Não há outro amor para mim.
35 Um dia de raiva.
Notas iniciais
As palavras que Emma disse na manhã de hoje me deixaram com mais uma enxaqueca, o que andava sendo comum no meu atual estado mental. Pode ser que minha paciência tenha cessado hoje de manhã com aquela delicada alfinetada que minha esposa me deu, e, veja, está me doendo até agora.
Voltando aos acontecimentos de hoje de manhã, posso contar que Ruby e Killian foram embora antes de sairmos para trabalhar. Ruby arrumou suas coisas que estavam no quarto de hospedes e agradeceu muito pela hospedagem de um dia que dêmos a ela. Alguns minutos depois, sai antes de Emma para evitar me despedir dela e deixar claro o quanto seu comentário ingrato me deixou chateada.
Hoje não foi um dia bom para se ir trabalhar. Cheguei na MBC com as pontadas da dor de cabeça latejando e precisei tomar alguma coisa para a dor passar rápido, antes que eu fosse para o ar com o noticiário. Minutos antes de eu ir para a bancada do jornal, Archie bateu na porta do meu camarim/escritório e entrou com uma revista na mão. Ele estava ansioso para me mostrar algo que acabara se tornando um boato na boca do pessoal que trabalhava comigo.
— Acho que o pessoal dessa revista gosta muito de você e de Emma. É a terceira reportagem que fazem sobre o casamento de vocês, mas essa daqui tem uma coisa que você precisa ver. — ele me mostrou a página onde havia uma foto minha e de Emma na porta do orfanato que frequentávamos, obviamente tirada por um paparazzi. Fiquei pasma, embasbacada. Tomei a revista da mão dele e olhei a capa. Dizia mais ou menos assim: “Emma Swan e Regina Mills tentam salvar casamento com adoção.”
— Mas que desgraçados! — esbravejei, amassando as páginas com as mãos. Acho que meu amigo cameraman se assustou porque era raro me ver tão estressada com alguma coisa. Nem na época em que andavam me rondando e especulando da crise que eu vivia com Emma ele me viu assim.
— Calma, Regina. Quanto mais se preocupar com esse tipo de notícia mais aparece.
— Eu achava que esses caras já tinham largado do meu pé. Que inferno. Mais uma coisa para me tirar a paciência. Eu devo estar merecendo.
— Eles não perdem a oportunidade.
Archie estava certo. Qualquer deslize e um paparazzi poderia fazer de uma foto uma notícia estrondosa. Não acredito que o público se interesse pelo fato de estarmos adotando, mas talvez eles se interessem ainda pelo casal. Se Emma e eu ainda estamos resolvendo a crise que deu o que falar, então é sinal de que nem tudo está cem por cento. E não está mesmo, vamos ser sinceras. Eu não estou no meu melhor dia com minha mulher, isso é fato, já tivemos momentos melhores, até dentro da crise. Me sinto incomodada com Emma e seus comentários maldosos. Se ela quer que as coisas aconteçam, poderia ser menos incisiva. Nem parece que tivemos aquela conversa faz dois dias.
O problema de Ruby me deixou sensível, emotiva e talvez exagerada, mas estou certa em reclamar da minha adorada esposa. Em dados momentos, vejo que o problema não sou eu somente, com minhas dúvidas em relação à adoção, mas Emma também com sua ansiedade camuflada. Minha mulher pode parecer um anjo, de rosto e atitude quando quer, mas também usa um tridente bem afiado quando me critica, e não falo só de agora. Não dá para detalhar algumas discussões que tivemos há alguns anos e ela sempre se lembrar do que eu havia feito de errado ou o que ainda não havia feito.
O restante do dia foi cansativo. Gravei algumas matérias que iam ao ar no dia seguinte e por um lado que isso me distraiu, por outro, notei como eu me sentia aborrecida e sem paciência. Coitados dos meus colegas da redação, pois não foram poucas as broncas que dei no pessoal. Já posso até imaginar as reclamações que vou receber da dona da emissora amanhã. A propósito, está aí uma outra história que virou boato nos corredores da MBC; Todos já sabemos que Maleficent está se divorciando de seu marido, o senhor Gerard, seu sócio na emissora. Me lembro do dia em que ouvi a conversa deles atrás da porta da sala da presidência da emissora. Sendo muito sincera, eu não posso, nem sei o que opinar nessas horas. Eu também tive problemas no meu casamento, contudo, não sei pelo o que essa mulher está passando para o marido ter desistido dela assim. Tenho um pressentimento de que seja algo grave. Ademais, tenho minha vida e a de Emma para cuidar, é melhor eu ficar quieta como sempre.
Além do transito infernal de final de tarde que sempre enfrento às segundas-feiras, tive de encarar um temporal assustador ao voltar para casa. As rodovias viravam um caos em dias assim. Demorei umas três horas para chegar em casa porque ainda me lembrei em passar na lavanderia para pegar as roupas que eu tinha deixado lá no final de semana. Para completar, quando pus os pés em casa, Pongo, nosso cachorro, havia deixado um rastro de sujeira do lixo que Emma não lembrou de colocar para fora hoje.
Não briguei com o cachorro, (o pobre coitado sentiu o cheiro de pizza que ficara na caixa e só teve o trabalho de tirá-la de dentro da lata que ficava na cozinha, o que acontece é que ele derrubou a lata inteira no chão e a sujeira se esparramou toda pela casa) mas eu estava com vontade de bater em Emma pela falta de atenção quanto ao nosso lixo. Quando ela chegasse ela veria só uma coisa.
Com a pouca paciência que eu tinha hoje, limpei todo aquele rastro de sujeira deixado por Pongo. Depois de uma hora o chão estava um verdadeiro brinco de tão brilhante.
Olhei para nosso cão que me observava com suas orelhas atentas e disse:
— A culpa não é sua, eu sei, você não resistiu ao cheiro, não foi? Espere sua outra mãe chegar para você ver o que eu vou fazer com ela.
Coloquei o material de limpeza no lugar e só então notei que ainda usava meu terninho cor de vinho, logo o que eu mais gostava. Com o tamanho da violência que esfreguei o chão, deixei as mangas do meu terno cheias de respingos. O tirei rapidamente do corpo e o separei para levar à lavanderia amanhã, ficando apenas de calcinha e sutiã, enquanto andava pela casa.
Estava exausta e tudo o que queria era tomar banho, comer alguma coisa e me deitar. E foi nesse momento que Emma abriu a porta da sala e me viu daquele jeito, seminua. Ela parou e deixou a porta bater sozinha, como se estivesse hipnotizada pela minha silhueta – bem parecida com a daquelas modelos de catálogo, muito comum.
A princípio, pensei que Emma me olhava porque queria pedir desculpas, mas não era nem de longe isso. Então me dei conta de que eu estava quase pelada na frente dela. Cruzei meus braços e me virei sem dizer nada a ela, um bocado emburrada. Subi correndo para o quarto, mas ela veio atrás.
— Hey, isso é alguma espécie de surpresa? Sobremesa antes do jantar? — Emma veio se chegando por trás de mim, me agarrando antes que eu pudesse cruzar a porta do banheiro.
— Emma, me larga. Não me venha com suas gracinhas. — resmunguei, tentando me livrar dela, mas Emma era mais forte.
— Você não quer? — ela perguntou ao pé do meu ouvido, me causando um arrepio. Respirei fundo, presa as mãos dela, me contendo.
— Não. Eu estou com vontade de fazer outra coisa com você. Então, não se atreva. — falei firme.
Emma me soltou e fez uma expressão de estranheza.
— Você está irritada ou é impressão minha?
— Não é impressão sua. — falei, me virando de novo para finalmente entrar no banheiro. Me desfiz da calcinha e do sutiã e entrei debaixo da ducha, começando a me esfregar com força.
— O que foi que eu fiz? — disse ela, me seguindo, gesticulando.
— Você sabe o que foi que você fez. Ou melhor, o que você disse. Ouça, Emma, não tive um dia bom a começar pelo o que me disse mais cedo, no trabalho foi um inferno, ninguém conseguia fazer nada do que eu pedisse direito, enfrentei um engarrafamento de três horas para chegar aqui e no final ainda tive de limpar as sujeiras que Pongo espalhou pela casa porque você esqueceu de colocar o lixo para fora.
— Ah, não. O lixo. — Emma estalou a palma da mão na testa e coçou a cabeça em seguida. — Caramba, meu amor. Me desculpa.
— Não espere que eu faça isso tão rápido. — dizia eu enquanto me enxaguava e passava o shampoo.
— Vai ficar chateada comigo por causa da bagunça que o Pongo fez?
— Não é só isso, Emma, eu expliquei.
Emma ficou quieta, entendendo que eu não queria conversa. Aquela coisa dela bater na testa e fingir surpresa com a bagunça do cachorro era pura encenação. Emma estava tentando escapar da culpa pela forma como ficamos hoje cedo.
Algo que percebo é que nos últimos dias temos passado por essas situações chatas sempre depois do café da manhã. E tudo começa depois de um comentário infeliz de uma ou da outra. Que não seja a crise voltando, pois foi exatamente assim que minha infelicidade dentro dessa casa com Emma começou na última vez.
Demorei mais um pouco embaixo d’água e quando acabei o banho, coloquei logo a roupa de ir dormir. Desci e de cara senti cheiro de comida. Emma preparou rápido um omelete para mim e para ela e estava toda enrolada no fogão pela pressa que tinha em acabar antes de eu aparecer, mas não deu muito certo.
Me senti um pouco estranha naquele instante pois percebi que eu devia estar sendo rude demais e que Emma de fato se sentiu culpada pelo quase desentendimento entre eu e ela hoje. Mesmo assim, eu ainda estava chateada e percebendo com total certeza que Emma tinha mais uma péssima mania.
Emma pode falar, espernear, bater a porta, se trancar mas esquece rápido também, e sua mania é exatamente a achar que eu sempre vou aceitar um simples pedido de desculpa ou atenção para perdoá-la. Não é bem assim.
Quando se virou para colocar os pratos com os omeletes na mesa me viu no portal da cozinha, desfez o laço do avental que tinha colocado e o largou em cima da pia.
— Não deu tempo de fazer algo melhor, mas deve estar gostoso. — deu aquele sorriso amarelo para mim e me esperou se aproximar para sentarmos juntas.
Fui até ela a olhando, e acho que deve ter parecido estranho para ela a forma como eu a observava. Emma ficou acuada em sua cadeira depois que se sentou.
Começamos a jantar o omelete e a salada e, sim, estava uma delícia. Minha mulher sempre soube cozinhar bem, mas eu não iria elogiá-la hoje.
Passamos boa parte da refeição caladas, trocando olhares, até que ela resolveu falar:
— A senhorita Blue ligou hoje para mim. Perguntou se estava confirmada a nossa ida ao orfanato na próxima sexta por conta da festa de fim de ano.
— Não sei se vou. — disse rapidamente, dando atenção exclusivamente à folha de alface que sobrara no meu prato.
— Não sabe? — perguntou Emma, surpreendida.
— Não sei. Eu tenho muitas coisas para fazer, Emma. Essa é a época do ano em que o noticiário mais precisa de mim. Vou estar cansada demais para ir a essa festa.
— Mas eu confirmei com a Blue. Eu disse que nós duas estaríamos lá com certeza.
— Então vá você sozinha. Eu não vou fazer falta na festa. — eu disse em tom de deboche.
— A ideia dos presentes e doações foi sua. Os órfãos e a senhorita Blue sabem disso, como acha que vão ficar quando eu chegar sozinha no orfanato?
— Você inventa uma desculpa. É inteligente para isso, vai saber fazer eles entenderem. — coloquei a alface toda dobrada na boca e mastiguei lentamente, de propósito.
Emma bufou. Largou os talheres sobre o prato e me olhou fixamente, eu sentia.
— Qual é o seu problema, hein? Tudo isso porque falei que Ruby é menos indecisa que você?
— Eu é que pergunto, qual é o seu problema, Emma? — terminei de mastigar e disse, virando a cabeça para fita-la, fuzilando ela com o olhar. — Você perdeu uma excelente oportunidade de ficar calada hoje de manhã.
— Ah, então é isso mesmo. — ela cruzou os braços, um tanto indignada.
— É isso sim, e saiba que me deixou ofendida.
— Foi apenas um comentário, eu não tive a intenção de ofender você.
— Mas ofendeu. Meu Deus, você não tem noção do quanto. Eu acho que na verdade estou cansada desse seu tipo de atitude. — me levantei da mesa e zanzei pela cozinha para não ter que ficar olhando para Emma, se não acabaria dando um soco nela. — Você não sabe como me irrita a forma como você age quando algo não sai como você quer, Emma. Eu disse a você que estou tentando, que estou me esforçando, e bastou você me comparar a Ruby para seu entendimento quanto a isso mudar. — falei.
— Regina, foi uma observação, um comentário desnecessário...
— Por isso mesmo que você devia ter pensado antes de falar. Devia segurar a sua boca nessas horas. Eu odeio essa impulsividade que você possuiu às vezes. Você consegue entender o que quero dizer? Não foi só dessa vez que discutimos por comentáriozinhos que você fez ao meu respeito em relação a filhos. E não é só pelo o que você diz, mas também pelo o que você faz depois. Eu estou cansada de te ver batendo porta na minha cara, com raiva de mim porque eu fiz alguma coisa que você não queria ou falei alguma coisa que você não gostou. Que droga, já é a terceira vez que você faz isso em dois meses. Cansa, e muito.
Emma se levantou e andou na minha direção, chegando mais perto para me encarar. Parei e respirei fundo, a olhei novamente. Parecíamos duas lutadoras prestes a se enfrentarem em um octógono.
— Eu acho que você não está cansada só do meu jeito, do que eu falo, do que eu faço. Você deve estar casada de mim. — Ela disse, ríspida. Senti que ela queria sair de perto. No mesmo instante a peguei pelo pulso e a segurei ali. — Que que foi? Vai dizer que não? Que não está cansada de mim? Das coisas que eu falo? Das coisas que eu faço?
— Posso estar sim cansada de você, Emma, porque a Emma que se casou comigo não era essa pessoa chata que está vivendo comigo hoje.
Nos olhávamos de uma forma tão feia que dava a impressão de que a qualquer momento faíscas sairiam dos nossos olhos.
Emma estava com muita raiva, eu via na forma como ela me encarava. Eu consegui deixa-la muito irritada, talvez tanto quanto eu fiquei o dia todo.
Ela soltou minha mão do pulso dela e saiu da cozinha, chutando o que via pela frente.
Fiquei ali, parada, ofegante a vendo descarregar sua raiva. Não fui para o nosso quarto, tive de ir dormir no quarto de hóspedes até porque eu quis me precaver. Emma não iria querer ver minha cara tão cedo.
Vou contar que não foi trabalho fácil dormir separada de Emma, mas isso já havia ocorrido em duas ocasiões no nosso casamento. Uma quando Ariel Sheets deu em cima de mim e causou aquela história toda do beijo e duas quando Emma foi para Oklahoma porque ela escutou minha conversa com Killian.
Mas bem, não vou mentir que eu precisava desabafar com ela sobre seu comportamento que me incomodava. Eu joguei coisas sérias nas fuças dela e parece que lidar com umas verdades a deixou igualmente chateada.
Já faz quatro dias que não nos falamos. Eu ainda estou chateada e sem coragem de pedir desculpas, Emma também, sendo assim não sabemos como agir e nem de que lado o perdão vai sair primeiro.
Para completar, nossos últimos dias foram agitados como eu previa, mal nos víamos em casa, e estávamos chegando tarde até para jantar. Eu queria perguntar para ela se ela estava comendo, se andava se cuidando, mas quando eu chegava na porta fechada do nosso quarto eu simplesmente não conseguia bater na porta. Quando a via de manhã pela janela, saindo com sua moto, de mochila nas costas e capacete, eu pensava em sair correndo de dentro de casa e implorar perdão, mas o orgulho era muito forte nesses instantes e me mantinha firme. Quando era o contrário, tive a impressão de que Emma passava pela mesma situação. Sei que isso se tornou torturante nesses pequenos quatro dias, era como se fossemos estranhas sob o mesmo teto. Sem mencionar que logo no dia seguinte, assim que levantei para me arrumar e ir trabalhar, estava descendo as escadas de casa com pressa para que Emma não me visse. Ouvi um resmungo vindo da direção do nosso quarto. A curiosidade, é claro, me chamou a ver o que eu estava ouvindo e, quando cheguei perto da porta, prestes a entrar no quarto ouvi e entendi o que era. Emma estava chorando. E longe dos choros que ela geralmente interpretava no cinema, aquele era um choro de verdade. Fiquei com o coração apertado, louca de vontade de entrar naquele quarto e dizer a ela que estava tudo bem, que minha raiva havia passado. Acontece que ninguém disse que eu consegui. Com que cara eu faria aquilo?
Eu estava sentindo um vazio gigante no meu peito. Mas o que eu faria?
Hoje no fim da tarde Emma iria à festa que o orfanato ofereceu a nós duas pelas doações e pela colaboração nos últimos meses. Eu, no meu momento mais alto de malcriação na hora do jantar de segunda-feira, disse a minha esposa que não estaria lá, o que com certeza a deixou decepcionada e obrigada a contar uma mentira para as crianças e a senhorita Blue.
Meu plano seria chegar logo depois de Emma, e surpreendê-la, além de surpreender todo mundo na festa. Depois conversaríamos e eu pediria desculpas pela minha grosseria, mas deixaria claro que eu precisava desabafar como me senti naquele dia.
Passei meu dia inteiro ansiosa para ver Emma. Precisei me concentrar bastante na hora de apresentar o noticiário, porém, eu estava tão acostumada a apresentar que não foi o maior dos problemas.
Saí da MBC quando deu quinze para as cinco da tarde. Peguei atalhos pela cidade para não encarar o transito até o convento e assim que cheguei, fatalmente vi a moto de Emma parada no lugar de sempre. Meu coração disparou, pensando na hipótese dela já ter dito a todos que eu não viria. Desci do carro rapidamente e corri para o orfanato. Uma mocinha, que também era freira, abriu a porta para mim, e logo disse que todos estariam no pátio.
Andei apressada pelos corredores do lugar, tentando controlar minha ansiedade, enquanto passava pelas outras freiras que me cumprimentavam com a cabeça e sorrisos tímidos. Felizmente, ninguém me parou para agradecer antes que eu chegasse no pátio, e lá estava.
Vi Emma de costas ao lado da senhorita Blue enquanto as crianças estavam sentadas incrivelmente comportadas, comendo aquelas coisas gostosas que servem no natal, por exemplo. Tinha muita coisa, além de todo o pátio ter sido enfeitado com coisas de natal, meias, bolas, um boneco de neve de mentira, uma árvore e os desenhos que os pequenos fizeram do Papai Noel.
Eu me aproximei das duas lentamente e pude ouvir minha mulher dizer a senhorita Blue que eu não apareceria.
— Regina teve um problema na emissora. Essa é a época do ano em que ela mais trabalha, infelizmente não vai dar para ela aparecer.
— Mas ela deu um jeito e apareceu. — disse eu, vindo de trás dela, tocando em seu ombro e aparecendo ao lado dela. O rosto da senhorita Blue se iluminou ao me ver. Emma tomou um susto, tão boba quanto. — Não há trabalho que me deixe de fora da minha obrigação com o orfanato.
— Regina! Eu estava começando a ficar triste pela sua ausência. Que bom que você veio. — disse a senhorita Blue, e nem deu tempo dela apertar minha mão, porque assim que se deram conta de que eu estava ali, as crianças correram na minha direção.
Falei com cada uma e eles me ofereciam muitas coisas de comer que haviam preparado para nós. Mas entre todos ali, notei que faltava alguém. O menino Henry não estava entre eles. A senhorita Blue me disse que ele estava na ala hospitalar do convento porque tinha ficado doente, mas que já havia se recuperado e em dois dias voltaria a ficar junto com as outras crianças.
Tirando o fato de eu estar preocupada com Henry, o garoto que eu ainda não conhecia, Emma passou a festa inteira me olhando. Eu fiquei um pouco afastada para dar atenção a um grupo, enquanto Emma conversava com outro. Depois recebemos o agradecimento das freiras. Foi divertido no final das contas.
Na hora de ir embora, me despedi brevemente, levando os desenhos que ganhei de presente das crianças na mão com cuidado. Emma saiu junto de mim, levando os dela sorridente, mas não me disse nada enquanto andávamos pelos corredores vazios até a saída.
Parei e a vi se afastando até ela se dar conta de que eu ficara para trás. Era naquele momento que eu faria as pazes com ela.
Deixei a pilha de papel que estava nas minhas mãos sobre o primeiro banco de madeira que vi no corredor e andei até ela que me olhava sem saber o que dizer. Ficamos próximas uma da outra, nos olhando nos olhos.
Foi aí que eu disse:
— Me desculpa por ter sido tão grossa com você naquele dia. Minha cabeça estava quente, eu não consegui evitar.
— Eu sei. — sussurrou ela.
— Espero que você não esteja magoada comigo.
— Eu não estou, não com você e sim comigo mesma. Eu também não tenho agido da melhor forma. Acabei sendo uma idiota com você várias vezes. É que às vezes eu penso que você e eu somos tão diferentes e que você está errada, no entanto a errada sou eu. Não tenho direito nenhum de falar aquele tipo de coisa só para provocar.
— Que bom que entende. — falei, colocando as mãos sobre o casaco dela, nos ombros.
Emma não viu outra alternativa a não se largar os desenhos no chão.
Subi meus dedos por seu pescoço e rosto e a beijei na boca devagar.
O beijo foi delicioso até que uma das freiras nos viu e pigarreou nos assustando. Rimos juntas disso e nos desculpamos, indo embora em seguida.
Não preciso entrar em detalhes de como essa história acabou. E nem eu mesma me lembro tão bem como voltamos para casa. Só sei que acordei hoje cedo com a cabeça entre os seios de Emma e um pouco de frio pois eu estava nua, debaixo de um lençol fino com ela. Meu corpo doía e ao me espreguiçar, percebi que meus braços estavam arranhados e não só os braços como minha barriga, coxas, todo meu corpo. Emma e eu descontamos nossas raivas uma no corpo da outra, ela mais em mim.
Eu ia me levantando com calma para não acordá-la, planejando um café da manhã na cama. Nesse momento o telefone tocou e eu me estiquei para pegá-lo.
— Alô. — atendi.
— Regina? É o Killian.
— Oi, meu amigo. Como você está? E Ruby?
— Nada bem. Eu estou no hospital e não tenho uma boa notícia.
— O que houve? Me fala.
Kill hesitou em dizer a princípio, mas conseguiu:
— A Ruby... Ela perdeu o bebê. — ele disse controlando a voz para não embargar.
Quase deixei o telefone cair da minha mão.
Fale com o autor