Não me deixe ir
30 Capítulo 30 - Confiança
Notas iniciais
Não me deixe ir
30- Confiança
Dias se passaram desde o pequeno problema com Louis e seu pai. Sam andou pelo Bunker como se tivessem tirado um filhote de cachorro dele (essa era a visão de Dean).
Ele e Castiel bem tentaram o animar: Castiel querendo achar metáforas em revistas as quais comprava na banca de jornal, e Dean entupindo o irmão com comida e álcool. Nada funcionou. E mesmo que Sam apreciasse as tentativas deles, tirar essa saudade não era a solução, tão pouco o que queria.
Ignorados esses assuntos na melhor maneira Winchester de se lidar com a vida, tudo parecia de volta nos eixos.
Kevin lendo a tábua e a traduzindo, Castiel o ajudando, enquanto Sam e Dean procuravam por casos aqui e ali, fazendo o de sempre.
Até que veio o fim daquela tarde, e as paredes que Dean havia construído ao redor dele e da sua família começaram a cair.
Na quinta-feira, Castiel havia saído há algumas horas, dizendo que precisava ir a cidade retirar alguns livros da biblioteca. Claro, isso tudo era normal agora, mas desde o que aconteceu com Rick e Louis, Ezekiel vem aparecendo mais e mais, tomando o lugar da consciência de Sam e salientando a cada segundo como a sua presença estava ameaçada.
Dean aguentou a ladainha do anjo, porque de fato, era apenas isso: uma criança grande emplumada que não entendia nada da vida reclamando sem parar. Mas talvez Dean devesse ter dado mais ouvidos a ele.
Tinha um trabalho a ser feito não muito longe do Bunker. Mortes em explosões, olhos queimados, tudo parecia estar ligado aos anjos. Dean xingou mentalmente quando Sam descobriu o caso.
Ele não avisou a Castiel sobre o teor da caçada, afinal ele ainda estava fora comprando seus livros e também, bom, Dean não o queria nem a um quilometro de distancia perto de problemas envolvendo anjos.
Sua sorrateira saída, porém, fora frustrada no momento em que a porta da frente de abriu, e Dean bufou ao ser questionado pelo moreno.
– Dean, que trabalho é esse?
Dean já estava com a mochila em suas costas andando na direção da garagem, desviando o olhar dele ao responder.
– Ah, não sabemos ainda, Cas. Mas seria bom você ficar aqui e ajudar a pesquisa do Kevin.
– Tem certeza? Eu poderia-
– Tenho sim, Cas. Você tem devorado todos os livros desse lugar, então vai ser bem mais rápido com você aqui se nós precisarmos de alguma coisa entende?
Havia uma forte pressão na voz de Dean, como se ele quisesse impor de uma maneira sutil que não queria a presença do ex-anjo no caso. Não seria a primeira vez que Dean o faz – e com certeza não seria a última.
No entanto ajudar Kevin com a pesquisa era algo que Castiel poderia muito bem fazer, e começar uma briga com Dean estava fora de cogitação, pois elas sempre se alastravam por dias devido ao forte temperamento do caçador.
– Compreendo. – Castiel concordou, por fim — Nesse caso eu fico feliz em poder ajudar de outra forma.
Tentando não parecer aliviado, o loiro deu meia volta sem nem se despedir direito, quase correndo para o carro e ficando calmo apenas quando pegou no volante e saiu do Bunker, vendo o cenho franzido de seu irmão e o ignorando.
O que Dean estava fazendo o corroía por dentro. Ele tinha entregado a Cas uma grande parte de sua confiança, para depois abusar da fé que o ex-anjo tinha nele ao mentir – outra vez – sobre o que estava acontecendo.
Não tinha mais jeito... Dean precisava encontrar alguma maneira de contar a ele e a Sam sobre Ezekiel.
(...)
– Então, ele está melhor?
Dean pergunta após as primeiras horas de viagem no carro, onde Ezekiel tomou o lugar de Sam pelos últimos quilômetros. Dean só precisava ter um tempo sozinho com o anjo longe do Bunker e dos demais para saber como andavam as coisas, porque toda essa situação já estava ultrapassando o limite do suportável. Ele só queria se livrar de Ezekiel o mais depressa possível.
O anjo olhava pensativo para além da estrada, virando o pescoço sem encarar Dean:
– Sim. Sam teve grandes melhoras. Não deve demorar tanto agora.
– Okay, você sabe que me disse a mesma coisa semana passada, certo?
– Como eu te disse ao nos conhecermos: isto irá levar tempo.
Dean bufa em frustração, visivelmente impaciente;
– Okay, bem, faça. Cure. Eu quero o meu irmão de volta, por favor.
– Devo dizer, Dean, estou muito desconfortável com esta viagem. Investigar crimes que envolvem anjos, ou qualquer coisa envolvendo anjos, coloca a mim, e por conseguinte Sam, em risco.
– Bom, negócio da família, Zeke, okay? Se nós ignorarmos isso, Sam vai pensar que tem algo errado acontecendo.
Ezekiel fica quieto por alguns instantes, respirando fundo antes de ponderar:
– Então eu confio em você para ser discreto.
Meneando a cabeça Dean continua a dirigir, tencionando a mandíbula aqui e ali, até que uma pequena revelação daquela conversa pisca em sua mente.
– Espera, se você sabe para onde estamos indo, quer dizer que você tem ouvido a gente. Você está—Está escutando tudo entre mim e Sam?
– Não, só uma palavra aqui e ali. Eu tenho coisas melhores para fazer do que bisbilhotar, como curar seu irmão – ele aponta, e Dean quase engasga.
– Okay, porque é o seguinte...
Sem Dean perceber os olhos de seu irmão brilham num azul intenso. Ezekiel apenas os deixa a sós como antes, e Sam começa a falar o mesmo assunto do qual discutia com Dean antes de ser interrompido pelo anjo:
–... sabe, eu vou te dizer, tudo parece muito quieto, sabe? Nenhuma aparição dos anjos, até aquele padre na televisão que estava recrutando pessoa para serem receptáculos de anjos saiu do ar.
Abrindo e fechando a boca, Dean se ajusta desconfortável no couro do banco, estalando o pescoço e respirando fundo para se ajustar a súbita mudança no padrão da conversa.
– Obviamente, a calmaria antes da tempestade. – Dean comenta, pigarreando.
Não convencido, Sam dá de ombros.
– É, talvez.
A visão do mais novo dos Winchesters cai na estrada outra vez, vendo as placas além do asfalto e notando algo estranho – até mesmo para eles – que o faz franzir o cenho em confusão.
– Que foi? – Dean pergunta desviando o olhar da direção por um segundo.
– Aquela placa dizia “Fort Collins, 50 quilômetros”.
– E daí?
– Daí, que da última vez que eu olhei, tipo, doze segundos atrás, uh, Fort Collins estava há cem quilômetros.
Procurando nos poucos instantes que tinha, Dean encontrou a melhor desculpa dentro do último caso que tiveram enfrentando a deusa Vesta, que quase matou os dois.
– Bom cara, desde que aquela deusa quase te estripou, sabe, você—
– Não, isso é maior que Vesta! Quer dizer, este tipo de coisa vem acontecendo comigo. Como, como se tivesse períodos de tempo que estão... Perdidos. Como se eu não estivesse lá nessas horas.
– Bem, como eu disse—
– Sim, os testes. Eu te ouvi. Eu te ouvi quando você falou isso semana passada, e na semana antes disso, e na semana antes.
– É, porque... Com certeza os testes. Eles te ferraram, cara. Você ainda não ‘tá na velocidade máxima, okay? Mas você vai ficar. – ele para e encara Sam por um instante, sorrindo – Eu mentiria?
Sam o olha de volta, mas nada responde, tornando a observar a escuridão fora do carro.
(...)
Andando a ermo pelo Bunker, Castiel segurava um jornal entre as mãos e uma caneca de café na outra, apreciando essa bebida mais do que qualquer outra. Ele havia dado um tempo das leituras de livros, uma vez que ainda era cedo. Nessa hora, sentiu o telefone em seu bolso vibrar.
Dean – 10:29 am.
Chegamos. Vivos. Indo ‘pro motel.
Um pouco mais aliviado, Castiel sentou-se ao lado de Kevin na mesa de estudos, sem notar as expressões confusas do garoto na frente da tela do computador.
– Ei, Cas... Sabe esse caso que Sam e Dean foram investigar? – Kevin fala, chamando a atenção do moreno.
– Sim, o que há de errado?
– Acho que tem a ver com anjos...
Franzindo o cenho, Castiel sai depressa da cadeira e para ao lado de Kevin, olhando as noticias, e consegue unir a lógica das palavras do profeta com as informações ali dispostas. Realmente, tudo indica algum ataque angelical – e dos grandes. Estranho que os irmãos não tenham notado isso logo de cara.
Se bem que conhecendo Dean como Castiel conhecia, o caçador ia querer investigar de perto todas as alternativas e ter certeza do que estavam lidando. Seria bom ligar para ele e dizer o que achava sobre o caso... Sim, seria o certo a se fazer.
Mas por outro lado, Castiel não conseguia parar de pensar nos anjos, na sua própria parcela de culpa em tudo o que estava acontecendo na Terra com eles.
Respirando fundo, ele vai ao seu quarto começando a procurar entre o armário de Dean os inúmeros uniformes que ele possuiu, achando o terno barato e a antiga carteira do FBI que ele havia feito para o moreno, anos atrás.
Ele ia compreender claro, as suas razões para ter de ir até lá e ver esse caso de perto.
(...)
Dean e Sam concordaram em passar as primeiras horas da tarde juntando os pedaços da investigação policial. Ainda havia muito a se fazer na cena do crime, por isso eles puderam ir com mais calma.
O que eles não esperavam era um dos policiais locais dizendo que o outro parceiro deles estava à espera.
Entreolhando-se com uma pequena desconfiança, os irmãos entraram no bar de motoqueiros de estrada, vendo a destruição e corpos ao redor deles, mas isso não os surpreendeu nem um pouco, mas sim ver quem é que estava li aguardando por eles.
– Ah, meus colegas. – a voz rouca de Castiel diz, afastando-se do policial com quem conversa e parando na frente dos Winchesters.
O peito de Dean bate acelerado quando ele vê Castiel falando com um dos policias, já na cena do crime, usando um terno e gravata – que ele provavelmente pegou do seu armário. Sam, por outro lado, não consegue evitar um meio sorriso.
– Agente. – Sam fala, um pouco divertido com toda aquela situação ao ver Castiel fingir ser um investigador.
E o moreno parece igualmente divertido com Sam que entra no seu pequeno jogo:
– Agente. – o moreno também o cumprimenta.
– Cas, o que você está fazendo aqui?! – Dean o repreende num tom baixo.
– Esse caso, tem a ver com anjos, Dean, eu vi as noticias.
– Mas Cas... – Sam interrompe — Você sumiu antes porque os anjos ainda estavam na sua cola, e ficou no Bunker todo esse tempo para se esconder.
As suposições de Sam não estavam erradas, ainda assim Dean sentiu um pequeno frio percorrer sua espinha. Ele não havia dito a Sam que pedira a Castiel para ir embora do Bunker da primeira vez, tão pouco o anjo sabia que ele havia escondido isso de seu irmão. O cerco em volta de Dean fechava-se cada vez mais.
– Isso mesmo. – Dean interrompe antes que aquela conversa pudesse revelar algo mais — Você ainda é procurado Cas, não é seguro estar aqui.
Franzindo o cenho, Castiel encara Dean ao falar convicto.
– Estou cansado de ficar sentado no Bunker apenas vendo essa... Guerra acontecer diante dos meus olhos, Dean. Se anjos estão massacrando uns aos outros, tenho que ajudar como puder.
Dean revira os olhos, lambendo os lábios ao virar-se para Sam, que apenas dá de ombros, concordando com a lógica do ex-anjo.
Nisso, o moreno entorta um sorriso e diz em alto e bom som aos dois:
– Ei, Cas está de volta na cidade.
Sam ri, enquanto Dean apenas pisca os olhos algumas vezes, incrédulo.
– Sério? Ele—Ele realmente disse isso?
Sam abre um rápido riso, balançando a cabeça e seguindo o olhar reprovador de seu irmão.
Pigarreando, Castiel mostra aos dois a pequena pasta em suas mãos contendo as fotos da investigação, e por hora, Dean apenas permite que as coisas fluam, afinal, o que mais ele pode fazer?
– Estes anjos, uh, eles foram massacrados. – Castiel comenta — Muito mais violentamente do que o necessário.
– Definitivamente foi preciso mais de um assassino para fazer isso. – Sam diz analisando as imagens.
– Um grupo de extermínio? – Dean indaga – Pessoal do Bartholomew?
– Bom, Bartholomew tem uma facção a qual conhecemos, mas isso pode ter sido alguém completamente diferente que não conhecemos. – pondera Sam.
Castiel, então, bate as mãos nos ombros dos dois irmãos, mais do que contente em ter deixado o Bunker e estar na ativa junto deles.
– Bem, quem quer que tenha sido, nós vamos encontra-los.
Indo falar com um novo policial, Castiel se afasta dos Winchesters, e Dean apenas esboça um rápido sorriso.
– “Nós” vamos encontra-los. Ótimo.
Nessa mesma hora, Dean percebe o sutil brilho azulado nas íris de Sam, engolindo seco. Ezekiel não parece nem um pouco satisfeito com essa situação, e nem ao menos precisa dizer algo. De repente, aquela roupa toda ao redor do corpo de Dean parecia o constringir. Ele precisava de uma bebida, e rápido.
(...)
No bar ao qual foram passar o restante da noite revisitando o caso, Dean, Sam e Castiel pareciam nada mais do que velhos amigos divertindo-se após um expediente maçante do trabalho. Por um segundo, eles acreditavam que era simples assim.
– É muito bom sair do Bunker, estar junto com vocês de novo. – Castiel comenta bebericando sua cerveja – Espero que esteja tudo bem por vocês eu ter me juntado nesse trabalho.
– Por que não seria? Você já veio antes com a gente. – Sam indaga, dando de ombros.
– Nada envolvendo anjos, e eu sei que isso pode ser perigoso.
– Nós te asseguramos, Cas.
Segurando-se para não aparentar seu alarme, Dean limpa a garganta, e troca o foco da conversa novamente.
– Quer saber Cas, você tem certeza que quer se meter no meio dessa bagunça angelical? Quer dizer, me pareceu que você estava em paz, ajudando Kevin, lendo os livros, nem um pouco metido com os seus amiguinhos emplumados.
– Ei, uma vez você me disse que você não escolhe o que irá fazer. A missão te escolhe.
– Huh?
– Eu sou parte disso. – Castiel atesta, batendo sua cerveja na de Dean – Goste ou não.
Aquela conversa toda apenas deixa Dean ainda mais apreensivo. Não apenas se tratando do fato de Castiel estar no meio de um trabalho infestado de anjos, mas igualmente pelo fato de Sam – ou melhor, Ezekiel – ter deixado claro o quão perigosa essa situação é para Cas e seu irmão. Nada bom, nada bom mesmo.
– Certo. – Sam diz, ajeitando-se na cadeira – Nesse caso, nós temos que que descobrir, uh, contra quem estamos lidando, o que querem, e como os paramos.
– Bem, Bartholomew quer reverter o feitiço de Metraton. – Castiel comenta – Presumivelmente para retomar o Céu uma vez que seus seguidores forem muitos. Isso de acordo com Aprill.
– Aquela ceifeira que você pegou.
Dean interfere na conversa, achando um tópico o qual ele possa os tirar daquela discussão tensa. Não que se lembrar de Aprill e Castiel fosse sua melhor opção, mas uma vez que o assunto surgiu, porque não aproveitá-lo?
– Sim, e que você esfaqueou. – complementa o ex-anjo.
– É. – Fazendo uma pausa um pouco desconfortável, Dean enverga os lábios para baixo – Ela era gostosa.
– Muito gostosa. E muito gentil.
– Hmm.
Os dois parecem imersos nas lembranças daquele dia, perdidos entre sensações misturadas de nostalgia, apego e tudo o mais que se sucedeu depois disso. Até Castiel quebrar o silêncio reflexivo deles:
– Gentil até o ponto em que ela começou a me torturar.
– É, bom, nem todas as noites são perfeitas. – Dean bate de leve no ombro do moreno, demorando a mão um pouco ali.
– Acho que já aprendi isso.
Replica, e Dean não pode evitar esticar os lábios, parando o olhar sobre os azuis safira do moreno, achando o pequeno jogo insinuativo entre eles interessante.
Apesar de Sam achar graça da troca de gracejos dos dois, há um limite para tudo, e ele apenas limpa a garganta antes de falar:
– Okay, vocês dois podem parar de flertar na minha frente?
– Nós não estamos flertando! – Dean rebate um pouco desconfortável, mas ainda sorrindo.
– Certo. Eu vou pegar outra rodada ‘pra gente.
Castiel segura o gargalo das garrafas antes que Sam se levante.
– Nah, eu faço isso.
Pulando do banco onde estava, o moreno ajeita um pé na frente do outro, já sentindo os leves impactos da bebida.
– Mm, sabem, eu nunca fiz isso antes.
Ele diz entusiasmado ao caminhar ao bar para pedir novas bebidas. Dean apenas suspira o observando, balançando a cabeça devagar.
– Uma cerveja e ele já está alto.
No mesmo instante em que Castiel se afasta os olhos de Sam brilham, e Dean já sabe que ele vai ouvir mais alguma reclamação do anjo.
– Oh cara...
– Bem, o que vai fazer sobre isso? – Ezekiel indaga inquieto.
– Sobre o Cas?
– Ele é um farol, Dean, trazendo qualquer anjo a quilômetros de distância direto para nós.
– Certo, quer saber Zeke? Me explique. Do que você tem medo?
– Eu te disse. Quando eu decidi responder à sua prece e curar Sam eu escolhi um lado. Isso significa que eu não estou em bons termos com o Céu.
– Okay, bem, quer saber? Cas não está em bons termos com qualquer anjo, okay? Mas ele está aqui, com o traseiro na linha de frente, lutando a luta. Então me diga o que te faz tão especial?
– Aqui está, três cervejas. – Castiel fala retornando à mesa, e a conversa do caçador e do anjo cessa.
– Eu vou pegar uma coisa no carro.
Ezekiel se levanta, não querendo causar nenhum alarde em Castiel, e de certa forma aliviando um pouco da pressão em Dean. Porém ele sabe que o caçador está chegando perto, que ele está tendo mais suspeitas do que antes.
Saindo pela porta traseira do bar e parando no beco atrás dele, Ezekiel respira o ar da noite não sabendo mais o que fazer. Ele está encurralado tanto pelas suposições de Dean Winchester, quanto pela sua necessidade de permanecer seguro e escondido. Se os outros anjos soubessem quem ele era, se apontassem o dedo ao que ele fez... Ele não poderia voltar para lá, para a prisão celestial, ele não aguentaria...
– Bem, eu estava mesmo ansioso por isso.
Uma voz baixa e meio esganiçada diz, o assustando um pouco. O corpo robusto de Sam se vira, deparando-se com a figura de um homem baixo, aparentando ter algo em torno dos quarenta anos, usando roupas largas e desengonçadas, com cabelos brancos encaracolados, olhos claros, e um sorriso que pode ser descrito como, no mínimo, mesquinho.
– Desculpe? – Ezekiel indaga, querendo parecer indiferente.
– Oh, por favor. Eu sei quem você realmente é. E não é “Ezekiel”.
O anjo engole seco, enrijecendo o corpo emprestado.
(…)
Dentro do bar Dean e Castiel parecem um tanto quanto desconfortáveis com a repentina saída de Sam, tanto, que até mesmo o moreno notou que esse comportamento era estranho. Limpando a garganta, ele comenta:
– Eu, uh, Eu notei que você parece... Desconfortável sempre que Sam menciona a minha saída do Bunker meses atrás. Ele não sabe que você me pediu para ir?
Abrindo e fechando a boca, o caçador já está completamente perdido nas próprias mentiras, sem entender ao certo por onde começar, o que fazer, se deveria revelar alguma coisa a Castiel. As duvidas eram tantas, o ódio sobre si mesmo por temer confiar em Cas...
– É o seguinte. – ele começa, optando pelo caminho mais simples – Quando Sam terminou os testes para selar o Inferno, isso o devastou. Okay? O terceiro teste quase o matou. Se eu tivesse o deixado terminar, ele teria morrido. Ele ainda está muito ferrado.
– Você disse que o anjo Ezekiel o curou.
Os olhos de Dean voltam-se para sua cerveja, evitando a questão.
– Olha, eu preciso fazer de tudo para ter o Sam inteiro de novo. Agora, se isso significa te deixar de molho no Bunker, distante das caçadas e dos anjos, bem... Eu não tenho escolha. Eu não me sinto bem com isso, mas eu não tenho escolha. É ótimo ter sua ajuda Cas...
Dean quase avança com sua mão sobre a mesa, querendo cobrir a de Castiel, porém antes que o faça ele a retrai, milímetros de distância da pele dele, continuando a falar.
– Mas é só... Com o perigo dos anjos se aproximarem de nós por cause de você, bem... Isso significa que não podemos trabalhar juntos.
Cas pisca apenas uma vez pairando a visão sobre as mãos quase juntas deles, sem esconder o timbre cabisbaixo ao falar:
– Você está dizendo que eu devo ficar no Bunker? Para Sempre?
– Não é... Para sempre, caramba! Só, uh... Ao menos até termos parte dessa merda com os anjos descoberta, okay? Estou falando do meu irmão e do meu— Bom, do meu—Urg, você sabe. Vocês têm de ficar seguros.
– E você?
– Eu o que?
– Você não acha que deve ficar seguro também?
– Cas, minha situação é diferente.
– Por quê?
– Porque eu não acabei de ter uma experiência de quase morte, nem sou um imã de anjos!
Fitando Dean e as palavras verdadeiras e duras dele, Castiel nada mais pode dizer, baixando os ombros em derrota, olhando para as luzes do bar e se lembrando de uma época em que bastava um toque de suas mãos sobre a cabeça de um inimigo para pulverizá-lo. Agora, ele só servia para atrair problemas.
– Merda... – Dean pragueja, vendo cada uma dessas sensações percorrerem nos olhos do ex-anjo – Não foi o que eu quis dizer, Cas.
– Eu sei, Dean. Eu só... Só queria ser mais útil.
Dessa vez Dean não se reprime, escorregando os dedos sobre as juntas fechadas do punho de Cas e os apertando.
– Você é.
Olhando para ele Castiel tenta dar um sorriso, mas acaba bebendo mais da cerveja. Dean limpa a sua garganta e puxa sua mão, bebericando da sua garrafa. Ninguém fala mais nada, e Dean começa a puxar o rótulo da garrafa, vendo as horas passarem.
– Nós deveríamos voltar ‘pro motel.
Dean fala, já cansado daquela noite que apenas serviu para criar mais problemas, dúvidas, questões. Castiel apenas concorda, deixando o meio frasco de cerveja e pondo as mãos nos bolsos da calça e andando até o estacionamento.
– Onde está Sam?
Castiel indagou ao chegarem ao carro e não terem nenhum sinal dele. Um tanto quanto consternado, Dean apanhou seu celular e apertou a discagem rápida. Não demorou muito para ser respondido.
– Dean.
Veio a voz dura que ele já conhecia como a de Ezekiel.
– Onde você está? – Dean perguntou um pouco ríspido.
– No beco ao lado do bar.
– Eu e Cas já saímos dele, então traz sua enorme bunda ‘pra cá e vamos embora.
– Ainda não posso, Dean.
O loiro piscou uma vez, apertando o celular entre os dedos.
– Como é?
– Prefiro ficar longe de Castiel por mais algumas horas, apenas como garantia de que ninguém está nos seguindo. Mas fique tranquilo, eu irei retornar ao quarto em breve.
– Escuta aqui, eu—
A ligação foi cortada de imediato, e Dean apenas ficou olhando a tela do telefone, praguejando com os dentes rangendo.
– Filho da mãe...
– Algum problema Dean?
Erguendo os olhos ao moreno, Dean engole uma bola de ar, temendo ser pego em meio as suas mentiras, que só cresciam e tornavam a situação quase que insuportável.
– Nada, vamos logo voltar.
Partindo os lábios, Castiel ainda tentou dizer algo mais, porém a maneira tensa com a qual Dean se portava dizia a ele que não daria certo tentar conversar agora. Ele e Sam pareciam estranhos um com o outro, mais do que o normal. E no fundo, o ex-anjo sabia que não tinha condições de se interpor nos problemas deles. Sempre foi assim com os dois irmãos, e, no fundo, isso fazia uma pontada dolorosa cutucar seu peito. Foi como ouvir as palavras de Dean no bar, de que ele não podia ficar junto deles nas missões.
Afinal, de que servia um anjo quebrado, se não para trazer problemas?
Quando Castiel deu por si os dois já haviam chegado ao motel onde Sam e Dean se instalaram. Claro, só havia duas camas, e um deles ia parar no sofá.
– Está com fome? – Dean pergunta, tirando seu blazer – Acho que tem algo no frigobar.
– Estou bem.
A resposta veio quase tão automática quanto a de qualquer ser humano que tenta disfarçar as inquietações internas. Dean apanhou uma nova cerveja, recostando o tronco numa parede enquanto via o moreno remover devagar o seu terno, ficando apenas com a blusa de botões brancas.
Ele parecia... Derrotado, de certa forma, como se não soubesse o que fazer dali ‘pra frente. Dean se lembrava muito bem o quão poderoso Castiel era, usando seus poderes para esmagar anjos, demônios, qualquer coisa que entrasse em seu caminho. Se ao menos eles tivessem essa vantagem do lado deles...
Não, não! Era exatamente por ter dito besteiras como essa que Castiel encontrava-se assim, deprimido. Ele se achava um inútil, um “bebê com um trenchcoat”, e nem mais o casaco bege ele tinha.
Dean sabia que Castiel era importante em muitos outros níveis. Ele dava sustento ao caçador, uma espécie de... Esperança? Não, talvez a palavra fosse forte demais, mesmo para Dean, porém ele não conseguia mais pensar na sua vida, de Sam, Kevin, de qualquer pessoa sem que Castiel estivesse por perto.
Deixando a cerveja sobre a mesa, Dean andou até o moreno, aproveitando a leve distração dele para abraçar as suas costas e pressionar os lábios contra a nuca do menor.
– Dean? – Castiel o chamou no tom interrogativo, mas sem retrair do toque.
Dean não precisava de Castiel como um anjo. Quem sabe onde ele se meteria se tivesse seus poderes de volta? Dean o queria assim, desse jeito, vivendo a vida de um caçador ao seu lado. Quando todos os problemas com Ezekiel se resolvessem tudo ficaria bem, ele sabia disso...
– Você se saiu bem hoje, uh, digo, na investigação...
Franzindo o cenho, Castiel vira o corpo entre os braços de Dean e fica frente a frente com ele, notando a leve vergonha instalando-se no caçador. Dando de ombros, Cas apenas olha para baixo, pondo as mãos ao redor da cintura dele:
– Fiz como você me mostrou uma vez. Não é preciso muito mais do que a carteira falsa e perguntas certas.
– É...
Dean coça a nuca nervoso. Aquele não era seu tipo preferido de conversa. Aliás, ele não gostava de conversas. Ponto final.
– Só, uh... Bom trabalho, e acho, ajudou bastante e—
– Dean.
O loiro levantou o rosto ao sentir as duas mãos tocando seu maxilar. Castiel o beijou sem cerimônias, sabendo que o caçador ficava mais desinibido quando estavam sozinhos. Sem demorar muito, Dean pôs as mãos ao redor da cintura de Cas o empurrando para trás, trazendo as bocas para mais perto uma da outra, e finalmente eles bateram com os joelhos na cama, caindo sobre o colchão.
Os orbes azuis fitaram os verdes, e um breve sorriso apareceu nas feições do moreno.
– Obrigado.
Dean queria se enfiar debaixo das cobertas e esperar o embaraço passar. Suas barreiras ficavam abaixadas toda a vez que estava próximo a Castiel. Ele tentava, com todas as suas forças ficar firme e frígido, mas uma vez nos braços do ex-anjo, ele só conseguia pensar em sentir a sua pele contra a dele, com nada os separando.
Nada além das mentiras...
– O que você quer fazer? – Dean pergunta, beijando o pescoço do menor e esfregando sua perna na dele – Pode dizer Cas, qualquer coisa.
Era o mínimo eu Dean podia fazer, certo? Por hora, ao menos, fazer Castiel sentir-se bem, dar prazer a ele e tentar amenizar as circunstâncias de todos. Sam-Ezekiel demoraria ao menos mais uma hora para voltar, então eles podiam extrapolar um pouco. E Dean sabia muito mais agir do que falar.
O moreno pareceu ponderar um pouco, antes de finalmente responder:
– Quero que tire sua roupa, Dean.
A voz grave percorreu a espinha do caçador e ele viu-se concordando com a cabeça sem nem ao menos perceber.
É que Castiel tem um jeito de pedir as coisas a ele com aquele olhar de cachorro que caiu da mudança tão efetivo quanto os olhos de Sam, e no fundo Dean sabe que é quase impossível dizer ‘não’.
Ao chegarem ao quarto, tudo o que Dean queria era fazer Cas sentir-se bem, dar a ele o que fosse necessário para aplacar a dor que foi ouvir o que dissera no bar. Porém ele jamais pensou que isso os levaria a essas exatas posições na cama
– Cas, isso é estranho...
– Shh.
– ‘Shh’ o cacete! Eu disse que é estranho-
– Dean, só me deixe fazer isso. Será prazeroso, confie em mim.
Aquilo não era bem o forte de Dean – confiar nos outros. No entanto o caçador sabia que Castiel era um dos poucos que ele podia depositar essa sua pouca fé.
Ainda assim há um limite para tudo. Quer dizer, Dean passou a entender muito junto de Castiel como é possível um cara gostar de... Bom, de ficar com outro cara. Deus, até algumas mulheres curtiam uma diversão diferente e diziam que era tão bom quanto o sexo ‘normal’.
Mas uma coisa para Dean é saber disso, outra completamente diferente é experimentar na prática.
E por causa disso Dean acabou deitado no colchão com Castiel no meio das suas pernas, sugando o seu membro enquanto os dedos lambuzados de loção massageavam ao redor da pele fina do períneo, apertando numa pressão leve, escorregando devagar para baixo, mais e mais, até Dean apertar os olhos e o lençol da cama enroscar em suas mãos quando sentiu a ponta molhada do anelar de Cas tocando sua abertura.
Okay, aquilo estava indo muito além das suas intenções inicias de confortar o ex-anjo.
– Cas, chega isso não vai dar certo, eu-AH!
Para calar a boca de Dean – e acabar com a falta de paciência dele – Castiel abocanhou o falo do caçador outra vez descendo até a base, com os lábios tocando a virilha, depois voltando devagar com a língua batendo na glande.
– Paciência.
Foi tudo o que Castiel falou – ou melhor comandou – antes de voltar a lamber e chupar de leve a extensão de Dean, massageando novamente a entrada.
Dean engoliu seco praguejando mentalmente ao jogar a cabeça para trás no colchão. Era estranho. A pele ali embaixo era sensível, e era um nível de intimidade completamente diferente de qualquer coisa que o caçador já havia experimentado.
A primeira falange do anelar entrou então, deslizando com cuidado, usando a loção para se guiar até a parte de dentro. Dean respirou fundo, fechando os olhos ainda mais e tencionando o corpo inteiro.
Sem mover sua mão Castiel escalou seu corpo pelo de Dean depositando beijos abertos sobre sua cintura, na barriga acima do umbigo, em seu peito, na clavícula e pescoço, até por fim beijar seus lábios, coagindo Dean a procurar por sua língua num beijo mais denso.
Relaxando aos poucos, Dean pôs as mãos nos ombros de Castiel e arrastou as unhas ali conforme o ex-anjo o beijava e movia suas pernas no meio das coxas de Dean para que sua ereção e a dele roçassem entre as gotas do pré-gozo.
Sorvendo o ar dos pulmões de Dean, Castiel estalou um beijo nele, abrindo os olhos para encarar os globos esmeralda do caçador.
– Dean.
Ele sussurrou o nome vendo o loiro lamber os lábios, e os olhos verdes se abriram. O topo da cabeça de Dean bateu na cama e as mãos dele apertavam, empurravam e puxavam Castiel sem saber ao certo se queria aproximar ou afastar o ex-anjo enquanto seu corpo se debatia no colchão incerto e carente, porque aquela sensação subindo pelo baixo ventre havia pegado Dean completamente de surpresa.
Cas, então, curvou seu dedo outra vez dentro de Dean achando o prazeroso nódulo de tecidos e nervos, o pressionando com cuidado, ouvindo o caçador xingar e se debater na cama.
– Filho da mãe-C-Cas!
– Respire Dean...
– Ah; vai á merda, eu não-gah!
Castiel encaixou um segundo dedo o movendo sobre o mesmo ponto de antes, batendo ali uma, duas três vezes, enquanto beijava o pescoço de Dean e o via aos poucos perder completamente a compostura. Era maravilhoso, sentir o suor de Dean batendo contra seu corpo, ver o caçador tão suplicante e vulnerável, confiando plenamente em Castiel para que fizesse aquilo, para que lhe desse esse prazer e permitir que Cas cuidasse dele. Ao ex-anjo, isso era tudo o que poderia pedir a Dean e mais.
Continuando a mover seus dedos sobre aquele ponto delirante dentro de Dean, Castiel lambia sua ereção, sugando até a base e voltando, ouvindo o caçador gemer e praguejar cada vez que o fazia.
Esquisito, estranho, invasivo e bom... Muito bom mesmo; Deus! Era como se cada empurrão dos dígitos de Castiel dentro de Dean causassem um pequeno orgasmo, deixando novas gotas de seu líquido cair da fissura no meio da glande, direto na língua de Castiel, que o chupava com uma destreza sem igual.
Tantas coisas aconteciam ao mesmo tempo com Dean que ele mal tinha forças para empurrar Castiel e dizer que não estava à vontade com aquilo – até porque essa não seria a verdade.
Confuso? Sim, ele estava, pois jamais imaginou que experimentaria algo assim... Oh, bem, ele jamais imaginou que iria ‘pra cama com outro homem, então... Então... Merda! A cabeça dele estava girando.
Nada mais fazia sentido a não ser a boca de Castiel, seus dedos entrando nele, o calor emanando do corpo do ex-anjo. Só importavam os dois ali naquele quarto e ‘pro inferno todas as outras pessoas e problemas.
Se aquilo os fazia tão bem, se os dois estavam felizes, então dane-se. Não era você mesmo quem dizia isso Winchester? Não importa que botões te ligam, desde que você esteja contente?
E duma maneira ainda inusitada para Dean, ele o estava. Feliz.
– Cas, Cas! N-não faz isso, não dá—
–Mmm... Dean...
O moreno ronronou seu nome com a boca ainda vibrando ao redor da carne estufada de Dean.
Dali em diante, Dean prendeu os dedos no cabelo bagunçado do moreno, puxando e empurrando-o para baixo, lutando contra a negação em sua mente para se permitir este prazer.
– Ah... AH-CAS!
Num grito entre gemidos, Dean arqueou suas costas no colchão e deixou-se derramar na boca do moreno, arfando cada pulsão que seu membro fazia. Castiel continuava a pressionar gentilmente os dedos dentro dele, forçando mais do gozo a sair, até finalmente Dean engasgar o ar do pulmão e seus braços e pernas desfalecerem sem ânimo algum.
Castiel começou a lamber devagar a extensão de Dean ouvindo a respiração entrecortada do caçador. Ao mesmo tempo, Dean podia ver a mão de Castiel se mexendo sobre seu próprio membro bombeando-o para cima e para baixo, aumentando a velocidade gradualmente, até o moreno começar a grunhir ofegante.
Sentando sobre seus calcanhares, Castiel afasta as pernas de Dean ainda mais, parando com a ponta de seu falo sobre a entrada dele, e o caçador prende a respiração ao sentir a glande úmida batendo contra o seu músculo ali, apenas instigando, apenas roçando para cima e para baixo no anel, até que Castiel solta um urro e um jato quente atinge Dean naquele lugar, encharcando a entrada que vibra como se quisesse sorver o abrasador jorro para dentro.
Com os olhos fechados, Castiel deixa a boca entreaberta. Um bafo descompassado sai de sua garganta enquanto ele move sua cintura para os lados, a mão que ainda segura seu membro bombeia mais gotas de seu orgasmo para fora que atingem a abertura de Dean a marcando de branco.
O volume de Cas ainda está rijo, mas a ponta dele é tão macia, encostando-se à entrada de Dean e deslizando para cima e para baixo com o gozo derramado ali...
Pensar nos dedos de Castiel dentro dele dirige uma onda de deleite estranha em Dean. Ver Castiel se desfazendo conforme chegava ao clímax era outro adendo, porque a expressão que ele fazia toda a vez que estava nesse êxtase era incrivelmente sexy...
E o caçador engoliu seco todo o seu orgulho e preocupações, respirando fundo, pois por uma razão absurda que ele não tinha forçar para debater agora, ele queria presentear o ex-anjo com aquilo – com a sua total e completa confiança.
– Vem... Vem Cas!
Dean gritou movendo sua cintura para baixo contra o membro de Cas e o moreno levou um tempo para processar o que as palavras significavam, mas assim que compreendeu Cas apenas grunhiu apertando a glande de seu falo ainda sólido contra a abertura molhada e relaxada de Dean.
Um ardente encontro entre as peles atingiu Dean dos pés a cabeça. A boca de Cas bateu contra a sua, a forçando para se abrir num beijo faminto. A cama se moveu, o ar faltou, e tudo o mais desapareceu ao sentir aquilo: a potente pressão do músculo quente, escorregadio da glande curvada de Cas apertando-se nele, o abrindo.
E Dean não precisa inventar desculpas para si mesmo nem motivos plausíveis para aquilo, porque esse em cima dele é Cas, seu melhor amigo, amante, seu tudo; e ele conhece Dean, ele construiu o caçador dos destroços de nada, ele nunca fez nada além de adorar o corpo do homem que ele dolorosamente repôs no lugar.
Os seus olhos se encontram enquanto Cas empurra para dentro, devagar e o mais gentil que consegue. Dean ergue a mão com sua palma cobrindo os dedos de Cas sobre seu pescoço e o puxa para baixo, arfando na boca do moreno com a sensação de ser preenchido, chorando seu nome em pequenos gritos de oxigênio.
Castiel aperta a mão de Dean ao entrar. Sua língua enfiando-se na boca de Dean tão fundo quanto ele está enterrando-se no caçador.
Uma litania do nome de “Cas” passa por entre os lábios de Dean, e a cada centímetro que o atravessa ele tem certeza que acaba gaguejando. Fosse uma reação involuntária, ele não sabia, pois Dean sentia-se bêbado em prazer.
– Dean... ah--Dean, gah!
Castiel avançou até a metade sentindo uma nova onda de êxtase percorrer seu corpo ameaçando acabar com aquilo cedo demais. Porém ele se conteve, respirando fundo e indo em frente, atravessando mais e mais, enterrando-se na quentura do interior de Dean enquanto o caçador soltava gemidos mudos com a boca aberta e a cabeça jogada para trás – suas unhas cravadas nos ombros de Cas.
No minuto seguinte, Castiel baixou sua testa a grudando na de Dean respirando apressado, pois ele estava lá – inteiro – afundado até a base dentro do caçador; dentro e o sentindo por completo, dentro e possuindo Dean de uma maneira que nenhuma outra pessoa o tinha.
– Cas, se mexa duma vez! – Dean pediu impaciente, porque ficar parado era torturante.
Meneando a cabeça em silêncio, Castiel o fez.
Dean geme novamente, e Cas se move de acordo com esse som, saindo e estocando de volta com força, mas com cuidado; construindo um conciso e firme ritmo.
O gordo e estufado membro o atravessando moveu-se cauteloso de início, os quadris firmes em cada estocada e Dean retorcia-se cegamente no limite de sua capacidade, pedindo por mais e com mais força.
Cas desistiu de tentar se controlar e logo açoitou a cintura contra a virilha de Dean.
– Porra! – Dean gritou; Cas grunhiu e gemeu ao se mover em desesperadas moções, golpeando seus corpos juntos e com vontade, bocas batendo em desajeitados beijos que se tornaram mordidas e uma briga entre línguas ao clamarem um ao outro.
O falo de Cas tremeu dentro dele, endurecendo e esticando Dean até que o vácuo entre os dois era tão apertado e ínfimo que seu próprio membro deixou mais do gozo sair.
A cama batia contra a parede e no chão a cada estocada de Castiel, fodendo com força e sem restrições. Dean o permitiu e adorou cada minuto disso. Cada golpe contra seus quadris e nádegas mandava uma onda de prazer por seu corpo, e os dedos dos pés se curvavam a todo instante.
– Cas, porra! Cas... Oh, merda! T-tãommmm – Dean mordeu as juntas da mão, pois o prazer era tão intenso que ele precisava gritar.
– Vou... Eu, porra! Dean, eu...
Cas xingou e gemeu, falando coisas que Dean antes nunca o tinha ouvido falar, e seu corpo subitamente ficou tenso, cada músculo endurecendo num segundo, e então estremecendo. Tudo se agitou, a cama, Dean, o membro de Cas vibrando furiosamente dentro dele, e um cáustico jorro derramando-se em seu interior.
Aquilo era demais e incrível para Castiel. Mesmo que ele tivesse acabado de se satisfazer seu corpo inteiro ganhou uma nova força, um novo impulso, que encheu Dean por dentro conforme ele ouvia o caçador gemer e mover a cintura junto da dele.
A sensação do líquido quente era esquisita, molhada e com certeza a coisa mais absurda que Dean já fizera. Mas ao mesmo tempo era inexplicavelmente maravilhoso, sentir Castiel o preenchendo, sentir o ex-anjo dentro dele, fazendo parte dele, um sendo do outro não por palavras, mas pela união absoluta deles.
Dean confiava em Castiel para entregar-se, para receber o ex-anjo numa maneira íntima e única, como nenhuma outra experiência que Dean antes tivera.
Ser de alguém e essa pessoa também ser sua... A sensação inflava o peito de Dean com algo bom que ele não sabia explicar... Não fazia ideia de que existia.
– Dean...
Castiel o chamou numa voz rouca baixando a testa sobre a de Dean em meio ao cansaço e respirando descompassado com o caçador.
Eles param, suados e sem se importar, pernas e braços se envolvendo, respirações regulando-se enquanto os lábios se encontravam num lânguido e lento beijo que não tinha nada a ver com querência e desejo, mas sim com dois corações que batiam devagar e firmes ao mesmo tempo.
– Estúpido... – Dean sussurra entre o êxtase e a noção fora da realidade contra os lábios de Cas.
Quando Castiel abre os olhos devagar para encontrar os de Dean, ele sorri e beija a bochecha de Cas antes de cair de volta à cama e fitar os orbes azuis de novo, completamente fora deste mundo ao dizer:
– Eu te amo tão estupidamente, Cas...
Talvez pela primeira vezem eras de existência, Castiel sentiu os olhos marejados, e alguma coisa molhada e salgada escorria deles, desenhando o formato de suas bochechas e caindo sobre o rosto de Dean, sobre as palavras dele e o que ele nunca se permite dizer ou sentir.
Não que eles precisassem dizer anda um ao outro, mas ainda assim, ouvi-lo era apenas... Muito.
– E eu te amo tão estupidamente, Dean.
Ele sussurra de volta, o beijando outra vez entre gotas salgadas, e de novo, e de novo, sempre seus lábios sobre os de Dean.
Os dois dormiram depois daquilo com os corpos intercalados num abraço quase irreal, sem nada mais dizer.
Não foi preciso tocar no assunto, querer por nomes no que havia acontecido. O peito acelerado cada vez que se viam, as trocas de olhares de sempre, mas que agora carregam muito mais do que um mero segredo escondido nas camadas de incerteza diziam mais do que meras sentenças mal formuladas conseguiriam.
Em meio à madrugada, Dean sentiu o corpo acalentador de Castiel envolvendo sua cintura, a cabeça batendo contra seu peito e a respiração do moreno batendo na curva de seu pescoço.
Finalmente, Cas parecia estar em paz, e aquilo bastou para aplacar parte da culpa corroendo Dean.
Ele abraçou o corpo junto do dele, não conseguindo mais fechar os olhos. Se ele confiava em Castiel, bastava contar tudo a ele. Sim, ele o faria. Só precisava esperar até o amanhecer e então colocaria toda a verdade na mesa...
A porta do quarto se abriu.
Os sons inconfundíveis dos largos passos de Sam chegaram aos seus ouvidos, e Dean tentou esconder o rosto no travesseiro, cansado demais para ouvir as piadas de seu irmão sobre o fato dele estar abraçado a Cas.
Mas ao invés de ver seu irmão ajeitando-se na cama, ou ainda observando a ele e Castiel com um sorriso que dizia “eu vou te importunar com isso mais tarde”, Sam apenas andou até a janela, observando a rua escura do lado de fora.
Seu irmão ficou assim por horas, ou melhor, Ezekiel ficou.
Pensar que a qualquer instante o anjo poderia simplesmente tomar conta do corpo do seu irmão e decidir que assim ficaria, apagando a existência de Sam e fazendo dele uma casca...
Dean achegou-se ainda mais no corpo de Castiel, mordendo o lábio enquanto pedia em pensamento que o moreno o perdoasse.
Ainda não era hora, ainda não dava para confiar que as coisas ficariam bem por inteiro.
Continua
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