Notas iniciais
O capitulo começa sem introdução, lançando o leitor no meio da aventura. As eventuais lacunas serão preenchidas ao longo dos outros capítulos.

-- Renamon... ? – A sombra de Renamon se fazia visível quando eu a chamava. Eu não poderia vê-la, mas sabia que estava lá. Rápida demais pra levantar qualquer suspeita. Não que houvesse a necessidade de não ser vista, mas ela simplesmente não era. Discreta e silenciosa como uma raposa, astuta e rápida como uma cobra, ela poderia tomar minha frente sem que a eu visse, embora eu soubesse que estava alguns passos atrás de mim.

-- Por favor, não tenha pressa. – Ela não me respondia. Nem precisava. Ela nunca foi do tipo que fala muito e nesse aspecto somos extremamente parecidos. Eu sempre evito qualquer tipo de contato, até mesmo verbal. Não com ela.

Os passos que eu dava na areia faziam com a areia ficasse marcada, como se minha pegada tivesse sido de alguma maneira pintada ali. Eu achava aquilo curioso, mas não prestava muito atenção. Desde que cheguei ao Digimundo – se este realmente é o Digimundo – eu me preocupava mais em saber a razão de estar ali. Nunca me questionei o porquê de ser eu quem estava ali, mas sim o porquê de estar ali.

Outras pessoas talvez estivessem mais preocupadas em como voltar pra casa, mas esse pensamento nunca passou pela minha cabeça em três noites que passei aqui. Eu não sinto fome nem sede, apenas frio e sono. Não sei se sou mais humano. Não importa agora.

-- Você conhece este lugar? – Coloco a mão em cima da testa, tentando manter os olhos protegidos do brilho forte do sol. Movi o rosto para os lados, tentado ver o que nos cercava. Alguns rochedos altos que faziam sombra, areia e mais areia que era espelhada pelo vento relativamente forte, que soprava como se uma pessoa estivesse tentando apagar uma chama com o próprio hálito. O horizonte parecia infinito, limitando minha visão. Aquilo com certeza era um deserto, mas não fazia calor. Ou pelo menos eu não sentia.

Ela não respondeu. Às vezes era como se eu falasse sozinho. Mas eu sabia que ela estava ali, e eu nem precisava virar meu rosto pra trás para vê-la, porque sua presença podia ser sentida da mesma maneira que o vento fazia minhas roupas balançarem no corpo; eu simplesmente sabia que ela estava ali, como o sol que ofuscava minha visão com seu brilho intenso. Sua presença era algo que não precisava ser vista para ser sentida, tal quais as pessoas fazem com a religião.

Não que Renamon fosse uma deusa, mas, tal como uma, eu sabia que ela estava ali pra mim como um deus que, comovido pelas preces de seu devoto, intercede por ele. Eu sabia que ela estava ali por mim.

O vento soprou forte demais a seguir. Levantei o braço esquerdo em reflexo defensivo, inutilmente, como se fosse um escudo. Meu boné caiu da minha cabeça e eu quando eu pensei em pegá-lo de volta ele não já estava mais no meu campo de visão. Eu tive a sensação de que o vento era tão forte que minhas roupas iam ser arrancadas do meu corpo. Eu cambaleei um dois passos pra trás, quando Renamon segurou no meu braço com suas duas patas superiores, me dando apoio.

Eu não sei como em meio a uma areia quase movediça ela conseguiu manter-se firme e ainda me servir de apoio. Virei o rosto na direção contrária ao vento, que me empurrava mais pra frente. Parecia que ele tinha vida própria e suas mãos eram fortes o suficiente pra me tirar do chão.

Repentinamente, o vento parou.

O meu braço ainda estava na frente do rosto quando eu virei na direção de onde vinha o vento. O rosto estava curvado, como em posição defensiva, e eu abri um dos olhos de cada vez. O que eu vi a seguir não me surpreendeu.

- Golemon. – Não que eu me importasse em saber o nome dele, mas Renamon era prática nessa questão. Eu sabia que ela não era a única ali.

Deduzi que o vento tinha saído do buraco que se abriu no chão a nossa frente de onde a criatura saiu, e que agora se fechava. Eu tirei o braço da frente do rosto e tive que erguer a face para poder enxergar a criatura completamente. Ele era completamente feio de rochas, como se um daqueles enormes rochedos que faziam sombra no chão tivesse ganhado vida. Definitivamente não era a coisa mais bonita que eu já tinha visto. Renamon soltou meu braço quase me empurrando para o lado, tomando a frente, como quem me mandava se afastar. Não houve nada que pudesse fazer quanto a isso.

Não que eu tivesse esperança de que fossemos fazer amizade com o Golemon, mas se pudéssemos evitar hostilidade, ótimo. Sempre fiz isso durante dez anos de escola. Eu não era um covarde. Eu só nunca achei que lutar fosse minha primeira opção. Mas parece que não tínhamos chance ali.

Eu pensei em perguntar porque ele iria nos atacar, mas... quando alguém quer te bater, a primeira coisa que você pensa é ou em bater de volta ou evitar que ele te acerte. Bem, Renamon parecia fazer o primeiro tipo... O tipo que quer bater mais forte ainda. Mas, por um lado, ela parecia saber porque estava lutando. Não era como se aquilo fosse algo mecânico que simplesmente acontece de forma natural. Era eu quem não sabia o que realmente estava acontecido ali. Bem, agora eu não me importaria, desde que ficássemos a salvo.

Eu corri em direção a um daqueles enormes rochedos que faziam sombra no deserto, mas eu me atropelava nos próprios passos e, com o rosto virado pra trás, observando Renamon, ficava mais difícil ainda. Caí de joelhos e apoiei as mãos na terra, sentindo-a, pela primeira vez, quente. Meus lábios estavam entreabertos e as sobrancelhas arqueadas. Em outros tempos eu não admitiria que aquilo fosse uma expressão de preocupação.

Golemon abriu a boca enorme, disparando uma baforada de gás quente que foi o que provavelmente me fez sentir o chão quente. A temperatura começou a subir ao ponto de tornar-se quase insuportável. Renamon se movia tão rápido que provavelmente não tinha tempo de sentir a temperatura da areia em suas patas, e não tinha dificuldade nenhuma em saltar no ar como se pudesse voar, sem mesmo precisar tomar impulso. Ela era como uma atleta olímpica e seu dinamismo era invejável, saindo da zona de influência da baforada de calor com tanta graciosidade que ela mais parecia estar apresentando-se em um circo para um enorme público do que em uma luta.

Com o primeiro salto que ela deu, desviando-se da onda de calor, Golemon estendeu um de seus enormes punhos de pedra para acertá-la, e ela foi rápida o suficiente para se equilibrar na ponta de seu punho, de braços cruzados, quase como quem debochava da lentidão de seus movimentos. Eu mordi o lábio inferior, segurando um riso. Ao que eu me levantava da areia, ela usava o punho de Golemon como impulso para ir ainda mais alto, e tapando uma parte do Sol. Ela jogou o corpo pra trás e meus olhos seguiram seu movimento, ao que sua enorme calda se encurvava para o alto e as patas superiores se cruzavam com em um X, para depois se abrirem, estendidos, fazendo surgir uma enorme quantidade de pedras luminosas no ar, que rapidamente começaram a descer do céu, na altura em que Renamon estava, como uma chuva de granizo controlada, atingindo apenas uma área, especificamente aquela onde Golemon estava.

Aquilo brilhou como diamantes no céu, e eu levantei uma das mãos para tentar ofuscar o brilho em meu rosto, cerrando um pouco os olhos. Eu não pude ver perfeitamente o que aconteceu a seguir, mas eu ouvi o barulho dos cristais lançados por Renamon baterem contra o corpo de Golemon, fazendo com que alguns pedaços de pedras se desfarelassem de seu corpo, mas não o suficiente para derrubá-lo. Aquilo mal o afetou.

Uma das minhas mãos estava apoiada em uma enorme rocha quando eu tentei correr em direção à Renamon. Esse é aquele tipo de momento em que você não sabe o que fazer, mas você quer fazer. Quando Renamon caiu do céu, tão leve e sutil quanto uma borboleta, Golemon tentou socá-lo, e, mais uma vez, ela desviou, rápida como uma bala. Eu teria sorrido de novo se não estivesse percebendo que o suor estava fazendo seu pelo ficar molhado e consequentemente aquilo a deixaria mais lenta.

Apesar do tamanho, Golemon era rápido, rápido o suficiente pra dar dois socos paralelos seguidos na direção de Renamon, que se desviou do segundo com mais dificuldade do que normalmente levaria, deixando sua calda quase vulnerável. Ela subiu pelo braço esquerdo de Golemon como uma bailarina atravessa o palco, mas não podia fazer muito. Seu poder de ataque poderia ser relativamente alto, mas sua força, ao menos comparada a de um Digimon em nível adulto e daquele tamanho, era irrelevante.

Eu não sabia quanto tempo aquilo iria demorar. Quando Renamon atravessou o corpo de Golemon e foi até suas costas, ele liberou uma baforada de gases aquecidos por buracos que havia em suas costas, fazendo Renamon cair no chão, atingida pela primeira vez.

Eu senti aquilo como se fosse o meu próprio corpo sendo ferido. Imediatamente olhei para o chão, procurando alguma coisa. Não havia pedras ou pedras, apenas areia. Não que eu tivesse qualquer chance, mas eu queria fazer algo. Pela primeira vez, eu senti a areia ser um obstáculo para que eu pudesse correr. Meus passos foram mais largos do que de costume, como se a cada um deles eu ganhasse um empurrão de força que me servia como um estímulo para alcançar Renamon e me jogar em sua frente para protegê-la como ela havia feito a pouco por mim, mesmo que aquilo fosse a coisa mais estúpida que eu tivesse feito em todos meus dezessete anos de vida.

Mas não seria ainda.

Aquele ser pequeno foi tão rápido que eu pude ouvir o ar sendo cortado no céu, e eu não consegui acompanhar seu movimento quando saltou do alto de uma daquelas enormes rochas, fazendo sombra no céu, até alcançar Golemon, acertando-o com um único soco que o não fez sair do lugar.

Quando eu consegui virar o rosto para olhá-lo, em questão de segundos, Golemon já havia se convertido em dados, e o ser pequeno que agora eu reconhecia como uma gata branca de menos de um metro, que usava luvas nas patas de cima e tinha uma enorme calda fina, maior que seu próprio corpo. Seu tamanho, naturalmente, não era proporcional a sua força.

Tailmon. – Ouvi outra voz, e olhei para cima do rochedo para ver um rapaz mais ou menos da minha idade, com cabelos e olhos pretos, que vestia roupas como se houvesse acabado de voltar de uma longa corrida. Não pude ver mais detalhes porque o brilho do sol não permitiu que eu o encarasse.

Tailmon ainda estava congelado no ar, na mesma posição em que praticamente voou do céu em direção a Golemon e o acertou com o seu golpe, e pousou no chão assim que a voz chamou pelo seu nome, caminhando em sua direção a passos lentos.

Eu corri em direção a Renamon, que já havia se levantado e observava Tailmon lhe dar as costas, com uma das patas superiores apoiadas no joelho e os olhos fechados. Quando eu cheguei bem perto ela se levantou e abriu os olhos e nós dois assistimos enquanto Tailmon escalava o rochedo com a mesma facilidade que Renamon fazia, dando saltos curtos que rapidamente a levaram até o topo do mesmo, onde seu parceiro o aguardava. Ele sorriu pra mim, e dessa vez eu consegui ver porque o sol repentinamente se afastou, tornando o ambiente menos claro. Meus lábios ainda estavam entreabertos.

Renamon segurou meu braço.

- Não.

Eu virei meu rosto em sua direção. Em mais de três dias, aquela havia sido a primeira palavra que ela falara. Quando voltei o rosto para olhar os outros dois, eles já não estavam mais ali.

Começou a chover.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.