Não há outro amor para mim.
31 Faço uma doação de brinquedos.
Notas iniciais
Ao me dar conta de que Emma estava ali, me observando e admirando minha forma desajeitada de contar história para aquelas crianças, eu quis parar para ver o que ela faria. Porém, voltei meus olhos para o livro que eu tinha nas mãos e terminei de contar aos pequenos o restante da história, fingindo não estar extremamente ansiosa.
Felizmente, as crianças não deram sequer um pio enquanto eu continuava a segunda parte do conto e ainda via Emma de relance algumas vezes na janela. Me concentrei no último parágrafo e depois não vi mais Emma por ali. A procurei rapidamente com os olhos, mas eu precisava continuar a contar o fim da história.
— E viveram felizes para sempre. Fim. — disse a última frase, fechando o livro.
As crianças bateram palmas para mim, o que com certeza me deixou com cara de boba e vermelha, pois eles estavam rindo, mas não de forma debochada.
Abri meu melhor sorriso e uma mocinha levantou a mão para falar:
— Regina, você pode contar mais uma história para nós?
Olhei para a menininha e depois para o livro. Eu tinha conseguido contar a história da Cinderela inteira e aquilo já não parecia mais problema, então olhei novamente para a janela e Emma não estava lá.
Eu estava prestes a responder a menina quando as crianças começaram a falar todas ao mesmo tempo e apontar para trás de mim. Elas sorriam. Pude sentir para quem elas olhavam. Emma tinha acabado de entrar na sala.
— Olá, crianças. — disse ela, colocando sua mão por cima do meu ombro esquerdo. Todos deram um retumbante “oi” para minha mulher, dava para ver como gostavam dela, seus olhos chegavam a brilhar. — Vejo que vocês já conhecem a Regina. O que acharam dela?
— Ela é bonita, Emma! — um garoto que estava sentado perto de mim disse.
— O cabelo dela é legal! — falou uma outra menina mais adiante.
Virei meu rosto para Emma e ela me fitava satisfeita, sem esconder uma alegria por eu estar ali.
— Acho que elas gostaram de você, meu amor. — disse Swan.
— Obrigada. — agradeci gentilmente a eles e entreguei o livro a Swan, me levantando do lugar. — Acho que agora é a sua vez.
Emma concordou e se sentou no banquinho. Eu fiquei de pé enquanto as crianças se aproximavam mais de minha esposa só para ouvi-la e uma delas me viu se afastando.
— Vem, senta aqui. — ela chamou com a mão.
Fiquei surpresa com o convite, mas acho que demorei demais pensando, pois ela fez uma carinha inocente como se quisesse muito que eu me misturasse a eles no chão. Venci minha timidez e decidi sentar ao lado da garotinha e dos outros como se fizesse parte deles, o pequeno fã clube de Emma Swan. Quando perceberam que eu estava ali no meio alguns riram e outros me olharam ainda mais curiosos. Parecia que eu tinha voltado aos meus sete anos de idade quando ouvia minha mãe me contar histórias.
Emma não conseguia esconder sua alegria. Ela sorriu para mim quase me dizendo com o olhar que estava amando o que estava acontecendo. Isso me deixou bastante confortável.
Quando Emma terminou de contar a história que tinha escolhido avulsamente no livro, as crianças ficaram em polvorosa. E aproveitando o momento de distração dos pequenos, me levantei do meio deles e Emma de seu lugar também.
— De todas as crianças, você era a mais bonita ali no meio. — comentou Emma, afagando brevemente minha bochecha assim que cheguei perto.
— Acho que agora entendo porque você faz tanto sucesso com esses baixinhos. — falei, baixando meus olhos um pouco. — Gostou da surpresa?
— Eu amei. Não esperava ver você aqui, nunca poderia esperar para falar a verdade. — Emma tinha os olhos um pouco avermelhados, notei o quanto estava emocionada.
— Sabia que iria gostar disso, mas não quero que pense que vim até aqui só para agradá-la. Eu vim porque quis e porque preciso.
— Você não pode imaginar como fiquei feliz ao te ver lá de fora.
Eu queria beijar Emma, mas me segurei por causa das crianças. Passamos alguns minutos nos olhando, observando as crianças conversarem e rirem.
A senhorita Blue entrou na sala e organizou os meninos e meninas em fila para irem lanchar e até nos convidou, mas já estava ficando tarde e devíamos voltar para casa.
— Vocês tem certeza de que não querem jantar conosco? — ela perguntou.
— Nós temos um longo caminho até nossa casa. Até chegarmos lá já vai ter anoitecido. Obrigada pelo convite, na semana que vem aceitaremos. — falou minha esposa.
— Tudo bem. Obrigada pelo tempo que passaram com eles hoje. — A senhorita Blue realmente se sentia aliviada quando alguém se voluntariava a passar algumas horas com os órfãos. Imagine cuidar de cinquenta crianças e ainda precisar se preocupar com as obrigações do convento. Era muito trabalho.
— Imagine, nós é que agradecemos por poder passar um tempo com eles. — falei.
Não posso dizer que foi uma experiência ruim, foi algo diferente de tudo o que havia feito na vida, mesmo com meus receios em lidar com aqueles garotos e garotas. Senti um orgulho imenso de mim mesma, como se eu estivesse no caminho certo, fazendo a coisa certa. O que quero dizer é que me senti bem tendo contato com aqueles órfãos como eu jamais havia imaginado. Até senti vontade de sorrir quando a freira mandou que acenassem e dissessem tchau para nós. Não sei explicar exatamente se meu problema é o de não saber lidar com elas, mas acredito que depois de hoje, a barreira que existia começou a diminuir.
...
Acabou que Emma passou o resto da noite tagarelando sobre as crianças do orfanato. Ela estava quase de pé na nossa cama, me dizendo o nome de cada uma, animadíssima, já que eu havia dito que tinha a intenção de voltar para visita-las mais vezes. Emma era dessas de falar demais quando estava contente, eu sabia bem disso e deixei que ela contasse tudo o que quisesse mesmo que eu estivesse mais interessada em admirá-la do que necessariamente entender o que ela contava sobre as brincadeiras que inventava para os pequenos.
Eu percebia que teria um longo caminho para chegar ao nível de minha esposa e que minha missão de entende-la não ficaria só em ir ao orfanato. Enquanto Emma falava eu comecei a pensar seriamente em comprar revistas que tinham reportagens sobre o assunto “ser mãe”. Mas dessa vez, eu não contaria a Swan sobre, já bastava sua euforia em ter me visto no orfanato hoje, pense em como ela ficaria se eu contasse de todas as minhas ideias.
Foi ficando tarde e eu já bocejava, com as mãos para trás da cabeça no travesseiro, escutando Emma. Ela percebeu.
— Você já quer dormir? — me perguntou, num momento em que eu havia fechado os olhos e nem tinha percebido.
— Está tarde, não é? Venha, vamos descansar. Eu sei que está muito feliz hoje, mas precisamos acordar cedo amanhã, especialmente você que tem gravação dobrada. — lembrei ela.
Minha mulher suspirou pesadamente e assentiu. Foi ao banheiro escovar seus dentes, porque eu já havia feito o mesmo antes de deitar, e voltou, apagando as luzes do quarto para entrar debaixo do edredom comigo. Logo nos abraçamos, fiz ela deitar sua cabeça sobre meus seios e fechei os olhos.
— Boa noite, meu amor. — eu disse.
— Boa noite, vida. — respondeu Emma.
O silêncio começou a zumbir pelo quarto e eu estava sentindo o sono tomar conta de mim quando senti o amor da minha vida cutucar meu braço sutilmente.
— Regina — ela chamou.
— Sim? — falei quase sem abrir a boca.
— Posso perguntar uma coisa?
Se Emma não fosse minha mulher eu teria enfiado um travesseiro em sua cara por ter me acordado para perguntar algo – acho que eu estou de TPM pois minha paciência anda no limite, e eu não sou dessas que socam travesseiros nas esposas, de maneira alguma, longe disso.
Cocei minha testa, meus olhos, vendo o breu do quarto e gemi a resposta:
— Uhum.
— Você iria me contar que foi ao orfanato se eu não tivesse aparecido lá hoje?
— Bem, para ser sincera, eu estive lá antes de ter ido hoje.
— Você jura? — Emma ligou a luz do abajur do lado dela da cama e me olhou surpresa.
Fiz que sim.
— Juro. Na semana passada.
— Mas você não entrou, eu não vi você.
— Eu estava no exato lugar onde você parou hoje de tarde. A janela. Só que você não me viu. Eu pedi para a senhorita Blue não contar que estive lá.
— Por que não?
Olhei bem nos olhos de Emma, procurando o jeito certo de conversar com ela.
— Estava confusa, meu amor. Não sabia se o que eu estava fazendo era o certo, se era o que eu queria. Eu precisava ver como você estava, o porquê de chegar em casa tão bem depois das visitas que andou fazendo para esses meninos. Eu precisava dar o primeiro passo, mas não tinha certeza de que estava fazendo a coisa certa.
— E então resolveu ir ao orfanato? Como você se sentiu, afinal?
— Um pouco estranha. Não consigo definir de outra forma. Eu adorei ver como você lida com os órfãos e como consegue gostar tanto de crianças, mas para mim ao mesmo tempo foi um pouco frustrante por saber que eu não tinha esse mesmo... talento, esse mesmo tato que você possui. Eu acho que preciso aprender a ser como você.
— Você não precisa ser como eu. As crianças adoraram você, não percebeu hoje? — Emma me olhava de forma doce.
— Sim, é que... Sou tão desajeitada, tenho tanto medo de agir.
— Falando assim parece que você nunca foi uma criança antes, Regina.
Se parasse para pensar, Emma tinha razão. Uma das coisas que eu mais adorava lembrar era da minha infância, no entanto, eu me esqueci completamente dela nos últimos tempos. Será que meu problema está aí? Talvez não seja tão simples.
— A conversa que tive com meu pai me ajudou a pensar melhor. Você merece tanto e tem passado todos esses anos se privando do seu sonho que eu não podia deixar isso como estava.
— Te fiz uma promessa...
— Mas não precisa cumpri-la, Emma. Se não é para que você seja feliz, não cumpra. Eu também fiz uma quando nos casamos, não foi? Eu só preciso aprender a sentir a sua vontade de se tornar mãe e procurar te dar esse presente.
Emma suspirou, me olhando de forma ansiosa.
— Então isso é muito mais profundo do que eu posso imaginar. Também não quero que você me prometa alguma coisa se você não for feliz.
— A partir do momento em que entendi que precisava ver seu sorriso para ter o meu, eu não precisava de mais nada. Não importa o que acontecer, eu estou tentando com todas as minhas forças, meu amor. Qualquer coisa que eu fizer por você será pouco.
Minha esposa se deitou sobre mim. Seus dedos alisaram minhas bochechas e sua respiração se fundia a minha. Precisei fechar meus olhos só para sentir.
— Não posso esconder minha felicidade em ouvir essas coisas.
— Não esconda. — eu disse, ainda de olhos fechados.
Ela me beijou devagarinho como não havíamos feito antes por não estarmos sozinhas. E eu sinto que esse beijo é uma forma dela me dizer “muito obrigada”.
Logo que fomos trabalhar no dia seguinte, recebi uma ligação de Killian me pedindo para encontrar com ele num pub que ele frequentava na hora do almoço. Fui até lá depois do expediente na MBC e o encontrei cabisbaixo, sentado numa das cadeiras do bar. Acho que ele já havia bebido algumas doses generosas de Jack Daniels pois parecia um pirata bêbado.
Um fato sobre Killian que nunca contei é sobre seu problema com bebida. Ele já foi um cara mulherengo, problemático na juventude e agora está cada dia mais familiarizado com bebidas. Não que isso não seja problema de hoje, mas me preocupa ver como ele anda consumindo whisky e cerveja em excesso nos últimos meses. Me pergunto se Ruby está atenta a isso.
— Killian? Já começou os trabalhos pelo o que estou vendo. — eu disse, me sentando ao lado dele, pousando minha bolsa sobre meu colo. Eu o vi, ele parecia péssimo, os olhos estavam vermelhos como se ele tivesse chorado, mas era apenas álcool. — O que aconteceu?
— Que bom que você veio, Regina. — ele largou o copo do que estava bebendo e virou para me ver. — Como você está? — Me deu um abraço de lado e um beijo na bochecha.
— Eu estou bem. Mas parece que você não, hum?
— Ah, não é nada, vai passar. — ele pigarreou.
— Então aconteceu alguma coisa. Por isso me chamou? Há algo que sua amiga aqui deva saber?
Killian olhou para o garçom que limpava copos próximo a nós no balcão do bar. Quando o homem se retirou, voltou a me olhar e confessou:
— Ruby. Eu acho que ela não gosta mais de mim.
— Ruby não gosta mais de você? Mas como se vocês acabaram de casar? Que história é essa? Vocês brigaram?
Ele abanou a cabeça.
— Nós tivemos uma pequena discussão. Eu reclamei que ela não chega em casa a tempo de jantar comigo. Falei que ela devia pedir para mudarem os horários da série, mas ela não vai fazer isso. Poxa vida, Regina, vejo minha mulher de manhã enquanto ela dorme e quando ela chega a noite eu já estou dormindo. Isso é muito injusto.
— Killian, você se casou com uma atriz. Eu pensei que já havia superado esse problema.
— Eu só acho injusto. — ele limpou os olhos piscando várias vezes. — Isso não pode ser um casamento, Regina. Eu queria saber qual a fórmula que você e Emma usam para aguentar a ausência.
— Nós nos amamos acima de tudo. — disse isso olhando-o fixamente. — O.k. essa é a resposta que você está cansado de ouvir. Felizmente nossos horários batem. Quando ela sai para trabalhar eu também saio e quando ela volta eu já estou em casa. Não posso reclamar, ela trabalha mais que eu e o tempo que ela tem vago gasta comigo. Principalmente agora que estamos fazendo várias coisas juntas.
Ele mexeu a cabeça, esfregou o rosto com ambas as mãos e pediu algo para mim no bar. O garçom me serviu em seguida. Acompanhei Killian no Martini, uma dose bem pequena e voltamos a falar.
— Acho que o problema sou eu. Talvez eu é que tenha de mudar os horários no L.A. Diário. — disse ele.
— Sim. Comece a pensar em facilitar as coisas.
— Sabe, Regina, tenho inveja de você e de Emma. Estou confessando isso porque vocês duas são loucas uma pela outra.
— Você e Ruby também se amam muito, não estão muito longe de nós. Você quer um conselho? Por que não tentam uma terapia de casais? Façam mais coisas juntos, nem que seja no final de semana quando ela está em casa. Eu passei por três crises em quatro anos, meu amigo, e esse tipo de problema se resolve a dois, garanto a você.
Ele sorriu e apertou minha bochecha.
— É, você parece bem novamente. Se resolveram depois daquela declaração de amor que você fez, não foi? Mas eu me lembro que você ainda tinha algum receio de fazer o que a Emma mais queria na vida, adotar. Já superou isso?
Olhei para copo do Martini, depois novamente para meu amigo e assenti.
— Estou vencendo as barreiras com crianças. Pelo menos tentando.
— Isso é verdade?
— Uhum. Sabe o que eu fiz ontem? Fui ao orfanato que Emma está frequentando para compor sua personagem no novo seriado.
— Não me diga!
— É verdade. E ela me viu contando história para as crianças. Não foi uma maravilha porque eu nunca contei história para crianças mas eu acho que me saí bem, elas riram de mim, falaram que eu sou bonita.
— São crianças carentes, Regina. Qualquer demonstração de afeto e atenção que você der a elas, vão reagir dessa forma. Cada uma ali deve precisar e desejar muito um lar. Pretende levar alguma para casa? Ser mãe com Emma?
— Primeiro estou tentando compreender o que Emma sente, a necessidade dela de querer ter um filho, depois eu vou pensar.
— Ora, vamos, estou vendo nos seus olhos que você quer dar esse presente a Emma, por que adia tanto? Você tem alguma espécie de trauma?
— Não é por isso, Kill. Eu só... Não dá para explicar direito.
Killian fez sinal ao garçom, pedindo a conta.
— Tudo bem, talvez você só não queira meter os pés pelas mãos.
— É, talvez seja isso.
Ele pagou o que havia bebido e o meu Martini mesmo sobre meus protestos. Se levantou da cadeira e veio me dar uma abraço de verdade.
— Eu vou seguir o seu conselho e vou ajustar meus horários para ter mais tempo com a Loba. — Kill apelidou Ruby carinhosamente de Loba por conta de seu apetite sexual exagerado. Ele nunca entrou em detalhes sobre isso(ainda bem), mas pelo menos explicou. — Depois me conte as novidades com Emma.
Fiz que sim e dei nele outro abraço de amigo.
Senti pena de Killian porque afinal de contas o casamento dele com Ruby tinha acontecido há alguns meses e eles já estava passando por problemas mais sérios que o dinheiro que Kill não tinha antes de conseguir casar com ela. Espero sinceramente que meu amigo resolva antes disso virar uma crise tão grande quanto a minha e de Emma.
Passados alguns dias nem um pouco atípicos, o seriado de Emma começou a ter audiência e Swan já havia gravado cerca de dez episódios da primeira temporada. Não preciso dizer no quanto isso a deixava animada e satisfeita, e era verdade que o seriado era bom.
Alguns programas de TV a entrevistaram junto do ator mirim que interpretava seu filho na série. Emma voltou a ser capa de algumas revistas, inclusive uma em que pousou de biquíni e tinha os dizeres: “Todos queremos uma mãe como essa.” Está certo que era uma revista que falava de saúde e boa forma, mas mais parecia uma revista sexy. Tirando isso, eu continuava meus planos de aprender a lidar com crianças.
Ontem resolvi ir até uma grande loja de brinquedos que havia na cidade e encomendei boa parte do estoque da loja para oferecer ao convento. Eu havia notado que alguns brinquedos que as crianças usavam na sala de recreação estavam um bocado desgastados, então me ocorreu a ideia de substituí-los por novos.
Acho que nunca vi nada igual o sorriso de Emma, porém, senti uma cosquinha no peito(não sei se isso foi bom ou ruim) quando vi aquelas crianças recebendo os brinquedos novos. Me peguei sorrindo involuntariamente e me perguntei se não seria interessante começar a fazer esse tipo de caridade para crianças pobres que vivessem em L.A. Eu conversaria com minha mulher sobre isso.
Emma estava muito ocupada com as gravações e não pôde aparecer, então tratei de me enturmar com os pequenos, do jeito que ela fazia, tentando parecer o mais natural possível. Para minha surpresa, eu não precisei fazer muita coisa. Eles me puxaram para me misturar a eles e quando percebi, já estava sendo empurrada em um balanço por um grupo de cinco garotos. Tive uma crise de riso, até porque faz muito tempo que não sou empurrada em um balanço, acho que a última vez foi no colégio quando eu era menina. E não pense que fiquei só no balanço; me arrisquei um pouco no futebol; na gangorra; no escorrega; e terminei jogando monopólio com o grupo maior de crianças.
Eu estava que nem gato em balde de peixe, confessando para mim que havia me divertido muito quando deu a hora de ir embora. Me despedi de cada um, deixando-os sob os cuidados de outra freira no momento em que saí. Fui procurar a senhorita Blue para me despedir e falar das doações mas ela não estava na sala da diretoria do convento. Então decidi ir embora e falar com ela outro dia e passando pelo corredor da saída acabei escutando vozes. No que olhei para o lado, vi de uma janela a senhorita Blue conversar com um homem alto e ao seu lado havia um garotinho que devia ter aproximadamente uns nove anos pela altura.
Saí pela porta da frente e consegui ver a freira apertar a mão do homem que se foi em um carro com uma sigla da prefeitura da cidade. A mulher tocou no ombro do menino que havia ficado e os dois entraram pela parte de trás do convento. Eles não me viram.
Tive uma sensação triste como se estivesse acontecendo algo de grave com aquele menino que vi entrar no orfanato. Alguém o deixando ali àquela hora não podia ser comum. Voltei para casa pensando no que poderia ter acontecido para terem mandado aquele garoto ao orfanato, ao mesmo tempo me repreendendo por nem ter visto a cara do moleque. Devia ser mais uma história triste entre as tantas de órfãos.
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