Não me deixe ir
3 Capítulo 03 - O gosto ruim de sangue
Notas iniciais
Não me deixe ir
03 — O gosto ruim de sangue
De acordo com a garota do bar, Katie, Sam tinha encontrado uma pequena ligação entre uma casa à venda na cidade e os estranhos desaparecimentos seguidos de morte.
Aparentemente os corretores tentavam achar uma boa compra para o imóvel fazia seis meses, e apesar da boa localidade não conseguiram nem uma oferta. Sam lembrou-se da pesquisa feita mais cedo e pode conectar o bizarro ar aceirando a casa com uma antiga comunidade que viveu ali perto no século dezessete. Os fazendeiros faziam o possível para conseguir uma boa safra, bons escravos, bons materiais. Tudo bom demais para ser um mero acaso. E a tal casa ficava bem na divisa entre a cidade moderna e o antigo campo de plantações – agora uma grande fazenda trancada a sete chaves pelo proprietário. Estranhou as coincidências achando melhor irem verificar o local.
– Vamos nos separar. Vou para o segundo andar e vocês podem verificar o térreo.
– Cas pode ir ver o térreo. Eu vou ao porão.
Sam concordou sem perceber o tom ríspido na fala de Dean. Entretanto Castiel havia notado. Ele estava puto – a melhor palavra para defini-lo nesse momento. O moreno passou dos limites ao dizer que queria beijá-lo. Bom, ele queria mesmo, mas jamais teria dito isso a seco não fosse pelo álcool. Jurou a si mesmo nunca mais beber whisky.
Cas apenas acenou indicando para onde iria enquanto os dois irmãos se dispersavam. Armas em punho, água benta e sal nos bolsos, o mínimo que podiam levar numa situação dessas.
Descendo devagar as escadas do porão Dean acendeu a parca iluminação do local adentrando devagar o cômodo ainda bastante escuro. Procurava por símbolos, sinais de invocações, qualquer pista, qualquer coisa, contudo sua mente só conseguia pensar no bar, em Cas e nas palavras dele.
Estava tudo indo aos poucos para a direção mais torpe possível. Dean não sabia o que fazer. Devia sua vida ao homem! E ao mesmo tempo gostava realmente de Cas, porém não desse jeito, não como o moreno pensava. Quer dizer... Ele não poderia! Certo?
E se os sentimentos de Cas fossem verdade? Se ele gostasse mesmo de Dean dessa maneira? A súbita realização fez as pernas do loiro bambearem. Respirou fundo coçando os olhos, pois tinha trabalho a fazer e devia se concentrar nele ao invés de pensar essas insanidades.
No meio do porão nada via precisando acender a lanterna. Nenhuma anormalidade por enquanto. Estantes e mais estantes de entulho, coisas sem uso, uma máquina de lavar, secadora, e um grande aquecedor central ao fundo, aparentemente desligado.
Ainda assim Dean suava, e a noite jazia fria. Incomodou-se, franzindo o cenho, e então se virou ao sentir um movimento apressando passando por trás dele. Havia algo errado ali.
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No segundo andar Sam achava a mesma coisa que Dean: a casa tinha um ar esquisito. Procurou pelos quartos e banheiros alguma peculiaridade e a única coisa lhe chamando a atenção foi uma pequena estatua do tamanho de sua mão. Era um santo, ao menos parecia um, com o manto cobrindo o corpo inteiro enquanto a auréola dourada adornava a cabeça. Sam fez menção de pegá-lo a fim de realizar uma melhor análise e no mesmo segundo o quarto ficou quente – muito quente.
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Castiel tinha acabado de entrar na cozinha. As janelas da casa permaneciam trancadas sem sinal de arrombamento. Os armários vazios com apenas um jogo simples de panelas penduradas sobre o fogão. Procurou por cima da enorme bancada em forma de “u”, todavia ao que lhe parecia a cozinha era bastante normal.
A não ser pela pequena estátua apoiada acima de um dos armários de parede e o repentino calor subindo pelas paredes.
Aconteceu quase ao mesmo tempo, o encontro de Sam e Castiel com as estátuas similares e o embate de Dean com a entidade habitando o porão.
Ele foi lançado para os lados algumas vezes ficando com a voz rouca devido ao calor.
“Caçador, caçador, tem um caçador aqui...”.
A voz sobrenatural sussurrava parecendo misturar-se dentro de outros murmúrios. Dean quis chamar por Sam ou mesmo Cas – apesar da relutância ao pensar no amigo – mas a criatura desconhecida parecia ter selado sua voz. Se continuasse assim iria mata-lo.
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Sam continuava analisando a estranha peça, porém só depois de rodear o restante do quarto e constatar estar sozinho. Achou melhor se reunir com seu irmão e Castiel, entretanto, ao chegar próximo da saída a porta se fechou num baque surdo.
– Dean! Cas!
Gritou pondo a mão na maçaneta se arrependendo depois. O metal estava abrasador e queimou sua pele o fazendo largar a arma enquanto apertava o antebraço contra a barriga. Fora isolado dentro daquele espaço, que começou a aquecer mais e mais feito um forno.
Castiel ouviu os gritos de Sam. Era como se a casa estivesse viva, ou ao menos possuída. Estalou a língua devido ao descuido deles. Objetos – e casas eram objetos – podiam sofrer certos tipos de possessões. Deviam ter jogado água benta na entrada e, lembrando-se disso, foi exatamente o que fez. Subiu na bancada de mármore ficando da altura da estátua e lançou uma borrifada sobre ela. Fumaça se ergueu da mesma abrandando o calor da cozinha.
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No porão a criatura parou de brincar de ping pong com Dean pondo uma das mãos distorcidas contra a cabeça sentindo a dor no local onde Castiel havia borrifado água na estatueta. O loiro não conseguia a enxergar direito, pois ela parecia uma imagem borrada, mas foi capaz de distinguir feições femininas.
Tentou gritar novamente, mas apenas um urro rouco escapou e ele sentiu a garganta arder com o gosto de ferro subindo à língua. O calor secava a traqueia o deixando quase sem ar.
Cas não ouviu Dean, nem conseguiria devido à distância deles e a porta fechada do porão. Ainda assim uma força maior dentro do moreno o deixou desconfortável, como se fosse um ainda resquício da sua graça o alertando de que Dean estava em perigo.
Saltou da bancada espirrando água benta por onde passava enquanto ondas de queimação o atingiam, chegando ao porão depressa. A maçaneta da porta brilhava incandescente devido à quentura e o moreno jogou o restante a água sobre ela diminuindo a vermelhidão. Puxou a barra da camisa e girou a maçaneta descendo as escadas numa euforia preocupada.
A luz fraca dava pouca distinção entre os objetos, no entanto a voz gutural saindo dos quatro cantos do cômodo foi capaz de deixa-lo apreensivo.
“Mais um! Tem mais um aqui! Vamos, vamos! Eles vieram até nós!”
Diziam em coro num tipo de melodia lúgubre. A figura apareceu diante de Castiel borrada e imóvel ainda que a cabeça se mexesse dum lado a outro como se estivesse quebrada e quisesse voltar ao lugar. Ela esticou os braços revelando longos dedos em forma de garra.
Demônio? Assombração? Entidade? O que era aquilo? Cas não sabia. A única certeza era de que precisava ajudar Dean.
Ele estava estirado no chão escorando contra algumas estantes puxando a gola da camisa para baixo numa tentativa de aliviar a pressão em seu peito. Castiel foi andando devagar até ele ainda frente a frente com o mostro. Parou no espaço entre Dean e a criatura apontando o revolver na direção dela. Foi o loiro quem o ensinou como atirar. Podia precisar de prática, mas daquela distância com certeza acertaria.
“Um, dois, três caçadores! São três aqui! Vamos, vamos, vamos atrás! Vamos atrás deles!”
Repetiam num cântico sucessivo. Castiel apertou o gatilho vendo a bala atravessar o ser etéreo. Estalou a língua enraivecido dando um passo para trás. A criatura parecia rir e veio num salto sobrenatural até ele. No mesmo instante, Cas apanhou o pequeno frasco do bolso contendo a segunda reserva de água benta – sim, caçadores eram espertos e prevenidos.
Lançou contra ela e a criatura chorou num tom agudo e melancólico, contorcendo o corpo em meio à dor.
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No andar de cima, Sam arrastava-se até a cômoda onde a estátua estava disposta. Puxou com a mão boa a água benta do bolso e a jogou em cima de si. Uma onda de alívio o percorreu conforme o calor diminuía, sendo capaz de se erguer e dar um tapa na figura do santo o fazendo sair de dentro do círculo.
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A criatura no porão chiou em desgosto pondo as duas mãos na cabeça a remexendo dum lado a outro numa distorção bizarra.
“Caçador mal!” – berrou - “Mal, mal, mal, mal!”.
Repetiu o berro desesperado até não aguentar mais e esvanecer. Castiel respirou fundo ouvindo a tosse rouca de Dean indo até ele. Segurou o loiro pela nuca repousando o peso das suas costas sobre seu colo.
– Dean?! Dean!
Chamava por ele, porém seus olhos orbitavam de um lado a outro na tentativa de se livrar do desmaio, em vão.
O caçador ouvia seu nome, alguém o chamava, mas quem? A voz era conhecida, parecia ser Castiel.
Ah! Sim! Era Cas. O cara de barba mal feita e cabelos desgrenhados. O seu anjo salvador, o seu amigo, o agora humano Cas.
“Eu gostaria de beijar você, Dean.”
A frase irrompeu a sonolência do loiro e ele arregalou os olhos no susto vendo a proximidade entre ele e o ex-anjo. Grunhiu um tanto quanto apreensivo e desnorteado, sem saber ao certo onde estava e o que havia acontecido para ter deitado no colo de Cas.
A cabeça girava cheio de dúvidas e lembranças do bar e então, desorientado, disparou um pesado soco na mandíbula do moreno.
Castiel soltou Dean caindo sentado no chão com a mão sobre a boca, um gosto ruim de sangue. Apertou os olhos gravando muito bem no consciente a ardência daquele soco e em como não gostaria de receber outro:
– Mas que porra foi essa?! – exclamou Dean esbaforido.
Abrindo o maxilar e estalando o osso Castiel respondeu:
– Você estava desacordado Dean.
– Eu estava... Eu desmaiei e você fica assim perto de mim?! Me encarando?! Qual o seu problema? Achou que eu era a merda da bela adormecida?!
– Queria te acordar e...
– Ah certo! Me acordar! Que droga Cas, você está confundindo tudo!
Ele tentou abrir a boca para se explicar novamente, porém antes disso Sam adentrou o cômodo em meio à gritaria deles:
– Vocês estão bem?! Cas?
Exclamou vendo a expressão de dor dele:
– Estou sim, foi só um imprevisto.
Dean ficou calado apertando uma das mãos contra a testa a fim de organizar o que acontecia diante dele. Precisava separar os tempos corretamente na memória. Não estava mais no bar, era a casa suspeita. Havia uma criatura ali, eles lutaram. E Cas apareceu enfrentando a entidade, o salvando e... Oh céus! O que tinha feito?!
– Eu encontrei isso no quarto do segundo andar.
Falou Sam cortando o raciocínio dele ao mostrar a pequena estátua.
– Havia uma na cozinha também. – comentou Cas.
– Tentei a puxar de cima da cômoda onde estava, mas o quarto ficou quente. – Sam continuou – Precisei me arrastar até ela e quando a puxei tudo voltou ao normal.
– Pode ter sido na mesma hora em que joguei água benta na criatura.
O mais novo dos irmãos concordou com Castiel e voltou-se a Dean:
– Está tudo bem?
Parecendo despertar o loiro pigarreou cruzando os braços conforme rodeava o porão:
– Estou bem sim.
Num canto escondido ele avistou um pequeno símbolo avermelhado com a tal estátua da qual os dois falavam:
– Isso aqui? – perguntou puxando-a do lugar.
– Sim. Parece que cada nível da casa tem uma.
– E pela posição foram colocadas na mesma linha vertical.
Sam concluiu apontando o dedo para cima onde ficava a cozinha e, como deduzia o quarto.
– Vamos embora daqui. – Dean os interrompeu indo à escada – Temos mais e mais pesquisas para fazer.
Os dois concordaram indo embora daquela maldita casa. Dean manteve-se distante olhando Castiel de soslaio, tendo a imagem de seu rosto tão próximo do seu, gravada na mente. Irritou-se consigo mesmo por ter se deixado levar pelo susto e ferido o amigo. Cas não merecia aquilo...
Continua
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