Havia algum tempo que Lílian não se sentia tão entusiasmada. Seu último ano não tinha sido nada além de estresse fruto do curso de arquitetura, onde o único ponto positivo era o bosque que ficava na frente do prédio, ideal para matar aulas, e da necessidade de prestar novamente o vestibular, que assombrava seus pesadelos até hoje.

Contudo, ela estava começando a acreditar na ideia de “ano novo, vida nova” que Marlene tanto falava. Apenas uma semana depois de seu aniversário de 21 anos – o qual ela não se lembra de metade – ela estava, finalmente, começando um curso que gostava.

Quer dizer, amanhã ela começaria o curso de psicologia. Naquele momento, sua única preocupação era se certificar que tinha conseguido tirar todo resquício de tinta do corpo pós-trote, enquanto se maquiava para ir ao bar com Marlene.

— Nada como uma quarta feira na Borba pra começar bem o semestre, não acha, Lili?

— Marlene, você está sempre na Borba ou na Maria Antônia.

— Em minha defesa, eu moro na Maria Antônia, então tenho que estar aqui sempre mesmo. – a loira estalou a língua enquanto aplicava rímel em seus cílios.

— Você deveria alugar um quartinho no fundo de um dos bares logo. Era capaz até de ganhar um desconto, todo mundo já te conhece mesmo.

— E aturar alunos de engenharia matando aula o tempo todo? Obrigada, eu passo. – ela olhou séria para a ruiva. – Eu já namoro um aluno de direito, existe um limite de chatice que uma pessoa sozinha pode aguentar.

Lilian riu do comentário da amiga, sabendo que não teria como rebater aquilo. Apesar de fazer direito no Mackenzie, Sirius era um cara legal. Claro, ela jamais cometeria um erro tão grave quanto o da amiga e acabaria se apaixonando por um aluno de direito, mas achava Sirius uma boa companhia.

— Você se lembra de quando conheceu Sirius?

— Sinceramente? Mais ou menos. – Marlene sorriu, nem um pouco envergonhada. – Eu me lembro de conhecer você no trote, depois nós bebemos aquela mistura que parecia gasolina e começamos com os desafios.

Elas repassaram as cenas daquela noite, rindo enquanto falavam. A brincadeira toda começou com apostas leves, como, por exemplo, virar o copo de bebida, conversar com desconhecidos, beijar alguém. Até que, após vários copos e ouvir Marlene repetindo que era invencível, Lilian desafiou a nova amiga a beijar alguém que ela escolhesse, com a condição de não dizer seu nome verdadeiro.

— Eu até hoje não acredito que você passou seu número certo pra ele.

— Lili, eu estava muito bêbada. Eu podia jurar que tinha passado o número errado!

— Isso não foi o pior. Você demorou um mês para falar pra ele que seu nome não era Muriel. — ela zomba, fazendo uma careta quase semelhante a uma risada. — Falando nisso, de onde surgiu esse nome mesmo?

— Inspirei na tia-avó de uma amiga minha de escola, ela dava beijinhos em todo mundo que conhecia. — Marlene gesticulou enquanto tentava se explicar. — E, em minha defesa, eu também achava que Sirius estava mentindo o nome dele. Fala sério, como eu poderia adivinhar que a família dele é doida e nomeia todo mundo de acordo com os astros?

Lilian riu, enquanto sua mente repassava os acontecimentos daquela noite. Marlene era, sobretudo, uma ótima companhia em festas e afins, mas naquele dia em si, tudo parecia ter sido diferente. Lembrava-se com clareza dos momentos e de como Sirius parecia encantado com Muriel. Se divertiu, por dias, enquanto a loira sustentava aquela mentira quase sem nexo, mas que para Black sequer parecia que fosse uma invenção de Mckinnon. Perguntou-se também, como seria se fosse ela no lugar da amiga.

— Eu não cometeria um erro desses. — a ruiva se gabou enquanto se olhava no espelho, ajeitando o cabelo. — O desafio nem era tão difícil.

— Eu não teria tanta certeza disso.

— Você está duvidando de mim? — as duas se encaravam, com os braços cruzados.

— Estou. — Marlene sorriu, desafiando a amiga. — Eu duvido que hoje você consiga enganar alguém da forma que eu enganei Sirius.

— Vai ser moleza.

— Ainda tem uma condição. — ela a interrompeu. — Você não vai poder dizer nome nenhum para a pessoa, nem passar seu telefone.

Com as sobrancelhas arqueadas, Lilian a observava com atenção. Os braços continuavam cruzados, logo acima dos seios, enquanto a ruiva mantinha uma feição de curiosidade, mas ao mesmo tempo animada. Não negaria que a proposta da amiga lhe fazia sentir algo diferente, quase como um êxtase, com a mistura do desafio, tudo tornava a situação ainda melhor. Evans adorava desafios, tanto quanto gostava de ser desafiada, tudo para provar que estava certa.

— O que foi, Lili? — Marlene sorria enquanto observava a amiga pensar sobre a aposta. — Não foi você que disse que era fácil demais?

— Tudo bem, Lene. — ela estica a mão, selando a aposta. — Eu vou conquistar alguém essa noite, e não vou nem precisar inventar um nome para isso.

—----

Enquanto caminhavam pela rua íngreme dos bares, Tiago observava as pessoas ao seu redor, procurando por conhecidos. Sirius, ao seu lado, fazia o oposto, focando apenas em seu celular e na conversa com a namorada, querendo saber aonde exatamente deveriam se encontrar, já que os meninos tinham se atrasado no metrô.

Tiago achava fofa a relação dos dois, mas nunca perdia a oportunidade de irritá-los por deixarem ele sobrando às vezes. Sentia-se como Ted Mosby — apenas nisso, jamais na personalidade — ao lado deles.

— Eu vou ter que segurar vela para vocês de novo? — não obtendo resposta, Tiago o empurrou levemente. — Larga essa porcaria! A Marlene não vai embora em cinco minutos.

— O quê? — Sirius respondeu, voltando sua atenção para Tiago pela primeira vez desde que saíram do metrô.

— Eu perguntei se a Marlene chamou mais alguém além da gente.

— Não que eu saiba. — ele dá de ombros, enquanto viram a esquina. — Ah, lembrei, acho que o Remo e a Tonks estarão lá.

Ótimo, ele pensou, não vou segurar vela, mas um castiçal.

— Sirius!

A voz de Marlene ecoou pelo espaço, mesmo com a música alta e alcançou os ouvidos de Tiago, que caminhava ao lado do primo, Sirius Black, agora em direção à loira. Isso indicava que, finalmente, haviam chegado ao local.

Marlene e Tiago eram amigos há mais tempo do que eles se lembravam; Conheceram-se, a princípio, na escola, ainda quando eram apenas duas crianças. A amizade surgira de maneira espontânea, pois mesmo sendo tão jovens, ainda sim conseguiam se entender. Sirius, contudo, integrou o grupo mais tarde, quando veio para o Brasil, ao lado do irmão Regulus, apenas para fazer faculdade.

Enquanto Sirius abraçava a namorada, Tiago deu mais uma olhada ao redor, na esperança de encontrar alguém — conhecido ou não — para lhe fazer companhia, mas tudo o que achou foram alguns garotos de seu curso que não gostava.

— Viu, Sirius? Eu falei que a Marlene não ia fugir de você só porque nos atrasamos cinco minutos.

— Ti, para de reclamar e vai buscar uma bebida pra gente. — Marlene o empurrou levemente com a mão. — Eu e o Six vamos pegar uma mesa.

— Só estamos os três por enquanto? – ele perguntou enquanto tirava a carteira do bolso. – Remo e Dora ainda não chegaram?

Se Tiago estivesse prestando atenção, veria um sorriso malicioso passando pelo rosto da amiga enquanto ela confirmava que bebida para três bastaria por enquanto. Em vez disso, ele apenas virou as costas e entrou no bar indicado.

Animada com o plano, Marlene se agarrou no braço do namorado e o puxou para sentar, sorrindo enquanto esticava a cabeça, numa tentativa de observar o interior do bar.

— Você está aprontando algo. — Sirius comentou, não com um tom de reprovação, mas de curiosidade.

— Você me conhece tão bem. — ela respondeu, sem tirar os olhos de um ponto fixo a frente. — Se lembra de quando Tiago pediu para que eu apresentasse Lilian para ele, mas eu neguei porque ele é um péssimo cara para se envolver?

— Claro que lembro, ele reclamou comigo por semanas.

— Pois é. — ela aumentou seu sorriso quando viu a cabeça ruiva de Lilian se aproximar de Tiago para conversar. — Se tudo der certo, ele vai reclamar de novo.

Sorrindo, Sirius ouve atentamente o plano da namorada, animado com o que poderia ver acontecendo naquela noite.

—----

A aposta de Marlene havia deixado Lilian mais animada para noite, e a prova disso estava em seu sorriso animado e os olhos que brilhavam, enquanto buscavam por alguém interessante o suficiente. Viu a oportunidade perfeita assim que chegaram, enquanto oferecia a ideia de que ela mesma fosse buscar por bebida. Não havia maneira mais fácil de encontrar alguém numa festa, se não fosse pelo bar. Mckinnon, em resposta, apenas concordou com a cabeça.

Não demorou muito para que seus olhos verdes encontrassem alguém. O rosto era conhecido, mas não sabia exatamente de onde — e sequer se importava. Provavelmente era mais um estudante do Mackenzie, que ela tivesse esbarrado em algum momento dentro do campus ou até mesmo numa noite com Marlene.

Quando se aproximou, o rapaz não parecia tê-la notado, até o instante em que sua voz soou.

— Oi. — Lilian murmurou, segurando um copo de cerveja em uma das mãos, enquanto os dedos da outra tamborilavam o balcão à frente, seguindo o ritmo da música.

— Olá. — Tiago respondeu, ainda sem dar a mínima para quem estava ao seu lado.

A verdade é que ele estava quase irritado. Não por estar ali, mas pela situação – seus amigos, em suma, estavam sempre acompanhados, e ele, é claro, sempre procurava pela companhia durante a noite. Estava prestes a fazer isso, no instante em que a bebida que havia sido pedida fora entregue, até que seus olhos enxergaram os fios ruivos ao seu lado.

— Oi? — Falou novamente, agora com mais interesse que antes. Seus lábios já mostravam o vislumbre de um sorriso, que crescia ao canto. — Desculpa, foi você que falou comigo?

Esperançoso, Potter encostou-se no balcão, mas a resposta foi clara: a ruiva apenas revirou os olhos e deu as costas para ele. Tiago, é claro, deu uma risada, e rapidamente passou a segui-la.

— O que foi? — Ele perguntou, logo atrás dela.

— Achei que você não estava interessado em falar comigo. — Lilian indagou, com a voz cheia de sarcasmo. — Com licença. — Ela dizia, enquanto passava pelas pessoas.

— Eu não disse isso.

— Mas pareceu.

— Eu só estava…

— Ocupado? — questionou. Evans agora o olhava, mantendo uma distância considerável.

Tiago mordeu o lábio, segurando uma risada, enquanto a observava. Agora, olhando-a de tão perto, parecia reconhecê-la de algum lugar. É claro que o garoto estava presente em todas as festas possíveis e conhecia tantas pessoas que, em alguns casos, sequer conseguia lembrar seus nomes, mas o rosto lhe era mais familiar que o costume.

— Eu te conheço? — Potter perguntou, após alguns segundos em silêncio.

— E isso importa? — Disparou a falar, quase interrompendo-o no meio da fala. Lilian agora levava um dos copos em mãos até a boca, enquanto sustentava o olhar na direção de Tiago. — Quer dizer, não acho que se você realmente me conhecer vá significar algo.

— Não é isso. — Tiago estava tão desconcertado que a voz parecia falhar. — É só que você me parece familiar e…

— Minha nossa! — Lilian bravejou. — Você quer me beijar ou bater um papo filosófico sobre aparências?

Outra vez o rapaz riu. Não sabia se era pela atitude, a forma como a ruiva a sua frente falava com tanta sagacidade, ou pela beleza dela, quase deslumbrante, que de alguma forma o deixava embaraçado demais. Preferia acreditar que era uma mistura de ambos.

— Eu posso ao menos perguntar seu nome? – murmurou, agora próximo o suficiente para que ela pudesse ouvi-lo, mesmo com a música ao fundo.

— Não.

E antes que Tiago tornasse a falar ou questioná-la, Lilian envolveu seu pescoço com um dos braços, puxando-o para mais perto, enquanto tomava cuidado para não sujá-lo com a bebida ainda em mãos. Potter não relutou em beijá-la.

Ao fundo, Marlene observava a cena com um sorriso nos lábios.

—---

A festa continuava, enquanto Lilian sequer poderia dizer que horas eram. Seus sentidos já estavam aflorados, tanto pela bebida que corria em seu sangue, quanto pela forma como Tiago a beijara durante toda a noite. Não esperava que seus amigos fossem atrás dela — não quando Marlene sabia o que ela estava fazendo. Tinha quase certeza que a loira já havia visto a Evans aos beijos com um rapaz que, para ela, era estranho; e por isso, não recebera uma mensagem preocupada.

Tiago, entretanto, mesmo se tivesse recebido algo, não se daria o trabalho de responder. Seus dois melhores amigos estavam ocupados com suas respectivas namoradas, e ele precisava da sua distração.

Uma bela de uma distração, pensou, enquanto olhava para Lilian.

A ruiva estava sentada ao seu lado, enquanto os braços de Potter envolviam seus ombros. Distraída, ela olhava para um ponto fixo em algum canto, enquanto a boca brincava com o copo, agora vazio. A impressão de conhecê-la ainda não saíra da cabeça de Tiago, que a encarava sem pudor algum naquela altura do campeonato. Os olhos verdes, quase fechados — talvez pelo cansaço ou pela bebida –, ainda pareciam soltar faíscas na direção que ela olhava. Não tão intensas como haviam sido enquanto a ruiva o olhara durante o tempo que passaram juntos, mas ainda sim era fascinante. Julgando-a assim, Potter convenceu a si mesmo que aquela mulher era alguém de personalidade forte. Tanto quanto Marlene.

Marlene!

Olhou-a novamente. Poderia ser apenas uma coincidência, mas lembrava-se da imagem de Mckinnon ao lado de uma ruiva, tão bonita quanto a que estava em seus braços naquele instante. Também conseguia lembrar de como a amiga havia o proibido de sequer cogitar a ideia de se aproximar da tal amiga, pois o mesmo não a merecia e Marlene o conhecia bem demais para deixar com que a mulher se envolvesse com Tiago. Fora uma semana de muitas brigas entre os dois amigos, enquanto Sirius mantinha-se ao meio, tentando apartá-los.

— Preciso ir embora. – murmurou, enquanto olhava para o celular. Tiago, que ainda a olhava quase disperso, só retomou a consciência ao ouvi-la falar. — Quase 4 horas… tenho muitas coisas pra fazer amanhã.

— Certo… — Tiago respondeu, com a voz sonolenta. No mesmo instante o garoto bocejou, fazendo a ruiva sorrir enquanto o olhava. — Precisa de carona?

— Não. — A voz de Lilian saíra mais ríspida do que ela gostaria.- Quer dizer, eu vim com alguns amigos, eles me mandaram mensagem dizendo que já estão indo, etc.

— Ah.

A verdade é que Potter estava um tanto relutante em deixá-la ir embora, mas suspirou fundo, enquanto levantava-se da cadeira, acompanhando-a.

Lilian, por sua vez, havia realmente gostado do tempo que passara com o rapaz. Não sentia problemas em manter contato com seus casos de uma noite só após o ocorrido, mas seu espírito competitivo a levava naquele momento, mesmo que sua mente — bêbada — praticamente suplicava para que ela passasse o número para o desconhecido.

— Escuta… — A voz de Tiago a fez encará-lo, quando estava quase indo embora. Uma das mãos do rapaz encostava em seu braço, acariciando-o. — Você não me disse seu nome!

— Nem você. — respondeu.

— Bom, eu sou Tiago. Tiago Potter. E você?

Evans não esperava que ele fosse responder. Na verdade, naquele instante, perguntava a si mesma o motivo de ter rebatido a pergunta dele. Deveria ter apenas o ignorado. Ou ao mesmo fingir que não havia escutado.

A aposta ainda acontecia. Não queria perder — e de fato não iria. Não depois de ter sumido por horas. Seria injusto demais. Mas também não conseguia simplesmente ignorar a pergunta do rapaz. A sorte de Lilian era que, talvez, Marlene não descobrisse se ela contasse o nome… mas mantivesse seu número em segredo. Talvez Tiago sequer a encontrasse outra vez. São Paulo era enorme e ela contaria com isso a seu favor.

— Hm… — Lilian mordia o canto do lábio, mantendo um sorriso nervoso nos lábios. Poderia colocar a culpa na bebida se quisesse, mas sabia que todo aquele álcool parecia se esvair do corpo perante ao nervosismo.

Ao fundo, a música ainda tocava.

“Oh, Juliana! O quê tu quer de mim? Já falei que eu passo o rodo e não caio em qualquer papim.”

— Juliana. Prazer. — respondeu, por fim, estendendo a mão na direção de Tiago.

— O prazer foi todo meu, ruivinha. — Potter sorriu. — Número?

— Hm… acho melhor não. — Lilian já se afastava novamente, andando de costas, apenas para olhá-lo. — Obrigada pela noite!

Tiago sorriu, enquanto a via correr entre as pessoas que ainda estavam por ali. A primeira coisa que passou pela sua cabeça, quando ela já havia sumido, era que precisava encontrar aquela ruiva outra vez. Se realmente era uma amiga de Marlene, ele não tinha certeza — mas iria descobrir.

Com o celular em mãos, abriu o aplicativo de notas e escreveu o nome da garota, apenas por precaução, caso ele se esquecesse quando acordasse.

Mas sabia que seria impossível.

—----

Desde o dia do trote, nada de interessante tinha acontecido na vida de Lilian. Quer dizer, ela teve as primeiras aulas do curso, conheceu pessoas novas, se divertiu no final de semana com Marlene. Contudo, nada disso afastava Tiago Potter de sua cabeça.

Ela não tinha se deixado procurar pelo garoto nas redes sociais, pois sabia que não iria resistir de mandar uma mensagem e, consequentemente, perderia, em partes, a aposta que fizera com a amiga. Além disso, conhecia garotos como Tiago, sabia que ele a bloquearia no instante que visse que seu nome não era Juliana.

Mesmo assim, uma parte dentro dela queria ouvir a palavra “ruivinha” saindo de seus lábios novamente após um beijo.

Sacudiu a cabeça, focando na letra da música que saía de seus fones de ouvido enquanto ela esperava na fila pelo seu pão de queijo. Tudo aquilo já tinha acontecido há uma semana, era ridículo que ela ainda estivesse pensando nisso, especialmente quando sabia que era unilateral. Tiago tinha o perfeito jeito de um garoto que beija alguém e esquece cinco minutos depois, com certeza não estaria pensando nela.

Quando a fila, finalmente, andou, Lilian pegou seu pão de queijo e se virou para ir embora, esbarrando em um idiota alto de terno. Esse era o grande problema de comprar coisas no Borges, encontrar alunos de direito. Com a exceção do namorado de Marlene, Lilian achava todos arrogantes e extremamente chatos. Nem o terno mais bonito poderia tirar a chatice de um homem estudante de direito.

— Juliana?

— Não, você me confundiu. — ela disse, automaticamente, até que reconheceu a voz.

No instante que levantou seus olhos para encarar o idiota de terno, percebeu que deveria ter feito isso antes de corrigi-lo. Tiago estava em sua frente, esticando o braço para pegar seu café, mas sem tirar os olhos da ruiva. Ele segurava dois copos na mão, entregando um para Lili, que murmurou um “obrigada” com o gesto.

O perfume amadeirado do rapaz invadiu seus sentidos, obrigando ela a acompanhar o andar dele para longe da muvuca do lugar.

— Então seu nome não é Juliana?

— Não. — Lilian riu, um pouco desconfortável. Jamais esperou que, em uma faculdade tão grande, ela fosse esbarrar justamente nele.

— Vai me dizer o verdadeiro? — Tiago sorriu enquanto mostrava o horário em seu celular. — Ainda temos algum tempo até a aula começar, por que não se senta comigo e com meus amigos? Eles são um pouco melosos, mas são legais.

Lilian mordeu o seu pão de queijo para evitar uma careta, ganhando tempo para pensar em uma resposta mais educada do que “Sentar em uma mesa com um bando de mini advogados? Eu prefiro a morte!”. Quase como uma intervenção divina, ouviu a risada escandalosa de Marlene vindo de uma das mesas perto dali.

— Foi mal, Tiago, mas eu acho que vou sentar com os meus amigos ali. — ela sorriu enquanto apontava para a mesa e dispensava o convite, feliz por não ter que morrer de tédio. — Quem sabe a gente se esbarra por aí de novo?

Cantando vitória antes da hora, a ruiva virou as costas e caminhou em direção à mesa em que Sirius e Marlene estavam, jogando sua bolsa em uma cadeira livre, sentando em seguida e tagarelando com a amiga sobre o ocorrido, sem notar que ela sorria para alguém atrás de si.

— Lene, você acabou de me salvar! — ela começou. — Lembra daquele garoto que eu fiquei no dia do trote? Eu esbarrei com ele na fila do Borges e descobri que ele faz direito! Era tudo o que eu precisava saber pra parar de pensar no beijo dele.

Uma ruga se formou entre as suas sobrancelhas enquanto ela notou que havia uma mochila extra na cadeira vazia, que não pertencia nem a Remo e, muito menos, a Dora.

— Quer dizer que você pensou muito no meu beijo?

O sangue subiu ao rosto de Evans quando escutou a voz de Tiago atrás de si, enquanto Sirius e Marlene apenas sorriam como cúmplices. Observou ele sentar-se na cadeira ao seu lado, pensando em algo para dizer que não a fizesse passar ainda mais vergonha. Ele não tinha que se encontrar com os amigos chatos dele? Por que diabos estava se sentando na mesa com eles?

— Então, ruivinha, gostou do meu beijo?

— Você não tinha um outro lugar para ir? — ela rebateu, tentando pedir ajuda. com os olhos, para Marlene, que apenas deu de ombros.

— Eu tinha que sentar com meus amigos que, aparentemente, são os mesmos que os seus.

O queixo de Evans caiu, indignada com a artimanha de Marlene. Ela percebeu agora que, de alguma maneira, todo seu encontro com Tiago no bar tinha sido planejado, e, muito provavelmente, o que tinha acabado de acontecer na fila não foi coincidência.

— Eu vou te matar. — ela disse ríspida para amiga.

— Ei, eu não fiz nada, você que passou esse vexame sozinha.

— Sirius, você sabia disso? — Tiago perguntou no mesmo tom.

— Claro que sabia, eu até ajudei você a não encontrar ela nos seguidores da Lene.

Lilian sorriu com a informação, virando sua atenção completa para o moreno ao seu lado, que passava a mão pelos cabelos nervosamente.

— Ficou encantado com a Juju?

— Do mesmo jeito que você ficou encantada com o meu beijo? — ele rebateu, fixando os olhos nos seus. — Talvez.

— Que bom saber que ainda existem alunos de direito que prestam. — Piscou, levando o café até a boca.

— Ei! — Sirius reclamou, recebendo um olhar duro de Tiago por arruinar com o momento. — Certo. Lene, vamos?

Ficaram em silêncio enquanto olhavam os amigos irem embora. Potter, por sua vez, a observava, tanto quanto havia feito durante a festa. Os olhos verdes de Lilian pareciam ainda mais intensos do que ele conseguia se lembrar — e ele se lembrava muito bem daquela noite.

— Então, ruivinha, vai me dizer o seu nome?

Lilian pensou em tudo que poderia dar errado caso aquilo acontecesse. Perderia a aposta com Marlene — que, por sinal, tinha sido manipulada — e sabia que perderia algumas noites de sono também. Seria impossível não pensar nos olhos mel que a fitavam com tanto desejo por trás dos óculos.

— Lílian, prazer. — ela esticou a mão em sua direção.

— O prazer é todo meu. — Tiago sorriu, apertando a mão dela. — Sei que sou estudante de direito e, pelo visto, nossa imagem está meio… distorcida pela faculdade, mas o que acha de ir em um encontro comigo e eu te provar que não sou tão ruim assim?

— É, pode ser. — Ela respondeu, enquanto se levantava para seguir caminho até seu prédio.

— Não vai me dar seu número?

— Não. Eu já te dei meu nome certo, agora você pode procurar nos seguidores da Marlene. — ela sorriu, já um pouco distante do rapaz. — Obrigada pelo café!

Tiago sorriu enquanto a observava, novamente, correr entre as pessoas. Dessa vez, ele sabia que encontraria a ruiva que não tinha saído de seus pensamentos durante toda a semana.

Sentia-se quase como um adolescente outra vez, e não se importava. O dedo já desbloqueava o celular, num ato automático, enquanto abria o Instagram de Marlene. Sorriu novamente, agora vendo todas aquelas fotos.

Para ter a chance de sair com aquela mulher outra vez, Tiago faria qualquer coisa.

Notas finais
Obrigada por lerem até aqui, espero que tenham gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!