Não pare a Música

26 Capítulo 26 - Amarga vitória


Notas iniciais
Cheguei! Mano, to participando do NaNoWriMo, e vocês? Espero concluir a fic nesse desafio, será que consigo??

Neji não pensou muito para onde ia, só sabia que não queria ficar na companhia naquele momento. Inconscientemente, tinha ido até a academia onde Ten-Ten ministrava artes marciais, e ela não ficou surpresa ao vê-lo ali. Tinha falado que os resultados sairiam naquele dia, então, fosse para comemorar ou para lamentar, ela sabia que ele acabaria indo até ali.

Faltavam alguns minutos para que sua aula terminasse, e Neji se sentou junto aos demais espectadores, os olhos fechados e os fones no ouvido. Um mau sinal…

Neji respirou fundo, mas duvidava que algo naquele dia fosse capaz de amenizar sua raiva. Os resultados fugiram do esperado, em muitos aspectos, não havia sido somente ele a encarar os nomes em dúvida tentando achar alguma lógica que ele sabia que não existia, a lógica era Tsunade, e só isso.

Sasuke havia conseguido o papel principal em Giselle, o papel principal de Les Sylphides havia ido para um profissional de sua turma, e a ele cabia um papel secundário e a posição e substituto de Sasuke. Só havia um detalhe: ele não tinha se inscrito para disputar Giselle e, mesmo que tivesse, era certo que não seria ele o substituto ali. Não! Não era arrogância, não era prepotência, não era inveja, era simplesmente a segurança na sua técnica e o conhecimento de seus pontos fortes que se destacavam sobre os de Sasuke que ainda nem graduado era!!

Aquilo não estava certo, mas percebeu que não devia esperar qualquer decisão justa quando checou, só para confirmar a suspeita, o resultado os papéis principais femininos. Os papéis principais, os dois, haviam ficado entre os profissionais, Ino estava como substituta em Les Sylphides e Sakura em Giselle, e ele riu irônico ao ler aquilo. Não fez questão de esconder seu descontentamento, muito menos sua ironia ao parabenizar Sakura.

Que não era culpa dela ou de Sasuke, ele sabia, racionalmente sabia, mas naquela hora, o gênio difícil, o orgulho ferido e o sentimento de injustiça apenas deixaram o sorriso sarcástico responder ao que Sasuke dizia, e ele saiu dali antes que perdesse a cabeça. Estava com raiva, não, não só raiva, era ódio, era uma amargura tão grande que tudo o que ele queria era subir para o segundo andar da academia e socar o saco de areia até não ter mais fôlego.

Sakura não havia se inscrito para nenhum papel principal, mas Tsunade havia dado um jeito de colocá-la, pelo menos como substituta, e ele não ficaria surpreso se, no dia da apresentação, a bailarina principal tivesse um “contra tempo”. Quanto a Ino, Tsunade havia arranjado uma saída política. Ao colocá-la como substituta da bailarina principal, era como se a reconhecesse, e, ao escolher uma profissional para o papel era como se não desse aberturas para dúvidas de sua escolha, afinal, Ino era apenas uma aluna, nada mais justo que uma profissional ficar com o papel. Além do mais, era como se Ino devesse ser “grata” pela oportunidade.

Tsunade havia jogado bem...só uma coisa não fazia sentido: ela nunca daria o papel para Sasuke. Era impossível que os outros profissionais não tivessem ido razoavelmente bem para que ela os escolhesse. Não fazia o menor sentido que ele estivesse como substituto de Sasuke quando sua técnica era melhor e quando Sasuke estava longe de ser um dos protegidos de Tsunade. Era uma piada de mal gosto… Havia conseguido ser substituto de alguém não formado e para um papel que não lhe interessava, tinha deixado claro que seu interesse era Les Sylphides. Aquilo não estava certo e não cheirava nada bem…

Sentiu uma mão em seu rosto e reconheceu o toque. Permitiu-se permanecer com os olhos fechados e suspirou quando Ten-Ten o abraçou de pé, deixando que sua cabeça repousasse contra a barriga dela. Ela soltou seu cabelo para que os dedos entrassem mais facilmente entre as mechas, e seus braços a envolveram, como a um bote salva vidas no meio do oceano. Os fones foram retirados com calma de seus ouvidos, e ele não se surpreendeu pelo silêncio do local.

— Deu errado? — Ten-Ten perguntou, e Neji sorriu irônico ao se afastar para se pôr de pé.

Estava saindo com Ten-Ten desde o começo do ano, há alguns meses, e ela o conhecia o suficiente para suspirar após analisá-lo, os olhos castanhos preocupados e doces, e então dar a volta para colocar ambas as mãos em seus ombros e começar a empurrá-lo em direção às escadas para o segundo andar. Sentou-se em um dos bancos como ela pedia e a observou voltar logo com algumas faixas.

— Mãos, por favor — ela pediu enquanto reamarrava o cabelo castanho em um rabo de cavalo alto. — Vamos socar aquele bendito saco, comer porcaria e depois você me conta o que aconteceu. Feito?

Neji assentiu em silêncio, abriu e fechou as mãos quando Ten-Ten terminou de passar a faixa por elas e se livrou da camisa ao ficar de frente para o saco de areia. Ten-Ten o segurou, e Neji respirou fundo, cerrando os punhos e concentrando toda a raiva pelas audições neles. E, quando o comando para que começasse veio, ele não se segurou, deixou que a frustração fluísse como um rio que rompe a barragem levando consigo tudo que está à frente.

* * *

A aula havia sido horrível. Naruto percebeu que ninguém ousava abrir a boca, e as provocações de Orochimaru ecoaram pela sala sem resposta, nem mesmo de Sasuke. Tinha ido conferir os nomes após a frase de Sasuke e, pelo que havia conversado com Sakura, entendia que aquele resultado não era o verdadeiro. Aliás, ele havia presenciado as audições para o papel principal feminino, e Sakura estar entre as escolhidas não fazia sentido algum, ele mesmo havia tocado para bailarinas que haviam tido um desempenho melhor e não se lembrava de Sakura ter disputado aquele papel.

A companhia, é claro, tinha o poder de atribuir o papel adequado para cada bailarino, a despeito do papel a que ele se inscrevesse. Era o modo de garantir a qualidade do espetáculo, o nome da companhia. Haveria uma semana de folga antes que os ensaios começassem. As aulas teriam seu tempo reduzido, agora era a hora em que toda a companhia se focaria somente nos dois espetáculos que apresentariam ao final do ano. Figurino, cenário, ensaios individuais, ensaios gerais, era o começo de um preparação corrida e intensa. Mas Sakura estar entre os destaques era gritar que os resultados tinham sido fraudados. E era só sobre isso que a companhia toda comentava.

Os sussurros acompanharam Naruto do vestiário à sala para a aula seguinte, mas ele vira a forma como os alunos e até mesmo alguns professores encaravam Sakura e Sasuke, como se a culpa fosse deles. Sentiu um frio na espinha, um pressentimento horrível que o fez aproveitar-se do breve intervalo para subir as escadas correndo e voltar ao vestiário masculino.

A aula de Sasuke havia terminado há um tempo, não havia muita surpresa em não encontrá-lo ali mais. Entretanto, o pressentimento ainda estava ali…

A avaliação masculina não havia sido assim tão injusta, Naruto havia assistido aos bailarinos selecionados, a diferença entre eles era tão pouca que não saberia como escolher os papéis. Contudo, com a fraude a favor de Sakura, nada mais óbvio que a insatisfação se virasse para Sasuke também, ainda mais quando todos sabiam o quanto Orochimaru parecia adorá-lo e odiá-lo ao mesmo tempo.

Discou o número de Sasuke enquanto descia as escadas. Não havia conseguido conversar com ele direito, mas esperava que Sasuke já tivesse ido embora. Ficar ali, sozinho, no meio de alunos que certamente o estavam odiando naquele momento não era uma decisão muito inteligente. Aquele lugar era competitivo demais, e onde a competição é muito alta, onde o sacrifício de cada um para alcançar seu sonho é muito alto, as reações a uma provável injustiça também costumava ser… Na sede, quando trabalhava com Tsunade, lembrava-se do terror que o abateu quando socorreu uma adolescente quando os resultados tinham ido anunciados. Tsunade havia chamado aquilo de “coisa de criança”, uma “briga boba entre garotas”, mas havia sido assustador ver os arranhões pelo rosto da garota e a frieza com que as demais bailarinas sorriram antes de deixar a sala da direção. E, se com adolescentes era assim… não queria mesmo nem imaginar o que adultos fariam.

E Sasuke não o atendia!! Saiu do prédio apenas para olhar a rua, suspirou ao desligar o telefone sem resposta e voltou para dentro ao ver o horário. Não se conteve e se aproximou do segurança do prédio, mostrou-lhe uma foto de Sasuke e pediu para que o avisasse caso o segurança o visse. Mandou uma mensagem para Sasuke, esperava mesmo que ele já estivesse em casa, e pediu que ele ao menos mandasse uma mensagem para avisá-lo.

Mas era como sua mãe cansava de dizer… deve-se sempre dar ouvidos à intuição. Até porque, apesar de Sasuke saber sim se defender, isso ficava complicado quando era seis contra um.

Sasuke perdeu o ar pelo soco em seu estômago, e o celular tocando no chão chamou atenção do grupo que o cercava. Seu corpo doía, muito, mas pelo menos ele tinha certeza que os imbecis à frente também teriam do que reclamar nos próximos dias. Ele não havia feito anos de arte marcial atoa, não é mesmo?

— Quem é? — um deles perguntou, e o que segurava seu celular riu de forma ácida, com raiva, jogando o celular no chão com força antes de pisar nele repetidas vezes.

— Naruto. — Deidara passou as mãos pelo rosto ao debochar, e Sasuke gelou. — Dar para o Orochimaru para conseguir o papel não foi o bastante? Teve que dormir com o pianista também, Sasuke?

Debateu-se, verdadeiramente irritado, e, apesar da dor por toda a lateral do corpo, conseguiu força o suficiente para se soltar dos dois homens que o seguravam e socar pelo menos três vezes Deidara. Seguraram-no de novo, mais forte, e sem dó ao socar seu rosto.

Aquilo ficaria roxo… Madara faria um inferno sobre isso…

— Filho da puta!! Que é? Hum? Ficou ofendidinho, foi?

A mão agarrou seu cabelo, puxou-o para trás, e Sasuke sorriu com escárnio ao impulsionar a cabeça para frente e chocá-la contra a do outro. Nunca havia gostado mesmo daquele cara, e os anos na mesma turma não amenizaram isso.

Sua respiração estava difícil, a dor no tórax o impedia de conseguir ar suficiente para que ao menos fingisse que estava bem. Mas não iria ceder, não ficaria sem reagir.

— Derruba ele!

Sasuke arregalou os olhos. Estavam no estacionamento, atrás de um carro e longe da vista de qualquer um. A mente entrou em pânico, um visceral, que só havia sentido uma vez na vida, e somente isso fez com que a voz achasse um meio de sair, gritando em voz alta enquanto tentava a todo custo impedir que o deitassem no chão. Mas eram muitos, foi questão de tempo até que o segurassem no chão enquanto aquele que tinha conseguido socar o olhava com desprezo.

Tremia, com raiva, com ódio e medo, tremia tão violentamente que xingou a todos em voz alta por não poder mais reagir. Sentiu o tênis bem em cima de seu joelho e a compreensão do que fariam paralisou não só o coração como a mente.

— Eu aposto que você não consegue se recuperar a tempo e você?

Sasuke os ouviu rir, esforçou-se para tirar o joelho debaixo da sola dura do tênis e grunhiu ao não conseguir. Os olhos estavam úmidos pela raiva, mas ele não daria esse gosto aos demais. Se lesionassem seu joelho, não tinha volta, seria uma recuperação lenta e, como Sakura já o tinha alertado, não seria mais como antes, nunca mais…

— Boa sorte com a recuperação, vadio. Quero ver para quem vai ter que dar para conseguir sair dessa agora!

Sasuke virou o rosto na exata hora que o percebeu erguer o pé para desferir o golpe, mas a dor não veio, e as mãos que o seguravam afrouxaram o aperto. Não entendeu na hora, mas não tinha tempo para isso, debateu-se o suficiente para se soltar e acabou por rastejar, afastando-se como podia. Viu Deidara no chão, levantando-se com raiva enquanto massageava o maxilar, e foi então que reconheceu Neji parado de pé com Ten-Ten ao seu lado.

— Quer que eu cuide desses aqui? — ela perguntou séria.

Neji examinou Sasuke rapidamente antes de voltar a atenção para Deidara.

— Você, justo você, vai defender esse merda?! Ah, não, você deixou ele pegar o papel? Deu o papel pra ele?

Neji sorriu com escárnio, e Sasuke o conhecia para saber que a postura aparentemente calma era apenas fachada. O segundo soco veio mais forte, o suficiente para fazer o outro cambalear e então Neji o puxar pela gola da camisa a fim de empurrá-lo contra o carro.

— Vaza antes que eu quebre as suas pernas — falou entre dentes, e Sasuke não soube dizer se era ou não um blefe.

Ten-Ten ajudou Sasuke a se levantar, e Neji se aproximou somente quando os demais tinham saído correndo em meio a ofensas e promessas que ele duvidava que fossem cumprir.

— Você está um lixo — Neji comentou ao analisar Sasuke mais de perto. — Vamos, vai precisar de um hospital, Sasuke.

Sasuke não conseguiu responder, o corpo ainda tremia pelo susto e a dor estava tão forte que mordia o lábio em busca de controle. Suava frio, tanto, mais tanto, que achou que sua pressão cairia. Não se sentia bem, tinha vontade de vomitar e a cabeça doía, a respiração voltava a acelerar como se enfim ele se desse conta do que havia acabado de acontecer.

Neji entregou a chave do carro para Ten-Ten em um pedido mudo para que ela o trouxesse até ali e parou em frente ao amigo. Havia sangue, machucados no rosto e apostava que pelo corpo todo, os olhos estavam úmidos e avermelhados, a expressão de Sasuke era um misto de raiva com pavor, ele estava mesmo em choque. Embora nenhum dos dois fosse muito de demonstrar afeto, não havia como não fazer algo naquele momento. Com cuidado, puxou-o para um abraço, sentiu a cabeça dele em seu ombro e o quanto as mãos tremiam ao abraçá-lo com força. Sentiu ódio, mais do que já estava sentindo desde que os resultados tinham sido anunciados. Acariciou os cabelos de Sasuke e aproximou-se do ouvido dele enquanto sentia-lhe o coração batendo acelerado.

— Isso não vai ficar assim — garantiu, firme. — Vai ter volta, para cada um deles, ok?

Sasuke concordou no automático e foi Neji movê-lo para levá-lo ao carro que a pressão caiu de vez…

Quando acordou estava numa sala clara demais, o cheiro forte e enjoativo de produtos de limpeza lhe tiraram uma careta, mas isso perdeu a importância ao lembrar-se da dor. Sentia algo gelado em sua veia, uma sensação incômoda no braço direito, e ouvia algumas vozes, longe. Sentiu uma mão em seu cabelo e abriu os olhos, pesados, lentos. A figura de Hashirama ao seu lado o fez voltar a fechá-los e praguejar discreto, tudo o que menos queria era que os tios fossem notificados, o dia já estava ruim o bastante para mais isso.

— Sasuke? Como se sente? Está me ouvindo?

Balançou a cabeça, seu corpo doía, mas não tanto, era como se estivesse em um processo vagaroso de analgesia. Espiou o braço, identificou a agulha e então o soro. Estava num hospital, apesar de não saber ao certo como havia chegado ali.

— Neji está lá fora com Madara e Mito. Vou avisá-los que já acordou.

Sasuke esforçou-se para segurar a barra da camisa de Hashirama e, quando ele o olhou, negou com a cabeça. Precisava de tempo, pelo menos alguns minutos para se livrar daquela letargia.

— Como...?

A boca estava seca, dificultando a fala, e Hashirama percebeu, oferecendo-lhe um copo da água que estava ali já à disposição. Sasuke bebeu de forma ávida, e Hashirama o ajudou a se sentar no leito antes de tornar a encher o corpo mais duas vezes.

— Neji me trouxe para cá? — perguntou, silenciosamente grato pela mão de Hashirama em seu ombro o impedindo de tombar para os lados. Estava tonto.

— Sim e não. Parece que, depois de ver um dos bailarinos com nariz quebrado e os outros em estado não muito diferente, um dos seguranças foi até o estacionamento e te reconheceu. Ele falou que Naruto tinha pedido para ser avisado se o visse. Neji nos disse que ele passou esse endereço e ligou para uma médica daqui. Como seu convênio cobre, Neji te trouxe para cá.

Sasuke não entendeu bem, mas não questionou mais. Seu corpo estava pesado, e ele não conseguia raciocinar direito. Hashirama arrastou a cadeira para perto do leito e sentou-se, a expressão serena, embora Sasuke soubesse que, para ele estar ali sozinho, era porque seu tio e Mito estavam cuidando de alguma coisa do lado de fora.

— Não se preocupe — Hashirama falou, como se lesse seus pensamento. — Descanse mais um pouco. Com sorte, você não quebrou nada, aprender a lutar não foi de todo mal ao que parece — brincou. — Mas isso tudo — Apontou para os hematomas. — vai doer bastante nos próximos dias.

Sasuke fechou os olhos, concordando, e Hashirama o observou suspirar. Esperou alguns minutos antes de se levantar e sair do quarto e encontrou a mesma cena de uma hora antes. Neji estava parado ao lado da porta do quarto, os braços cruzados e a expressão irritada enquanto Naruto conversava com Madara e Mito do outro lado do corredor, com a médica responsável que recebeu Sasuke na emergência.

Colocou a mão no ombro de Neji, entendia o lado dele, afinal, era sim um pouco suspeito que Naruto tivesse com antecedência avisado ao segurança para se atentar a Sasuke, mas não entendia o tamanho da implicância de Neji, afinal, podia ser apenas o que Naruto tinha dito: ele já havia visto algo parecido no outro campus da escola, imaginava que algo pudesse acontecer e, sem conseguir falar com Sasuke, avisou ao segurança. Mas é claro que pessoas desconfiadas como Neji e Madara não aceitariam facilmente uma explicação assim, ainda mais vendo o estado de Sasuke…

— Você pode ir para casa, Neji, precisa descansar também.

— Vou falar com Sasuke antes — Neji respondeu enquanto Mito conversava com a médica e Madara escutava Naruto. — Não deixa esse cara entrar.

Hashirama riu baixo e bateu no ombro de Neji.

— Deixa que Madara avalie ele, não seja tão desconfiado. Ele não traria Sasuke para uma médica de confiança caso não se preocupasse.

Neji não respondeu e entrou no quarto sem dizer nada. Sasuke abriu os olhos, viu o amigo parar ao lado da cama e sorriu, irônico. Neji havia saído da escola sem lhe direcionar uma palavra e nem mesmo querer ouvi-lo. Havia sido de fato uma surpresa vê-lo ali no estacionamento para salvá-lo.

— Por que interferiu? Se tivessem ferrado com meu joelho, o papel era seu — comentou com sarcasmo, e Neji estreitou o olhar, visivelmente irritado.

— Direita ou esquerda? — Neji perguntou.

— O quê? — Sasuke franziu o cenho.

— Escolhe o lado para eu socar sua cara por falar merda.

— Por que voltou lá? — Sasuke bufou.

— Você disse que tava sem carro, lembra? E eu falei que te daria carona na volta — respondeu como se fosse óbvio. — Eu não tinha que ficar na aula da sua turma e fui esfriar a cabeça, mas não ia te deixar que nem um idiota plantado esperando. Agora, precisamos conversar e esquece o papel por enquanto.

— Que houve?

— Primeiro, seu tio quer abrir boletim de ocorrência.

— Nem fudendo, vão me tirar do papel assim que souberem. Tsunade vai ter a desculpa perfeita para isso — Sasuke respondeu direto.

— Eu sei. Mas os três estão determinados a isso, vai ser muito difícil você fazer eles mudarem de ideia dessa vez.

— Não vão abrir esse boletim. Até porque Deidara pode abrir um contra você em resposta. Você bateu nele também.

— Ele não é burro para fazer isso.

— Mas meus tios não sabem disso. — Sasuke o encarou com seriedade, e Neji sorriu de leve ao concordar. — Mas por que disse “primeiro”? Aconteceu outra coisa?

Neji fechou a expressão.

— Naruto já tinha avisado os seguranças para ficarem de olho em você. Ele disse que já tinha visto algo do tipo acontecer, e pensou que fosse se repetir com você. Disse que tentou te avisar, mas que você não atendeu nem viu as mensagens.

— E você não acredita — Sasuke pontuou.

— Não confio em ninguém do corpo docente em época de audição — Neji rebateu. — Muito menos quando um deles do nada aparece com uma informação dessas.

— Ele tá aí?

— Sim.

— Eu falo com ele depois, mas não acho que ele tenha algo a ver com isso, acho que os créditos por todo esse inferno são do Deidara mesmo. Vamos esperar as coisas esfriarem para entender o que aconteceu com esses resultados e tudo mais.

— Jogaram bem.

— Sim, muito bem. — Sasuke estalou a língua no céu da boca. — Com Sakura em um papel principal apenas por influência de Tsunade e você como meu substituto, nunca vamos saber se realmente mereci esse papel. É como se tivessem feito de propósito só para que eu não pudesse comemorar.

Neji massageou as têmporas e assentiu, os punhos cerrados.

— É assim que se tira a glória de uma conquista, Sasuke. Ino deve estar arrasada também.

— Falou com ela?

— Não tive tempo nem estava com cabeça para dar apoio, mas acho que ela foi para a casa ficar com o pai, então não pode ser tão mal.

— Aquele filho da puta do Orochimaru estava sorrindo, quando viu eu e Sakura discutindo e durante toda a aula, ele estava sorrindo.

— Deve ser por isso que todo mundo ficou ainda mais desconfiado e irritado com você. Em Sakura, eles não podem tocar, mas em você é outra história… principalmente porque Tsunade não gosta de você e não veria problema em eu te substituir.

— E o inferno só está começando… — Sasuke fechou os olhos. — Não quero nem ver como serão os ensaios.

— Não quero nem ver como você vai sobreviver a eles — Neji debochou. — Acho melhor essa intuição do Naruto funcionar vinte e quatro horas e sete dias por semana ou então você vai descobrir que “quebre a perna” pode ser usado de forma literal.

Sasuke não respondeu, e batidas na porta interromperam a conversa. Neji revirou os olhos quando viu Naruto entrando no quarto, desencostou da cama e encarou Sasuke.

— Preciso ir para casa. Me avise do que decidirem.

Sasuke concordou com a cabeça, e Naruto não se deixou abalar pela olhar frio que Neji lhe direcionou antes de sair do quarto. Ele olhou para Sasuke e toda a postura desmontou, os olhos tornaram-se preocupados, e Sasuke o viu se aproximar depressa afobado.

— Por que você não atende o celular quando precisa!? — ele bradou, e Sasuke arregalou os olhos surpreso pelo tom urgente da represália. — Meu Deus, Sasuke! E se Neji não tivesse chegado na hora? E se… Ahh!! Você tem noção de como eu fiquei preocupado?

— Eu to bem e Neji chegou na hora certa. Não tem motivo para ficar considerando se isso ou aquilo tivesse acontecido — respondeu, calmo, aéreo pela forma como Naruto lhe tocava o rosto com cuidado, os olhos azuis o examinando e se demorando em cada machucado com os lábios cerrados em revolta.

— Quem foi?

— O quê?

Naruto estreitou o olhar.

— Não se faça de desentendido, Sasuke, quem foram os alunos?

— Por quê? Isso não interessa.

— Mas é claro que interessa! A gente tem que fazer alguma coisa sobre isso — Naruto rebateu exaltado.

— A gente? — Sasuke arqueou a sobrancelha.

— Você, vocês, ah, não importa! — Naruto corou ao se corrigir. — Não pode estar querendo encobrir ou proteger eles, não é?

— Meu tio te deixou entrar em troca de você me convencer a fazer o boletim de ocorrência? — Sasuke arriscou, o riso irônico escapando por saber que aquilo era bem a cara de Madara.

— O quê? Não! Até porque eu não achei que teria que te convencer de nada! Olha o seu estado, Sasuke!

— Com você sabia que eu podia estar em perigo?

— O quê? — Naruto respirou fundo, sem paciência por repetir a mesma história de novo. Era o cúmulo que desconfiassem dele dessa forma. — Eu já disse, quando eu trabalhava direto com Tsunade vi isso acontecer com uma das bailarinas.

— E o que aconteceu com ela depois? Ela abriu uma ocorrência?

— É óbvio que sim!

— E o que aconteceu com ela? Com o papel dela, Naruto.

Naruto franziu o cenho e demorou a lembrar, afinal, não havia visto mais a menina nos ensaios, muito menos na apresentação.

— Ela saiu — respondeu sem entender, e Sasuke lhe sorriu irônico, como fazia quando tinha razão sobre um assunto. E não era hora para pensar naquilo, mas a mente não deixou de anotar que talvez aquele fosse um dos seus sorrisos favoritos de Sasuke, dava-lhe tanta vontade de beijá-lo...

— Correção: tiraram a garota do papel, Naruto.

— O quê? Não! Sem chance.

— A companhia não arrisca lançar um bailarino no papel principal cujo o nome está em algum processo, seja como vítima ou como culpado. Eles não arriscam. Principalmente se a acusação envolver algo dentro dela como outros alunos.

— Está me dizendo que vai deixar de abrir queixa pelo papel? Sasuke, você po-

— Não diga que eu posso pegar outro papel ou que terei outra chance ano que vem! — Sasuke se irritou. — Não ouse você, que está ali dentro e sabe como é, sugerir algo estúpido como isso! Não ignore o quão importante é essa oportunidade! Não finja que não sabe como isso tudo é importante!

Naruto se afastou, andou pelo quarto como um animal enjaulado, enfurecido. Não tinha como ignorar o lado de Sasuke também. Seria hipócrita sugerir que o outro abrisse mão de tudo sabendo do peso que aquela apresentação tinha para Sasuke. Não era uma apresentação qualquer, seria a estreia dele, a primeira obra em que ele seria o bailarino principal, seria ali que o nome dele podia ganhar peso. Era como no cinema! A primeira vez que um ator ganha o papel principal e vai às telas, e a atuação dele decidiria se novas portas se o caminho à frente seria repleto de oportunidades ou papéis coadjuvantes. A companhia tinha peso, as apresentações do final do ano eram assistidas pelas companhias internacionais, que muitas vezes convidavam um ou outro bailarino para uma bolsa de estudos, para apresentações maiores! E Sasuke estava com a chance de mostrar seu talento sendo um graduando ainda, aquilo era mais do que incrível, era o sonho de qualquer aluno… Pedir para virar às costas a isso era como bater a porta na cara de uma das maiores chances que ele teria dentro da companhia, sem a certeza de que conseguiria o mesmo no ano seguinte. E, ao mesmo tempo que entendia isso, enfurecia-se por saber que era um absurdo deixar os agressores de Sasuke impunes!

— Seus tios não vão concordar — optou por responder.

— Se você me ajudar, talvez eles mudem de ideia — Sasuke sugeriu.

— Eu acabei de sair de um interrogatório de Madara, Sasuke, e ele só me liberou porque seu outro tio convenceu. Minha opinião não vai ser muito útil.

— E Mito? O que ela achou de você? Ela disse algo?

— Não, ela pareceu grata por ter te trazido para cá só.

— Ótimo. Eu falo com Madara e, enquanto ele estiver aqui comigo, você conversa com os outros dois lá fora. Se você os convencer, eles seguram o meu tio. — Sasuke deu de ombros, como se fosse simples, e Naruto coçou a nuca descrente.

— Certo. Faremos isso amanhã. — Naruto se aproximou da cama, e novamente as mãos correram pelo rosto de Sasuke com carinho antes de ele se inclinar para selar os lábios com delicadeza. — Eu preciso ver minha mãe agora, volto amanhã para conversar com seus tios, tudo bem?

— O que houve com sua mãe?

— Saberia se olhasse o celular — Naruto provocou e roubou outro beijo de Sasuke antes de se afastar. — Ela está aqui no hospital também, fazendo alguns exames. Vou passar a noite com ela, então, qualquer coisa, só mandar uma mensagem que eu corro pra cá. Você vai ter que ficar em observação por um tempo, querem ter certeza que não quebrou nada.

— Merda. Eu tenho que estudar pra prova ainda.

— Vai dar tudo certo. Se concentra agora em descansar — Naruto acariciou-lhe o cabelo, apreciava como as mechas deslizavam entre os dedos e como Sasuke inclinava, discretamente, a cabeça na direção da sua mão quando chegava perto da nuca. — Preciso ir. Seu tio deve estar na porta já. — Riu baixo.

Sasuke revirou os olhos, mas suspirou em deleite quando Naruto voltou a encostar a boca na sua em uma despedida. Acompanhou com o olhar cada passo dele em direção à porta, o coração pesado, não… não era a melhor descrição. O coração parecia cheio, como se antes fosse leve apenas por estar vazio de algo que ele agora temia que o estivesse invadindo pouco a pouco… Corou, incrédulo, sentindo as batidas acelerarem de repente e fingindo que não estava mais calmo após o sorriso de Naruto ao sair do quarto.

Fechou os olhos, estava cansado e não seria mentira se usasse isso como argumento para pedir para Madara esperar até a manhã seguinte para conversarem. Contudo, não precisou. Mito e uma médica entraram no quarto antes, ele respondeu tudo o que a médica lhe perguntava, mas não conseguiu se impedir de dormir enquanto Mito acariciava seu cabelo como fazia quando ele era criança.

* * *

A discussão dentro do quarto tinha sido longa, Naruto intervira assim como Neji, mas Sasuke, ainda assim, tinha visto Madara deixar o lugar sem ter uma resposta concreta. Mito não concordava, nem Hashirama, contudo, seria a palavra de Madara no final que pesaria.

A médica que Naruto conhecia entrara logo em seguida, os resultados em mãos e todas as explicações sobre os remédios para dor que ele deveria tomar nos próximos dias. Tivera alta e havia se esquecido de que ninguém ali sabia ao certo de sua relação com Naruto até ele se aproximar para se despedir.

Lera as mensagens dele assim que tinha acordado, havia respondido tudo e desejado de forma educada e sucinta que a mãe dele melhorasse logo. Depois disso, Naruto havia se pronunciado a seu favor, tentando convencer seus tios e, então, havia chegado a hora de se despedir.

Apesar de poder andar sozinho, a mão de Naruto em sua cintura o acompanhara até o estacionamento. Mito já havia notado aquele e todo outro pequeno gesto de Naruto enquanto andava a seu lado, e Sasuke fingira não perceber, tentava manter-se indiferente, discreto, mas na hora de então entrar no carro não havia como fugir.

Naruto repetia que descansasse, os olhos azuis determinados como se quisessem passar firmeza ao dizer novamente tudo o que a médica já falara. O sol forte no rosto dele não parecia incomodá-lo, e ele até mesmo parecia mais bonito, como se combinasse com o dia claro. A voz energética havia sido uma das únicas a preencher o estacionamento, Sasuke apostava que qualquer um ali podia ouvir Naruto com sua forma entusiasmada de falar e, diferente do que acontecia quando era Hashirama ou qualquer outro a falar daquela forma e naquele tom, Sasuke não parecera se incomodar, quase como se já houvesse se acostumado a aquilo… ou melhor, quase como se gostasse. Ah, sim, havia sentido falta da voz de Naruto durante os dias que passara o evitando.

Ele abrira a porta para que entrasse antes que tivesse a chance de fazê-lo, apoiara-se nela com um sorriso no rosto como se esperasse de Sasuke algo que tinha sido quase natural fazer… A mão havia puxado Naruto pela nuca, as bocas encontraram-se num beijo leve e rápido de despedida, e Sasuke só se dera conta do que havia feito quando o sorriso de Naruto aumentara e ele o havia puxado para um beijo mais lento e carinhoso enquanto os demais entravam no carro.

— Me avise quando chegar em casa, Teme, e nada de treinar enquanto se recupera — Naruto falara, e eles ouviram uma risada incrédula de dentro do carro.

— Vou tentar — respondera enquanto sentia o rosto quente e então se afastava.

Como tinha dito para Naruto uma vez, não era como se sua família não ficasse sabendo de seus envolvimentos, mas, ainda assim, não havia sido nem a melhor forma nem o melhor local e momento para apresentar Naruto.

O clima em casa estava tão mórbido que ele evitou sair muito do quarto e treinou no próprio quarto com os fones de ouvido. Havia conseguido o papel, afinal, não poderia deixar de treinar, cada dia perdido era uma chance a menos que tinha de fazer tudo sair perfeito!

Madara estava irritado, as olheiras estavam mais aparentes que o habitual, e ele não falava nada, a expressão fechada e o olhar sério deixavam claro sua desaprovação quanto a escolha de Sasuke e, por um momento, Sasuke teve medo de que o tio decidisse tirá-lo da companhia.

De madrugada, antes da prova da faculdade, havia ido à cozinha pegar um copo de água. Seus tios estavam na sala, Madara dormia sentado de lado entre as pernas de Hashirama, a cabeça escondida na curva do pescoço dele, e as pernas esticadas sobre o colo de Mito que brincava com os dedos de mão dele enquanto conversava baixo com Hashirama. Eles pararam assim que o viram, e Mito lhe sorriu enquanto Hashirama suspirava e voltava a mexer no cabelo de Madara.

— Ele vai ficar em casa à tarde amanhã? — perguntou.

— Se for para vocês se matarem, nos avisem antes — Mito provocou risonha, e Hashirama balançou a cabeça em reprovação. — Ele vai ficar à tarde e à noite amanhã, querido, ele precisa de uma folga para esfriar a cabeça.

Assentiu e, quando estava para voltar ao quarto, ouviu a voz de Hashirama.

— Sasuke, lembra o que conversamos no outro dia? — ele perguntou, sério, mas era visível o cansaço e a chateação em seu semblante.

— Sim.

— Dessa vez, nós não temos como te ajudar. Você sabe disso, não sabe?

— Ele disse algo?

— Não, mas conhecemos ele, Sasuke. E, apesar de entendermos o seu lado, não temos argumentos para te ajudar. Sabemos o quanto ama isso tudo, mas também nos preocupamos com você. E o que aconteceu terça…

— Eu-

— Não, Sasuke — Mito o interrompeu. — Nós convencemos Madara a te deixar continuar nessa companhia e terça-feira você parou num hospital por isso.

— Não é culpa de vocês — Sasuke rebateu rápido, entendendo finalmente o ponto da conversa.

— Não? — Mito suspirou.

— Isso não aconteceria se houvesse saído naquela época. E, segundo o que Naruto mesmo disse, é algo comum, tão comum que ele sabia que você podia se machucar porque já havia acontecido antes com outros alunos — Hashirama elevou um pouco a voz e só voltou a baixá-la quando Madara suspirou em seus braços, lembrando-o de não fazer muito barulho.

— Nós vamos apoiar o que vocês dois decidirem amanhã, Sasuke, porque cabe a Madara dar a palavra final, não nós. Converse amanhã com ele, com calma e sem se exaltarem, queremos a casa de pé quando chegarmos.

Não respondeu, não havia o que falar, sua conversa deveria ser com Madara, então seguiu com o que já tinha em mente. Dormiu mal, acordou cedo, os fones já estavam no ouvido antes mesmo que ele lavasse o rosto para despertar por completo quando o relógio apitou cinco da manhã. A música clássica o acalmava, era como uma droga que lhe permitia uma breve fuga da realidade, como se as notas produzissem uma harmonia que convencia todo o seu ser a deixar os problemas para depois.

Estava cansado, física e emocionalmente. As panturrilhas e os ombros doíam a cada movimento, os hematomas pelo corpo ainda estavam avermelhados, não daria tempo para que sumissem por completo antes de os ensaios começarem, os do rosto principalmente. Havia um corte próximo à sobrancelha, e três ou quatro manchas na face, perto do olho, na bochecha, no queixo. Doíam, mas o reflexo não chegava a lhe assustar para ser sincero. Já estava tão acostumado com os machucados dos treinos, que vê-los na face era quase que banal.

Esforçou-se mais do que no dia anterior, buscando na exaustão a inconsciência, a censura para os próprios pensamentos, medos e expectativas. Não queria pensar, não queria existir, não queria ter que viver aquele dia, e tal constatação só veio quando percebeu, surpreso, que o rosto estava molhado por algo além do suor.

Por que chorava? Não tinha motivos para isso! Tinha? Não… Por que chorava então? Por que parecia tão certo deixar que o choro viesse? Sentia-se como uma barragem a conter um rio violento, uma barragem falha que vê nas primeiras lágrimas uma pequena parte de si se romper antes que o rio a force de uma vez, destruindo-a por completo até carregar consigo correnteza abaixo todo e qualquer pedaço dela. Pagou o travesseiro da cama e o forçou contra a boca, gritando e soluçando contra ele enquanto no chão o corpo inteiro queimava, doía, pulsava em desespero e agonia. A música pelo primeira vez o irritou, como se lhe cobrasse pelo treino, gritado em seus ouvidos que parasse de chorar, que se levantasse! Bailarinos não ficam no chão! Cair significa deixar-se ser pisado por quem está logo atrás, esperando a oportunidade de fazer da sua queda um degrau!

Levante-se! Levante-se! Agora!

Comandos inúteis para músculos cansados e uma mente destruída. Arrancou os fones do ouvido e reconheceu o toque do celular. Encarou o aparelho sobre a cama por longos segundos, indeciso entre ignorá-lo ou ao menos ver quem ligava. Ainda não eram sete da manhã, o relógio marcava apenas seis, então não podia ser seu despertador… Esticou o braço e deitou-se no chão mesmo, abraçado ao travesseiro, antes de ver a foto de Naruto no visor do celular.

Franziu o cenho e atendeu pela curiosidade.

Bom dia, Sasuke! — Como a voz dele podia soar tão animada pela manhã?

Limpou a garganta e suspirou antes de responder:

— Bom dia.

Você não estava treinando, né?

Sasuke riu sem humor porque antes estivesse, antes pudesse aproveitar melhor o tempo ao invés de estar deitado de forma patética no chão! Antes pudesse dar o seu melhor ao invés de chorar como uma criança derrotada, como um fraco a quem a vitória não estaria nunca ao alcance.

Fechou os olhos com força, com raiva das lágrimas que voltavam, e engoliu a vontade de chorar e destruir tudo ao redor para falar baixo:

— Não. Você ligou por isso?

Confesso que em parte sim. — Ele riu, e Sasuke sorriu embora não entendesse o motivo. — Sasuke, você tá bem? Tá em casa ainda? Lembro que disse que teria prova hoje. — Era tão bom ouvi-lo… era como ter de volta aquilo que segundos antes a música não conseguia mais lhe ofertar, era ter um pequeno momento de paz.

— Ainda em casa. Saio só oito horas daqui.

Ah, isso é ótimo! Quer uma carona? Meu pai ficou ontem à noite no hospital, então eu vou agora de manhã para lá finalmente buscar ela. Posso te deixar na faculdade antes.

Prendeu a respiração. O coração batia tão forte que era difícil prestar atenção no que Naruto falava, a garganta parecia conter algo que o sufocava, como se as lágrimas não bastassem para fazê-lo se sentir miserável o suficiente. Apertou o travesseiro com ainda mais força e mordeu os lábios, não podia chorar ao telefone, aquilo já seria demais, já seria humilhação demais, até porque não entendia por que chorava, por que o peito parecia comprimido a ponto de ele se sentir desesperado por ar.

Sasuke?

— Sim — sussurrou em um único fôlego, e quase podia imaginar o sorriso de Naruto naquele momento. Ele ficava tão mais bonito quando sorria…

Ae! Posso te pegar às oito então?

— Sim.

Ok, vou terminar as coisas aqui. Nos vemos daqui a pouco. Até mais.

Sasuke desligou o telefone, mas não o soltou. Os olhos turvos permaneceram na foto de Naruto por mais um tempo, ele se levantou do chão sem se importar em limpar os rastros das lágrimas da face ao sair do quarto. Os passos até a cozinha eram arrastados, e ele não se surpreendeu ao ver Madara já de pé.

Madara montava a mesa do café da manhã, mas estagnou no mesmo lugar ao se virar e ver Sasuke caminhando até ele. Sentiu as mãos dele se fecharem em sua camisa sem força alguma, o rosto apoiar-se escondido contra seu peito, apesar de ele ter sim visto os resquícios do choro recente, e doeu como nunca ouvir a voz quebrada do sobrinho quando o abraçou de volta de forma protetora.

— Por favor… não me tira de lá… por favor… eu faço qualquer coisa, qualquer coisa.. por favor, tio…

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo ♥ Beijoss Até segunda que vem ;)