Não vai embora.
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Atendi o celular no segundo toque.
– Bianca? – perguntei, desconfiado.
Ouvi um ruído do outro lado da linha e alguma conversa distante. Depois de alguns instantes esperando, alguém finalmente voltou ao telefone.
– Sou eu. João – foi quase um reflexo tentar desligar o celular – NÃO DESLIGA! É SOBRE A KARINA.
Agora meu amigo traíra tinha toda a minha atenção. Deixei o violão ao lado da cama e me sentei, prestando o máximo de atenção.
– Espero que não seja mais um blefe pra tentar falar comigo, mané – comecei, tentando manter a calma.
Depois da tragédia, João vinha tentando se desculpar comigo de diversas formas. Ia em casa, me ligava, mandava presentes, passava recados pela minha mãe e Tomtom. Eu sabia que não ficaria muito tempo conseguindo ignorá-lo, afinal, ele era o meu melhor amigo. Mas ele tinha pisado na bola comigo, e feio. Eu ainda estava me sentindo traído demais para fingir que nada havia acontecido. Ele merecia aquele gelo.
– Claro que não. Não sou nem louco de usar o nome dela pra isso... depois de tudo né...
– Vai logo, João – ouvi Bianca resmungar irritada do outro lado da linha – vai logo antes que ela perceba.
– O que está acontecendo?
– Cara, se arruma em dez minutos porque a gente vai no cinema. Devido as circunstâncias eu até pago a sua entrada.
– O que? João, não consigo...
Antes que eu pudesse raciocionar sobre o que estava acontecendo na casa dos Duarte, ouvi uma pequena troca de ofensas e então Bianca assumiu o telefone.
– Pedro, total foco no que eu vou te falar agora por que essa é a sua p´roxima chance de conversar com a Karina – disse ela, claramente colando a boca no aparelho para que não perdesse nenhuma informação – meu pai deu duas entradas de cinema pra minha irmã. Eu ouvi uma conversa dela com a Fabi pela extensão do telefone. Elas vão juntas. A sessão é as 21:30, no shopping aqui perto. O nome do filme é Golpe Duplo. O João vai te encontrar em vinte minutos na porta principal do shopping. Meu pai vai levar a K um pouco antes da sessão e a Fabi chega depois. Elas não vão juntas. Não atrasa porque vocês ainda precisam comprar os ingressos.
Forcei meu cérebro a guardar todas aquelas informações. Respirei fundo e já segui para o armário para escolher a minha melhor roupa.
– Pode deixar. Muito obrigado, ex-futura cunhada.
– Não me agradeça. Apenas coloca um sorriso de novo na minha irmã. Vinte minutos Pedro.
Desliguei o celular e me troquei o mais rápido possível, tomando cuidado para me vestir bem e me perfumar. Eu precisava impressioná-la de alguma maneira. Arrumei meus cabelos rebeldes em frente ao espelho e respirei fundo.
Era hoje que eu faria de tudo para tê-la de volta.
Como combinado, em vintes minutos eu esperava João em frente ao shopping. Vi quando ele chegou em um tàxi e veio apressado em minha direção.
– Bianca tá tão focada na missão Volta Perina que até o taxi ela pagou. E de quebra me deu um vale refrigerante – comentava ele enquanto andávamos apressados pelos corredores em direção ao cinema – precisamos de um plano, não é? Você não pode simplesmente aparecer na frente da Karina e se declarar.
– Lógico que não. Vamos comprar os ingressos que eu te explico o que eu pensei.
Por sorte a sessão não estava esgotada. Compramos nossas estradas estrategicamente perto de Karina e Fabi. Bianca era tão ligeira que tinha conseguido ver o número das poltronas enquanto a irmã tomava banho. Depois dos ingressos, entramos na fila das pipocas.
– É o seguinte, João – comecei, atento a qualquer vestígio de Karina e Fabi – elas vão chegar e com certeza vão comprar pipoca. Karina não consegue ver filme sem comer. A gente fica perto da fila da entrada do filme e assim que elas passarem, você cumprimenta as duas. Fabi é muito gente boa, com certeza vai parar pra conversar com a gente. Karina vai ficar de marra, mas essa parte você deixa comigo. Daí vem o ponto mais importante.
– Manda logo porque a Karina está vindo!
Eu estava de costas para a entrada do cinema e assim decidi ficar até terminar de explicar o plano, pois sabia que assim que colocasse os olhos nela, esqueceria de tudo.
– Você vai convidá-las para ir a uma pizzaria que fica aqui perto. Você vai jogar um migué falando que seu pai conseguiu rodízios grátis para 4 pessoas e que a gente estava procurando mais gente para ir.
João empalideceu.
– Cara, nem tenho dinheiro pra bancar a minha boca, imagina mais três.
– Para de ser tapado – disse revirando os olhos de impaciência – eu pago. Elas só precisam acreditar nisso. A Fabi não vai recusar, acredita no que estou te dizendo. Karina vai ter que ir junto.
– Maldade. Só porque a mina é gordinha.
– Não, João. Você fica aqui na fila. Lembra do que a Bianca disse? Fabi chega depois. Eu vou pra lá esperar a Fabi. Vou conversar com ela... ela é TeamPerina.
João começou a compreender. O plano era bom, mas nenhuma etapa poderia dar errado.
– Entendido?
– Entendido – concordou João – Karina tá chegando. Eu fico aqui comprando as pipocas e você vai atrás da Fabi. A gente se encontra na porta do filme.
– Isso. Não esquece do convite.
João concordou com um aceno de cabeça e eu me retirei da fila. Karina vinha distraída na mesma direção que a minha, olhando os cartazes das próximas estreias. Ela usava uma calça jeans básica, blusa cinza básica e um all star. Parecia entediada e triste. Minha maior vontade era jogá-la nos meus ombros, trancá-la no banheiro mais próximo e encher cada parte de seu corpo de beijos. A lembrança de ter sua pele macia em contato com a minha fez meu coração doer de saudade. Me desviei dela e aproveitei os grupos de pessoas para passar sem que ela me visse.
Me posicionei de forma a ter certeza que veria Fabi chegando no cinema independente da portaria que ela entrasse. Poucos tempo depois, a avistei, vindo em minha direção praticamente correndo e tropeçando nos próprios pés. Antes que ela pudesse virar para a entrada do cinema a levei para atrás de uma das lojas com apenas um puxão.
– PEDRO DE DEUS! – gritou ela apavorada – quase que eu pego meu spray de pimenta!
– Calma, Fabi. Não queria te assustar.
– Você queria pular essa fase e direto me matar, vê se pode – Fabi respirou fundo para se acalmar. Quando conseguiu finalmente, sua ficha caiu – e o que você quer?
Fabi começou a olhar para os lados preocupada, como se esperasse encontrar Karina esquartejada em algum latão de lixo. Karina me dizia que ela via muita televisão.
– Quero que você me ajude com a Karina. Quero que ela me perdoe... quero ela de volta.
Fabi deu uma gargalhada exagerada.
– Passar bem.
Fabi se virou com um gesto brusco, mas antes que ela começasse a andar, a puxei de novo e fiquei o mais sério que consegui.
– Fabi. Você é uma das únicas amigas que a Karina tem. Sabe que o que a gente tem é verdadeiro.
– Sei que ela gosta de você como nunca amou ninguém e um belo dia descobriu que você aceitou dinheiro para namorar com ela. Opa, olha só o problemão.
– Olha pra mim, Fabi – a segurei pelos ombros e a fiz olhar para meus olhos – vê se acha alguma mentira quando eu digo que eu sou completamente apaixonado pela sua amiga. Cometi um erro terrível. E com certeza vou continuar pagando muito por isso. Mas eu não vou desistir dela. Por favor, me ajuda.
Usei a minha melhor cara de cachorro que caiu da mudança. E para minha surpresa, fez efeito. Fabi começou a bater os pés impaciente. Rodou no mesmo lugar e passou a mão na cabeça. Ela abriu a boca algumas vezes e deduzi que ela estava falando sozinha.
– Se eu aceitar ajudar, onde me encaixo nessa história?
Abri o sorriso mais sincero que dei em dias.
– Simples. Eu vim aqui hoje com o João porque sabia que vocês vinham. Bianca – completei, assim que vi sua expressão confusa – temos ingressos perto de vocês. O João está na entrada, provavelmente com a Karina. Ele vai jogar uma história de comer em uma pizzaria de graça e tudo que você...
– Vai ser de graça mesmo?
– Vai, Fabi.
– Karina que me aguarde. Nós temos um acordo – concluiu ela, confiante.
Demos as mãos para selar a parceria.
– Mas escuta aqui. Vou comer muito bem hoje, mas vou ficar de olho em você ao mesmo tempo. Se eu perceber que você tá de sacanagem ou que não tá dando seu sangue para conseguir ela de volta, te juro que levanto da mesa e conto pra ela seu plano e já acabo com qualquer esperança que você tenha. Eu adoro filar uma bóia na faixa, mas a felicidade da Karina vem em primeiro lugar.
– Falou bonito.
– Eu sei. Vamos.
Na entrada, deixei Fabi ir na frente. Assim que ela cumprimentou João e Karina, eu respirei fundo e me aproximei. Senti meu coração apertar ao ver a cara de desprezo de Karina. Ela revirou os olhos e puxou Fabi para a entrada.
– Oi, Pedro – falou Fabi, um pouco alto demais e se livrando do braço de Karina – você vendo filme de ação?
– Pois é – olhei para João pedindo ajuda enquanto falava – João deu de querer ver esse filme. Só aceitei porque vou ter recompensa depois.
– Recompensa? – perguntou Fabi de um modo curioso, entrando no meu jogo – agora você precisa explicar isso pra eu não pensar besteira.
– Meu pai tem muitos contatos. Sabe como são os galãs. Abriu uma pizzaria perto daqui e ele ganhou 4 rodízios pra hoje. Eu e o Pedro vamos para lá.
João fez uma pausa estratégica. Depois fez uma cara tão perfeita de alguém que tinha uma súbita ideia que anotei mentalmente para parabeniza-lo mais tarde.
– Nós temos quatro convites. Eu e Pedro íamos sozinhos... mas ia ser bem legal se vocês viessem junto com a gente.
– Valeu, mas esquece João – retrucou Karina, ainda de costas para mim e fingindo indiferença – Fabi, falta dez minutos para o filme e eu não quero sentar em qualquer lugar.
– Pizza de graça? Nós vamos sim.
– FABI! – gritou Karina, abandonando a pose da indiferença – se você quiser você vai, eu vou para a minha casa.
– Você quem sabe. Ligo pro seu pai e digo que você está depressiva. Mestre Gael disse que eu poderia ligar a qualquer momento se eu achasse que você está perdendo o equilíbrio. E você sabe como ele é, vai ficar desesperado, vai brigar com você...
– Você não faria isso.
Fabi pegou o celular.
– Nós não precisamos nem conversar, Karina – comecei tentando encontrar seus olhos – o João está te chamando numa boa. Isso vai te afetar tanto assim? Ficar algumas horas perto de mim apenas comendo uma pizza?
Karina me olhou com tanto ódio que eu podia jurar que ela me espancaria ali mesmo. Vi suas mãos fecharem e sua respiração descoordenar. Mas ela conseguiu se controlar. Ela precisava me mostrar que eu não a afetava, que minha presença não fazia diferença. Murmurou um “tanto faz” para João e praticamente arrastou Fabi para o cinema. Fabi olhou discretamente para trás e piscou. Bom, pelo menos ela iria.
– E agora? – perguntou João.
– Agora, esperamos. Não posso provocar a Karina, porque se não ela acaba não indo se eu a tirar muito do sério.
– E o que você vai fazer na pizzaria? Simplesmente agarrar?
– Sinceramente? Não sei ainda. Mas agarrá-la é uma boa alternativa caso nada dê certo.
Eu sabia que em algum momento daquela noite eu perderia o controle. Não conseguiria ficar ao lado dela tanto tempo, vendo aquela carinha linda emburrada e não poder tocar. Eu me controlaria ao máximo para não assustá-la, mas tinha medo do meu próprio limite.
Se era possível, Karina ficou ainda mais irritada quando percebeu que nossos lugares eram na fileira bem atrás delas. Ouvi ela xingar para Fabi e colocar os óculos 3D com violência no rosto.
Não prestei muita atenção no filme. Não era um gênero que prendia minha atenção. Tudo que eu fiz durante aquelas duas horas foi observar Karina vibrar em silencio com os golpes e com as cenas de luta. Ela parecia feliz de uma maneira tão linda, que eu prometi a mim mesmo que a traria em todos os filmes que ela quisesse quando voltássemos. Ela me ignorou completamente, mas as vezes eu jurava que ela virava a cabeça discretamente para verificar se eu ainda estava ali. Deus me ajude para que isso não seja coisa da minha imaginação.
Na saída do filme, Karina continuou com seu plano de tentar ignorar João e eu como se isso fizesse com que desaparecemos num passe de mágica. Ela ia conversando com Fabi logo a nossa frente, quando eu agi por instinto.
Um funcionário do shopping ficava encarregado de supervisionar a saída das salas de cinema e recolher os óculos 3D. Percebi que ele havia secado um grupo de meninas mais a frente e falado alguma coisa suja que fez a de rosa dar risadinhas. Quando Karina chegou perto dele, meu sangue ferveu ao vê-lo morder o lábio e “conferir” o corpo dela. Sem que ela percebesse, me aproximei o máximo que pude de seu corpo sem tocá-la. Isso foi suficiente para que o funcionário ficasse sem graça e engolisse qualquer besteira que pretendia falar.
– Te fiz um favor, cara – sussurrei para ele ao entregar meu óculos – ela te arrebentaria se escutasse uma sacanagem sua.
– Velhos hábitos nunca mudam, não é? Você sempre ciumento – comentou João ao meu lado.
– E ela sempre sem desconfiar.
– E então, meninos? Vamos de taxi? – perguntou Fabi, animada.
– Claro – respondi – é aqui pertinho.
Obviamente, Karina foi no banco de trás, emburrada e eu no da frente.
No restaurante, consegui convencer o garçom a anunciar sobre “a grande promoção do galã Renê” às meninas assim que ele nos trouxe o cardápio das pizzas que tinham no rodizio daquela noite. Na verdade, precisei suborna-lo com dez reais. Mas isso é só um detalhe.
Eu estava sentado de frente para Karina, que fazia de tudo para me ignorar.
– Bebidas? – perguntou uma garçonete.
– Uma coca-cola lata – pediu Fabi.
– Duas então – completou João.
– Eu quero um guaraná – fiz uma pausa e me concentrei nas expressões de Karina antes de dizer – e para ela suco de laranja com mamão.
Ponto para mim. Mesmo sem mudar sua posição ou expressão, as bochechas coradas de Karina não negavam que ela havia ouvido e mais, que ela havia gostado de saber que eu ainda me lembrava daquelas pequenas coisas.
Um flash me chamou a atenção. Vinha do celular de Fabi.
– Que isso? – perguntou João.
– SnapChat. Relaxa, vocês saíram bonitos.
O restante do jantar me fez suar para ganhar o mínimo de atenção de Karina. Ela estava focada em não me dar atenção, em não me responder e não deixar que eu relasse nela. Nem me olhar nos olhos. Nem isso ela fazia. Eu tentei de tudo: falava sobre assuntos que ela gostava, era gentil, dava um jeito de sempre servirem as pizzas que ela mais gostava.
Tudo em vão.
Desolado, eu pagava a conta no caixa enquanto Fabi terminava a sobremesa. De repente, vi Karina se levantar e ir em direção ao banheiro.
Mas agora era a minha deixa.
Naquele horário, poucas pessoas ainda estavam no local. Enquanto Karina estava no banheiro, observei ao redor. Logo ao lado do banheiro feminino, estava a porta do masculino à direita. À esquerda, uma porta dava acesso a uma escada que provavelmente daria a alguma despensa no andar de cima. Assim que a vi sair distraída do banheiro, não pensei duas vezes: tampei sua boca e a arrastei para as escadas.
O lugar era mal iluminado por uma lâmpada de luz muito fraca. Tranquei a porta e a prensei contra a parede. Karina se debateu e tentou morder minha mão.
– Vamos deixar bem claro que você pode saber lutar e ser brava, mas eu ainda sou maior e mais forte que você.
– Me larga, Pedro – rosnou Karina ainda se debatendo – eu não quero saber de você. O que você quer?
– Várias coisas, mas agora, é te beijar.
A última coisa que vi antes de colar nossos lábios foi Karina arregalar os olhos.
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