Dia seguinte, vila das servas.

– Mas Leyla, por favor! – o rapaz implorava, quase de joelhos.

– Eu não posso fazer nada, senhor Milo. Nenhuma das minhas servas se sujeitaria a cuidar da casa de Câncer! – a senhora já de idade avançada dizia – Não depois de tudo o que aquele cavaleiro fez!

– Mesmo assim, você pode mandar que alguma vá! – agora sim ele caiu de joelhos perante à senhora – Athena me mandou aqui especialmente para isso, não posso falhar!

– Eu sinto muito – ela respondeu bagunçando os cabelos do rapaz de maneira maternal – Não posso forçar serva alguma a trabalhar para alguém, é como o nosso sistema funciona.

– E porque não mandar a brasileira? – uma voz feminina sarcástica se fez ouvir.

– Você diz a Sarah? Mas ela está aqui a poucos meses! Além de ser pouco esforçada – a senhora respondeu já descartando a ideia.

– Mas ela é a única que não sabe sobre as últimas servas de Câncer – a moça disse, passando um braço ao redor dos ombros da senhora – Então ela também vai ser a única a aceitar o trabalho.

– Eu... – Leyla olhou da moça para o cavaleiro sem saber o que fazer.

– Ela será perfeita, tenho certeza! – Milo segurava a mão da senhora quase chorando.

– Certo! – Leyla aceitou por fim, livrando-se dos dois que a cercavam e já se distanciava quando disse – Vai lá chama-la, Mel! Tenho que cuidar de outras coisas.

– Sim, senhora – Mel trocou um olhar matreiro com o escorpiano e sumiu por entre as pequenas casas que serviam de moradia aos que serviam o Santuário.

Quanto ao cavaleiro, ele apenas se ergueu e limpou a terra de sua armadura. Tomando a expressão de superioridade e escárnio que sempre carregava e voltou para a sua casa como se nada tivesse acontecido. Missão comprida.

Casa de Câncer, mais cedo no mesmo dia.

Aioros percorreu o mesmo caminho que sua deusa havia feito no dia anterior, amarrou a faixa vermelha que usava na testa em torno do nariz, mas nem assim o cheiro amenizou. Encontrou o cavaleiro de Câncer da mesma maneira de antes, só que ao invés de ligar a luz e chama-lo, Sagitário foi até os fundos da casa, encheu um balde com água fresca e despejou sem cerimônias sobre o cavaleiro adormecido. Máscara deu um pulo e acordou com o cosmo alterado, quase partindo para cima do outro não fosse a pontada fria que sentiu na garganta. Quando sua visão obteve foco, pôde enxergar o companheiro de armas com uma flecha em seu arco mirada em seu pescoço e pronta para atirar.

– Você tem cinco minutos para se aprontar ou te arrasto de cueca mesmo!

Máscara da Morte apenas engoliu em seco e concordou, dando um sorriso forçado e amarelo.

– E por Athena, escove os dentes! – Aioros bufou e saiu dali, indo esperar o companheiro fora da casa malcheirosa.

Menos de cinco minutos depois, ambos desciam as escadarias e se encaminhavam ao campo de treino dos discípulos. Aioros entendia que Athena quisesse colocar seu cavaleiro no lugar, mas deixa-lo cuidar de jovens? Que raios de exemplo ele seria para a próxima geração? Não bastasse todos os inocentes que matou por puro sadismo, agora que voltou a vida se dedica apenas a se autodestruir. Definitivamente não era uma boa imagem a se passar.

Na Casa de Câncer, uma hora mais tarde

As três mulheres torciam o nariz diante do corredor que levava aos quartos.

– Certeza que eu sou a única disponível para o trabalho? – Sarah perguntou com um pouco de ânsia.

– É sim, a única – Mel disse dando de ombros.

Leyla limitou-se a concordar com a cabeça com pena da jovem.

– Então tá – ela entrou no corredor com desanimo indo dar uma olhada geral no seu novo local de trabalho, voltou com a pior das caras – Posso queimar tudo e mobiliar de novo?

– Tão ruim assim? – Mel perguntou

– Pior.

– Eita.

– Sinto, criança, mas não pode. Agora trate de ir para a cozinha e encontrar seu novo quarto – Leyla disse com certa compaixão.

– Sim, senhora – Sarah fez uma leve mesura antes de ir por uma porta contraria à do corredor em busca do cômodo

– Pobre menina – Leyla já refazia seu caminho para a vila com Mel em seu encalço

– Pobre nada, não morrendo já está bom.

– Cuidado com o que diz, ela pode ser uma péssima serva e não servir para lutar, mas não é má pessoa.

– Se não é útil então de nada vale –Mel disse

Leyla ficou quieta. Não tinha como argumentar com aquela garota.

Enquanto isso, dentro da casa.

Sarah deixou suas coisas em um canto da cozinha enquanto desbravava o que deveria ser o quarto destinado a ela. Ficou chocada. Tinha uma cama velha sem colchão, uma mesa simples desgastada e um armário velho, o problema era quantidade de lixo acumulado naquele lugar. Eram sacos e mais sacos de restos e outras coisas de origem discutível, sendo que uma boa quantidade de lixo estava apenas jogada no chão, como se o próprio quarto fosse um lixão. Ela deu um passo para dentro e foi pegar o saco mais próximo quando se mexeu e pulou em sua direção.

– AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH – ela berrou em pânico saindo correndo dali e batendo em algo maciço.

Ia cair no chão se não fosse firmemente segurada pela cintura. Abriu os olhos e deu de cara com um rapaz de cabelos castanhos aloirados e um par de íris extremamente verdes, ele a encarou com um tom de interrogação. Ela já ia tentar responder quando olhou para o quarto e viu seu atacante sair dali e se pendurou no pescoço do cavaleiro com outro gritinho, ele apenas corou com aquilo ainda a segurando.

– Tudo isso é por causa de um rato?

– Ele é que começou! – ela respondeu, agarrada à ele.

O cavaleiro suspirou e se soltou da moça, enxotando o rato para fora da casa.

– Certo, agora pode me explicar o que faz nessa casa, moça? – o rapaz perguntou.

– Você é que é o guardião de Câncer? – ela devolveu apontando para a armadura dourada que ele trajava.

– Não, sou o vizinho de cima. Agora responda a minha pergunta. – ele disse cruzando os braços.

– Ah – ela pareceu realmente desapontada com aquilo – Eu sou Sarah, a nova serva dessa casa.

– Não tente me fazer de idiota! – ele a segurou pela alça do vestido que usava e colocou contra a parede, ligeiramente próximo – Câncer nunca teve servas em sua nova vida, disse claramente que não queria uma!

– E-eu juro que é verdade! São ordens de Athena! Você lá acha que eu estaria nessa casa podre se tivesse escolha? – por mais intimidador que o outro fosse, odiava ser chamada de mentirosa.

– Tem lógica – ele considerou.

– Então dá para me soltar?

– Oh, claro. Desculpe-me – ele disse a soltando e recuando alguns passos – Sou Aioria de Leão, se precisar de ajuda ou se... o seu novo chefe tentar fazer algo, é só me chamar.

– Nossa, ele é tão ruim assim? – ele apenas afirmou e ela fez um muxoxo – Bom, que seja, melhor eu arrumar meu quarto antes que ele volte.

– Certo...

Ela entrou no quarto de novo e saiu arrastando dois grandes sacos de lixo. Aioria apenas assistiu sem saber bem para onde ir, ela voltou e um gritinho se ouviu. Ele suspirou e foi ao resgate da moça que se encontrava encima da mesa enquanto uma imensa ratazana perambulava.

– Mas que monstro é esse?

– TIRA ISSO DAQUI! – ela parece à beira de um ataque de nervos.

Ele estava com tanto nojo quanto Sarah, mas o fez e depois a ajudou a descer da mesa.

– Acho melhor eu ficar, uma coisa dessas ainda vai te engolir.

– Meu herói – ela o abraçou pela cintura e os dois ficaram ali por alguns instantes para se recuperarem do susto – Agora, de volta ao trabalho – ela resmungou e voltou a tirar sacos e mais sacos.