-Como está se sentindo, pai? -Pousei a mão em seu ombro. -Se sente melhor?

Papai apenas balançou a cabeça em sinal de aprovação. Não insisti para que falasse. A dor da perda ainda o corroía.

-Eu e Daniel vamos buscar sua coisas, pai. Não vamos demorar, eu prometo. -Beijei o alto de sua testa. Ele continuava sem se mexer, seus olhos se mantinham fixos na janela, como se a algum instante Helena fosse aparecer, vestindo seus vestidos longos e os cabelos brancos preços em coque. Talvez sentaríamos na sala de estar como se aqueles carros jamais houvessem colidido, como se sua morte tivesse sido apenas uma brincadeira, um mal entendido. Mas Helena não apareceria, minha mãe estava morta. Levaria tempo até meu pai aceitasse sua morte. Não espero que ele supere sua perda, apenas desejo que aprenda a conviver com sua ausência.

Na sala Daniel e Thomas se esticavam no tapete. Fiz sinal para Daniel. Ele beijou Thomas e disse que voltaria depressa. Passou as mãos pelos cabelos negros e andou em minha direção.

-Já está pronta? -Fiz que sim com a cabeça. Ele me abraçou, como se estivesse adivinhado o quando precisa daquele gesto de carinho. -Vai ficar tudo bem Eliza. -Me beijou rente aos lábios. -Eu prometo.

-Eu sei que sim. -Coloquei os óculos escuros, para esconder os olhos inchados. Segurei sua mão, feito uma criança com medo e me deixei conduzir até a porta.

-Está com as chaves? -As estreguei em sua mão. Daniel trancou a porta e enfio as chaves no bolso. Mal tinha consciência do meu percurso até o carro. Minha relação com minha mãe nunca foi boa, jamais havia ligado para isso, principalmente depois do meu casamento, onde ela não compareceu, mas agora, nossa má relação caia sobre mim como um sentimento de culpa.

A estrada estava nublada. A antiga casa, onde passei minha infância ficava há uma hora da casa onde hoje moro com minha família. Daniel respeitou meu silêncio, não tocou em assunto nenhum até chegarmos.

A casa continuava a mesma, como se o tempo não houvesse passado, apenas algumas rachaduras na parede e a tinta que descascava davam sinal de que já estava ali a muito tempo. Abri a porta do carro e respirei fundo. Minhas perna ficaram tremulas e o ar tornou-se quase sólido, respirar ficava cada vez mais difícil. Deixei meu mal estar transparecer, Daniel veio até mim e me segurou pelos ombros.

-Se não quiser entrar não tem problema. Eu busco as coisas dele.

-Estou bem. -Fiz sinal para que me soltasse. Olhei em seus olhos e lhe dei um sorriso confiante. -Não vou demorar nem 20 minutos. -Ele sorriu de volta, passou as mãos em meus cabelos e entregou as chaves da casa.

-Vou ficar esperando aqui querida. -Disse e se encostou no carro, com os braços cruzados.

Caminhei até as portas da casa. A brisa fria se chocava contra meu rosto, fazendo com que meus cabelos fizesses cocegas em minha face.

Todos as janelas estavam fechadas, o assoalho de madeira da varanda possuía uma grossa camada de pó, a densa neblina fazia com que o local parece abandonado, quase apocalíptico. Estar ali fazia com que me sentisse novamente uma garotinha.

A porta se abriu em um tímido "clic" e vi toda minha infância passar diante dos meus olhos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.