Notas iniciais
NÃO leia se não conseguir, aviso de amiga.
Recomendo ouvir essa música enquanto leem: https://www.youtube.com/watch?v=jhdIu-oDHVU

Não sei como começar uma história, realmente não sei; começar com "Era uma vez' é muito clichê, porém de qualqueroutra maneira é muito complicado de juntar os fatos, por isso eu sempre começo assim:

Sou uma pessoa. Não preciso de definição, apenas dizer que sou uma pessoa já está bom. Mas, se quiser, pode dizer que sou do sexo feminino.

Algumas vezes tenho vontade de morrer, mas não aquelas vontades que você pensa que quer se tacar de uma ponte e depois fica pensando como sua vida vale a pena e desiste já na beira do precipício, não. Eu sou depressiva, emo, antissocial, disléxica e tenho todo o tipo de problema que se possa imaginar, além de ser vítima de bulling atodo momento por culpa do meu cabelo estiloundercut, por metade de meu cabelo ser azul-esverdeado, por só usar manga comprida e jeans negros, ter piercings, tatuagens e alargadores, ser alta, morena, muito magra e reta. E essa sociedade de merda não aceita isso como algo normal.

Acabei dando um pouco de minhas características físicas, mas eu realmente se que ninguém se importa, que eu também não me importo. Esse é o real motivo de eu estar contando essa história: Eu não tenho problemas com os outros, os outros tem problemas comigo. Todos os finais de dia da minha vida já tiveram tentativas fracassadas de suicídio. Já enfiei uma arma na boca, estava prestes a encontrar me paraíso quando minha mãe entrou no quarto e me impediu, me abraçou e chorou litros de água salgada.
Chorei com ela, mas não de alívio, me lugar realmente não é nesse mundo, nem com ela, nem com ninguém.

Algumas pessoas podem até dizer que é uma fase, que passa, que tem remédio, tem cura ou solução... Mas não tem. Eu tomo cinco remédios diferentes, faz sete anos desde que comecei e ele nunca fizeram efeito.

Voltei pra casa a alguns dias atrás, com vontade de enfiar um machado no pescoço e enterrá-lo até que minha cabeça rolasse pra fora do corpo sendo seguida pro ma cachoeira de líquido vermelho fosco.. Mas não tenho força, não consigo nem fazer cortes decentes em minha pele, consigo apenas uns arranhões que sangram um pouco.

Estou em meu quarto, sentada no canto, pensando como seria linda a morte, pelo menos seria melhor que viver minha vida todo o santo dia... Pensando bem, qualquer coisa é melhor que minha vida.

Pego os únicos objetos presentes e importantes na minha mesa: Amarro o elástico na união do pulso com a mão em um nó cego e apertado, seguro o outro objeto na mão oposta. A pequena lâmina balança entre meus dedos, uma sensaçãoboa corre em minhas veias, e está pronta pra sair.

O estilete corta minha pele como manteiga. Uma das vantagens de ter a mãe médica é poder ter qualquer objeto cortante sempre afiado como uma katana*, além de sempre estar esterelizado, mesmo este sendo o menor dos meus problemas.

Minha cama sempre foi suja, mas a alguns anos atrás ela começou a manchar de gotas, muitas gotas: Sangue, suor e lágrimas; não necessariamente nessa ordem. Eu suo de preocupação, choro de medo e sangro por vontade própria. É uma dor boa, como um calafrio. Me faz me sentir bem, me faz me sentir viva.

Vejo o líquido carmesim pingando do estilete, escorrendo de meu pulso, caindo de meus dedos e indo em direção ao chão, onde tudo acaba em uma pequena poça deformada.

Tenho meu corpo todo marcado, marcas de suicida. Meus ombros, calcanhares, braços, pulsos, coxas e pescoço são cobertos de cicatrizes de vários momentos da minha vida de merda.
Entre minhas costelas há uma marca de bala, já quase totalmente cicatrizada.
E minhas costas são lotadas de marcas roxas, queimadoras, ralados e outras coisas por diferentes razões. Por que não fazer mais algumas?

Já tentei de tudo: desde pílulas até enforcamento... Mas acaba que minha situação sempre piora. Eu já cansei disso, quero que pare, quero que acabe.

Ganho força e afundo a lâmina dentro da minha veia e vou movendo a mão na vertical, do pulso em direção ao cotovelo, formando um "T" na parte interior de meu antebraço.

Repito o processo no outro braço, nunca sai tão bom quanto, mas a questão não é de beleza.

Meu sangue deveria ser negro como graxa de tantas as vezes que ele escapou de mim, mas como não é, me contento em observá-lo e apreciá-lo jorrar e encharcar tudo ao meu redor, sussurrando a mim mesma: "Finalmente", já caída no chão quase inconsciente.
Lanço o estilete contra a parede e ele a suja um pouco, logo depois cai no chão com um som metálico.

Tinha dito que não sei começar uma história, e é verdade, mas terminá-la é muito diferente, e muito mais fácil. Eu sempretermino minhas histórias assim:

Apenas um suspiro, é assim que sempre termino, num farfalhar de voz que quase não mais me habita, murmurando: "Ainda bem que deu certo".

Notas finais
Obrigada, todos os que tiverem se reconhecido na minha personagem, por favor NÃO SE MATEM!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!