Não me deixe ir
10 Capítulo 10 - Seu Coração numa Bandeja
Notas iniciais
Não me deixe ir
10 – Seu coração numa bandeja
A segunda feira acabou sobre momentos de calmaria e tensão entre Dean e Castiel. Eles falavam-se normalmente, contudo Sam podia enxergar sem problema algum a tensão triplicada entre os dois. Cas tentando ficar distante, e Dean procurando disfarçar a carência do outro.
O caçula quis bater a cara na parede, pois se antes, aguentar aqueles dois em seus longos momentos se encarando já era algo difícil , agora! Complicou de vez! Sam tinha vontade de trancar os teimosos dentro de um quarto á sete chaves, e só os libertar quando se decidissem algo. Fosse se matando, fossem se resolvendo!
Quando voltassem ao Bunker faria isso.
Louis disse sentir-se mal depois do jantar de ontem, ficando deitado no quarto o dia todo. Nenhum dos três estranhou, até porque o pai do garoto sabia muito bem onde e como bater no filho para não deixar marcas.
Enfim veio a bendita noite do dia quatro de dezembro – terça-feira. O impala os deixou na mesma passagem no meio da autoestrada por onde atravessaram sem pressa. Louis, ao fundo, permaneceu calado, mas andava normalmente acompanhando o passo dos demais. Tudo precisava acontecer duma maneira relaxada, ou ia acabar revelando os planos de sua mãe – e se ele quisesse sair vivo dali, precisava atuar dentro do seu papel. Antes de continuarem o trajeto, porém, Dean achou melhor estarem precavidos. Puxou um pote de vidro do bolso do casaco estendendo-o à Louis junto duma faca:
– Encha até a metade.
– O que?! – exclamou surpreso, procurando auxilio em Castiel.
– Podemos não ter tempo de fazer isso lá dentro, então faça agora. – proferiu Dean.
– M-mas... O sangue deve ser fresco.
– Nos falamos sobre isso antes de vir ‘pra cá garoto.
– Tudo bem Louis, não dói tanto assim. – Sam tentou acalmá-lo, no entanto o garoto parecia estar visivelmente alterado.
– Algum problema Louis? – indagou Castiel, ao passo em que Dean franziu o cenho. Por que se negar nessa altura do campeonato?
Suspirando, Louis pareceu notar as encaradas na sua direção e ele precisava ser discreto. Pelo o que Rick havia lhe prometido, ele tinha de fazer sua parte. Só rezava para que seu pai se esquecesse sobre os detalhes do plano de Sam que fora obrigado a lhe revelar noite passada.
– Até a metade? – perguntou mudando de assunto ao apoiar a lâmina no antebraço.
Dean afirmou, e logo o sangue dele escorria para dentro do pote. Após enfaixarem sua ferida, continuaram a caminhada, chegando à frente da casa grande.
– É agora. – falou Sam – Tudo em mãos?
Castiel afirmou mostrando o símbolo desenhado no papel junto do encantamento. Dean empunhou a espingarda, pronto para qualquer sinal de problema e Sammy fez o mesmo ficando ao lado do irmão.
As luzes da sala estavam acesas. As janelas pareciam continuar quebradas desde sua última visita, mas eles ainda podiam sentir o cheiro de podre exalando do interior.
Louis subiu a varanda da frente desenhando os símbolos que anulavam a proteção da casa, empurrando a porta e adentrando o cômodo. Olhou para os dois lados, podendo ouvir os sons do cântico sombrio vindos da sala. Chamou os caçadores com um sinal e logo os quatro estavam parados no hall de entrada.
Dean e Sam separaram-se para cada direção como de costume enquanto Castiel vinha atrás deles seguido de Louis. Precisavam aguardar o momento certo, ou perderiam a oportunidade de destruir a criatura.
Vagarosamente chegaram à cozinha. A passagem dupla ao ambiente onde ocorria o ritual era perfeita para os dois irmãos, que podiam cobrir uma área maior. De soslaio, viram Tânia de costas a eles trajando uma veste púrpura. Acerca dela estava o senhor segurando uma bandeja usando o mesmo tipo de roupa. Ela deixou os braços estendidos em meio á canção que clamava pela presença da criatura, implorando que aceitasse o sacrifício.
Os Winchesters tentaram enxergar o altar querendo ver o estado da vítima do sacrifício. Se já haviam rasgado o peito, ou desenhado o símbolo, qualquer coisa que lhes indicasse quanto tempo tinham para agir.
E qual foi à surpresa, ao notarem que não havia corpo nenhum ali em cima.
Entreolharam-se sem nada entender, até que a voz rouca de Castiel irrompeu atrás deles junto de um baque surdo. Dean voltou-se rapidamente a sua direção dilatando os orbes ao se deparar com a cena:
A testa de Castiel sangrava e seu corpo se debatia grogue no chão de madeira devido a tontura. Não conseguia ter um ponto de equilíbrio e a repentina dor no topo da cabeça o fez desmaiar, sem nem ao menos saber o que havia o atingido.
– Cas!
Sam e Dean gritaram quase em coro, mas antes de poderem se aproximar do amigo, Louis os impediu apontando um revolver na altura da coluna de Castiel. Sua mão vacilava e o garoto chorava em pequenos soluços; as lágrimas caíam escorrendo pelo maxilar:
– M-Me perdoem... – balbuciou num tom choroso.
– O que está fazendo Louis? – Sam perguntou em meio ao choque.
– Me perdoem! N-Não deu para evitar!
Sam foi o segundo a cair se estatelando no chão com os braços estirados. Rick o acertou por trás, ao mesmo tempo em que Tânia golpeava Dean com um castiçal de prata. Os três caçadores ouviram vozes distantes, porém a pancada havia os desorientado completamente. Os membros tornaram-se molengas e maleáveis ao serem remanejados de lugar — arrastados da cozinha a sala. Mal tinham condições de lutar:
–... Vamos... O Ritual... Amarrem a carne...
Era a voz de Tânia, vindo em ecos aos ouvidos deles. Dean ainda tentou esticar a mão na direção de Castiel, ou mesmo de Sam, no entanto a escuridão veio depressa o apagando da realidade.
–----------------------(...)-----------------------
Apertando bem os olhos, Dean pendeu o pescoço para o lado, querendo despertar do desmaio em vão. Seus ombros doíam, os ouvidos latejavam, reclamando do excesso de barulho. Sam... A voz de Sam o chamava inúmeras vezes num tom desesperador:
– Dean, Dean!
Ele piscou recobrando os sentidos aos poucos. Os olhos turvos enxergaram a cor púrpura das roupas de Tânia diante do altar. A mulher segurava num toque sublime uma adaga entre as mãos apontando para o alto a lâmina, entoando a canção na sua voz esvanecida:
– Sam?...
Acordado, Dean tentou levar as mãos ao rosto constatando agora que elas estavam amarradas aos braços de uma cadeira por uma grossa corda. Sam sofria o mesmo destino e, num sobressalto, lembrou-se de Castiel. Rodou a sala com o olhar até vê-lo de pé próximo a Louis num canto da parede. O garoto encostava um revolver na sua costela o obrigando a ficar parado. Os globos negros de Louis eram um misto de preto e vermelhidão devido ao choro. Fungava inúmeras vezes impedindo as lágrimas de voltarem a cair:
– Ora, pode parar com o drama Louis.
Rick apareceu ao lado do filho apontando sua espingarda – carregada com balas de verdade e não as de sal dos Winchesters. Na outra mão apertava entre os dedos um pedaço restante de corda, brincando com as tranças das amarras uma a uma. Analisava as expressões de surpresa dos irmãos quase em uma satisfação inumana.
– Bem vindos. — Rick disse, caminhando até eles — Chegaram na hora. Bom trabalho Louis.
O garoto nada disse, desviando o olhar de culpa. Sentia nojo de si mesmo, mas não podia evitar, não depois do que Rick lhe oferecera naquela noite:
– Então, você fez curso de teatro Louis, ou é um brinde que vem com a linhagem sanguínea? — Dean ironizou num sorriso de escárnio.
Esfregando o nariz Louis abaixou o revolver o encostando em sua coxa:
– M-minha mãe... Ela me disse que os mataria... Todos vocês...
Rick espalmou os dedos na nuca de Louis o fazendo arquear a cabeça para frente quase caindo. O repentino assalto fez Dean e Sam saltarem na cadeira:
– Pare com a conversa e continue apontando a arma.
Ele o fez limpando os olhos, marcando a pele com marcas vermelhas devido à força com a qual secava as lágrimas. Nada disso teria acontecido se tivesse ficado em casa, aceitado seu destino, acatando as ordens de sua mãe. Sam e Dean não se machucariam...
– Agora, caçadores, vocês sabem muito bem que não deviam ter vindo até aqui, não é mesmo? – Rick disse, dando um passo até eles com a espingarda em riste.
– Se você queria nos matar, porque não o fez antes? Porque esperar até agora? — perguntou Sam.
– E quando nós teríamos a oportunidade de concluir o ritual com o coração de um caçador? – Rick riu – Nós observamos vocês desde o dia em que decidiram tirar nosso filho daqui. A partir dai ficaram ocupados demais com Louis para prestar atenção em nossos planos.
Tânia repousou a adaga sobre o altar virando-se na direção dos três:
– Preparamos os materiais e os encantamentos com muita calma depois que Louis fugiu de nós. E agora temos o ingrediente final.
– Vocês só estão vivos, porque a entidade ainda não escolheu. — disse Rick.
– Escolheu? — repetiu Dean apreensivo.
– Quem será o sacrifício.
– É ela quem decide, sabe? Nós normalmente trazemos duas pessoas. Ela escolhe uma e nós apagamos a memória da outra com um feitiço bobo, afinal, se livrar de dois corpos é muito difícil, acredite, já tentamos. Mas hoje podemos esquecer esse probleminha, já que ninguém da cidade conhece vocês. Será magnífico!
Tânia falava espaçando entre alguns risos curtos, parecendo divertir-se com alguma comedia tamanha era sua alegria.
– Então... Essa entidade faz “mamãe mandou” e vocês matam a vítima?
– É ela quem irá abrir o peito de sua oferenda, comer o coração ainda pulsante e com os órgãos restantes nos iremos irrigar nossa plantação para que ela seja rica e forte.
Sam e Dean fizeram a mesma expressão de nojo ao ouvir aquilo:
– Vocês sabem que devem colocar um adesivo de advertência nos seus produtos: “contem restos humanos”, certo? – comentou Dean num riso torto.
– Não zombe do que não entende! — exclamou Rick — Nós temos durante décadas as melhores safras, os melhores recursos! Tudo graças à entidade!
– Diga isso depois que colocar o adesivo.
Dean fazia piada querendo dar tempo ao cérebro — a Sam — para pensar em alguma coisa. O caçula só tinha certeza de uma coisa: precisavam usar o sangue de Louis o quanto antes. Mas a língua ferina de Dean vinha com um preço e dessa vez foi o soco de Rick, que abriu um novo corte acima de sua bochecha, o fazendo sugar a saliva misturada com sangue na boca, parando de falar.
Castiel engoliu seco forcando o corpo para frente e sendo compelido a ficar imóvel ao sentir o cano frio da arma por cima da blusa. Se ainda tivesse sua graça poderia ser de alguma utilidade. Sofria ao ver o nariz de Sam machucado, pelo ferimento na face de Dean. Como um humano, não havia muito que fazer. Louis continuava o ameaçando como precaução, pois assim nenhum dos Winchesters pensaria em se soltar das amarras.
Postos diante do altar Dean e Sam foram obrigados a ver a continuidade do ritual. Tânia retornou à mesa entoando uma nova canção clamando pela presença da entidade. Apanhou de uma cesta um filhote de porco estrebuchando, o fazendo sangrar sobre uma das imagens do santo. A noite havia caído, e a lua chegava ao ponto mais alto, o momento preciso para o sacrifício.
– Onde está, Louis? – Rick perguntou, e o garoto virou o rosto o evitando.
Sentiu a ardência no maxilar com o tapa veloz de seu pai em seguida. Tanto Sam quanto Dean tencionaram os músculos, acreditando agora nos abusos que Louis havia lhes dito sofrer nas mãos dos pais por se negar a condescender com a tradição medonha da família.
– No bolso dele...
Respondeu chacoalhando a voz em desespero, pois Rick havia se lembrado, sobre o ritual de anulação, sobre o que os caçadores pretendiam fazer com seu sangue. Louis indicou ao seu pai onde o frasco estava. Dean ainda tentou impedir Rick, mas acabou levando um forte tapa.
– É assim que vocês pretendiam acabar com o ritual? — perguntou o senhor balançando o pote na frente de Dean, o arremessando no chão em seguida — Que pena, quebrou.
Sam bufou vendo o sangue — seu passaporte de saída — espalhado entre os cacos de vidro. Tinham de dar um jeito de fugir dali, e depressa, pois no refrão seguinte da canção de Tânia, as luzes piscaram, e a sala começou a esquentar aos poucos. Estariam em breve na presença da entidade e, se tudo ocorresse como o planejado pela família, a criatura escolheria um dos irmãos para ser o sacrifício.
– Louis, podia ter nos contado!
Castiel disse, e Louis entreabriu a boca para respondê-lo, no entanto, Rick puxou o moreno pelas melenas negras o obrigando a jogar a cabeça para trás. Ele franziu o cenho desgostoso ao passo que Dean cerrou os punhos num visível acesso de raiva.
– Tânia sabe ser bem... Inteligente, no que diz respeito a ter suas vontades concretizadas...
Dando um novo puxão no cabelo negro, Cas soltou um grunhido abafado de dor, e Dean não se aguentou dessa vez:
– Solta ele! – gritou, e Rick o encarou sorrindo.
– Sabe, eu fui ver o Louis noite passada na cidade, enquanto vocês debatiam sobre os próprios dilemas pessoais. – narrou olhando ora para Dean, ora para Castiel – Disse a ele exatamente o que Tânia havia maquinado esses dias; uma maneira simples e prática de usar vocês sem termos trabalho.
– Você ameaçou Louis. – concluiu Sam rangendo os dentes.
– Demos uma chance a ele. – Tânia irrompeu a conversa, ainda de costas – Louis poderia escolher um de vocês para continuar vivo, enquanto os outros dois seriam os seletos itens de sacrifício.
– Sinto muito, muito mesmo! – Louis berrou tornando a chorar – Ela mataria os três! E-eu não podia deixar! Ao menos um! Ao menos um eu queria salvar!
Deslocando-se para o lado, o maxilar de Louis vibrou com o soco de Rick. Ele foi ao chão segurando a boca, e seu pai tomou sua posição constringindo os braços de Castiel e apontando o cano da espingarda na altura de seu pescoço:
– Louis, Louis, continue falando demais e vamos esquecer-nos do acordo.
Meneando a cabeça em discordância ele fez um sinal com os dedos de que ficaria quieto – pois não conseguia mexer a boca direito. Escorou-se na parede da sala apenas aguardando o fim daquilo tudo.
No fundo, Dean sentiu pena de Louis. Todavia, ele precisou escolher alguém a ser salvo e ficou grato por ter sido Castiel. Ele e Sam estavam mais acostumados com situações extremas, e suas chances eram melhores. Ainda assim precisava arrumar um meio de se soltar e usar o sangue do garoto contra a entidade.
Voltou-se ao seu irmão querendo arrumar um jeito de se comunicar através dos olhares. De início, Sam apenas o encarou de volta, mas num clique entendeu o que Dean queria dizer.
Na parte de dentro da manga do casaco de Sam, tanto ele quanto Dean sempre carregavam uma pequena faca. Aliás, faziam isso com vários artefatos espalhados pelos pedaços de roupa do corpo.
Conforme o cântico sinistro de Tânia continuava e sua voz assemelhava-se ao ruído agudo de um animal em agonia, Rick observava estupefato o poder da esposa se manifestando pela sala, trazendo a presença da entidade diante deles.
Castiel ainda tentou lutar contra Rick, contudo a coronhada que recebeu nas costas o fez parar em dor. Louis ergueu uma mão na direção dele recebendo o duro olhar do pai, retraindo, assim, em seguida os dedos de volta à sua boca.
Entre tantas distrações e o aumento acelerado da temperatura, Sam esfregava o pulso na madeira do braço da cadeira arrastando aos poucos a pequena faca para fora da manga do casaco. Ela cabia na palma da mão de tão minúscula, porém era isso mesmo que os irmãos precisavam. Como se fosse uma lixa, Sam começou a friccionar o mais depressa possível o fio de corte da faca contra a corda. Demoraria ao menos quatro minutos para soltar uma das mãos, isso sendo otimista.
Isso se a sorte daquela noite estivesse ao lado dos Winchesters – mas não era o caso.
Mal Sam começara a cortar a corda o suor brotou em todos os cantos de seu corpo. Dean e Castiel sentiram o mesmo calor aproximando-se mais e mais, até que num alto tom agudo, Tânia alcançou a vibração necessária e um vapor quente tal como o de uma sauna ergueu-se das frestas do piso de madeira, das entradas, dos buracos no teto, a casa inteira parecia dar vida a forma sólida da entidade, a moldando feito um vaso de barro escuro e velho. A fumaça ganhou cores, formato, tangência, e então lá estava ela, a criatura de corpo feminino esguio e putrefato, a cabeça trêmula, mudando a face de segundo em segundo parecendo possuir três rostos dentro de um. Ela abriu a boca esvoaçante quebrando o pescoço para o lado ao avistar Dean e Sam diante dela.
Caçadoreeess...
Sibilou a entidade e os irmos sentiram a secura na garganta quando ela falou.
– Hoje você terá o coração de um caçador, Grandiosa.
Falou Tânia numa voz submissa porém firme.
Caçadoorrr...
Chiou ao girar a cabeça tripla na direção de Castiel. Dean no mesmo instante congelou:
– Não, ele não Grandiosa. Tem de ser entre esses dois.
Tânia, ao menos, cumpriria sua palavra com Louis, afinal, ela queria mais do que tudo o filho de volta, seguindo seus passos no futuro, levando às gerações futuras a tradição da família.
– Agora vamos Grandiosa, faca sua escolha.
A mulher guiava as ações da criatura como se o timbre de suas palavras a controlassem num nível superficial, tão fino quanto uma camada de gelo. Uma frase errada, uma nota mais grave e o encanto sobre a entidade se perderia.
A indução de Tania colocou a presença sobrenatural frente aos Winchesters outra vez. A base de seu pescoço oscilava dando uma agitação instável a sua cabeça.
– Escolha Grandiosa, escolha e o coração será seu, numa bandeja.
A longa e podre mão coberta de terra e lama ergueu-se pairando, inicialmente na direção de Sam. Ele só parou nessa hora de cortar a corda, estagnando na metade do processo. Ficou tenso aguardando o resultado da escolha, mas então a entidade mudou a direção aos poucos, movendo o braço torto até parar na frente de Dean.
aahhhhhhhsssssss....
Chiou, e Tania aproximou-se parando ao lado dela:
– Será este, Grandiosa?
ShHSsS!
– Que assim seja. Louis, corte a corda dele.
O garoto engasgou balançando a cabeça.
– Louis, eu já o comandei.
Entretanto ele permaneceu acuado vestindo a pouca coragem que tinha para se negar a sua mãe.
– Seu ingrato!
Rick colidiu o rosto de Castiel contra a parede e ele caiu zonzo. O senhor foi até Dean começando a solta-lo, mas ao perceber a intenção dele para tentar fugir, Rick apontou na direção de Tânia:
– Se eu fosse você, ficaria bem quietinho...
Bastava uma palavra e Tânia faria a criatura atacar Castiel, pois a mão retorcida da entidade pairou sobre o corpo agachado dele. Dean prendeu a respiração entendendo o recado, deixando-se ser solto das cordas.
– De pé. — ordenou Rick.
Dean o fez cambaleando com o empurrão de Rick olhando de soslaio para Sam, torcendo para que ele houvesse terminado de arrebentar a corda, mas o irmão ainda estava no meio do caminho, incapaz de continuar tendo Rick e Tânia tão perto dele.
Segurando a adaga que tinha posto sobre o altar, Tania deu um passo adiante ficando frente a frente com Dean. Puxou sua camisa azul escura rasgando o tecido e expondo seu torso nu. Afastou-se, ficando atrás da entidade, apenas guiando a mão dela para o meio do peito de Dean.
– Grandiosa, nós te ofertamos!
Tânia entoou e Rick repetiu a frase conforme rodeava Dean regressando ao lado de Castiel com sua espingarda. O moreno ficou deitado no chão apenas observando a cena nebulosa, devido ao zumbido agudo abafando sua orelha. Sua nuca sangrava um pouco e ele tinha certeza de que precisaria de pontos.
A entidade levantou o extenso braço podre, estendendo o fino dedo até Dean, pronta para lhe roubar o coração e devorá-lo. Sam tinha de aproveitar o pequeno instante em que Tânia cantava à criatura e Rick a olhava fascinado, distraído, e toda a atenção recaía sobre Dean. Ele tinha ficado em segundo plano, e esta seria sua vantagem.
Abrindo a boca num som estridente, o rosto triplo da entidade assemelhava-se a um buraco oco e sem fim, com afiados e tortos dentes de animal. Ela não tinha olhos, mas sim duas cavidades profunda e densa, diminuindo de tamanho ao passo em que sua boca abria-se mais e mais. A língua saía da escuridão no fundo da garganta, clamando por sua oferenda num urro gutural e ininterrupto. Tânia acompanhava no mesmo ritmo a voz sobrenatural, e Rick sorria, aguardando irrequieto o desenlace do ritual.
Num martírio sem igual, Castiel observava a tudo impotente. Como ajudar Dean se não tinha mais sua graça? Se havia se tornado humano há tão pouco tempo? Os Winchesters eram caçadores, treinados desde pequenos, e ele... Ele era uma anomalia, um ser de luz que habitava um receptáculo, agora, desprovido da sua força. Contudo, sua agonia pairava exclusivamente sobre Dean. Não se esqueceu, pura e simplesmente do que sentia pelo loiro, apenas afastou a rejeição, a dor e a tormenta, pois seria mais fácil seguir em frente, apenas ignorando o calor que subia por sua face sempre que estava perto do loiro; bastava apagar da lembrança, forçando-se a ser apenas aquilo que Dean queria: um amigo.
Ainda assim nada desapareceu; como poderia?
Dean é e sempre será aquele com quem mais se importa; o humano pelo qual desistiu de tudo para proteger, a sua pessoa querida nessa existência turbulenta e às avessas.
Foi junto de Dean que aprendeu o real valor da humanidade. Antes, suas desilusões eram tantas, a amargura para com este mundo perdido, ainda que amado pelo Senhor, seu Pai. Castiel não acreditava neles, nos humanos, na sua bondade, no altruísmo. Cas jamais compreendeu o poder imbuído na livre escolha dos mortais.
Então conheceu Dean.
Ele, que sozinho enfrentou seres amedrontadores, procurando sempre proteger os incapazes de fazê-lo por eles mesmos; Dean Winchester, aficionado por qualquer tipo de comida gordurosa, piadista – pervertido em níveis moderados — irmão mais velho e altamente protetor do seu caçula, Sammy; capaz de ir até o inferno para salvá-lo, um caçador muitas vezes bruto, mas que na verdade esconde por detrás dessa máscara de dureza uma compaixão sem igual.
Dean, que não tinha fé na sua própria nobreza, que não entendia porque deveria ser salvo; um homem que só conseguia enxergar seu dever para com os outros e nada mais em si mesmo, acreditando viver uma vida amaldiçoada... Castiel amou cada uma dessas imperfeições dele e as acolheu no seu cerne; as aceitou e por muito tempo quis convencer Dean do quanto ele lhe era importante. Talvez essa fosse a razão do caçador tê-lo negado: não aceitar o fato de que podia ser necessário a alguém.
Mas Dean o era para Castiel, e o ex-anjo jamais se permitira fazer nada, e apenas o assistir morrer. E era em momentos assim, desafiadores o empurrando ao extremo limite da razão, que Castiel compreendia perfeitamente como era sublime o livre arbítrio dos homens – o mesmo que ele agora possuía.
A cólera entrou em combustão por todos os cantos do corpo de Castiel. O ardor de fúria o libertou da tontura, o misto de sentimentos englobou-se naquele ínfimo segundo em que recobrou suas energias, afastando-se da figura de Rick, avançando na direção de Dean em poucos passos.
Não dava tempo.
Dean nada pode fazer.
Foi tudo tão rápido e inacreditável.
Seus globos dilataram em meio à surpresa, angustia e desespero.
Por ver Castiel parado na sua frente, recebendo em seu lugar o golpe da entidade.
O loiro perdeu todo o fôlego, pasmo e perdido, sem acreditar, sem compreender nada!
O delgado dedo podre, perfurando o peito logo acima do diafragma, roubando a vida de Castiel.
Dean nada poder fazer... A não ser ficar sem ar.
Continua
Fale com o autor