precisar comprar roupas novas — O ruivo constatou movendo-se para testar a camisa — Desde o começo do ano até agora eu cresci muito mais, minhas camisas estão ficando muito apertadas.

— Claro que sim, idiota. Você pensou que ia ficar igual para sempre? — Bakugou resmungou virando-se de costas para não encará-lo.

— não. Claro que não — Kirishima riu — Engraçado, não é? Todos nós estamos crescendo e… acabamos vendo nossos amigos com… outros olhos

Bakugou estagnou no lugar, os dedos ainda segurando o cadarço do sapato tentando processar a informação.

— O que você quer dizer, Cabelo de Merda?

— Quer dizer, Todoroki e Yaoyorozu começaram a namorar a pouco tempo, certo? De repente, namorar não parece mais tão assustador

— Você está dizendo que está afim de alguém? — Bakugou perguntou rápido demais. Ele mordeu a língua para se segurar.

— N-não! Eu não disse isso. — Kirishima protestou envergonhado e esfregando a nuca — Eu só quis dizer que todo mundo da nossa classe está passando por essa fase, certo? Puberdade e tudo mais.

— Hm. — Katsuki gemeu voltando a atenção para os sapatos e jogando uma camisa extra para Kirishima, ele estava tendo alguns problemas de concentração por aqui.

— Valeu. Então, todos os caras estão ficando bonitos! — Eijiro continuou o assunto aceitando a camisa do amigo — Não vai demorar até todo mundo estar namorando.

— Todos os caras? — Bakugou repetiu contendo a animação. Ele podia ter falado das garotas, mas falou dos caras. Isso podia ser alguma coisa, certo? — Inclusive eu? — Ele arriscou.

— Você sempre foi muito bonito, Bro. Claro que não vai demorar para você achar alguém — Kirishima afirmou com seu sorriso radiante.

— Você é muito estúpido — Bakugou bufou com a incredulidade. Kirishima não ia ver isso não é?

— Você e Jirou tem passado muito tempo juntos e… bem próximos — O ruivo sugeriu alisando a blusa emprestada na mão.

— E daí? — Katsuki encolheu-se rabugento.

— Você gosta dela, não é?

— Ela não é irritante — Demorou um pouco para pensar em uma resposta que não eliminasse o ciúme de Kirishima mas também não o afastasse por pensar que Katsuki gostava de Jirou.

— Bro, você vive abraçando ela. Você nunca abraça ninguém. — Kirishima constatou… chateado?

— Eu já disse, ela não é irritante.

— Cara, tudo bem, se você está dizendo — O garoto encerrou o assunto sem muita convicção. Porém Bakugou não conseguiu processar uma resposta para guiar a conversa porque Kirishima tirou a camisa e o loiro ainda não estava preparado.

Bakugou evitava encarar Kirishima no vestiário. E foda-se se o uniforme dele o deixa praticamente pelado, não é a mesma coisa que quando você está saíndo da porra de um chuveiro, todo molhado e relaxado. Foi assim que Katsuki se descobriu total e completamente gay.

Depois do jantar, Bakugou ainda estava repassando a conversa que teve com Eijirou. Sem ter muita certeza do que tudo isso queria dizer, ele decidira falar com Kyouka. Foi ela quem o chamou para mostrar uma música, a garota punk estava com Kaminari desde o fim do treino em uma discussão muito profunda para qualquer um se intrometer.

A menina chamou-o para desempatar a disputa ao ouvir uma música que ambos tinham opiniões contrárias. Geralmente eles só aceitam os gostos quando se diferem, porém eles estavam discutindo o sentido. E Kaminari não gostava da música por ter uma letra depressiva e Jirou argumentava que ele estava entendendo errado, que a música era sobre não se importar com a morte porque eles viveriam na memória dos outros, enquanto Kaminari achava que era apenas pessoas dizendo que morrer era legal.

— Sendo o idiota que você é, já é esperado que não entenda as coisas direito. — Kyouka revirou os olhos — Então, Bakugou, pode dizer para o Kaminari que ele está ouvindo tudo errado?

— Ela tem razão, Pikachu, você é mais tapado do que eu pensava por não entender isso — Katsuki reclamou devolvendo os fones para Jirou.

— Eu disse! — Jirou comemorou a vitória. Pelo menos até Bakugou passar o rosto bem próximo do seu para sussurrar em seu ouvido.

— Rolou umas coisas, precisamos conversar.

Jirou retesou a coluna e corou um tom, encarando Kaminari para ver como o garoto reagiria. Além de prender uma risada, nada mais veio do loiro elétrico.

Apesar de na última semana Bakugou ter se tornado irritantemente tátil, Kyouka ainda não se acostumara com as aproximações inesperadas. Uma ou duas vezes ela o agrediu por tê-la abraçado por trás e eles começaram suas brigas idiotas. Jirou tinha quase certeza que agora ele fazia isso para irritá-la, contudo, não tinha como provar.

Talvez ele não soubesse que as orelhas, os ouvidos, seus fones e tudo mais que rodeasse sua audição eram uma área particularmente sensível para Kyouka. O fato era que, algumas vezes, como agora, Bakugou excedia alguns limites de intimidade.

Após o toque de recolher, eles desceram novamente para o salão comum, como faziam pelo menos duas vezes por semana. Katsuki começou a explicar a conversa que teve com Kirishima a algumas horas, sobre ele ter dito que Bakugou sempre fora bonito, sobre o fato dele estar falando de ver amigos com outros olhos e tudo mais. Quando Katsuki estava dizendo o quanto Eijiro era idiota por não perceber todas as indiretas que Bakugou enviava para ele, o loiro percebeu que Jirou estava encolhida e tremendo com o frio.

— Ei, Orelha, você parece um picolé, vamos para o meu quarto — Ele sugeriu já levantando-se.

— Não — ela negou firmemente — Eu já disse que não vou entrar no seu quarto depois do toque de recolher.

— Então vamos pro seu, tanto faz. Só entre onde tem a porra de um aquecedor — Katsuki revirou os olhos impaciente.

— Eu já disse que não. Todo mundo já vive entendendo tudo errado, se ficarmos sozinhos em um dos quartos eu vou ter que matar todo mundo para ter alguma paz. — Kyouka reclamou esfregando as pernas com as mãos. — Kirishima realmente disse que não ia demorar até você achar alguém?

— Com o maior sorriso imbecil do mundo — Bakugou bufou tirando seu suéter antes de sentar-se no sofá novamente — Ao menos vista essa merda, ainda tem muita coisa para contar — Ele ordenou jogando a roupa sobre ela.

Kyouka não recusou, pelo contrário, enfiou-se no tecido pré-aquecido pelo corpo de Bakugou com um suspiro aliviado pelo conforto. A noite estava particularmente fria, chovera há pouco tempo e não havia aquecedores ligados àquela hora no salão comum.

— Ele perguntou se eu gostava de você — Bakugou continuou

— E o que você disse?

— Que você não era irritante.

— Que doce — Kyouka brincou — Bem, parece que está funcionando. Pelo menos isso — Ela acrescentou a última frase em um resmungo triste.

— O que foi? — Katsuki perguntou erguendo uma sobrancelha. Jirou pôde ver com mais clareza, já que o luar estava presente e era suficiente para iluminar a sala razoavelmente bem.

— Momo e Todoroki estão me deixando enjoada de tão melosos. — Jirou suspirou encostando a cabeça no ombro dele — Não que ela me conte muito, acho que mudar de assunto toda vez que ela menciona o namoro deixou a entender que eu não quero saber sobre isso. O pior é que… — Ela grunhiu cansada largou os braços do lado do corpo.

— O quê? — Katsuki insistiu abrindo o braço para que a garota deslizasse para suas costelas.

Eles acabaram ficando mais táteis quando sozinhos depois desse tempo todo sendo afetuosos em público. Além do mais, Jirou estava com frio. E Bakugou era mais quentinho que os demais por causa de sua individualidade.

— Momo reclamou que eu estava muito afastada e… bem, assim — Ela apontou para o fato dela estar a cinco minutos no local e já estar enroscada em Katsuki — com você. Aparentemente — Ela enfatizou com ironia — ela não era mais afetuosa porque queria respeitar o meu espaço pessoal. Mas agora que ela sabe que eu não me importo — Ela destacou novamente com sarcasmo adicional — ela tem me abraçado muito mais. O que é desesperador porque… porque… porque…

— Você fica querendo, não é? — Bakugou terminou por ela, não sem uma provocativa.

— Cala a boca! — ela o repreendeu escondendo o rosto no peito dele — Eu sei que você checa o Kirishima o treino inteiro. No vestiário também.

— eu não estou negando — Katsuki encolheu os ombros. Com um suspiro, ele continuou — nós somos dois idiotas, não somos?

— Sim — Kyouka concordou entristecida — Isso é ridículo. Todo mundo pensando que nós namoramos sendo que os dois estão aqui, gays e interessados em outras pessoas — Ela resmungou levantando a cabeça para Katsuki — Você devia gritar isso no topo do prédio. Então Kirishima viria dizendo ‘Bakugou, você é tão másculo!’ e toda essa novela teria fim — Ela brincou colocando a mão na testa para fingir o drama.

— Essa é uma puta ideia — Bakugou concordou brincando — Deviamos os dois parar com essa palhaçada e deixar bem claro que nós somos fodidamente gays nessa porra.

— Ahn… Não é uma boa ideia pro meu lado — Jirou discordou com uma risada leve.

— Por quê? — Katsuki perguntou deixando claro que não estava brincando dessa vez.

— Bakugou, Momo passou uma semana se escondendo do Todoroki quando teve a remota ideia de que ele estava interessado nela. Acredite, isso me deu até esperanças, então eles começaram a namorar.

— Não entendi o que isso tem haver?

— Eu divido a cama com ela, Bakugou. Ela não tem o menor pudor de trocar de roupa na minha frente. Ela se sente completamente confortável comigo porque eu sou uma garota. Eu não quero que ela se sinta mal perto de mim. Eu sei que ela não me vê desse jeito e que uma hora vou ter que contar, mas... Eu preciso de um tempo ou vou perder minha melhor amiga.

— E daí? Você pode superar a Rabo de Cavalo, você é melhor que isso. — Katsuki confortou-a apertando-a mais perto do corpo (se fosse possível) — Tenho certeza que só precisa achar um rabo de saia mais gostoso.

Kyouka o repreendeu com uma batida no peito com o punho.

— Então diga ao Kirishima, se ele disser não, então você supera. Você é melhor que isso — Ela o imitou venenosa.

— Você tem uma porra de uma língua afiada, Orelha.

— Eu tento — Ela meneou levantando-se. — Eu tenho que ir. Obrigado pelo suéter — Ela agradeceu pegando na barra do tecido e retirando-o um pouco hesitante.

Estava frio e, apesar de já estar indo para o aconchego de seu quarto, Kyouka não estava muito feliz de estar expondo a pele ao frio depois de estar tão aquecida.

Katsuki não sabe muito bem por que ficou com o rosto aquecido enquanto observava Jirou retirando o enorme suéter à meia luz da lua. Por sorte, as luzes apagadas não permitiram que ninguém além dele soubesse que seu rosto estaria ruborizado.

No fim, ele acabou segurando o suéter e esperando até Jirou sumir no elevador antes de subir para o seu próprio quarto.