Não há outro amor para mim.
4 Preciso de você, quero você.
Notas iniciais
Na hora que cheguei em casa, meus pais tomavam café na enorme mesa da sala de refeições. Estavam distantes, bem no fundo. Meu pai sentava-se na cabeceira, minha mãe ao seu lado direito. Ele foi o primeiro a me notar, curiosamente tocando o braço dela quando me aproximei.
Os dois olhavam para mim esperando que eu dissesse algo. Como eu nunca havia dormido fora de casa sem avisá-los, achei bom que não tivessem chamado a polícia, detetives ou a guarda costeira a minha procura — era o tipo de atitude que minha mãe tomaria se eu fosse mais jovem. Depois, concluí que com vinte e quatro anos, ela entendia que era melhor esperar um dia inteiro do meu sumiço para começar a se preocupar.
— Bom dia. — disse eu. Dei a volta na mesa e me sentei à esquerda de Henry Mills.
— Bom dia. — eles responderem em uníssono.
Ainda me olhavam. Enquanto eu colocava café numa xícara, ergui meus olhos para ambos e sorri.
— Que chuva a de ontem, não? — comentei.
— Bem forte. Foi por isso que não veio para casa? — minha mãe foi direto ao assunto.
Assenti.
— Foi sim. — desviei o olhar.
— E como foi o jantar? — ela perguntou e meu pai me fitava querendo saber o mesmo. Não contei com quem iria jantar, mas sabiam que era uma mulher.
— Ótimo. Quando eu estava para ir embora a tempestade caiu. Fiquei ilhada na casa dela. Arranjei um canto para dormir lá mesmo.
Eles se entreolharam. Cora Mills segurava sua xícara de chá na altura do queixo quando vi dela um sorriso de canto.
Se papai quis dizer alguma coisa naquele instante, guardou para ele.
— E deixou seu vestido lá também? — dessa vez minha mãe quase me fez engasgar.
— Ah... Nossa! É verdade! O vestido... Vocês não vão acreditar... Derrubei vinho em mim, foi uma coisa louca, mas Emma me emprestou essas roupas para voltar... — tentando me explicar, eu só entreguei o que tinha acontecido. Outra vez os peguei se olhando de relance. Eu parei de falar e bufei. Para que esconder? Eles eram meus pais, já sabiam que mais cedo ou mais tarde faria isso nas minhas condições. Talvez eu quisesse mostrar-lhes respeito, mas pelo o que parecia, não precisava tomar tanto cuidado com esse assunto estando em família.
— Regina, querida, estamos felizes por você. — finalmente meu pai falou.
— Felizes? O quê? — disse eu.
— Felizes por você ter uma namorada.
Uau! Ele disse namorada! Namorada? Emma não era minha namorada... Ainda.
— Papai, na verdade não estamos namorando.
— Não? — mamãe perguntou me olhando
— Não, ainda não. — aí estava uma boa questão. Emma e eu tínhamos nos conhecido duas semanas antes, nos encontramos praticamente todos os dias, e houve o jantar, depois do jantar aquele êxtase todo... Recapitulando, não era nada má a ideia de tê-la como namorada. Então, por que eu estava perdendo tempo? Nem eu sabia responder.
— Já faz algum tempo que você terminou com Daniel. — mamãe comentou insinuante.
— Sim, é verdade. — tratei de enfiar um pãozinho na boca e me levantar da mesa, eu estava quase esquecendo que precisava ir para o jornal.
— Você não vai terminar o seu café, minha filha? — questionou meu pai.
Fiz que não e mastiguei o pão o mais depressa que pude.
— Não, tenho que ir trabalhar. Estou atrasada, vou me arrumar. Mais tarde nos falamos. — e então corri na direção das escadas e subi, deixando-os com suas teorias sobre minha noite passada.
Cheguei ao jornal de bom humor. Coisa que nove entre dez dos meus colegas perceberam. Até com quem eu não tinha muita afinidade falei.
Tinham me pedido para adiantar cinco assuntos diferentes para minha coluna no caderno dominical do jornal que sairia no mês seguinte; nunca fiz uma coisa tão depressa. Dissertei com a agilidade de um running back a atravessar um campo de futebol americano atrás do touchdown. Em outros tempos, demoraria dois dias para concluir cada matéria.
Muito concentrada no que fazia, eu mal percebi o dia passar. Estava na estação de trabalho desde quando cheguei ao escritório central. A minha sorte foi Killian me trazer comida chinesa na hora do almoço — fiquei só com o Yakishoba o dia inteiro no estômago.
Vez ou outra, sentia o típico calafrio de quando tinha ansiedade. Ora porque me lembrava de Emma na cama, ora pensando na peça que assistiria de noite. Na verdade eu mal sabia qual era o tema da peça, só sabia que Emma estaria nela e era uma das protagonistas. A forma como ela pediu que eu estivesse lá me deixou besta. Será que ela gostava tanto de mim assim? Só de imaginar eu já perdia a cabeça e me embolava de novo nas lembranças. Deus! Como me afetou!
Então, chegou a hora de correr até em casa para me aprontar. Demorei meia hora da região central de Portland até a mansão de minha família.
Ao estacionar meu carro nas pedras assentadas da entrada do casarão, vi minha irmã Zelena na janela segurando Snow Flake – uma gata persa branca que ganhou no último natal. Eu corri pela escadinha que antecedia a porta, entrando pelo hall apressada. Zelena veio atrás de mim.
— Regina, por que tanta pressa? — ela me perguntou enquanto vinha. Deixou a gata no chão para correr atrás de mim pela escada até o segundo andar.
— Tenho um compromisso. — disse eu, entrando pelo quarto como um vendaval. Minha irmã me alcançou e parou na porta.
— Onde você vai? — ela perguntou.
— Ao teatro. Tenho uma estreia para assistir. — fui falando e tirando minha roupa, largando as peças no chão sem me preocupar. Entrei na suíte do quarto e me enfurnei debaixo do chuveiro, sem deixar, é claro, de me lembrar do banho com Emma. Zelena ficou me esperando do lado de fora, ainda deu para conversarmos, pois a porta da suíte ficou aberta.
— Vai assistir Rock of Ages? — ela gritou do quarto.
— Não, vou assistir a uma comédia. — eu falei do box, me ensaboando toda.
— Hum... É uma pena que eu não possa ir com você, tenho curso de francês. — eu estava ouvindo e revirei meus olhos de alívio justamente por ela não poder ir comigo. — Mamãe me disse que você chegou em casa só hoje de manhã. Onde esteve? — tinha vezes que a curiosidade da minha irmã mais velha era como a de uma criança de seis anos.
— Na casa de uma amiga. — respondi logo após me enxaguar e desligar a ducha. Envolvi meu corpo num roupão e saí da suíte tocando diretamente nos ombros de Zelena de um jeito que ela já conhecia. — Você poderia fazer um favor para sua irmãzinha aqui... Sair e fechar a porta para eu me arrumar em paz.
— Regina, deixa de ser antipática. — ela falou ao mesmo tempo em que fez careta, mesmo assim me entendeu. — Tá, eu vou. Mas depois quero que me conte essa história de amiga.
— O.K., O.K.! Agora vá logo! — disse empurrando-a para fora e batendo a porta. Eu tinha de me arrumar, Zelena só atrapalharia com suas perguntas. Mais do que depressa fui ao meu closet escolher entre minhas roupas uma saia escura e uma blusa com babados cor de vinho. Por baixo decidi vestir uma meia calça e sapatos também escuros.
Tinha de admitir que fiquei chique. Normalmente eu sabia como me vestir. Na ocasião, sabendo que estaria perto da mulher com quem dormi, estar atraente soou-me como obrigação. No espelho me vi, gostando do resultado, e por um instante por trás de mim, imaginei as mãos de Emma me envolvendo. Até seu cheiro entrou por minhas narinas, como se realmente ela estivesse ali.
Voltando a realidade, ri de mim mesma.
Sentei na penteadeira, sequei meus cabelos, passei maquiagem, perfume e por fim os acessórios: o par de brincos, uma pulseira de ouro e um anel. Estava pronta para sair.
Passei por meus pais uma segunda vez naquele dia porém agora, não os prometi que voltaria para casa como tinha feito antes. Eu não sabia se depois da peça Emma me chamaria para irmos a algum lugar ou se estaria cansada demais e quisesse um pouco de conforto comigo. Esse pensamento era muito pretencioso de minha parte, mas como é que eu poderia evitar?
Saí de casa até antes do programado, chegaria ao teatro muito antes da peça começar e do jeito que eu odiava filas, isso seria perfeito por outro lado.
O teatro de Portland era uma das marcas registradas da cidade. Eu particularmente o adorava, com aquele letreiro gigante brilhando de noite, sendo visto por toda a Avenida Broadway. Mas fazia um bom tempo que eu não assistia a absolutamente nada que não fossem filmes.
Como Emma me disse, havia um lugar reservado para mim. Fui guiada até a poltrona que ficava ao lado esquerdo, bem no meio da primeira fila. Aos poucos o teatro foi ficando cheio. Cabiam cerca de três mil pessoas ali dentro. Me surpreendi com a quantidade de gente disposta a ir assistir uma comédia em plena quarta-feira à noite. Acho que o nome de Emma nos cartazes acabou chamando o público, e pensar que ela ainda nem tinha feito sucesso na TV ou no cinema (na verdade ela fez, só que isso aconteceu depois).
Enfim, o sinal de início da peça tocou e a plateia ficou quieta vendo a iluminação ficar mais fosca e a cortina vermelha se abrir no palco. A primeira cena era entre um casal, interpretados por Emma e outro ator – que eu não sabia o nome. My Sweetheart Mary era uma peça no estilo I Love Lucy (aquele show de TV dos anos 50 em que a mulher faz mil e uma peripécias para chamar a atenção do marido), adaptada para os dias atuais com Emma sendo Mary.
Ao longo do espetáculo que não parou, precisei controlar minhas emoções ao vê-la atuando. Ela era de fato boa no que fazia. Me arrancou gargalhadas com as caretas que sua personagem fazia, e uma ou outra eu reconheci, por tê-las visto no parque durante os dias em que nos encontramos. O jeito como ela andava, como doava seu corpo, seu humor e fala para a personagem me encantava... Mais do que eu já estava.
Nem percebi o tempo passar. Creio que o público ali presente também não. Então depois de rirmos de mais uma piada, as cortinas se fecharam indicando o fim da peça. Quando se abriram outra vez toda a plateia se levantou para aplaudir o elenco que estava em linha na ponta do palco para agradecer. A primeira coisa que vi Emma fazer, foi dar tchau numa direção aleatória e caçar com os olhos a fila da esquerda onde eu estava, até me encontrar e abrir um sorriso brilhante para mim. Ela me viu! Ela me achou! Por dentro eu estava mais saltitante que meu coração quando tive ansiedade.
Ia retribuir aquele sorriso se não tivessem puxado as cortinas uma terceira vez, privando-me de vê-la. Eu tive vontade de subir aquele palco para ir atrás dela. Para minha sorte não foi necessário. O mesmo funcionário que me levou à poltrona na primeira fila no início veio até mim com um bilhete. Era de Emma, dizendo: “Me encontre na saída da parte de trás do teatro. Quero comemorar com você! ”
Não pensei duas vezes em fazer aquilo. Eu fui para a parte de trás do teatro para esperá-la, vendo um aglomerado de contrarregras trabalhando com pedaços de cenários de outras peças, e naquela confusão mais do que depressa ela apareceu como se estivesse fugindo. Trazia consigo uma mochila bege nas costas, ainda tinha no rosto a maquiagem da personagem. Quando me viu desviou das pessoas que passavam e correu na minha direção, me tomando nos braços com uma força absurda.
— Você veio! Você veio! — disse ela toda contente.
Eu quase sem ar tentei responder:
— Sim, eu vim.
— Vamos sair daqui. Quero comemorar que deu tudo certo, mas não com o pessoal da peça... Tem que ser com você. — ela falava, depois de se desvencilhar um pouco e tocar minhas mãos.
— Tá bom... O.K. Vamos! Mas para onde? — perguntei.
— Eu sei de um lugar. — falou me olhando.
Numa boate, não muito distante dali, mas completamente diferente daquela em que nos conhecemos, eu e Emma ficamos até muito tarde.
Não era o tipo de lugar em que só se ouvia dance music ou que tivesse aquelas luzes horrendas que me davam enxaqueca toda vez que ia dançar, muito pelo contrário, o som que se ouvia ali era romântico, vez ou outra mesclando com baladinhas latinas, R&B e até mesmo soft rock.
Emma me levou para a pista de dança depois de muito insistir, já tínhamos bebido alguma coisa àquela altura, mas creio que os drinks não subiram sua cabeça. Ela parecia bem consciente do que fazia. Vi alguns casais dançando agarrados todo o tempo quando também fui envolvida por ela. Foi aí que abracei seu pescoço e encostamos nossas testas uma na outra.
Giramos lentamente, aos poucos no ritmo de uma canção chamada Lady, se não me engano, quem cantava era Lionel Richie. Meus olhos estavam baixos para os dela. Eu conseguia sentir seu cheiro, respiração e as mãos. Quis dizer-lhe uma coisa, mas minha garganta estava completamente seca.
— Que foi? — perguntou Emma, com a voz suave.
Levantei a face para vê-la.
— Eu queria dizer uma coisa a você. — contei-lhe. — Eu só não sei como. — queria contar o que estava sentindo. Não consegui porque sabia que diria mais coisa do que devia. Eu tinha que inventar um modo de ser breve.
Vi que ela tentou não sorrir.
— Tem certeza?
— Sim, eu... — tentei começar. — Isso tudo, é tão diferente para mim. Você me colocou nisso, você me deixou desse jeito. Tudo o que aconteceu foi tão bom.
— E? — ela queria que eu continuasse.
— E aí que eu... — travei por um momento. — Eu estou...
— Calma. Não vou fugir se me disser, tá bem? — Emma tocou no meu rosto e o alisou com as costas dos dedos. Algo me dizia que ela sabia o que eu iria confessar.
— Não vai?
— Eu não quero fugir, seja lá o que você queria me dizer. — quase sussurrou.
O destino final foi seu apartamento.
Dormimos juntas pela segunda vez que foi ainda melhor que a primeira.
Pela manhã despertei sob suas carícias e beijos. Emma deslizou por minha nuca e costas, deixando seus cabelos roçarem pela minha pele, provocando em mim um arrepio gostoso. Sua língua também desceu por mim, assim como os dedos sempre macios a encontrar meus pontos fracos.
Eu me virei, acordando de um sonho para entrar em outro. Minha amada voltou me beijando de leve na boca. Nossos corpos ficaram colados enquanto não limitávamos as carícias de ambas as partes.
Beijei toda sua face, ouvi dela um suspiro e parando para me olhar, ela me perguntou baixinho:
— Será que agora você tem coragem de me contar o que queria ontem?
Estava na hora de contar, eu precisava me declarar.
— Tenho. — fechei e abri os olhos bem devagar para ela. — Eu preciso de você, eu quero você. — sussurrei. Algo em seu olhar se acendeu. — Quero namorar você...
— Achei que você nunca fosse pedir. — disse ela, roçando o nariz no meu.
— Eu estava esperando o melhor momento. — quando disse, ela me abraçou. Rolamos pela cama algumas vezes até que eu ficasse por cima dela. — Eu acho que eu te amo, Emma.
— Pois eu já tenho certeza de que te amo, desde o dia em que te vi pela primeira vez. — contou-me, pondo a mão em minha nuca e subindo as unhas por meus cabelos para me guiar num beijo mais forte. A partir dali, éramos namoradas, pra valer.
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