Não diga
1 Você e eu
Notas iniciais
Estou sentada em um sofá perto da janela, belisco a lasanha no meu prato enquanto observo o meu redor. As pessoas realmente estão empolgadas com o natal, ou pelo menos fingem por causa da comida. Olho para a sala toda enfeitada, e percebo que realmente Heitor se esforçou muito preparando a casa para o natal. É tudo tão lindo, há uma árvore de natal perto da estante de livros, luzes coloridas piscando pelas paredes e a música natalina tocando baixinho. Tudo tão diferente da minha casa porque minha mãe e eu nunca montamos uma arvore de natal. O ar condicionado — tenho quase certeza que era mais de um — está ligado no mínimo deixando tudo tão agradável. Às vezes tenho a sensação de estar em um filme de natal que passa na Tv Globo.
Então, ele entra vestindo jeans e blazer escuro. É tão bonito com o cabelo encaracolado pedindo para ser cortado e mesmo distante consigo ver as adoráveis ruguinhas que formam nos cantos dos seus olhos quando sorri. Ele não me percebe. Revezo entre garfadas e olhadas na sua direção, observando seu jeito natural e agradável de tratar os convidados. Os convidados, não a mim. Porque Heitor parece que eu não mereço sua atenção.
Quando sua mãe me convidou achei muito estranho. Faz tanto tempo que sequer trocamos uma palavra, nenhuma mensagem no WhatsApp. No começo até tentei manter contato, mas algumas mensagens não eram lidas — Ah, sim, ele estava online — e outras raramente respondidas. Um sentimento de abandono me corroía todos os dias antes de dormir, até que deixei de ser trouxa. De repente a música de natal parece triste e as luzinhas de Led emanam um brilho fúnebre e aterrorizador. As lágrimas embaçam tudo e tenho que piscar algumas vezes para não borrar a maquiagem. Não posso acreditar que esse seja o nosso fim. Dois anos de amizade e parece, no entanto, que ele está desistindo da nossa amizade. Sinto algo empurrando meu braço e parte meu vestido ficando úmido.
Olho para Bárbara tentando entender o que aconteceu. Eu estava tão distraída que nem percebi sua aproximação.
— Desculpa, Laura. Não te vi aí. — diz com a cara mais culpada que eu já vi na vida. Algumas pessoas olham e ela estende o guardanapo tentando estancar a mancha de maionese perto da minha barriga.
— Não, tudo bem. Eu que estava distraída mesmo. — digo me levantando com o prato na mão. Nem é tão ruim assim, é apenas o vestido. Um vestido que pode ser lavado depois. Não precisa de tanto drama.
— Ah, menina, não acredito que fiz isso. Desculpa, tá? —seus olhos estão cheios de culpa. Ela parece preocupada e envergonhada. Eu me sinto mal por fazê-la se sentir assim.
Quando toda a atenção se dispersou de nós, me despeço garantindo que está tudo bem e que eu dou um jeito depois, deixo o prato na cozinha tentando o máximo possível não chamar atenção e sigo para a pequena lavanderia aos fundos.
O lugar está um pouco bagunçado e demora um pouco até que eu consiga achar uma bucha limpa. Na verdade, não foi tão difícil encontrar. Desde os quinze anos frequentava essa casa. Suspirei lembrando do tempo em que Heitor e eu costumávamos andar juntos todos os dias. Perdi a conta de quantas vezes ouvi alguém insinuando que algo além de amizade entre nós, nas não era importante, nós estávamos sempre junto e pronto.
Esfrego a bucha úmida retirando a camada fina de maionese. Penso na sorte imensa de ter escolhido o vestido azul de musseline ao invés de um outro amarelo de um tecido mais pesado. Nem preciso tirar a roupa, apenas puxo o tecido um pouquinho para frente e tudo é resolvido rápido.
Ouço a porta abrindo e fechando, e sua voz grave preenche o ambiente:
— O que você está fazendo aqui?
Eu me viro no susto e o vejo segurando algumas garrafas vazias de suco de uva. Uma escolha da sua mãe depois de tantos natais estragados pelos parentes bêbados. Eu não podia deixar de concordar que era um pouco diferente do que nos outros lugares, mas parece que desse jeito as pessoas realmente aproveitavam o momento.
— Maionese. Acidente de percurso. — digo voltando a prestar atenção na mancha acima do meu umbigo. Eu só preciso ficar ali mais um pouquinho até que o tecido esteja seco.
— Ah, tá. Minha mãe pediu para pegar mais suco aqui no freezer.
Assenti lavando a bucha mais uma vez. Eu tive sorte de ter achado uma limpa, não queria imaginar o estrago que seria se estivesse engordurada. Nenhuma palavra foi dita e eu já estava ficando agoniada, não parecia certo estar sozinha — em um lugar apertado — com Heitor. Nós não parecemos ser melhores amigos.
— Sabe, eu me lembro de coisas legais de quando andávamos juntos. — começo a tagarelar, o que aumenta ainda mais a minha angústia. Nós já estamos aqui mesmo
— É, eu também lembro. — sua voz é calma e fria enquanto abre uma caixa de papelão.
— Mas também eu me lembro de coisas que são, sei lá, assustadoras. — largo a bucha e lavo as mãos. Eu sinto aquele velho formigamento no nariz e meus olhos se enchem de lágrimas. Dou as costas porque não quero que ele me veja chorar. Levanto a cabeça e olho para o teto com algumas teias de aranha, só assim as lágrimas parecem ser interrompidas. A garganta dói e a voz embarga.
— Laura — ele tenta me interromper, mas eu continuo mesmo assim.
— Nossa amizade está morrendo e parece que eu estou perdendo meu melhor amigo para sempre. — as primeiras lágrimas começam a descer sem que eu pudesse impedir. Quentes e temperadas com desespero. Não quero ficar sozinha. Sento-me em uma das caixas de madeira e tento não parecer tão devastada quanto eu realmente estava. —Você parece ter desistido. Você as vezes não me manda um Oi.
Há silêncio e mais silêncio. De repente o cômodo se inunda de vazio. É sufocante e eu tenho que me controlar para não chorar. Não deveria ser tão difícil, mas é algo que mexe com algo que eu tenho temido a anos. Não quero ser abandonada mais uma vez.
— É que você... É difícil explicar — Heitor coloca as mãos dentro dos bolsos e franze a sobrancelha. É como se procurasse um jeito menos devastador de dizer a verdade
Com a cabeça apoiada das mãos eu choro. Já sei exatamente o que vai dizer. Me lembro claramente quando um tempo depois do último natal ele esfregou na minha cara. "Você não sabe o que é ver sua mãe chorar depois de você ter se esforçado ao máximo para dar um natal perfeito mesmo longe da irmã dela." Por todo ano suas palavras ecoaram na minha mente e eu fingi que estava tudo bem. Egoísta. Princesinha mimada que tem tudo o que quer.
Na verdade, não era bem assim. Ele sabia disso, mas fez questão de esfregar na minha cara o quanto eu era incompreensiva. O engraçado é que eu havia passado o ano todo tentando provar ao contrário. Eu estive lá quando sua namorada deu um fora, eu tentei consolar quando algumas coisas davam errado. Porque eu estive perto enquanto os seus “melhores amigos” não davam notícias, mas quando — no mínimo — eles voltaram a se falar eu fui dispensada. E se realmente isso tudo for real, eu não quero saber.
— Não diga! — Grito apontando o dedo para seu rosto — Eu sei o que está pensando. Que eu sou egoísta, não é? Que você se cansou de todo meu drama e de toda essa minha necessidade de chamar atenção. Não é isso o que vai dizer Heitor? Não foi isso que você me disse daquela vez?
— Não é isso, é que nós acabamos nos afastando porque eu ando meio ocupado e cansado.
Mentira! Mentira! Mentira! Ele não estava ocupado para ir à praia, beber com os amigos. Ele só estava ocupado para mim. Porque na verdade, eu só sirvo como uma válvula de escape. Uma substituta de todos os amigos que não nunca aparecem. Eu não quero ouvir. Não mereço isso tudo.
— Por favor, para de explicar! Você não sabe o quanto machuca — grito mais uma vez tampando os ouvidos. Sei que isso me faz parecer infantil, mas eu não queria ouvir mais. Levantei ajeitando o vestido pouco me importando com a mancha. De qualquer forma não ficaria mais naquela casa por mais um segundo.
— Laura! — ele grita de volta. Sua voz é selvagem e o rosto está tão vermelho que parece ser capaz de explodir.
— Vai me dizer o que? — me viro enxugando o rosto — que eu estou fazendo drama por nada? Guarde para você! Eu não quero, não preciso ouvir suas razões.
Observo seus olhos injetados e as mãos tremendo. Não é fácil para ele também. Ele é uma boa pessoa. Mas nós estamos morrendo e eu não quero ficar e me machucar ainda mais. Não quero que seja real.
— Nós temos que parar de fingir quem somos — é tudo o que eu consigo falar antes de sair.
Cambaleio até a saída, um pouco cega pelas lágrimas, mas, no entanto, é o suficiente para perceber que havíamos falado alto demais. Todos me olhavam com um ar de decepção.
Eu me sento rejeitada. Nenhuma despedida ou sequer um abraço consolador.
Saio correndo pela porta frente. Ele não veio atrás de mim.
Corri pelo asfalto como se não estivesse de salto. Eu queria que o vento quente me levasse para bem longe. Eu precisava ir para casa. Me esconder. Sumir no meu quarto e nunca mais voltar.
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