Não tão bem quanto pensei
2 Capítulo 2
Quando Ernest e Madeline se casaram, há 30 anos, Helen entrou em profunda depressão e obsessão pela desgraça da prima, chegou a ficar muitíssimo gorda e até mesmo ir para um sanatório. Então, de repente, quando tudo parecia perdido para Helen, uma mulher usando roupas esquisitas fora visitar Helen na “clinica” em que ela estava.
A mulher de cabelos pretos e brilhantes como petróleo, estava com uma saia longa com uma abertura ao lado deixando a mostra seu sapato de salto finíssimo, uma blusa com um decote quase obsceno e usava longos cordões dourados que caiam por sua barriga. Helen achara a visita muito estranha, nunca tinha visto aquela mulher antes e já não gostava dela, suas roupas a lembravam Madeline, — tão vulgar quanto.
A mulher havia pedido para falar com Helen a sós. E lá estavam elas sozinhas no quartinho sujo cheirando a remédio, com apenas duas camas de ferro, um armário embutido na parede e uma mesinha de madeira velha com duas cadeiras medíocres no canto do aposento. Helen não pôde deixar de reparar, através da abertura de vidro na parte superior da porta, que havia dois rapazes de cabelos caídos no ombro, sem camisa e com uma bermuda roxa esquisita fazendo uma espécie de guarda, parados no lado de fora da porta.
A mulher se sentara na cadeira e fez para que Helen se sentasse na outra. A estranha, então, se inclinou para frente – o que acentuou ainda mais seu decote -, cruzou os braços sobre a mesa e começou a falar, com a voz firme e sombria:
– Você não me conhece. – Helen mantinha o rosto sem expressão – Mas eu conheço você. Uma jovem e bonita escritora com um futuro promissor arruinado pela prima, tsc tsc tsc.
Helen parecia achar a conversa mais interessante agora que tinham falado em Madeline, a mulher olhou para os lados e sua voz se transformou num sussurro:
– Eu posso devolver sua vida. Devolver seu charme. Eu sei que você quer se vingar dela, ela merece. Com o que eu posso te dar, é só uma questão de tempo até você ter sua carreira de volta, ter Ernest de volta. – Os olhos de Helen se arregalaram – E sabe, eu não gosto de ver um rostinho tão bonito desses jogados por ai. Por isso eu vim até aqui. Eu quero te ajudar e te peço muito pouco por isso.
Ela se levantou, deu a volta na mesinha e cochichou alguma coisa no ouvido de Helen, que concordou. Pelo visto não importava o preço para poder se vingar de Madeline. A mulher voltou a se sentar:
– Uma poção.
A mulher fez um sinal e um dos rapazes parados a porta entrou no quarto carregando uma caixinha dourada, a colocou em cima da mesa e saiu, novamente parando na frente da porta. A estranha, então, abriu a caixinha e tirou de lá um vidrinho bem bonito e engraçado – a parte de cima era bem grande e ele ia afinando, de modo que, a parte de baixo era tão fina quanto a ponta de uma agulha – lá dentro um liquido roxo borbulhando. Ela empurrou a caixa para o lado, e colocou o vidro em cima da mesa. O surpreendente foi que ele se equilibrou.
– Isso devolverá a juventude. Tome isso e saia desse lugar horrendo, mas cuide de seu corpo. Como combinado, tudo que era seu agora é meu. Acredite, comparado aos outros preços, é quase uma pechincha.
Falando isso, a mulher inesperadamente saiu da sala e foi-se embora, os dois rapazes caminhando feito seguranças em suas costas.
Helen não pensou duas vezes. Iria poder vingar-se de Madeline. Tascou a mão no vidro e bebeu seu conteúdo sem ao menos se importar com o que poderia acontecer.
Passaram-se 3 minutos em que Helen pressionava as mãos em cima da mesa, os olhos fixos no vidro agora vazio, esperando... Começou a pensar que talvez não acontecesse nada. E então, tudo começou repentinamente. Sua cabeça começou a latejar e ela sentiu o liquido recém-ingerido em suas veias, queimando e agitando cada lugar em que passava. Sua pele começou a borbulhar e então parou. Tão de repente como havia começado.
Helen se sentia muito mais desperta agora. Era como se tivesse acordado de uma lavagem cerebral. Estava se sentindo a Helen de antigamente, inteligente e esperta. Então ela olhou para suas mãos. Estavam rejuvenescidas. Como se o tempo nunca tivesse passado. Suas unhas que há cinco minutos estavam ruídas até aonde se poderia roer, agora tinham no mínimo três centímetros de comprimento. Ela olhou para baixo, viu seu corpo, tinha emagrecido, no mínimo, 50 quilos após tomar a poção. Sua cintura estava bem marcada, como talvez nunca estivera antes. Sua calça acabara de cair. Pelo visto, as roupas que antes eram justas não se adequavam mais ao corpo de garota que Helen agora tinha. Reparou em suas pernas: definidas, sem celulite, sem estrias. Só podia ser um sonho. Então Helen correu até a porta, buscando seu reflexo no vidro superior. E viu. Seu rosto estava tão belo, tão jovem, quanto seu corpo. Seus olhos voltaram a transparecer sua inteligência e agora brilhavam verdes, como olhos de águias. Helen iria sair dali e se vingar de Madeline, como a estranha mulher havia lhe dito. Só uma coisa lhe incomodava: o que ela quis dizer com “cuide de seu corpo”?
***
14 anos se passaram e Helen finalmente conseguiu parte de sua vingança. Helen escreveu um livro e convidou sua prima Madeline para ir a festa de lançamento. Lá notou que a prima estava ficando cada vez mais velha e notou também que seu casamento estava em ruinas.
***
Madeline ficava a cada dia mais furiosa, pois também notava que estava ficando mais velha. Não ligava para seu casamento, ela tinha seus amantes. Sua única preocupação era a beleza que estava esvaindo de seu corpo. Mas então, certo dia, ela ganhou um cartão de visitas e junto com ele a promessa de que não se arrependeria de ir até a casa de uma mulher, a dona do cartão. E lá foi Madeline, num castelo digno de filmes e chegando lá, após pagar uma quantia extraordinária, ela tomou uma poção. A mesma que Helen tinha tomado, embora, nenhuma das duas soubesse que a outra havia feito o mesmo. Foi só o esperar alguns minutinhos e lá estava Madeline, com seu rosto jovem novamente, com seus cabelos louros mais brilhantes do que nunca, com seu corpinho definido...
***
Acontece que, depois de um tempo, de várias brigas e várias confusões envolvendo inclusive Ernest, elas descobriram que a poção não era tão eficiente assim. De fato, a poção devolvia toda a beleza, mas não a mantinha. As duas primas haviam se tornado mortas-vivas. Não respiravam, seus corações não batiam, mas estavam vivas. Os corpos delas ficavam cada vez mais pálidos, frequentemente descascavam e certa vez, em uma briga entre as duas, Helen havia ganhado um buraco na barriga – era possível ver através dele – e o pescoço de Madeline caia para frente e para trás como se fosse feito do plástico da mais baixa qualidade que poderia existir. Mas tudo estava bem, porque Ernest, que antes fora cirurgião plástico e agora trabalhava maquiando cadáveres, estava usando seus truques para consertar o corpo das garotas.
Só que, para horror das mulheres, Ernest decidiu ir embora. Elas tentaram impedir, mas não deu certo. Ele se foi e as duas primas que se odiavam agora estavam destinadas a cuidarem, retocarem e a guardarem o segredo uma da outra, para sempre.
E lá estavam elas. Moravam juntas na casa que antes Madeline vivia com Ernest (ele havia realmente sumido do mapa). Cuidavam uma da outra, embora lá no fundo, ainda se odiassem. Digamos que a coisa não ia muito bem porque, além dos sentimentos nada agradáveis de uma pela outra, as duas viviam se quebrando e com o passar do tempo, estavam cada vez mais desconjuntadas. Nenhuma das duas sabia — ou queria — fazer direito os retoques, estavam extremamente borradas. E era bastante tedioso. Nos primeiros anos, elas saiam, se divertiam, faziam compras... Mas agora os convites pararam de chegar. Helen não conseguia mais escrever alguma coisa que realmente fosse boa e ninguém queria alguém tão borrada como Madeline fazendo alguma mocinha na TV.
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