Não me deixe ir
1 Capítulo 01 - Cheiro de Ferro Velho
Notas iniciais
Não me deixe ir
01 — Cheiro de Ferro Velho
Os três no ferro velho estavam sentados sobre o capo de um carro equilibrado em cima de outros à três metros do chão mirando o horizonte diante deles. Horas a fio passaram no mesmo lugar tendo as recordações de Bobby. Uma saudade nostálgica pairava entre eles quase como um invólucro sagrado. E o momento parecia ser eterno:
– E quando você voltou? – comentou Sam entre uma gargalhada e outra – Bobby fez de um tudo! Até jogou água benta na sua cara!
Dean concordou dando outra golada na cerveja:
– O babaca! – exclamou – Eu já tinha cortado meu braço com uma faca de prata!
Riram os dois irmãos batendo o gargalo das garrafas uma na outra. O único ainda de fora da conversa era Castiel. Tinha uma cerveja aberta entre as mãos, ainda gelada, porém não bebeu nada dela. Dean o cutucou de leve com o cotovelo e o moreno pareceu despertar do rápido transe:
– Qual o problema Cas? – perguntou o loiro.
– Estava tentando visualizar Bobby Singer nessa época. – confessou na sua voz serena – Ele sempre me pareceu um homem cheio de vida.
Concordando, Dean despejou o líquido garganta abaixo sugando o ar pela boca ao sentir o álcool batendo no estômago vazio. Ainda precisavam comer algo afinal era a refeição em homenagem ao caçador, amigo, pai e companheiro Bobby Singer. Mais um ano desde sua morte e mesmo com os altos e baixos encontravam-se ali para celebrar da maneira como ele gostaria de vê-los: recordando-se dos bons momentos.
– Vou buscar o almoço. – disse Sam jogando a garrafa vazia na pequena pilha acumulada debaixo deles.
– Não esqueça a torta!
Dean gritou puxando uma nova garrafa do balde de gelo estalando a tampa no tecido da camisa. Sorveu a bebida mantendo os globos esverdeados perdidos no céu de fim do dia. Até Sam voltar o almoço naquela altura seria praticamente uma janta. As nuvens estavam dispersas, mas proporcionavam uma gostosa sombra sobre a antiga casa de Bobby.
O ferro velho parecia não ter mudado em nada. Talvez a única diferença ali era a presença de Castiel, o anjo caído agora amigo e parte da família mais bizarra de caçadores da região. Se apenas Bobby estivesse vivo, ah! Os quatro teriam bons momentos juntos! E como Dean gostava de imaginar sua vida assim, por muitos anos à se seguirem. Acompanhado do irmão, de Bobby e de Castiel, matando criaturas sombrias e salvando as mocinhas indefesas – e levando algumas para a cama no meio do caminho. Sorriu consigo mesmo, implicando com o moreno de novo ao esbarrar o braço nele:
– Contemplando o mundo ou vivendo uma crise existencial?
Brincou frente ao semblante perdido de Castiel. O anjo apenas o encarou numa expressão tranquila de um sorriso torto falando:
– Passei pouco tempo ao lado de Bobby Singer, isso comparado a você e Sam. Mas o considerava uma ótima pessoa.
– Ele era. – afirmou o loiro bebendo novamente.
– Bobby Singer morreu cedo. – continuou o moreno ainda encarando Dean – Mas ele fez de tudo para proteger a Sam e a você Dean, e por isso ele sempre terá meu respeito.
Virando-se para o anjo o loiro manteve os olhos cabisbaixos num tom de saudade. Balançou os lábios como fazia quando pensava no que dizer tornando a observar o por do sol:
– Nós somos família Cas. – replicou – Sam, eu, Bobby, você; é o que fazemos, é o que sempre faremos: proteger um ao outro.
Ele bufou esfregando a mão pelo pescoço conforme ponderava as próprias palavras. “Mas eu não pude proteger Bobby”. Pensou consigo mesmo em meio a outro gole de cerveja:
– Tire esse peso das costas. – Castiel falou repousando a mão sobre o ombro do loiro – Não foi sua culpa, nem do Sam.
Soltando o ar pelas narinas ele aquiesceu perdendo-se no meio dos pensamentos outra vez. Entretanto, antes de deixar o “peso do mundo” o afligir novamente, Castiel puxou uma nova linha de conversa:
– O mundo é um bom lugar, apesar de tudo.
– Como é?
Dean refutou quase zombando do anjo até perceber as feições sérias e ao mesmo tempo calmas dele. Deixou os olhos pairados sobre Castiel enquanto ouvia seu monólogo:
– Existem boas pessoas como Bobby Singer. Mesmo Sam, com todos os problemas passados, tem uma boa índole. E você, Dean, alguém disposto a proteger os outros, que tem o coração mais puro que eu já vi.
O loiro soltou uma rápida risada sarcástica.
– Não sou um santo Cas. Já fiz muita besteira e cometi inúmeros pecados, dos piores, e você sabe.
Meneando negativamente a cabeça o moreno continuou girando o pescoço na direção de Dean:
– Sim, é verdade. Mas eu não disse que você era perfeito, apenas que tem um bom coração.
Um pouco sem graça diante daquela afirmação e do sorriso de Cas, Dean curvou os cotovelos em cima das pernas parando de bebericar da cerveja. Ficou jogando a garrafa quase vazia de um lado a outro até finalmente – levado pelo álcool e por um momento único de sinceridade – falar ao anjo:
– Obrigado pela confiança Cas. – afirmou – Eu nunca achei que fosse ter amigos, não além de Bobby. E também tem Sam, meu irmão, que estará comigo para sempre. Mas você agora faz parte do nosso grupinho seleto de superamigos.
– Superamigos?
Dean sorriu em meio à brincadeira:
– Oh sim, nós até temos um fã-clube, e cartões comemorativos! – riu – Uma verdadeira comunidade secreta do bem contra o mal! Só não vale usar um macacão colorido.
Castiel pendeu a cabeça para o lado como quando fazia ao não entender do que falavam, porém logo descartou a confusão ao ser levado pelas gargalhadas de Dean. Devia ser apenas uma brincadeira boba, pensou.
– Acho... – começou um novo discurso mexendo os orbes azuis dum lado a outro em meio ao devaneio – Acho que foi por coisas assim que resolvi ficar.
– Ficar? – indagou Dean confuso – Ficar aqui? Na Terra?
– Sim.
– Por causa das minhas piadas e meu maravilhoso e único senso de humor?
– Também.
A lataria dos carros abaixo dele rangeu devido aos movimentos bruscos. Dean segurava a barriga de tanto rir, imaginando Castiel rebelando-se contra os anjos: “Desculpe-me, vou ficar aqui por baixo, tem um cara que faz umas piadas muito boas”.
– Cas, não mude nunca! – disse em meio às risadas.
Após Dean recobrar o fôlego e se aquietar, Castiel retomou a fala como se antes nunca tivesse sido interrompido:
– Por causa dos humanos em si. Eu passei tempo demais aqui embaixo, e vivi, presenciei e assisti coisas como nenhum anjo antes teve a oportunidade. Lutei ao lado de pessoas boas como Bobby, acompanhei as redenções de Sam, sempre insistindo em retornar para o caminho da luz, e você Dean, fiquei ao seu lado na maior parte do tempo, vendo como o ser humano pode ser capaz de grandes feitos, de atos altruístas e sinceros, de um sacrifício puro, acima de qualquer coisa. Eu me apaixonei por este mundo mortal maravilhoso, cheio dessas pessoas incríveis. E você, Dean, para mim, é a mais importante de todas.
Numa postura amena Dean tornou a se ajeitar no capo do carro apenas encarando Castiel. Não entendia em nada como um anjo (ex-anjo) podia o achar alguém importante, mesmo ele sendo agora um caído. Contudo, se entrasse nessa discussão apenas iria estragar o dia em memória a Bobby preferindo ficar quieto.
– Pareço... Egoísta? Digo, quando falo essas coisas? – perguntou o moreno.
– Sobre mim? Rá! – riu – Não, não, sei que sou irresistível!
– É porque é verdade. – prosseguiu, pois apesar da humanidade que rondava o anjo, ele ainda conservava a pureza em suas palavras e ações – Confesso que não compreendia ao certo as razões do Senhor para salvá-lo do inferno, mas eu acarretei as ordens Dele de bom grado. E apesar dos esbarrões, você se mostrou um ser humano bom como outros podem ser e não o são.
Parou para respirar fundo antes de retomar a fala:
– Todos os dias eu observava a distancia homens e mulheres com as mesmas oportunidades e chances como as suas preferindo o outro lado, a perdição. Achava que a humanidade havia há muito se perdido e me entristecia, vendo a criação mais amada de Deus profanada. E então eu te conheci. – pausou o discurso com um sorriso — Você escolheu um caminho tortuoso, mas sente orgulho dele. Por isso o respeito, por isso eu digo que você é a pessoa mais importante para mim. Acredito agora que Deus me deu você para me mostrar esperança.
Dean pigarreou sentindo-se um tanto quanto encabulado frente à contestação de Castiel. Não pensava isso tudo sobre si mesmo, nem queria passar a imagem do “redentor”. Contudo o anjo pronunciou cada sílaba feito uma profecia – algo certo e único; conciso. Castiel estava convicto da sua escolha, por ter decidido ficar na Terra, por ter escolhido Dean ao invés dos anjos, mesmo sabendo o ódio gerado para com ele. Respirou fundo sentindo-se um pouco ingrato tamanho era o apreço de Castiel. Foi salvo tantas vezes por ele que já perdera a conta. Parecia mais seu anjo da guarda, ou algo do tipo. Esticou os lábios, batendo de leve nas costas do amigo:
– Obrigado, Cas.
Ele concordou tornando a encarar o horizonte:
– Ser humano é... Complicado. – afirmou.
– Ah, Sim! Isso é verdade! – concordou o loiro terminando de beber a cerveja.
Jogou a garrafa na pilha e deitou-se sobre o capo ajeitando as mãos debaixo da nuca. O céu ganhou um tom alaranjado conforme a noite se aproximava. Sam mandou uma mensagem avisando da demora, pois sabia que o irmão ficava apreensivo se passassem tempo demais sem dar notícia – um costume adquirido após muito apanharem do destino. Dean sentiu o corpo mais leve quase caindo no sono até então notar seu espaço pessoal ser invadido pelo anjo:
– Caramba, Cas! Já falei sobre ficar assim tão perto!
– Desculpe força do hábito.
Disse retraindo o tronco para cima. Dean o encarou franzindo as sobrancelhas sem entender a atitude do moreno até, por fim, perguntar em curiosidade:
– Qual o problema?
– É estranho.
– O que?
– As sensações humanas.
Falou baixando os olhos azulados na direção da mão. Abriu e fechou os dedos como se estivesse analisando um objeto precioso. Dean pareceu ficar apreensivo, pois parecia que algo abstruso estava acontecendo com ele. Chegou a apoiar os cotovelos no capo para se levantar, porém parou na metade do caminho. Castiel abriu a boca outra vez ainda fitando a própria mão:
– Fico... Como é a palavra? Assustado às vezes.
– Assustado? Um cara que destruiu inúmeros seres das trevas só com a presença assustado? – riu.
– É tudo novo para mim, Dean. – afirmou num visível pesar – Me sinto... Por Deus, eu sinto!
Exclamou constatando agora como até mesmo seu tom e suas sentenças haviam mudado. Ele antes não “sentia” de uma maneira tão profunda quanto um mortal, atendo-se a apenas cumpria ordens, fazendo o certo. No entanto era, então, capaz de sentir tal como um humano sem ser retraído pela essência angelical:
– Me confundo a maior parte do tempo. – continuou — Com sensações e reboliços estranhos.
– “Reboliços”? Okay, você agora está parecendo uma senhora de setenta anos dando chilique!
– Como quando estamos conversando...
Disse, passando os dedos da mão esquerda de leve sobre a palma da direita, ainda perdido em meio ao arrepio que causava a si mesmo ao tocar a pele, hoje, sensível. Dean, por sua vez quase uniu as sobrancelhas de tão apertadas que ficaram. Do que o maldito anjo (ex-anjo) estava falando agora? Nada fazia sentido:
– Conversando? O que tem isso à ver, Cas?
– Às vezes tenho medo de que vou morrer.
– Morrer?!
Nesse instante Dean postou-se sentado outra vez aparentando uma expressão consternada:
– Eu li uma vez, num dos seus livros, em uma biblioteca. O Corpo Humano era o título, e eu queria saber mais sobre como os humanos funcionavam.
Concordando, Dean fez menção de que ele continuasse:
– Músculos, nervos, sinais elétricos, humanos são movidos por esse pulsar constante que vem do cérebro que controla todo o corpo. Eu pensei que era a parte mais importante, mas então eu li sobre o coração. Escreveram sobre o sangue bombeado pelas veias, o alimento vivo do ser humano... Fiquei em dúvida e fascinado ao mesmo tempo.
– Cas, seja direto!- berrou o cortando.
Voltando a atenção para Dean, Castiel manteve os olhos fixos nos globos verdes dele e, o loiro precisou admitir a si mesmo que sempre se pegava distraído em meio a imensidão azulada do anjo:
– Eu li que o coração deve bater em média oitenta vezes por minuto, e que algo acima desse valor pode ser considerado uma doença até mesmo fatal.
– Cas, você não está fazendo o menor sentido. – disse coçando a nuca em nervosismo – O que quer dizer?!
Num movimento brusco, Castiel segurou o pulso de Dean e o colocou sobre seu peito. O loiro deu um rápido salto, no entanto parou em seguida ao sentir a alta velocidade retumbando de dentro do anjo:
– Mas o que?...
– Fica assim desde que comecei a ter sentimentos humanos.
– Cas, você tem que ir num médico! – exclamou genuinamente preocupado.
– Mas é estranho... – continuou o moreno já tendo soltado o pulso de Dean – Ele não fica assim sempre.
– Quando então?
Encarando Dean, Castiel entreabriu a boca como se fosse deixar a resposta solta no ar:
– Quando eu estou perto de você.
Num sobressalto o loiro chegou a cabeça para traz. Tentou não deixar os pensamentos se desembrulharem dentro da cabeça, contudo foi quase impossível não o fazer. Castiel tinha noção do que estava dizendo?
Não, ele não tinha, nem fazia ideia do que acontecia com ele.
– Acontece também quando penso em você, ou quando você me chama. Te ouço dizendo meu nome e...
– Okay, okay! – o interrompeu tossindo em seguida – Cas, eu já entendi, não precisa dizer mais nada.
– Você sabe o que é Dean?
Ele podia saber de algo, porém tinha receio de estar fritando demais o cérebro. Castiel ainda tinha pouca experiência nos quesitos humanos, e aquilo poderia significar apenas uma confusão de sua parte:
– Olha Cas... – principiou travando em seguida sem saber por onde começar.
Para piorar tudo o moreno continuava o encarando, quebrando o pescoço para o lado na sua expressão duvidosa. Dean fechou os olhos tentando ignorar a inocência vinda do olhar atencioso de Castiel:
– Cas, você já, sabe, teve essa sensação com outra pessoa? Sam, ou talvez até mesmo com uma mulher?
– Nem Sam ou outra pessoa. – afirmou – Oh, mas, agora que mencionou...
Dean respirou aliviado. Aquilo sim deveria ser um mal entendido por parte sua e do anjo – ao menos esperava que sim:
– Já fiquei assim, por causa de Meg, quando a beijei, ou com Aprill enquanto ela cuidava de mim.
Meg e Aprill! Claro! Devia ser isso! Apenas uma troca de intenções por parte do anjo. Afinal, como ele mesmo havia dito há pouco, possuía um enorme respeito por Dean e tais coisas deviam se misturar na cabeça recém-sentimental do moreno:
– Então, Cas, eu...
– Mas não batia tão forte antes. Nem me deixava tonto.
– T-tonto?
– Parece uma doença. Devia ter lido mais daquele livro. Desculpe por te incomodar Dean.
O loiro ficou parado sem saber o que fazer ou falar a Castiel. Bufou coçando a nuca em meio a um visível desconforto. Não porque o moreno havia praticamente se declarado a ele, mas sim por que... Ora! Era Cas! Pelo amor de!... – não terminou a frase.
Respirando fundo, Dean olhou o relógio querendo saber onde Sam se metera. Seria uma boa hora para aparecer e distrair os dois:
– Dean?
Chamou-o e apesar da expressão sem graça, o loiro voltou-se a ele:
– Que foi?
– Isso é errado? Eu ficar assim?
O que dizer? Se era estranho para Dean? Sim, com certeza, mas não podia apenas despejar tudo isso em cima dele, afinal, Castiel estava sendo o mais sincero possível ali, sem maldades ou segundas intenções. Noutra bufada, Dean se ajeitou novamente no capo procurando dentro de si toda a paciência que tinha:
– Olha, Cas, não é errado. É só um pouco estranho, para mim sabe. Porque, não me leve a mal, mas eu não curto caras. Já levei muita cantada, mas nunca peguei.
– “Cara”? – repetiu confuso – Eu era um anjo Dean, um ser de luz e graça, não sou um “cara”.
– Bem, você está usando o traje do MIB dessa “cara” aí e agora ‘tá virando mais humano, então você é um “cara” Cas, acostume-se.
– Mas este... Anseio, eu e meus irmãos antes apenas compartilhávamos essa impressão boa. Eu só nunca tive um corpo antes que externasse isso.
– Você... Compartilhava com os outros anjinhos de luz branca? – perguntou por mais estranho que fosse.
– Sim. Era igual quando nos sentíamos tocados pelo Senhor, uma espécie de calor acolhedor e gentil. No entanto, dentro dessa roupagem humana eu sinto muito mais, reajo muito mais, e a você apenas. E é... Curioso.
– Certo... Você em aqui e começa a falar do “toque de Deus” e que compartilhava calor com os das asas. – riu em escárnio — Com certeza isso não é nada estranho comparado ao agora.
– Para mim não era, nunca foi Dean. Entenda; anjos não têm essas diferenças da Terra. Somos seres de luz, nada mais.
– Olha, sinto te dizer isso, mas as coisas mudaram Cas.
– Mas o que sinto por você permanece.
Rebateu e as orelhas de Dean esquentaram um pouco. Não pelas palavras dele, mas por saber a franqueza de Castiel – que o encarava quase sem piscar:
– Ainda quando um anjo eu me sentia ligado a você, uma conexão que me deixava... – parou franzindo o cenho – Me deixava feliz. Apenas estou com este mesmo sentimento avivado, contudo ele pareceu apenas crescer nos últimos meses.
Os olhos de Dean dilataram frente às revelações de Castiel. O que dizer? O que fazer? Não tinha a menor ideia. Se fosse uma mulher ali, ah, já teria ido para o rala e rola há muito tempo. Não sentia repulsa do amigo, pelo contrário. Até entendia como ele devia estar confuso e, de certa forma, abraçava a então declaração dele como algo proveniente do real laço que os dois possuíam e que o anjo (ex-anjo) havia transformado erroneamente em algo, no mínimo distinto.
Mas era Cas. Ele não entendia quase nada, não sabia como os humanos funcionam por completo, ou como reagem a certas circunstâncias. Tinha pouca experiência e, portanto, não havia razão para ficar com raiva dele, ou se afastar.
– Cas... Eu agradeço, de verdade. Mas você precisa por as ideias no lugar cara. Somos amigos, e isso é tudo.
– Você não sente nada por mim Dean?
Pegando-o de surpresa o loiro deixou os lábios separados pensando seriamente em abrir outra cerveja:
– Eu... Sinto o mesmo que pelo Sam, Cas. Eu já disse: somos família.
O moreno aquiesceu virando o rosto de volta ao horizonte quase escuro, no entanto Dean foi capaz de distinguir a pequena pontada de tristeza adornando a expressão de Castiel. Uma bola de ar parou no meio de sua garganta e o loiro viu-se numa posição estranha e desconfortável. Eles eram amigos, nada mais. Não podia dar esperanças a Castiel, contudo também não queria se afastar dele. Respirou fundo, apenas pensando que em breve essas “sensações” do moreno se dissipariam com o tempo e esse fim de tarde se tornaria uma lembrança cômica.
Sam chegou trazendo o tão esperando almoço-janta e os três foram para a casa de Bobby comer os hambúrgueres se entupindo de colesterol. Com Sam ali as conversas ficaram mais animadas e mesmo Castiel participava delas começando a entender algumas das inúmeras referências das quais os irmãos brincavam um com o outro. Riu de vez em quando, porém sua mente ainda vagueava em meio às palavras de Dean.
Passando da meia noite eles decidiram voltar ao trabalho fazendo as usuais pesquisas por casos até acharem reportagens sobre uma cidade a três dias dali. Pegariam o carro logo cedo a fim de encurtar o trajeto e então resolveram se deitar. Foram para o segundo andar onde Sam e Dean dividiram o mesmo quarto de tão acostumados com isso e também pelo fato de não terem outro cômodo onde colocar Cas. O moreno deu boa noite aos dois ajeitando-se na cama.
Queria dormir, pois aprendeu como era crucial aos humanos descansar após um longo dia. E ele teria conseguido se sua mente não fosse um poço de discussão interna, que nesse caso focava-se em Dean.
A maneira como ele ria, principalmente. As expressões sarcásticas e as piadas o deixavam com um ar leve. Mas acima disso estava a presença bondosa dele. Dean sofreu tanto em sua vida. Perdeu os pais, deu a vida pelo irmão, o retirou de vários problemas, salvou outras pessoas e ainda assim, após tanto doar em nome dessa causa ele insistia, queria continuar seguindo em frente no mesmo caminho, até o resto de seus dias, se pudesse. Talvez fosse pelo tamanho da carga que o loiro carregava. Ele conhecia o peso de todas essas dores e lamúrias, e pela sua índole jamais conseguiria ficar parado sabendo que outros poderiam sofrer o mesmo. Dean era um ser humano incrível, Castiel pensava.
Mas poderia se satisfazer apenas assim? Ele ainda estava aprendendo tantas coisas novas, porém disso ele sabia, foi a única certeza que trouxe consigo da sua vida angelical. Gostava de Dean, de sua amizade, da pessoa que ele era. Queria ficar ao lado dele sempre que possível, e às vezes, logo após ter caído, sentia-se um tanto quanto nervoso próximo dele. Nos livros chamavam isso de paixão.
Castiel respirou fundo, percebendo o quanto este ato de saturar os pulmões com ar o deixava mais leve e clareava as ideias. Ainda precisava saber de muitas outras coisas, de viver inúmeras experiências nessa nova vida humana, mas sobre essa paixão entendia muito bem. Amava os humanos, a complexidade deles e seu jeito torto de consertar os problemas. E Dean era quem ele mais amava; a pessoa por quem foi capaz de largar tudo.
Fechando os globos azulados ele adormeceu deixando a imagem fixa de Dean em sua mente, aquietando-se por fim.
Humanos possuem os laços familiares existentes desde o nascimento. De fora desse círculo entram os amigos, com os quais vínculos de confiança são criados.
Além disso, Castiel sabia sobre os amantes, aqueles que se entregavam de corpo e alma ao parceiro, abarcando nestes dois laços mortais: tornavam-se família e amigos, possuíam as boas qualidades destes dois extremos e dividiam as sensações um com o outro, externando os sentimentos além de palavras em ações.
E, se concentrasse o pensamento acerca do loiro, Castiel sabia que queria ter exatamente esta mesma relação com ele. Ser seu amigo, sua família, um amante e poder tocá-lo e passar todo o calor crescendo no seu interior através de suas mãos para dentro de Dean.
Cas poderia acostumar-se com o resto dessa vida humana, desde que fosse junto dele. Em todos os sentidos dessa constatação.
Continua
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