Não pare a Música

16 Capítulo 16 - Tensão


Notas iniciais
Leiam as notas ♥ Ah, e eu juro que vou responder todos os comentários essa semana! Me perdoem, ta tudo bem corrido e por isso ainda não respondo =/

O som do teclado só não era maior que o da música que preenchia a sala de Gaara naquele momento. Era quase três da manhã, mas o sono não tinha se feito presente, e Gaara aproveitava o tempo para terminar de preencher a documentação para o estágio que queria na empresa Suna. Ali estava o seu sonho... Desde o momento em que optou por fotografia, aquele tinha sido o seu mais ambicioso sonho.

Suna era uma empresa de Marketing, ou seja, trabalhava em desenvolver logística, publicidade e propaganda para outras empresas para a divulgação de um novo produto, mudança na imagem de uma pessoa pública, produto ou empresa, dentre outras funções. Há dez anos, ela havia criado um programa para estudantes de fotografia e profissionais da área que tinha o intuito não só de oferecer uma oportunidade única de trabalhar com eles em alguns projetos durante trinta dias, como também dar a chance de se destacarem ali dentro e serem escolhidos para um contrato de dois anos na empresa.

Mas não era isso que a fazia especial para Gaara... era o foco dela. Suna era a responsável pela maior parte dos registros que se tinha de áreas de conflito; se tinha algum lugar do mundo que ninguém ousava ir, era certeza que Suna iria! E ele queria aquilo, queria poder fazer parte daquela equipe! Não seria fácil, é claro, tinha que primeiro conseguir o estágio, depois se destacar, depois dois anos trabalhando no básico e reivindicando seu lugar lá dentro, e só depois disso, quem sabe, conseguisse o que desejava.

Anexou os últimos documentos no site da empresa e respirou fundo ao clicar enviar. Era três da manhã do primeiro dia para envio das inscrições, Pain havia elaborado uma carta de recomendação junto, e Gaara sabia que seu esforço com Konohamaru naquele mês em terminar todos os trabalhos de Hanabi havia pesado na decisão do chefe. Agora, era só esperar e, enquanto isso, começaria o novo trabalho de Ino para a campanha de esportes.

Massageou os olhos, queria tanto dormir, mas o sono não vinha de jeito nenhum... Fechou o computador e foi até à cozinha onde a chaleira já apitava há alguns minutos. Tomou o chá de camomila sem muita esperança; se aquilo resolvesse seus problemas, não estaria acordado ainda, mas quem era ele para contrariar as recomendações do irmão mais velho, não é mesmo? Bebeu com preguiça, encostado na pia e ouvindo o relógio da cozinha contar os segundos. Deixou a xícara vazia sobre a mesa e foi para o quarto, ligou a televisão em um canal qualquer e se cobriu; dormiria quando tivesse que dormir, não adiantava ficar se revirando por isso.

Contudo, o lado ruim dessa impotência era que sua vontade de tacar o celular na parede quando o despertador tocava era quase incontrolável. Sete horas da manhã. Lavou o rosto mais de uma vez, a água gelada apenas o torturando porque acordá-lo, como era a intenção, não fez. Apertou os olhos, irritado consigo mesmo e considerando amargamente ir em um médico como a irmã tanto mandava.

Organizou o material do trabalho e foi o mais rápido possível para a agência. Quanto antes chegasse, mais tempo para cochilar teria antes da reunião com Pain e Konohamaru. Aquele era um dia importante... Pela manhã, discutiriam sobre o novo projeto e, à tarde, Gaara, Ino e o diretor de arte veriam se havia uma forma exata de se fazer as fotos. Além disso, já haviam perdido um dia...

A empresa que os tinha contratado possuía dias certos para planejamento e discussão, e Ino tinha justamente desmarcado a primeira reunião do projeto. Konan não lhe dera muitos detalhes, apenas dito que Ino participaria de audições na companhia de ballet e que não havia como comparecer no dia anterior porque um dos professores havia se disposto a ver a coreografia dela antes para ajudá-la. O cliente não tinha gostado daquilo... Gaara estava na sala enquanto Konan explicava que a modelo havia tido um imprevisto e, como eles sabiam que aconteceria, aquilo não fora visto com bons olhos.

— Essa campanha é importante para a minha empresa. Se a sua modelo não nos vê como prioridade, então sugiro que escolham outra. Nós não podemos contar com alguém que não se dedique a esse trabalho. Sei que é o primeiro trabalho profissional dela, mas, exatamente por isso, eu esperava mais comprometimento.

— Isso não irá se repetir — Konan assegurara. — O senhor viu o booking dela e teve a chance de assisti-la numa apresentação pelo que nos contou, Ino é dedicada, mas houve um imprevisto que fugiu do controle dela desta vez.

— Espero que sim, todas as partes desse projeto são importantes e não queremos desistir de uma. Caso seja necessário, o projeto todo será cancelado.

— Ino é nossa melhor escolha para o que o senhor nos disse que deseja — Gaara tinha se posicionado, sério, abrira o booking de Ino em uma foto específica e o empurrara com cuidado pela mesa junto da folha onde havia grifado os objetivos da campanha. — Essas fotos são exatamente o que pediram para nós. Ela é a sua melhor escolha.

A discussão havia acabado ali, e Gaara tomara nota de tudo o que seria necessário para as fotos de acordo com as instruções do cliente. Konan massagara a nuca quando enfim ficaram a sós, ela parecia incomodada, e ele entendia bem o que o cenho franzido significava.

— Vai dar certo, não se preocupe — tinha feito questão de garantir.

— Ele quer quatro olhares diferentes sobre Ino, Gaara — ela repetira.

— Eu sei.

— E você consegue isso? Eu te disse antes de mostrarmos o booking para ela e você viu como ela ficou ao olhar as fotos. Ela pode parecer segura de si, mas no ensaio você vê como isso muda.

— Esse é o meu trabalho, não é? Não se preocupe, você cuida dos papéis, e eu das fotos. Vai dar certo.

Konan havia franzido o cenho e trocado o peso de uma perna para outra ao cruzar os braços.

— Por favor, não deixe seu fascínio por ela atrapalhar seu trabalho, Gaara — ela falara, e não havia maldade nas palavras. — Esse contrato é importante, e eu quero Ino nele também, mas vou tirá-la se perceber que não vai rolar.

Ah, aquela frase... aquela maldita frase tinha se mantido em sua cabeça por todo o dia e o feito até mesmo conversar sobre a situação com a irmã mais velha. Um grande erro, aliás. Temari tinha lhe direcionado o olhar mais debochado possível enquanto perguntava por que daquela vez ele se importava tanto com a modelo escolhida.

Sim, era irracional, estava apostando suas fichas em Ino sem nem mesmo entender o motivo para isso; só havia um desejo inexplicável de vê-la ali, diante da sua câmera, conseguindo marcá-lo como da primeira vez que a tinha fotografado. E não só isso! Ele queria conseguir que ela se enxergasse como ele a via. O modo como ela havia rejeitado as fotos do booking por insegurança ainda martelava sua cabeça, plantava um desafio em sua mente. E, bem, ele tinha um fraco por desafios...

* * *

Ino estava... acabada. Olhando-se no espelho, ela não sabia como a equipe de maquiagem conseguiria consertar as olheiras e sua expressão de puro cansaço. As aulas do cursinho pré-vestibular estavam piores, já havia simulados marcados e, como se isso não bastasse, Orochimaru tinha que anunciar a mudança da data das audições. Para sua sorte, Anko era uma professora que gostava muito dela e tinha aceitado ver suas coreografias antes da audição. E isso lhe serviu melhor do que tinha imaginado, afinal, Anko fizera o que ninguém antes tinha feito: aberto o jogo.

Óbvio que ela tinha plena ciência de que, por sua técnica e interpretação, ela tinha uma grande chance de ganhar os papéis, mas o peso realmente faria com que repensassem a decisão e talvez optassem por outra bailarina, mesmo se de técnica inferior. Anko confirmara isso e acabara aconselhando-a a ensaiar as duas coreografias, mas não cometer a loucura de aceitar os dois papéis se os conseguisse porque era certo de que os coreógrafos com certeza infernizariam sua vida até que ela emagrecesse ou desistisse. Além disso, a rotina seria muito corrida, impossível levar duas obras ao mesmo tempo justo em época de vestibular e ainda com o novo trabalho de modelo.

Giselle estava impecável, era sua obra preferida, já tinha a coreografia decorada desde quando entrara no ballet. Agora Les Sylphides... Não que cometesse muitos erros, não, ela até que dançava bem, mas, segundo Anko, era nítido o desinteresse dela pelo papel. Isso tinha que mudar, não podia se dar ao luxo de perder uma chance, fosse ela qual fosse. E, para isso, tinha pedido ajuda de Shikamaru.

O amigo havia organizado um cronograma, subdividido cada dia do seu calendário em tarefas para que ela não se perdesse e pudesse estudar de tudo um pouco até o final da semana. Ah, e ele lhe ajudaria com física toda semana, ela nem sabia dizer o quanto era grata por isso... Sasuke era ótimo em física, mas, como professor... bem, a primeira e única vez que lhe pediu ajuda em física terminara com os dois sem se falarem por duas semanas e meia. Sasuke não era lá o professor mais paciente, e ela definitivamente não era a aluna mais focada, péssima combinação.

Passou pelas porta da agência e entrou no elevador. Não se olhou no espelho por saber que seu cabelo devia estar uma zona. Para piorar, tinha ido direto do curso, precisava almoçar. Conferiu o relógio, feliz por estar adiantada. Almoçaria e tentaria, ainda assim, aparecer mais cedo no set para compensar a falta no dia anterior. Aliás... será que Konan ou Gaara estariam bravos por ela não ter ido? Tinha tentado explicar, mas...

Carpe diem, Ino, carpe diem! — ela sussurrou ao balançar a cabeça e espantar as preocupações. Aquele era um novo dia, não devia se preocupar tanto.

Dessa vez, caminhou pelo refeitório já sabendo onde tudo se encontrava. Sentou-se com sua bandeja ao canto, perto da janela de vidro que dava para a rua e para o sol agradável que invadia o lugar. Pegou o celular apenas para avisar o pai que tinha chegado em segurança e franziu o cenho ao identificar a mensagem de um número novo e desconhecido.

— Posso me sentar com você?

Ino olhou para a frente, bloqueou o celular decidida a conferir depois a mensagem. Hanabi estava de pé, à sua frente, e Ino não conseguiu não olhar rapidamente para o refeitório antes de concordar. O lugar não estava lotado, Hanabi podia ter se sentado em qualquer outra mesa, mas não o fez, estava ali, com um prato com o dobro do tamanho do seu e um pequeno pote de sobremesa.

— Obrigada — Hanabi respondeu.

A expressão dela estava abatida, não parecia cansada, mas sim frustrada. Havia olheiras, e ela parecia ter acabado de sair de um ensaio fotográfico e retirado de vez toda a maquiagem e produção. O cabelo estava mal preso, um rabo de cavalo bagunçado, os lábios um pouco pálidos, e a roupa que ela vestia era larga, como se nem ao menos fosse do tamanho dela. Era um contraste. Naquela mesa, havia um claro contraste, não de aparência porque as duas estavam sem produção alguma e mostravam claros sinais de cansaço, mas de interpretação. Hanabi nunca seria vista como desleixada, ela era bonita demais para isso, totalmente dentro do padrão esperado; olhariam para ela e só pensariam como ela ficava bonita mesmo "natural". Já Ino... era uma piada de mau gosto aquilo, os anos já tinham provado que era cobrado dela sempre mais, como se ela estivesse sempre tendo que compensar o "erro" de não estar no peso determinado pelos outros. Por um breve momento, Ino se repreendeu por pensar naquilo, afinal, não era culpa de Hanabi, mas saber que quem as visse, sob as mesmas condições, teria ideias diferentes delas era... frustrante e triste.

Suspirou, Hanabi tinha os olhos baixos enquanto comia, a mão sobre a mesa estava fechada com certa força e a respiração, pesada. Ela estava tensa, por completo, e Ino podia jurar que ou ela mataria alguém ou desabaria no choro em alguns minutos. Ah, como odiava situações desse tipo... era mole demais para ignorar aquilo.

— Dia ruim? — perguntou com sutileza, e os olhos perolados de Hanabi se ergueram para ela em um misto de surpresa e alívio.

— Você nem imagina... — Ela balançou a cabeça, exausta. — E você?

— Semana ruim — respondeu e elevou os ombros em descaso, Hanabi parecia precisa desabafar bem mais que ela naquele momento. — Mas o que houve? Quer falar sobre isso?

Hanabi suspirou e bagunçou ainda mais o cabelo antes de soltá-lo e prendê-lo sem muito capricho.

— Me desentendi com algumas modelos daqui. Ou... eu acho que foi isso. Não sei exatamente o que fiz, sendo sincera, nem sei se fiz algo, mas... ah, não importa, esse é o menor dos problemas, eu só achei que daria certo me aproximar, mas... — ela se interrompeu, respirando com força e fechando os olhos. — Não importa, isso não é mesmo importante, depois eu me resolvo com elas, eu acho... Fora isso, estou superando um fora e tendo que aturar Sasori e o cancelamento de um contrato que eu queria muito.

— Você levou um fora? — Ino perguntou e quis morder a língua em seguida ao ver Hanabi sorrir sem graça. — Quem é Sasori? — mudou o assunto.

Hanabi fechou a expressão e bufou antes de levar uma garfada cheia à boca, balançou a cabeça e se inclinou depois na direção da Ino antes de responder:

— Um filho da puta. Não, to falando sério — ela completou ao ver Ino arregalar os olhos. — Ele é um fotógrafo daqui, mas é um babaca. Conversei com Pain, não vou mais ser fotografada por ele, mas, ainda assim, parece que é impossível não cruzar com esse filho da puta aqui dentro.

— O que ele te fez?

— Falou demais. Para ele, preciso emagrecer ou corrigir isso ou aquilo, solta comentários extremamente desnecessários e desagradáveis e eu não vou nem entrar na parte do machismo porque aí a gente desce do salto e usa ele para enfiar na garganta desse idiota.

Ino riu, e Hanabi sorriu ao bebericar o suco.

— Você ri porque não teve que fotografar com ele e, sinceramente, espero que nunca tenha! Enquanto Gaara é cheio de cuidado, Sasori é um ogro.

— Dei sorte então...

— Muita. Gaara tem uma técnica muito boa, e Konohamaru ajuda muito quando temos alguma dificuldade. As fotos saem muito boas. Você gostou do seu booking?

— Sim, foi uma surpresa até. — Remexeu a comida. — Não esperava que ficassem tão boas.

— Ué, por quê não? — Hanabi franziu o cenho. — Na hora que vi vocês escolhendo as roupas, eu tinha certeza que ficaria maravilhoso. Você é bonita, estava com um bom fotógrafo, as roupas... nossa, quem me dera ter um bom gosto como o seu — comentou concentrada, como se tentasse imaginar como seria. — Eu deixo minha irmã comprar as minhas e vivo roubando alguns vestidos dela, Hinata tem um ótimo gosto para roupas, sapatos, maquiagem, tudo. É até engraçado porque eu sou a modelo, e é ela que sabe se arrumar. Se pudesse, vinha de pijama para cá todo dia.

— Não acho que te condenariam por isso — Ino respondeu sincera demais, e Hanabi estreitou o olhar para ela e sorriu, divertida. Gostava de pessoas honestas.

— Você que pensa... Pode não parecer, mas muita gente aqui compete uns com os outros. Não é um ambiente tão agradável quando você ganha certo destaque — comentou mais séria. — E, não me entenda mal, não estou sendo arrogante, sei que ainda tenho muito a aprender e crescer nessa carreira, mas também sei que sou boa no que faço e que me esforço todos os dias. E isso desagrada muita gente. Por mais que eu não fale com essas pessoas, que nunca tenha feito qualquer coisa para elas, acharam mais fácil simplesmente me odiar e procurar qualquer falha minha para espalhar na internet.

— Temos algo em comum então — Ino respondeu e abaixou os olhos ao se lembrar das mensagens de ódio na internet. — Não aqui na agência, ainda não sai do meu ninho para as águias malvadas ficarem de olho em mim — brincou, e Hanabi sorriu. — Mas passo por algo semelhante no ballet. Como deve imaginar, ser uma boa bailarina com o meu peso incomoda muita gente.

— Bem, brindemos então. — Hanabi elevou a o copo com o suco, e Ino arqueou a sobrancelha ao elevar a garrafa d'água. — Aos haters — ela disse um pouco mais animada.

Ino sorriu e concordou, tocando o copo com a garrafa.

— Aos haters.

* * *

Gaara franziu o cenho quando viu Ino passar conversando alto com Hanabi pela área de descanso. Sentado em um dos puffs com Konohamaru próximo, eles viram quando as duas modelos passaram direto para o set, e Gaara viu Konohamaru olhá-lo como se esperasse alguma reação. Suspirou e enfim perguntou justo o que não queria saber:

— O que aconteceu? Fala logo.

— Tão comentando... — Konohamaru começou, inseguro. — Sobre você e a Hanabi...

— Ainda? — Gaara perguntou com certo tédio.

— Sasori não deixa esse assunto morrer. Sério, esse cara tem alguma coisa contra a Hanabi, ele faz questão de infernizar ela — comentou enfático, e Gaara sorriu de leve.

— E você de defender — ele respondeu e viu Konohamaru corar sem saber o que responder. — Pain e Konan já estão cientes de Sasori, deixe que lidem com ele. Você vai ficar para me ajudar a escolher as músicas com Ino?

— Não... — respondeu ao se levantar com Gaara, evitando olhá-lo. — To responsável pela Hanabi enquanto você adianta as músicas, lembra?

— Ah, sim, tinha esquecido. Boa sorte.

— Vê se não perde o horário com a Ino hoje — Konohamaru provocou, e Gaara preferiu fingir que não tinha ouvido e colocar a mochila nas costas.

O set estava mais calmo naquele dia, embora isso não fosse influenciar tanto no seu trabalho. Para escolher as músicas com Ino, tinha pedido a Konan uma sala reservada, onde pudessem escutar as músicas sem atrapalhar os demais e onde Ino não ficasse constrangida enquanto analisava as roupas. Caminhou pelo set evitando prestar atenção nos demais, sabia que, se Sasori tivesse dito qualquer coisa para Hanabi, as atenções automaticamente cairiam em si, como se fosse obrigação dele, sabe-se lá por que, ir defendê-la. Não que ele não se importasse, pelo contrário, odiava saber que Sasori vinha infernizando as modelos, ia contra tudo o que prezava, mas ele sabia que intervir por Hanabi significaria alimentar mais ainda a briga. E, além disso, Hanabi não era bem uma mulher que precisava de proteção. Ela era forte, determinada, não se abalaria assim por causa de um fotógrafo medíocre.

Passou a mão pelos cabelos e achou Ino mais adiante, olhando para o celular com uma expressão curiosa. Não demorou a sentir o próprio telefone vibrando no bolso de trás da calça. Pegou o aparelho, apenas para confirmar o que já sabia. Voltou sua atenção a ela e não foi difícil notar que ela parecia cansada. As audições eram assim tão difíceis? Não sabia, mas sentiu vontade de perguntar, de ouvi-la contar um pouco mais sobre sua vida e das dificuldades pelas quais poderia estar passando. Estranho... Ino parecia alguém forte, como Hanabi, que dificilmente se abalaria com algo, mas era diferente. Mesmo que sentisse que Ino não abaixaria a cabeça para qualquer coisa, era como se ele também não quisesse vê-la sendo atingida por o que quer que fosse.

— Ino? — chamou, o celular na mão mostrando a ela a mensagem que ela havia acabado de lhe enviar. — Chegou há muito tempo? Está adiantada.

— Ah, sim... Eu quis compensar pelo outro dia. E me desculpe, mesmo, eu não pude comparecer. Como conseguiu meu número? — ela perguntou, confusa.

— Konan. Eu precisava marcar com você sobre as músicas e parte do projeto eu que vou conduzir, então achei que seria mais fácil entrar em contato com você. A gente pode ir para a sala?

Ino assentiu, salvou o número enquanto seguia Gaara e franziu o cenho para algumas pessoas que os olhavam e comentavam baixo. Parecia que algo tinha acontecido, havia sido assim também enquanto andava com Hanabi. Será que ela tinha feito algo? Ou era seu cabelo e a falta de maquiagem? Apressou o passo, entrou na sala após Gaara e os olhos arderam pela iluminação.

A sala tinha um tamanho médio, todas as paredes eram brancas, assim como a luz, que agora Gaara reduzia um pouco no controle na parede. O material de fotografia estava da metade da sala para o fundo, reconhecia os iluminadores e o tripé para a câmera, mas também havia um pequeno trocador e uma arara com várias roupas penduradas e envoltas por uma delicada capa preta. Da metade para a frente, havia duas mesas pequenas, uma de cada lado, alguns puffs coloridos e um frigobar ao canto. Gaara caminhou com familiaridade pelo ambiente, tirou a mochila para colocá-la sobre a mesa e pegou o notebook guardado. Abriu-o e olhou para Ino.

— Pode sentar. Hoje eu vou te explicar um pouco do que faremos e como, vou precisar de ajuda para escolher as músicas. Preciso passar isso para Konan depois, mas podemos escolher as músicas conforme formos escolhendo o tema das fotos. Tudo bem?

Ino caminhou até ele, sentou-se no puff ao lado enquanto o notebook abria um site e lembrou-se de silenciar o celular.

— Eu li o arquivo que Konan me mandou. Ele explicava um pouco — ela falou para tentar ajudar, recebendo os olhos verdes de Gaara atentos. — Falava sobre o tema das fotos, que é dança, e que a proposta são quatro sentimentos diferentes que nós temos que escolher.

— Não sentimentos... sensações — ele corrigiu com calma. — Quando você olha para uma foto, ela te desperta primeiro sensações, e o conjunto delas te leva a um sentimento específico em relação a essa fotografia. Por exemplo, fotos que te passem a sensação de empoderamento te dão um sentimento de confiança, você se identifica e cria um vínculo com essa imagem.

— E quais sensações vou ter que conseguir?

— Você disse que está se preparando para audições, quais as emoções mais marcantes do papel que você quer?

— Melancolia, decepção, dor, sofrimento.

— Podemos começar por isso então. Você já tem a música, e podemos juntos decidir sobre a maquiagem e o melhor figurino para a sessão de fotos, a empresa responsável mandou vários. Eu só preciso ver a sua coreografia antes para ter certeza de que se encaixa com a mensagem de que precisamos.

— Tem alguns vídeos da coreografia na internet, não é difícil achar.

— Ah, não, digo — Gaara franziu o cenho. — Eu precisaria que você dançasse porque preciso ver um pouco da sua interpretação da obra. Tem algum problema?

Ino abriu a boca surpresa.

— Não, nenhum, eu que to devagar mesmo hoje para entender as coisas, me desculpe. — Ela sorriu.

— Qual a música que você está ensaiando para a audição?

— A música que eu escolhi não vai ser muito útil para as fotos, eu precisaria de um bailarino junto porque há partes de salto ou que preciso ser erguida. Mas, em Giselle, tem como usar o ato da traição e da morte dela — explicou. — É uma parte com poucos passos difíceis, mas tem muito de linguagem corporal e expressão porque é justo quando ela descobre que o homem que ama está noivo e que a enganou.

— E então ela enlouquece e morre de desilusão — ele completou, atento, e Ino sorriu para ele antes de dar de ombros.

— Prefiro fingir que ela morreu de ataque cardíaco mesmo, é menos dramático.

Gaara riu, baixo, e concordou, moveu o notebook na direção de Ino para que ela achasse então a música correta e se contentou a observá-la enquanto isso. Gostava de vê-la rindo, parecia natural tê-la alegre e não com o humor abatido que tinha visto ao se aproximar no set. Ela era como o sol, destinada a brilhar, e por isso era impossível não se sentir incomodado quando essa luz diminuía. Os olhos dela brilhavam enquanto percorriam a tela do notebook, e a pesquisa foi rápida, como se ela já soubesse exatamente onde o vídeo estava. Ela virou um pouco o notebook, de modo que os dois pudessem ver melhor a tela, e foi inconsciente aproximar o puff do dela.

— Essa é a apresentação inteira, mas o áudio da música está muito melhor que na versão cortada — ela explicou inconformada, e Gaara achou divertido o modo como a boca leve fazia um leve bico enquanto ela arrastava o cursor até a parte certa da apresentação. — Aqui, acho que essa parte poderia ajudar nas sensações que você falou.

Enquanto o vídeo desenrolava, ele anotou o trecho e as sensações para que pudesse apresentar a Konan depois. Ino parecia focada, quase que admirada.

— Gosta dessa obra? — perguntou, curioso.

— Apesar da burrice de Giselle, sim, adoro, é a minha preferida.

— Pensei que todo mundo preferisse Lago dos Cisnes.

— Lago dos Cisnes é bom, mas eu tenho um carinho muito grande por Giselle, foi a primeira apresentação que vi quando pequena, foi o que me fez querer ser bailarina. Por isso a audição é tão importante para mim, eu daria tudo por esse papel, embora já saiba que provavelmente não vou conseguir.

— Por que acha que não vai conseguir? — ele perguntou, o cotovelo apoiado na mesa para que a mão servisse de suporte ao rosto enquanto olhava Ino.

— Digamos que não depende só de mim — ela preferiu responder, o clima estava agradável demais para estragá-lo com seu drama pessoal.

Ele concordou, parecendo entender que ela não queria tocar no assunto.

— Posso te mostrar as roupas? — perguntou ao se levantar. — Só preciso que dê uma olhada para acharmos um que combine mais com a música. Mais tarde, Konan enviará alguém para saber se há necessidade de ajustar alguma roupa ou trocar alguma parte do conjunto.

— Tudo bem!

Gaara foi na frente, e foi impossível Ino não reparar no quanto estava se sentindo melhor só naqueles poucos minutos. A conversa com Hanabi a tinha desestressado um pouco, mas Gaara era como um amuleto que sugava todas as más energias, sentia-se confortável com ele, quase como se fosse natural. Mordeu o lábio com o pensamento... Se fosse no curso pré-vestibular ou em qualquer outro lugar, até podia se dar ao luxo de tentar alguma coisa com ele, mas ali, cercada de tantas garotas maravilhosas, era como se toda a confiança que por anos vinha timidamente cultivando se esvaísse. Havia voltado à adolescência e não gostava nada desse sentimento.

Gaara era o seu tipo: gentil, educado, focado no que precisava fazer. Era bonito também e parecia prestar atenção nela, já havia reparado como ele parava de digitar ou de mexer no celular enquanto conversavam, e esses pequenos detalhes somavam muito no conceito que fazia dele. Se fosse numa festa, na rua, um amigo que Sasuke ou Neji tinham lhe apresentado, se fosse em qualquer outra ocasião!, nossa, ela com certeza já estaria com o seu melhor sorriso e, no mínimo, com o telefone dele no celular. Mas aquele lugar a deixava tensa, era difícil andar com a cabeça erguida e segura de todas as suas filosofias quando tudo o que via ao redor eram modelos ao melhor estilo Barbie.

Observou a agilidade com que ele separava os cabides, os figurinos provavelmente decorados. Gaara deixou três à parte e então abriu o zíper de cada uma delas.

— A proposta é divulgar a marca — ele explicou ao retirar as capas que protegiam as roupas. — É uma empresa responsável por distribuir artigos esportivos, muitos deles relacionados à arte, como ballet e jazz por exemplo. Eles mandaram os novos produtos dos catálogos Luxo e Performance, e é com eles que faremos as fotos. O que diferencia os modelos novos da linha Clássica são as cores e principalmente o os detalhes na costura, design, tecido. Cada collant vem junto com uma meia calça específica, uma saia com corte diferente e uma sapatilha de meia ponta. Um dos responsáveis pela campanha vai vir falar com você sobre as sapatilhas de ponta depois.

— São lindos — Ino falou ao tocar o collant preto rendado. — E devem ser bem caros...

Gaara sorriu ao cruzar os braços e retirar o modelo azul petróleo de alças do cabide. Havia gostado daquele e já havia o separado por combinar com a iluminação que tinha em mente para as fotos mais delicadas e tristes. Estendeu-o para Ino, ela o olhou antes de pegar o collant e reparar melhor no modelo.

— Como representante da campanha, você vai ganhar alguns itens da coleção — ele explicou, o brilho nos olhos de Ino era algo que gostaria de manter e vê-la sorrir mais animada ao olhar para os modelos fez com que se sentisse levemente vitorioso.

— Não brinca... — Ela olhou para as demais roupas expostas nos cabides.

— As que ficarem melhores nas fotos ou as que você escolher — ele garantiu, e viu Ino morder o lábio animada enquanto pegava os outros modelos para analisar com entusiasmo, que diminuiu quando os olhos azuis caíram bem sobre a peça que Gaara tinha feito questão de deixar por último. Konan estava certa, mas ele não deixaria isso atrapalhar nem seu trabalho nem a felicidade espontânea que via em Ino. Colocou-se na frente dela de forma natural e segurou o modelo que ela ainda tinha em mãos, chamando atenção para si ao tocá-la. — Quer experimentar esse?

Ino estreitou os olhos e arqueou a sobrancelha em seguida enquanto sorria divertida.

— Não ia só me apresentar aos figurinos hoje? — ela perguntou, e a expectativa de experimentar um conjunto daqueles a fez esquecer de qualquer outra coisa.

Gaara deu de ombros, em falso descaso, e Ino o viu se aproximar e inclinar o corpo com um sorriso de canto discreto enquanto lhe respondia:

— Eu não conto se você não contar.

Ah.... Ino suspirou, por que ele tinha que ser tão perfeito? A mão dele tocava as suas com um toque suave, a expressão serena e a falta de malícia na voz a encantavam, era como se ele simplesmente fosse... um príncipe encantado, e ela odiava gostar tanto disso. A respiração ficou pesada quando se deu conta do coração acelerado, o olhar intenso que recebia a fazia se sentir bem, bonita, e de repente a vontade de vestir o collant foi unicamente para saber o que ele acharia, como ele a veria. E foi com esse pensamento em mente que ela sorriu com certa confiança.

Se tinha um momento em que acreditava totalmente em si, em que se lembrava do quanto era bonita, era enquanto dançava, enquanto vestia roupas como aquelas, embora nunca tão caras. Ergueu a cabeça, vendo Gaara a observar com curiosidade enquanto ela encurtava ainda mais a distância deles.

— Feito, vai ser o nosso segredo, então — ela sussurrou e soltou a mão dele sem pressa, sentindo os dedos dele escorregarem nos dela enquanto pegava o collant e o restante do conjunto.

Olharam-se, como se pela primeira vez de fato percebessem uma estranha energia os envolvendo. As palavras tinham sido simples, mas a atitude e a resposta de Gaara a ela não. Ele a olhava com certa adoração, sem saber disfarçar, e Ino gostava ao mesmo tempo em que não entendia. Sentia que precisava mergulhar nos olhos verdes dele para conseguir entender o que tanto ele via nela para que a observasse sempre com tanta atenção. Só que mergulhar ali era perigoso, sentia-se tragada por aquele olhar como tinha acontecido durante os ensaios com a câmera e entendeu que, talvez, não fossem as lentes que a seduziam durante os ensaios, mas sim aquele olhar, aquele fascínio que Gaara direcionava a ela e a desestabilizava.

Corou quando se fez consciente do próprio pulso, estava nervosa porque reconhecia que, naquele momento, o fotógrafo a atraía, e não parecia não ser algo unilateral. Sorriu, desviou o olhar antes que tudo ficasse ainda mais estranho e sussurrou que iria trocar de roupa.

Gaara piscou, aturdido, ouvindo os passos de Ino se distanciarem até o provador. Olhou na direção em que ela tinha desaparecido e bagunçou os cabelos. Tinha que se focar no trabalho, só nisso, não podia perder o foco! Não podia perder a cabeça... mesmo que Ino fosse linda, ainda que pudesse jurar que ela não o afastaria caso resolvesse fazer algo sobre a tensão que tinham criado segundos atrás, mesmo que ela fizesse agora todo o resto parecer menos importante e, principalmente, mesmo que ela estivesse ainda mais linda do que podia imaginar que ficaria ao sair do provador.

Certo, estava perdido, realmente perdido...

Notas finais
E aí, amados! Gostaram? Eu amo demais Gaaino hahaha Ah, seguinte, teve um pessoal vindo falar comigo preocupado com as postagens. Por enquanto, pretendo manter as postagens semanais (tenho mais quatro capítulos prontos e, até esgotar esses, pretendo ter pelo menos mais dois, ou seja, vai demorar umas seis semanas ainda para ter alguma mudança SE HOUVER. Mas, caso aconteça, não se preocupem, as postagens serão no máximo quinzenais, ok? E isso é algo a se preocupar só lá pro capítulo 20-22, então podem respirar sem medo. Além disso, eu adiei a minha shorfic SasuNaru para não atrapalhar as postagens aqui, a faculdade tá meio apertada e eu prefiro não me lotar de fics porque, se vocês ficam ansiosos e agoniados com a demora dos capítulos, vocês não têm noção de como eu fico, me dá um nervoso que só pelos deuses hahahaha Enfim, era isso! Espero que tenho gostado, Beijinhoss ♥