Não me deixe ir
16 Capítulo 16 - Novos acordos
Notas iniciais
Não me deixe ir
16 – Novos acordos
Após o segundo dia frustrado, Dean e Castiel jaziam num monumental silencio no impala. O moreno ficara encabulado demais frente as suas ações impensadas da noite anterior. Respeitava Sam profundamente e o que ele e Dean fizeram enquanto o caçula dormia; não foi nada respeitoso.
A questão para Cas era a quantidade de sentimentos e emoções defluindo que ainda o surpreendia a maior parte das vezes. Era interessante experimentar diferentes tipos de sensações: ansiedade, medo, nervosismo, afobamento, excitação. Um atrás do outro, atropelando-se na cabeça de Castiel, o tornando um ser cada vez mais impulsivo. Antes de perder sua graça ele raramente permitia-se submergir ao descontrole, e na maioria das vezes apenas duas emoções afloravam, fosse a fúria nas batalhas, fosse a compaixão para com a humanidade — vulgo, os irmãos Winchesters; leia-se nas entrelinhas, Dean.
Como um ex-anjo, e agora humano novo em folha, conseguir equilibrar cada uma dessas novidades sensíveis dispersas numa linha emaranhada, em uma um único fio continuo sem nós era complicado, e o moreno tentava da melhor maneira possível. Contudo a madrugada na cama de Dean mostrou-lhe que havia muito ainda a apreender sobre controle.
Assim, Cas fez a única coisa lógica a ele: ignorou esta correnteza de sentimentos tal como sua perdida essência angelical o permitia fazer, dando mais espaço a Sam em consideração a ele.
Na viagem de volta ao Bunker, Castiel ficou quieto no banco de trás do impala, falando quando requisitado, mas não começando nenhuma conversa como fazia antes, em sua crescente curiosidade sobre a vida humana. Nem mesmo seus novos e genuínos sorrisos apareciam, e com certeza os irmãos estranharam aquilo.
Sam e Dean notaram o comportamento peculiar do ex-anjo desde cedo, trocando aqueles olhares cúmplices de irmão para irmão que eles entendiam sem nem usar palavras:
‘Cara, que porra tem de errado com o Cas?’ – Dean conseguiu passar a informação ao apertar os olhos, curvando as sobrancelhas encarando Sammy.
‘Sei lá. Ele tá sendo o ‘robô Cas’ desde a manhã. Você fez alguma coisa?’ – Sam replicou na conversa olhos nos olhos, balançando sua cabeça e ombros.
‘Não fiz nada’. – Dean respondeu envergando os ombros, parando segundos depois, conforme as imagens da noite passada pularam em sua mente.
Sam achou que seu irmão estava tendo um derrame, pois ele começou a pressionar os lábios um contra o outro com uma expressão nula em sua face.
Dean ponderava se talvez, só talvez, Cas poderia estar chateado com os eventos e ontem. Mas ele ficou perguntando-se o que possivelmente seria. Porque pararam? Ou porque foram quase pegos? Ou Dean havia feito algo que o moreno não havia gostado? Ah merda, agora ele ia ficar o restante da viagem pensando sobre isso! Maravilha, excelente!
A três horas de distância do Bunker, o impala pediu por mais gasolina e eles tiveram de parar no próximo posto. Castiel saiu do carro pedindo licença aos dois, pois precisava utilizar o banheiro e ‘aliviar a pressão em suas bexigas’, como ele mesmo dissera. Dean o encarou conforme se afastava apertando os dedos sobre o couro do volante. Cas continuava silencioso, sem o encarar nos olhos, e isso o incomodava demais.
– Acha que ele está sentindo-se mal? – indagou Sam.
– Não, ele teria dito. – respondeu.
– Então deve ser outra coisa ou ele só está quieto...
– Sei lá Sam! Porque você não pergunta a ele?!
Estourou, pois detestava quando seu irmão entrava no estado inquisidor. Se Dean não sabia, então ele não sabia! A única coisa plausível a ser feita é perguntar diretamente a Cas, de nada adiantava os dois ali repetindo aquela roda infinita de perguntas sem respostas. Era estúpido. Sam revirou os olhos, pronto para sair do carro, até ouvir o telefone tocando:
– Cara, com quem você tanto fala esses dias? – perguntou Dean.
– Com o Louis.
– Louis... Louis?! Da família Buscapé versão macabra?
– É.
– Por quê?
– Porque não? – falou dando de ombros.
– Você tem que parar com essa política de boa vizinhança Sam.
– Às vezes é bom manter contato com pessoas fora do nosso pequeno círculo de amizades.
– Que seja; fique aí digitando com seu novo amiguinho, eu vou falar com o Cas.
Decretou batendo a porta. Sam ainda abriu a boca fechando-a no instante seguinte. Não ia se meter, não ia pensar sobre isso, ele que se entenda com Castiel.
Na lateral do posto – um lugar bastante deserto com cheiro de urina e óleo velho, Dean encontro Castiel tentando lavar as mãos o máximo possível na pia, sem notar a presença do loiro. Ao se virar franziu o cenho em surpresa, porém tentou manter o semblante sério.
– Dean, tudo bem?
– É ‘tá sim.
– Já estava retornando, se precisa usar o banheiro ele está livre...
– Cas, corta o papo idiota e me diz de uma vez o que houve.
Tencionando a mandíbula, Castiel torceu o pescoço de leve, a calma sendo sua melhor arma:
– Nada Dean. Estou bem.
– O cacete que tá!
Adiantando-se um passo, Dean cingiu o braço de Cas na altura do cotovelo o encarando friamente. Não gostava desse tipo de joguinhos; nem um pouco. Rodeou o local com os olhos, contatando estarem sozinhos antes de prosseguir. Sorvendo o ar entre os dentes, limpou a garganta:
– Cas, você... Uh... Quero dizer, ontem à noite...
Era mais do que visível o desconforto de Dean, quase palpável. Castiel achou um pouco de graça na falta de tato dele. Respirando fundo – esse gesto tão tranquilizador que Cas aprendera a fazer em situações complicadas – o ex-anjo manteve os globos sobre os do outro:
– Dean ontem nós... O que fizemos... Foi um erro...
Conseguiu falar antes do loiro, e subitamente o aperto em seu braço tornou-se mais forte, quase desesperado. A expressão de Dean fora de total confusão, seus orbes indo dum lado a outro depressa. ‘Erro?!’ Como assim um erro? O que eles fizeram fora um erro?! Dean quase engasgou:
– Cas... – gaguejou, sendo cortado outra vez.
– Oh, Dean eu... Digo, com Sam no quarto, foi errado.
Dean bufou aliviado. Quer dizer, a maneira com a qual o moreno havia dito...
– Você tem que aprender como se começa um discurso, cara. – comentou ainda próximo a ele.
Castiel baixou o queixo concordando com o maior. Seu peito ardendo em meio ao turbilhão do coração batendo depressa. Era difícil permanecer centrado na sua tarefa frente à impulsividade de Dean – essa mesma impulsividade que tornava suas ações tão francas, puras e espontâneas na maioria das vezes.
– É por causa do Sam que você ‘tá assim?
– Assim?... – Castiel jogou o pescoço para o lado, confuso. Dean achou graça.
– Na sua onda de ‘robô Cas’. – concluiu Dean apreciando a confusão do outro.
O moreno quase riu, aquiescendo:
– As circunstâncias de ontem me deixaram... Desconfortável.
Dean comprimiu os lábios, desviando o olhar de Castiel ao sentir o rosto arder um pouco com as lembranças, afinal, ele também havia se deixado levar. A questão é que tudo era tão novo e assustador ao mesmo tempo. Nenhum dos dois sabia ao certo como ir adiante, qual o próximo passo, se já queriam dar esse próximo passo – o que seria praticamente um salto sem volta ao Grand Canyon.
– Na próxima vez tente abrir a boca e falar algo. – comentou Dean afastando-se dois passos, pondo as mãos no bolso do casaco – Sam e eu ficamos preocupados.
– Desculpe. Não foi minha intenção Dean.
O loiro revirou os olhos ao notar o tom ainda grosso e invariável na voz de Castiel. Detestava a frieza por parte de Cas.
As costas do menor bateram contra a parede no encontrão recebido por Dean. O loiro tornou a prender o braço de Cas, segurando seu rosto com a outra mão mantendo-o no lugar. O beijo foi rápido e estalado, quase casto no simples toque de lábios, e nem mesmo Dean entendera ao certo porque teve vontade de beijar Castiel do nada – só queria tirar essa expressão monótona das fuças dele:
– Pode parar também com o estilo ‘Cavaleiro das Trevas’, Cas.
– Dean, já falamos sobre as referências.
– Caramba, eu tenho um montão de filmes ‘pra te apresentar então.
O loiro explodiu numa gargalhada. Castiel acompanhou o bom humor de Dean notando agora algo crucial: lhe era impossível manter-se frígido e calculista na presença de Dean, ainda mais quando todo o seu ser clamava por ele, ainda mais quando ele agora tinha permissão para tocá-lo, senti-lo. Realmente, estava perdido.
Oh bem, eles teriam de resolver essa situação de outra maneira. E Cas sabia bem qual o próximo passo a ser tomado:
– Posso te perguntar uma coisa Dean?
O loiro arqueou uma sobrancelha:
– Sim?
– Eu... – o menor travou levando uma das mãos a cintura de Dean entranhando os dedos no casaco.
O caçador permitiu a aproximação descomedida, pois sabia que Sam ia ficar no carro e o posto da autoestrada continuava vazio. Ah! É! Também porque ele queria ser tocado por Castiel, duh!
Pois Cas, desde aquela noite, do beijo, desde que Dean compreendera duma vez por todas como se sentia em relação ao ex-anjo, havia se tornado uma espécie de droga. Seu cheiro, sua voz, o gentil e quente toque de seus dedos, cada pequeno detalhe incitava Dean de uma forma que antes lhe era despercebida. Enfim, o caçador conseguia perceber a razão da sua pequena irritação quando próximo de Cas: porque ele não podia tocá-lo. E bem, agora com as cartas na mesa – e a boa sorte de encontrar um local deserto – ele podia consentir com os singelos toques.
O moreno prosseguiu o discurso logo depois afastando a atenção do loiro dos seus próprios pensamentos:
– Dean, isto entre nós, eu compreendo que faz apenas três dias, mas... Mesmo que seja cedo, e que seja possível uma mudança no futuro, eu...
Abafando sua voz, Dean roubou outro beijo, dessa vez permitindo-se levar pela vontade de passear a língua sobre a do menor. Ela era morna, macia e tão, tão boa. Soltou-o apenas para falar:
– Não sou do tipo que se arrepende fácil, Cas.
Disse, e o moreno aquiesceu apertando ainda mais a cintura do caçador. Realmente, por mais tortuoso que fosse o caminho, Dean jamais se arrependeria das escolhas feitas – mesmo que elas fossem estúpidas algumas vezes, ou que simplesmente levassem a um resultado inesperado, ainda assim o loiro era bastante convicto:
– Eu também Dean, ainda mais em relação a isso.
– Então chega desse momento ‘Sex and the City’, vamos voltar ‘pro carro e cair na estrada duma vez.
– Dean, ainda não fiz minha pergunta.
– Oh, certo.
Orbes azuis pairaram sobre os olhos de Dean sem pestanejar e Cas falou no seu timbre rouco:
– Não acredita ser melhor contar ao Sam?
Seus músculos tencionaram só com a mera possibilidade de contar algo ao seu irmão. Não, ele não queria esconder nada dele, afinal, o caçula saberia mais cedo ou mais tarde. É que Dean preferia que fosse “bem mais tarde”. Se mesmo ele tinha dificuldades em encarar a situação de frente – calma, ele estava levando tudo aos poucos, no seu tempo – imaginar contar a Sammy sobre o seu mais novo ‘romance’ fazia seu estômago revirar.
Oh Céus... Dean tinha mesmo classificado Castiel como seu mais ‘novo romance’?!
Pelo amor- Ele precisava assistir uma maratona inteira de filmes gore, trash, violentos e cheios de sexo para se recuperar desse seu pequeno instante de Gilmore Girls. Certo, ainda bem que Cas não podia mais ler seus pensamentos.
Limpando a garganta, ele lançou um sorriso sarcástico ao menor:
– E como você espera contar ao Sammy, Cas? “Ei, eu secretamente estava a fim do seu irmão e agora nós dois estamos nos pegando?”
Riu ao final da frase, porém o sorriso desfez-se logo depois:
– Talvez não com estas palavras, Dean, contudo imagino algo próximo disso.
Dean piscou algumas vezes estupefato, aguardando uma risada vinda do outro, qualquer sinal que indicasse um tom de piada. Mas nada:
– Cara, agora eu ‘tô seriamente assustado, porque você não parece estar brincando.
– Não brinco com assuntos importantes, Dean.
Bufando, Dean levou ambas as mãos aos ombros de Cas descendo a cabeça entre os cotovelos. Anjo ou não, Castiel continuava o mesmo nerd confuso, cheio de inocência e sinceridade para dar e vender. Puta merda!
– Cas... Cara... Só me deixe fazer isso antes, okay? Eu converso com Sam e depois você pode falar com ele da maneira que quiser. — Dean ponderou sua frase erguendo a cabeça — Não, pensando bem, vamos ensaiar seu discurso antes que você fale com o Sammy.
Quebrando o pescoço para o lado, Castiel encarou Dean sem entender os motivos dele, dando de ombros. Quer dizer, ele saberia lidar melhor com seu irmão além do fato de Dean ser mais experiente nestes assuntos mundanos. Cas só queria se livrar do que ele reconheceu como ‘vergonha’. Não havia motivos para se esconderem, ao menos não se o loiro quisesse seguir em frente com... Bom, com eles.
E ouvir Dean afirmando uma futura conversa com Sam aliviava a apreensão de Cas, o fazendo relaxar mais, acabando duma vez com a péssima tentativa de ignorar sua mais nova coletânea de sensações humanas.
Ao retornarem aos seus lugares, Dean reparou o quanto Sammy continuava compenetrado no seu celular.
– Cara, para de sorrir ‘pra tela do telefone, isso é assustador.
Brincou Dean recebendo uma bufada desgostosa do irmão em resposta, junto dum rápido empurrão em seu ombro:
– Só dirija jerk.
– Bitch.
Riram, e Castiel os acompanhou abrindo um largo sorriso – o mesmo que Dean adorava sem saber, deleitando-se com o semblante alegre de Cas ao vê-lo pelo retrovisor do carro.
E Sam, oh Sam e sua perspicácia, encarou os dois que nem davam mais atenção a ele. Dean, calmo e alegre observando o moreno de soslaio pelo espelho do impala conforme Castiel retribuía o mesmo semblante risonho.
– ‘Tá rindo do que Sammy?
Dean indagou dando partida no carro:
– Oh nada, só algo que Louis disse.
– Hm. Esse garoto é um pé no saco mesmo.
Sem replicar, Sam apenas continuou em seu telefone querendo apagar da sua visão os rápidos olhares lançados por Dean ao banco traseiro. Mas não pode evitar esticar os lábios em contentamento.
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Finalmente, em casa. Ou o lugar que Dean chamava de casa. Sam ainda considerava o Bunker seu QG, um local seguro onde passavam as noites atrás de caçadas, decifravam a tábua de Deus com Kevin, e nada mais. ‘Casa’ ainda lhe era um conceito forte demais para usar naquele lugar.
Dean logo jogou suas coisas dentro do quarto procurando por Kevin, O moleque devia estar ali, catalogando as coisas como haviam combinado, porém o Bunker permanecia silencioso.
Ao chegar à cozinha, Sam notou o bilhete colado na geladeira:
– Dean, Kevin foi passar um tempo fora do Bunker, disse que pediu ajuda a Charlie.
– Desde quando esses dois são amigos? – indagou o loiro franzindo o cenho.
– Acho que desde que Charlie descobriu a falta de interesse de Kevin em filmes.
– Faz sentido. Mas aquele filho da mãe devia ter ligado. Porque ir ‘embora agora?
– Por causa do fim do ano, acho.
Concordando, Dean lembrou-se como Kevin ainda não havia aceitado a morte de sua mãe inteiramente – ainda mais após a discussão com Crowley. Devia ser nostalgia, ou vontade de rever sua cidade, algo do tipo.
O bilhete indicava o mesmo motel em que Dean havia o deixado uma vez para espairecer. Charlie o encontrou lá e os dois guarneceram o lugar com tudo o que tinham:
– Ao menos ele foi com Charlie. – completou Sam – Vou checar com ele se está tudo bem.
Disse apanhando o telefone do bolso começando a discar o número enquanto andava para seu quarto. Dean, por sua vez, procurou uma boa garrafa de cerveja no fundo da geladeira, constatando o cheiro de podre dentro dela. Um punhado de carne estragada; perfeito! Mal se lembrava de que ficaram fora quase um mês. Tinha de estocar menos coisas no Bunker. As compras que fizeram seriam úteis agora.
Num estalo, o loiro voltou-se a sala, vendo Castiel parado no meio dela com as mãos nos bolsos, andando vagarosamente pelo lugar olhando a mobília, absorto. Dean fechou a geladeira indo até ele jogando seu casaco sobre a mesa:
– Ei Cas, nós temos um quarto aqui ‘pra você, sabe?
O moreno o encarou ainda com as mãos nos bolsos. Seus olhos rodearam o Bunker outra vez. Castiel baixou o queixo, contemplativo, e logo encarou Dean num semblante tranquilo:
– Tem certeza Dean? – perguntou a voz rouca retumbando.
Dean franziu o cenho balançando a cabeça de leve:
– Claro que eu tenho certeza Cas! Que pergunta é essa?
Ele abriu a boca a fechando segundos depois. O Bunker, o mesmo lugar da onde não foi permitido ficar por Dean. Poderia acontecer, talvez mais tarde. O loiro arrepender-se-ia outra vez de tê-lo trazido até ali, de ter iniciado essa nova relação com ele. Talvez consentisse que Cas ficasse no Bunker por um tempo, e então o ex-anjo iria embora, pois seria duro ver, ouvir, sentir o cheiro de Dean todos os dias sem poder fazer nada.
É Castiel ainda tinha receio da rejeição humana, afinal, este sentimento mostrou-se forte e arrasador a ele. Não gostava de se render ao turbilhão sentimental tão pouco conseguia evitar. Dura vida mortal.
Deu de ombros, retornando ao ar pensativo de antes. Dean cingiu os punhos largando a cerveja – aquilo o deixava inquieto, sem saber o que se passava na mente de Cas:
– Dean... Não quero ser um estorvo, eu...
– Cas, para de falar merda. – replicou acercando-se dele – Você vai ficar aqui e ponto.
– Foi você quem disse que eu não podia da última vez.
A mandíbula de Dean estalou com a menção ao episódio. Doeu, como doeu ter de falar aquilo a Castiel sob as ordens de Ezekiel. Ele queria que o amigo ficasse por perto. Gostava de Castiel e agora, bom, gostava ainda mais dele!
Ezekiel tinha o controle sobre Sam, porém Dean precisava convencê-lo de que daria tudo certo. Ele iria proteger Castiel, com símbolos, magias, feitiços, qualquer coisa! Mas não o deixaria ir, não depois de... Não depois de quase perdê-lo.
– Você fica. – decretou – Sem discussões.
Ezekiel poderia chiar sobre a decisão, contudo, Dean estava convencido. O anjo ainda fraco nada poderia fazer caso Sam soubesse da verdade e o banisse. Ainda, Dean poderia pedir a Kevin que descobrisse algo sobre como expulsar um anjo de alguém, ou ainda encontrar uma cura milagrosa desconhecida. Ezekiel curara Cas na fazenda, e seu estado debilitou-se. Ele não partiria tão cedo.
Por hora, Dean detinha a vantagem. Então, sim, Castiel iria ficar no Bunker.
Ainda incerto Cas girou os calcanhares tornando a mirar as paredes da sala. Elas eram grandes e lembravam os azulejos duma antiga casa. Á noite, como agora, podiam ver os minuciosos detalhes com a iluminação artificial ao lado delas. A maquinaria conectava o mundo sobrenatural do lado de fora aos computadores modernos de Sam. Um lugar calmo e seguro, realmente. Se Dean estava certo sobre sua decisão, então Cas poderia relaxar. Isso, se uma pequena pontada de dúvida não insistisse em bater na sua nuca:
– Dean eu não sou ingênuo. – falou, enfim.
O loiro envergou as sobrancelhas quase as unindo no meio da testa. Do que ele estava falando? Sem compreender nada deu mais um passo á frente, a distância menor do que um metro entre os dois:
– Cas, que merda você ‘tá dizendo?
– Sei o que falou mais cedo. Sobre contar ao Sam. Mas eu sei que conviver com outras pessoas além do seu irmão não é seu forte Dean.
Irritando-se com as insinuações de Castiel, Dean avançou novamente, contudo, dessa vez, levou o moreno consigo num encontro contra a parede da sala. Cas crepitou a boca num grunhido desconfortável ao ter o braço pego pela mão do caçador num aperto quase violento. Dean enroscou os dedos do outro punho na gola da camisa de Cas. Olhava-o ferozmente, fitando a imensidão azulada dele sem pestanejar. As íris esmeralda tremendo dum lado a outro da cavidade ocular como se quisesse intimidar o menor, o fazendo entender de uma vez por todas:
– Pare de tentar me decifrar Cas. Se eu estou dizendo é porque é isso o que quero!
– Dean eu...
Havia uma hesitação na voz dele. Um soluço raivoso misturado a um pranto. Soltando o aperto de suas mãos sobre o moreno, Dean chegou à cabeça para trás querendo vê-lo melhor, querendo ouvi-lo:
– Cas? O que está escondendo? – indagou mais calmo.
O ex-anjo comprimiu os lábios procurando as palavras certas. Não estava fraquejando, muito menos desistindo. Todavia, a bola de sentimentos intrometia-se no seu caminho de novo, e Castiel só conseguia pensar que tudo o que aconteceu durante a caçada, que estes breves dias ficariam no passado a partir do momento que chegaram ao Bunker. Ele não havia cogitado a ideia de permanecer ali, muito menos de ter Dean da maneira que o desejava. Era só... Surreal demais.
Uma coisa seria no calor do momento, em meio à caçada, em meio ao caminho de volta, os dois decidirem ficar juntos. Mas Dean jamais se atrelava a uma pessoa – não depois de Liza.
Castiel aprendeu sobre a rejeição e as mentiras humanas muito bem nestes últimos meses na Terra. Aprill o enganou, outros anjos fingiam o ajudar para depois tentar mata-lo. Tantas vezes enganado, tantas vezes Cas achou ser possível confiar no seu julgamento para então vê-lo desfazer-se em desesperança.
E Dean foi a melhor de todas as coisas que acontecera desde quando se tornara humano. Perdê-lo seria insuportável. Soltando o ar preso nos pulmões, Castiel falou, por fim:
– Ainda não acredito Dean, é isso.
Não acreditava no que? Em Dean? Nas suas palavras? Oh, certo Dean Winchester, talvez porque você seja o cara que o chutou ‘pra fora do Bunker em primeiro lugar.
Apesar disso, tudo havia mudado. Não eram mais apenas amigos, vivendo suas vidas separadas. Não, jamais seriam aquilo outra vez. Dean precisava ter sua família por perto o máximo possível. Se algo acontecesse com Sam, Kevin, ou Castiel... Céus! Ele quebraria por dentro.
Ainda, depois de tudo o que Dean confessara a Cas durante a última caçada... O peito do loiro pareceu arder em rancor. Como não acreditava? Acaso ele não estava presente quando se beijaram?! Havia esquecido todos os problemas, decepções e confissões feitas?! Que merda! Porque Castiel tinha sempre que pensar demais nas coisas?!
Num solavanco, Cas sentiu a perna de Dean enfiar-se no meio das suas, tomando posse da sua cintura e a colando contra a do loiro. A boca foi tomada pela forte pressão dos lábios de Dean e logo sua língua o visitava. O beijo foi violento, uma tentativa de colocar todas as palavras emboladas na mente de Dean dentro do ex-anjo através do encontro dos lábios, da troca de carícias. Este beijo teria de selar a vontade dos dois numa só. Precisava disso, Dean precisava tanto de Cas... Que doía.
Seus lábios logo traçavam um caminho mais gentil e tênue sobre os de Castiel, um cuidado necessário. Espalmou as mãos sobre os flancos de sua cintura, cingindo levemente o tecido. Os dedos subiram devagar, apenas uma pequena porção da pele de seu abdômen saltando para fora do pano da camisa.
Castiel acompanhou Dean no ato, com as mãos ao redor do rosto do caçador, resvalando os dedões na barba mal feita dele. Trazia sua boca cada vez mais perto da sua, numa necessidade sem igual de ter o loiro para si.
Não havia volta, a nenhum dos dois. Aquilo, eles, no tufão de inseguranças de suas vidas tornara-se uma certeza visceral, crua.
Eles se afastaram, resvalando os lábios inchados e vermelhos um no outro antes de Dean abrir os olhos encarando os orbes de Castiel. Se havia algum respingo de dúvidas neles, fora extinto, e apenas a íris azul chispava em meio à respiração ofegante, necessitada.
O peito de Dean ardeu em meio a essa visão, a certeza sólida que sentia quando junto de Castiel, seu melhor amigo, seu ex-anjo protetor, seu... Só seu.
– Fique Cas.
Saíram às sílabas e, oh, Dean já havia as dito antes do cérebro conseguir processar tudo. O timbre manso e carente em sua voz, as palavras formulando uma espécie de pedido oculto entre cada letra, e sério, o caçador queria muito agarrar sua faca e degolar alguma criatura agora – porque já havia atingido seu limite de ‘água com açúcar’ pelo resto do mês!
Notando a inquietação do caçador Castiel não pode impedir os cantos da boca esticarem naquele sincero sorriso que Dean adorava sem saber.
Dean estava pedindo a Cas para ficar e o ex-anjo sabia que não podia apenas se permitir levar por aquilo. Ainda assim foi impossível parar o tum,tum,tum apressado no meio do peito. O moreno sorriu outra vez levando uma das mãos à nuca de Dean, massageando a pontinha das melenas claras dali:
– Certo Dean.
Ainda perdido nos olhos azuis do outro o semblante de Dean ganhara uma expressão amena. Foi só depois de dar-se conta da resposta de Cas que o loiro, satisfeito, estalou um rápido beijo, mostrando seu sorriso triunfante antes de levar Castiel aos quartos ao fundo do Bunker. Nada muito luxuoso, mas era o paraíso comparado aos seus primeiros meses como humano, onde não tinha nem suas próprias roupas.
– Obrigado Dean.
A pureza e sinceridade nas palavras dele fizeram Dean engasgar. Deus, ele sabia muito bem os maus bocados pelos quais Cas havia passado, e ver que mesmo o pouco oferecido agora era mais do que o bastante ao ex-anjo... Dean sentiu um soco no estômago enquanto repetia idiota, idiota, idiota, na sua cabeça sem parar. Nunca mais queria deixar Cas sozinho ou desamparado. Queria... Protegê-lo.
Tossindo, ele apontou ao moreno a direção da biblioteca onde Castiel ficou mais do que feliz em dar uma boa volta. Dean deixou-o folhear os livros enquanto ia a cozinha comer algo. Foi quando viu Sam parado lá o encarando, dando um rápido salto para trás:
– Cara, dá um aviso antes...
–Então Castiel irá ficar.
O som mais grave, o soar mais alto da voz de Sam... Não, aquele ali não era Sam, e por um segundo a espinha de Dean congelou.
– Zeke.
– Dean, eu salvei a vida de Castiel. O mínimo que você pode fazer agora é deixa-lo afastado.
– Tá louco? – replicou um tanto quanto alto, precisando olhar por cima do ombro e ter certeza de que o ex-anjo continuava longe deles – Eu fiz isso e olha no que deu?! Cas ficou perdido, sem ninguém que o ajudasse, ele quase morreu e eu...
Ele precisou parar a fim de recuperar o fôlego, apagar as memórias do peito aberto e ensanguentado de Castiel, da sua pele fria contra a dele e o borrão enevoado de seus olhos índigo. Suspirando, ergueu uma das mãos a balançando na pouca distância entre os dois:
– Olha Zeke, Cas é da família, okay? E você não tem condição alguma de deixar Sam agora.
Verdade. O anjo havia gasto boa parte de sua graça para recuperar os graves danos causados em Castiel. Em primeiro lugar ele fizera aquilo, pois precisava da aprovação de Dean. Em segundo, porque ele realmente não possuía nenhum ódio com relação ao antigo companheiro de batalha. Porém o mais importante disso tudo, era o fato de precisar de um local seguro como o Bunker. Ainda assim muitos viriam atrás de Castiel, outros tentariam mata-lo, e quando isso acontecesse o anjo habitando Sam seria revelado.
– Só aguenta mais um pouco aí dentro cara.
Dean falou, bufando em seguida, sem acreditar nas próprias palavras:
– Todo mundo sempre diz como eu e o Sammy somos os ‘receptáculos perfeitos’, e blá, blá, blá, um monte de merda; e eu não acho que você vá conseguir um lugar melhor ‘pra descansar do que aqui. Cas está seguro com a gente e ninguém é idiota o bastante para tentar algo, ao menos não por enquanto.
– Por enquanto...
Ezekiel repetiu e Dean sentiu aquele mesmo calafrio subindo a nuca. Caminhando devagar pela cozinha, o anjo ponderava qual sua melhor estratégia. Fato era que Sam Winchester – qualquer Winchester — servia muito bem como um receptáculo. Suas forças retornariam mais rápido com ele e, mesmo que precisasse arriscar-se um pouco mais do que o esperado, seria melhor do que embrenhar-se numa busca desnecessária.
– Muito bem. – disse – Vou concordar com seus termos, por hora. Mas sob uma condição.
Engasgando, Dean já esperava por qualquer coisa: um contrato, matar alguém, expurgar alguns malditos anjos – não que ele tivesse algo contra esta última parte.
– O que?
– Você e Sam devem ficar longe das caçada até eu recuperar mais das minhas energias.
Num alívio sem igual Dean envergou os lábios para baixo batendo as mãos na lateral do corpo. Aquilo saiu melhor do que o esperado:
– Sem problemas. Sem caçadas, nós vamos ficar aqui quietinhos no Bunker pelas próximas semanas, apenas nos ajeitando no sofá vendo Game of Thrones.
Ezekiel piscou algumas vezes avançando um passo conforme franzia o cenho:
– Game of thrones?
Ótimo, mais um anjo sem noção alguma de cultura popular. Oh, bem, não que Zeke ficasse no controle na maior parte do tempo.
– Quero dizer cara que nós vamos ficar aqui no Bunker. Sem caçadas até segunda ordem.
Aquiescendo, Zeke fez um sinal a Dean e tão logo Sam retornava ao comando de seu próprio corpo. Por um instante ele pareceu desnorteado, olhando o celular desligado em sua mão e seus olhos rodeavam a cozinha sem nada entender:
– Eu estava falando com o Kevin no quarto...
Rapidamente, Dean tomou a deixa, apanhando uma cerveja de dentro do freezer:
– E daí você veio andando até aqui. – completou o loiro – Não é uma lógica difícil de seguir Sammy.
– Certo...
Ele concordou balançando a cabeça:
– De qualquer forma, Kevin está bem, Charlie também. Mandou lembranças.
– Ótimo, ótimo...
Foi tudo o que respondeu ao colocar a cerveja na boca. O líquido lhe pareceu mais amargo do que de costume. De soslaio encarava Sam conforme ele apanhava algo na geladeira.
Mentiras e mais mentiras, Dean afundava dos dois lados, sem contar nada a Sammy e nem a Castiel. No entanto, suas mãos estavam atadas. Precisava seguir em frente até seu irmão se recuperar e aí... Bom, aí ele poderia pensar numa boa maneira de desculpar-se com ele.
Castiel apareceu no meio da cozinha segurando um grosso livro entre as mãos. Seu olhar fascinado sobre as linhas fazia seu rosto iluminar-se a cada parágrafo lido, e por aquele breve instante Dean esqueceu-se de todos os seus problemas, afastou as incertezas e medos, deixando um sutil fragmento de felicidade apossar-se dele.
Talvez não fosse tão ruim assim ficar longe das caçadas por um tempo.
Continua
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