Não sou à prova de bala!
2 Capítulo 2 - Danger
Notas iniciais
[Carla P.O.V]
Deve ter passado aproximadamente uma hora desde que adormeci. Não que estivesse cansada, mas por alguma razão as viagens dão-me sono.
Não acordei da melhor forma, já agora...
—MY ANACONDA DON'T, MY ANACONDA DON'T!— a Catarina e a Jess cantavam em uníssono ao som da música que dava na rádio.
—Importam-se de cantar mais baixo? E outra música de preferência, dispenso acordar a ouvir Nicki Minaj.
—Vá lá Carla, descontrai um pouco. – a Jess aumentou o volume da rádio enquanto dançava que nem uma louca. Abanava os ombros e a cabeça descontroladamente, pondo os cabelos todos à frente do rosto como a gaja* do exorcista. Acho que ela se deve ter esquecido que estava ao volante.
—Eu estava descontraída antes de me acordarem. – suspirei, desencostando a cabeça do banco. – Ainda falta muito para chegarmos ou nem por isso? Preciso de tomar um café.
—Epah, vais ter de esperar mais uma beca*, ainda só vamos a meio caminho.
Dei um suspiro profundo. Nem foi bem um suspiro, foi mais um barulho de saturação. Olhei pela janela e pude ver que passámos uma placa a dizer Coimbra. Os meus olhos dançavam de um lado para o outro enquanto via as árvores infinitas passar, estava a começar a ficar maldisposta.
Apesar de adorar viajar, viagens longas não são o meu forte. Ou passo a viagem toda a dormir, ou acabo por ficar enjoada.
—Bora* jogar algum jogo. – a Catarina sugeriu.
Já que estava aborrecida, acabei por concordar.
—Que jogo? – a Jess também alinhou.
—Quem vir um carro amarelo primeiro dá um soco em alguém. – ah, o velho jogo do fusca amarelo.
—Eu estou cá à frente chavala*. Joguem vocês.
Passámos uma meia hora a jogar, eu encontrei cinco carros amarelos, a Catarina só um. Já tinha dito que adoro este jogo?
Entretanto, algo interrompeu a diversão. Ouvimos um barulho de algo a esvaziar e eu só rezava para não ter sido um pneu.
—Jess, o que foi isso? – a Catarina perguntou assustada.
—Sei lá, isso quero eu saber. – ela saiu, batendo a porta com força.
Ainda nem cinco minutos tinham passado e já podíamos ouvir a Jess aos berros lá de fora. Como não podia ser coisa boa, decidi sair para ver o que se passava. Ela estava de joelhos no chão, com a cabeça baixa a averiguar os pneus.
—MERDA, MERDA, MERDA! – ela batia com a mão esquerda no chão.
—Pela tua reação, deduzo que o pneu furou, certo? – fiz uma pergunta um pouco impertinente para aquele momento.
—Porque é que não pegas no teu sarcasmo e o usas para me ajudar a trocar o pneu?
—O que se passa aqui? – a Catarina saiu do carro e dirigiu-se junto a nós. Ao perceber o clima da situação, foi buscar o pneu suplente por conta própria.
Enquanto a Jess e a Catarina se esforçavam a trocar o pneu, eu fui buscar um pacote de batatas fritas de marca branca das compras de ontem. Sentei-me no chão a come-las enquanto as observava. Percebi que isso as deixou irritadas, mas não é que eu não queira ajudar, simplesmente não sou boa a fazer esse tipo de coisa e não quero parecer inexperiente.
—Finalmente. – a Jess suspira com uma mistura de cansaço e alívio. – Vá tropitas*, toca a entrar que não há tempo a perder.
Nota Pessoal: Ninguém reclamou comigo por não ter feito nada. Será do hábito ou porque estão a planear uma vingança quando menos esperar?
Entretanto entrámos no carro e o aborrecimento voltou. Por momentos passou-me pela cabeça que preferia que outro pneu fura-se, pelo menos alguma coisa de interessante acontecia.
[Catarina P.O.V]
Como não gostava de nada do que estava a dar na rádio, pus os phones e comecei a ouvir as músicas do meu telemóvel* (nem sei se devo de dizer "meu", visto que é roubado, mas enfim), e o aleatório acertou mesmo na música que me apetecia ouvir, Danger. É uma das minhas músicas preferidas, mais pelo ritmo para ser sincera. A letra também é boa obviamente, mas quando estou na seca gosto de ouvir musicas mexidas, e esta era a ideal.
"Yo in danger
yo in danger
Yo in danger
yo in danger"
Apercebi-me que a música estava muito alta, então baixei um pouco, pois tinha medo que a Carla pudesse ouvir através dos meus phones. Sei que não é correto esconder algo assim da minha melhor amiga, até porque eu tenho a certeza que ela não deixaria a nossa amizade simplesmente por ouvir um estilo de música de que ela não gostasse, mas se ela soubesse que gosto de BTS, nunca teríamos ido ao concerto deles roubar. Ela provavelmente ia achar que eu só lá queria ir para os ver de graça, e não pelo dinheiro. O que não é completamente mentira... Mas dá para perceber, certo? Nunca teria visto o V tão perto de mim senão tivesse de o empurrar para fugir. Nunca teria visto o V se nunca tivesse estado naquele concerto. E nunca teria estado naquele concerto senão tivesse mentido.
Encostei a cabeça à janela do carro, enquanto batia a mão na perna a sentir o ritmo da música. Passaram músicas e mais músicas atrás umas das outras, e quando dei por mim estávamos a passar uma placa que dizia "Porto a 10 km".
—Já estamos quase a chegar! – gritei entusiasmada. Não me dei conta de ter projetado a voz tão alto pois estava com os phones nos ouvidos.
—Hm? – a Carla acordou em sobressalto, olhando pela janela.
—Yup, vamos agora passar as portagens. – a Jess olhava-nos pelo retrovisor.
Depois de uma longa viagem de três horas, finalmente chegámos à cidade do Porto e eu nunca tive tanta fome na vida. Quando a Jess nos ligou o alvoroço foi tão grande que nem almoçámos, e durante a viajem também só comemos um snack ou dois para não gastarmos a comida toda.
—Podemos ir comer a algum lado? Estou a morrer de fome. – sugeri.
—Finalmente alguém diz alguma coisa de jeito! Bora* comer ao KFC ou assim. – os olhos da Carla brilhavam. – Eix, caía mesmo bem um fast-foodzinho agora.
—Por acaso caía mesmo. Podemos ir ao Norteshopping comer qualquer coisa, bora*? – a Jess também parecia entusiasmada com a situação.
Como todas concordámos, assim foi. A Jess estacionou a caravana num lugar na rua e entrámos no shopping. Eu e a Carla fomos ao KFC, enquanto a Jess preferiu comer uma pizza.
—Porque é que não largas a caravana e ficas só com o carro? Ter aquilo atrás só traz problemas, nem sequer podes estacionar onde queres. – perguntei, dando uma dentada no meu hambúrguer de frango.
—Porque vou ter de arranjar um apartamento, e enquanto isso posso dormir na caravana.
—Atão* mas tu não tinhas um apartamento no Porto? – a Carla falava de boca cheia.
—Yah*, mas há pessoal que me conhece daqui e ainda me fodem os cornos. Preciso de mudar de bairro.
—Mas então pra isso ficas na caravana, – dei um golo na minha Fanta de laranja. – assim não tens de te preocupar com renda.
—Burra de merda, as caravanas também têm renda – a Carla deu-me uma palmada atrás da cabeça. – E para lá de lhe fazer perguntas, ela tem a vida dela e faz o que quer com ela. – ela bebeu um pouco da minha bebida, e continuou a falar num tom mais baixo – Desde que não me venha pedir dinheiro depois...
—Oh chavala*, – a Jess ria-se enquanto falava. – a vida não é assim tão fácil, nem sempre a caravana me dá jeito. Às vezes empresto-a a amigos meus, ou alugo-a em troca de dinheiro. Para além disso ela tem um toque muito meu, é reconhecível na rua e posso ser apanhada. – quando terminou de falar, comeu uma fatia de pizza inteira de uma vez só.
—Pera, pera, pera! – a Carla interrompeu escandalizada. – Emprestas a caravana?! Quer dizer que vou dormir numa cama onde algum gajo gordo, peludo e suado já dormiu?
—Oh Carla por amor de Deus, pensei que tivesses uma mente mais aberta. – a Jess ria-se imenso. – Para além disso, as pessoas podem se depilar, não sabes.
Entretanto terminámos de comer, a Carla pediu um café e eu não prestei mais atenção na conversa. Elas riam-se e falavam de coisas das quais eu não entendia. Às vezes tenho inveja da Jess, já viveu imensas coisas com a Carla antes de mim, e acredito que deve ter sido super divertido.
De repente elas levantam-se e percebo que está na hora de ir embora. Quando entrámos no carro pudemos ver que já tinha escurecido bastante desde que chegámos ao Porto.
A Jess encontrou finalmente o parque de campismo onde íamos ficar e estacionou. Desde que surgiu a conversa do empréstimo da caravana que a Carla não se cala com "eu não vou dormir ali", "vou masé* dormir no carro, na caravana não entro", etc... Eu pessoalmente não me importo muito com isso, mas a Carla tem sempre de ter qualquer coisa da qual não está satisfeita.
Ficámos um pouco tempo sentadas no carro, com as portas abertas.
—Já viram isto? O céu está bué* estrelado, nem parece que estamos na cidade. – a Jess disse enquanto saía do carro e fitava o céu.
—Eu quero lá saber das estrelas. – e pronto, tinha de vir a Madame Insatisfeita.
—Para uma pessoa que gosta de escrever, é estranho. – eu saí também, sentando-me numa parte do chão que tinha relvado.
—O que é que uma coisa tem a ver com a outra? – pude ouvir ouvir a voz da Carla vinda de dentro do carro.
—As estrelas são bastante poéticas, não é à toa que a maior parte dos poetas escrevem sobre elas. Poetas e não só... – concluí.
—Que coisa gay Catarina.
—Estás cá com um feitio hoje Carla, a tua sorte é que curto de ti. – a Jess piscou-lhe o olho, para dar um clima de "boa onda" – Vá, sai lá do carro e vem aqui pro pé da gente.
A Carla lá alinhou e ficámos as três sentadas no relvado.
Podia sentir a brisa do mar a passar ao de leve por cima da minha pele. A Jess não podia ter escolhido sítio melhor para ficarmos, adoro tudo isto.
A Jess é uma pessoa interessante. Às vezes acho-a um pouco estranha, ou até mesmo doida, mas sei que ela é totalmente como nós. Como nós do tipo, querer ser livre e essas cenas*. Fazer o que quer, andar por aí a viver a vida ao máximo. Isso é tão fixe*, eu admiro pessoas assim. E foi por ter tanta admiração que me tentei tornar assim também. Às vezes tenho medo, mas é um medo bom, afinal, sem ele eu não aprendia, certo? Quando penso nestas coisas quase que dá para escrever uma das letras da Carla, mas acho que não tenho talento para isso. Ainda assim, caminho ao lado dela e aprendo coisas espetaculares todos os dias. Sinto que sou cada vez uma pessoa melhor e mais corajosa, e isso não podia realizar-me mais.
Deitei-me virada para cima, de forma a que pudesse ver melhor o céu. Fechei os olhos e relaxei. Quando estava quase a adormecer, uma voz impediu que isso acontecesse.
—Jess?
—Então meus tropas! – ela respondeu de uma forma estridente. – Há buéda* tempo que não vos via pah!
Levantei-me para ver quem era o dono daquela voz. Era um grupo de o que penso ser um casal e uma rapariga que aparenta ser um pouco mais nova. Ou então é apenas baixinha para a idade. Enfim, completos desconhecidos para mim, e, pelo que vejo pela cara da Carla, para ela também.
—Quem são estes? – ela perguntou.
A excitação naquele reencontro era tanta que ninguém respondeu à pergunta que eu também queria fazer. Eles abraçavam-se, riam e diziam coisas como "não mudaste nada!" e "então, que tens feito?" respondido por "o mesmo de sempre". Quase como aquelas conversas habituais do Facebook de "olá, tudo bem?", "sim, e contigo?".
—Ah, desculpem. – a Jess finalmente caiu em si. – Catarina, Carla, estes são o Filipe, Jo-Jo e Minnie.
Será que toda a gente da "má vida" tem alcunhas? Começo a achar o meu nome aborrecido, talvez devesse mudar para Cat ou Catty.
Eu ia cumprimentá-los com dois beijinhos na face, mas ao ver a Carla a dar toques de punho e de ombros, percebi que os meus hábitos ainda têm que mudar bastante.
—Okay, mas quem são estes mesmo? – a Carla cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha enquanto fitava a Jess.
—Desculpem, culpa nossa por aparecermos aqui assim. Não queríamos ser impertinentes – o Filipe olhou para o resto do grupo, e de seguida continuou – Nós fizemos uma fogueira ao pé da nossa auto caravana do outro lado do parque. Se quiserem vir connosco podíamos ficar lá numa boa a conversar e conhecíamo-nos melhor. – quando ele abriu a boca até o meu queixo caiu. Nunca pensei que aquele rapaz com ar do Gueto tivesse uma linguagem tão branda. Não que eu seja preconceituosa ou algo assim, mas quando vemos alguém com calças ao fundo do rabo, tatuagens, piercings e rastas no cabelo, não dá para pensar noutra coisa.
Caminhámos lentamente até ao local onde o grupo nos guiava, e enquanto isso eu só sentia cheiro a esturro. Um grupo de supostos amigos da Jess aparecem do nada e já nos convidam para fazer uma fogueirinha com eles? Algo aqui não me cheira nada bem. Até a forma cordial como falavam me pareceu falsa. Mas não quero julgar as pessoas à primeira vista, então pensei em apenas agir normalmente com eles e tentar ser simpática.
—Sentem-se, eu vou buscar os marshmallows à caravana. – o Filipe retirou-se e todos nós nos sentámos à volta da fogueira. Passado uns minutos ele chega com dois pacotes de marshmallows de marca americana.
Espetei dois num pau e fiquei a queima-los enquanto os ouvia conversar.
—Então, como se conheceram? – decidi perguntar.
—Oh, isso é uma longa história. – a Jess riu-se e os amigos dela riram de seguida. – Não foi de uma forma lá muito bonita, tráficos e merdas.
—Yah*, mas tem o seu lado engraçado. – a Jo-Jo respondeu.
—A forma como conheci a Carla é que foi bué engraçada, conta-lhes Carla. – a Jess apontou para ela com o pau dos marshmallows.
A Carla parecia não querer muito participar. Ficou em silêncio durante uns momentos, olhou-nos a todos e inspirou o ar pelo nariz.
—Basicamente eu e a Jess andávamos no mesmo colégio interno e ela ajudou-me a fugir. – disse, enquanto soprava o seu marshmallow para o conseguir comer.
—Oh anda lá Carla, conta lá isso melhor – a Jess tirou um marshmallow de dentro do pacote e atirou-lhe em cheio na testa.
—Bem... – a Carla deixou escapar um pouco da raiva pelo tom da sua voz. – Vocês já devem saber como a Jess foi parar ao colégio...
—Óbvio, essa gaja só fazia merda na escola. – a Jo-Jo interrompeu-a.
—Os stores* é que eram uns gandas* exagerados.
—Sim, porque ires para os altifalantes da escola fazer uma revolução é um exagero. – a Minnie disse num tom sarcástico. Foi a primeira vez que essa miúda falou e eu já a achei a cara chapada da Carla.
—Eu só fiz o que muitos queriam ter feito, mas que não tinham coragem de o fazer.
As palavras da Jess atingiram-me em cheio. Consegui identificar-me nas pessoas que "não tinham coragem de o fazer", e isso meio que me fez sentir inferior.
—Pessoas tipo eu... – As palavras saíram-me da boca como se tivesse a libertar um peso no peito. Baixei ligeiramente a cabeça, enquanto agarrava a parte de trás do meu pescoço.
—Na boa miúda, agora és das nossas – a Jess sorriu e bagunçou ligeiramente os meus cabelos. O gesto reconfortou-me, mas não o suficiente para aumentar a minha auto-estima.
—Vá, deixem lá a Carla explicar que agora estou interessado. – o Filipe olhou a Carla, que lhe respondeu com um olhar não tão amigável.
—Pronto, já eu fui lá parar por outros motivos mas... – ela fez uma pausa, apoiando os ombros nos joelhos e abanando ligeiramente a cabeça para os lados. – Enfim, eu não curtia nada daquilo. Odiava as pessoas de lá, os professores... O próprio sistema era uma merda e eu sentia-me revoltada.
—E eu notei logo isso naquela miúda. – a Jess apoiou o braço no ombro do Filipe e falava diretamente para ele, ainda a apontar para a Carla com o pau dos marshmallows. – Sabia que era ela uma rebelde, via-se logo. – cruzou a perna.
—Okay Jess, és uma pro a ler pessoas, já sabemos. – o Filipe riu.
—Não sabias senão tivesses lido o meu caderno.
—Antes de ler o teu caderno eu já me tinha apercebido de muitas atitudes tuas Carla, o caderno digamos que... me deu um empurrãozinho.
—Já me perdi... Caderno? – a Jo-Jo perguntou o que o resto do grupo devia de se estar a perguntar.
—A Carla tem um caderno onde escreve letras, Raps e poemas. – expliquei. – Ela é muito talentosa.
A Carla corou ligeiramente, arregalou os olhos e olhou para mim como se eu tivesse dado demasiada informação. Não me importei, só disse a verdade.
—Yah*, só que tipo eu não sabia né. Eu entrei no dormitório dela para tentar saber sobre ela, esperava encontrar um diário ou assim, mas o caderno também serviu. Pra ser sincera, eu não entendi nada do que ela pra ali escreveu, demasiadas filosofias pra minha cabeça. – todos se riram, a forma como a Jess fala é engraçada. – Mas prontos, vi uma música onde ela falava sobre como os alunos se deviam de revoltar com o colégio, e assim percebi logo que esta gaja* tava a tentar fugir e não sabia era como.
Já sei qual é a música a que a Jess se refere, eu já a li várias vezes. A forma como a Carla conseguiu transmitir o que sentia na letra foi tão boa que eu conseguia por-me na pele dela, mesmo nunca tendo passado por problemas desses. Na minha opinião, é uma das melhores letras que ela já escreveu.
—Só que depois fodi-me. Tava lá eu muito bem a ler, quando ela me entra dormitório adentro. – a Jess continuou, e todos, incluindo a Carla, se riram.
—Eu ía-te dar cabo dos cornos. – a Carla disse, lançando um pequeno sorriso.
—E eu sabia disso, mas também sabia como fazer-te sair dali como tanto querias, por isso só fiquei a ganhar.
—Então... Vocês conseguiram fugir? – a Minnie parecia curiosa.
A Jess levantou-se, sentou-se bruscamente ao lado da Carla, colocou os braços à volta dela e abraçou-a pela cintura.
—Óbvio, senão a minha Carlinha não estaria aqui hoje!
—Nem tu, idiota. – a Carla recusou o abraço, empurrando a Jess.
Todos se riam do contraste de personalidades. A Jess alegre e extrovertida, e a Carla com aquele ar constante de "larga-me antes que te mate".
Foi uma noite alegre e divertida, falou-se de várias coisas, inclusive contámos histórias de terror. O que por acaso eu detesto, mas jogámos o jogo do Chubby Bunny mais tarde, e como ganhei, acabei por ficar bem humorada novamente.
Ninguém ganha a estas bochechas de coelho.
Entretanto cada grupo foi para a sua respetiva caravana. A Carla tinha tanto sono que acabou por se esquecer da historia dos gordos suados e caiu na cama que nem uma pedra. Já eu fiquei um pouco acordada a ouvir música enquanto o resto do pessoal dormia.
Já estava quase a adormecer ao som da música quando ouvi alguém do lado de fora da caravana. Lembrei-me das histórias de terror que contaram à volta da fogueira e senti um arrepio na espinha. Tentei acalmar-me, mentalizando-me que esse tipo de coisas não existe, e fechei os olhos.
Espera lá... E se o meu pressentimento estava certo? Secalhar é o grupo amigo da Jess que está lá fora e vêm fazer-nos mal. Eu sabia, tinha a certeza que eles não eram de confiança. E agora o que é que eu faço?
Antes que pudesse pensar em mais alguma coisa, a porta da caravana abriu e pude ver a Jo-Jo e a Minnie a entrar.
Oh não, elas vão ver que eu estou acordada e vão-me fazer mal a mim primeiro.
A Minnie apercebeu-se de que eu estava acordada e dirigiu-se a mim, pondo o dedo indicador à frente dos lábios.
É agora, ela vai raptar-me.
—O que estás a fazer acordada miúda? Estragaste a nossa surpresa. – a Minnie sussurrou enquanto se agaixava ao lado da minha cama.
Surpresa?
—O que se passa aqui? – pude ouvir uma voz roca ensonada. A Carla acordou.
—Estávamos a pensar ir para o mar tomar um banho gelado, as ondas tão brutais.
—O quê? Vocês estão doidas da cabeça? Vão masé* dormir. – a Carla deitou-se para o outro lado da cama.
Pelos vistos elas não vinham com más intenções como eu estava a pensar. Agora sinto-me culpada.
—Bora*. – decidi alinhar, talvez a água do mar limpe os meus remorsos.
—Vão vocês sozinhas. – a voz da Carla saía como um murmuro por debaixo dos lençóis.
—Ir onde? – desta vez foi a Jess que acordou.
—Estamos a pensar descer até à praia e tomar um banho gelado. – explicou a Minnie.
A Jess sorriu e abanou a cabeça para os lados, passando a mão pela cara ensonada e depois pela franja.
—Vocês batem mal. Mas... – ela levantou-se da cama enquanto falava — como eu também não bato lá muito bem vou alinhar.
—Então vamos todas! – a Jo-Jo deu um pulinho e um soco no ar.
—Falta a Carla. – disse eu.
Todas se olharam maliciosamente. Na altura não entendi, mas quando as vi a tentarem pegar a Carla ao colo percebi logo.
—Hey... Hey, hey, hey, HEY! – a Carla gritava e esperneava-se no colo da Jess e da Jo-Jo. – LARGUEM-ME JÁ!
Fomos o caminho todo a correr, a Carla a gritar e nós a rir. Quando chegámos à praia descalcei-me e atirei-me para a areia. Enquanto estava deitada, senti uns pés a aproximarem-se do meu corpo.
—Elas são doidas. – era a voz do Filipe. Ele deve de ter ouvido os gritos e acabou por vir aqui ver o que se passava. Ou então já sabia disto tudo e só estava à espera de aparecer para dar o ar da sua graça, não sei.
Lá ao fundo podíamos ver o corpo da Carla a ser atirado ao ar, e consequentemente a cair em chapa na água. Quando a cabeça dela veio ao de cima, a Jess e a Jo-Jo limitaram-se a correr em direção à areia.
—ELA VAI-NOS MATAR!! – elas gritavam enquanto se aproximavam de mim e do Filipe.
—VOU MESMO!! AI VOCÊS VÃO LEVAR TANTAS NESSA BOCA! – a Carla corria atrás delas, mas elas eram mais rápidas.
Chegou uma altura em que todas já estavam demasiado exaustas para correr e atiraram-se para a areia.
—Eu... ainda... vos vou... partir a cara. – a voz da carla saía entre suspiros ofegantes.
—Na boa... foi... divertido. – a Jess ria, igualmente ofegante.
Quando demos por nós, já estávamos todos deitados na areia a relaxar. Os meus olhos começaram a fechar lentamente. Eu ainda não tinha dormido nada e daqui a pouco tempo o sol ia começar a aparecer. Na passagem do mundo real para o mundo dos sonhos, ainda consegui ouvir o grupo a conversar.
Mas a brisa das ondas acabou por me envolver e eu adormeci.
[Carla P.O.V]
Era de manhã, ou meio-dia, não sei. Acordei com a pele seca da água salgada ter evaporado, e o sol já estava forte demais para a minha pele.
Levantei-me e pude ver que só estava a Catarina deitada na areia. Bem, já é hora de comer, então o grupo deve ter ido preparar alguma coisa. Comecei a imaginar um grelhador de jardim a grelhar umas salsichas do campo, e até a saliva me veio à boca.
Subi as escadas que ligavam a praia ao parque de campismo, e dirigi-me à auto caravana do grupo.
—Foge, foge, foge. – a Jo-Jo tentava apressar o Filipe a entrar na auto caravana.
Fugir? Fugir de quê?
—O que se passa aqui?! – gritei, com uma mistura de confusão e preocupação.
Eles não me responderam, limitaram-se a olhar uns para os outros com uma expressão no rosto que só me deixou ainda mais nervosa.
—Miúda, não é nada pessoal... precisávamos de guito*. – dito isto, o Filipe fecha a porta da sua auto caravana e arranca. A areia levantada pelas rodas batia no meu corpo imóvel e estupefacto.
Quando voltei a estar em mim, lembrei-me da Jess.
Fui a correr em direção à caravana dela. Quando lá cheguei, pude ver um corpo ensanguentado no chão e sangue salpicado por todo o lado.
Jess... quem te fez isto?
—Carla... – a Jess gemia, enquanto tentava abrir os olhos com a pouca força que tinha. O seu olhar gritava desilusão e medo. Percebi que ela olhava para algo atrás de mim, mas antes de poder reagir, já estava no chão a ser brutalmente espancada.
Isso dói... pára.
Sentia pontapés repetidos no meu estômago.
Não vou resistir... por favor.
Um pontapé atingiu-me no crânio.
Fechei os olhos e deixei a minha mente apagar.
Fale com o autor