Não Tão Estranha Assim
8 Capítulo 7 - Mundo girando
Capítulo 7
Mundo girando
Blair Montello
— Meu nome é Sarah Jerson, a mãe desses dois aqui — a mulher diz, me fazendo desviar a atenção para ela e encontrar novamente um sorriso em seu rosto. — E eu tive uma ideia maravilhosa!
Eu também tive, dona Sarah! A corrida me espera, puxo um pouquinho de nada a coleira de Sun Hee e mexo meus pés, os apontando para a saída. Estou assustada com o tamanho de bobagens que já falei nesse curto encontro e não quero nem imaginar o que mais dez minutos com eles poderia me causa.
— Que tal um almoço?
— O QUÊ? — termino por gritar, dando um susto na mulher de olhos bondosos a minha frente. — Me desculpe, é que eu me perdi em pensamentos, er...o que a senhora estava dizendo mesmo?
— Bem, eu a convidei para um almoço, em nossa casa — ela aponta para seus dois filhos com os polegares, me forçando a montar um sorriso no rosto, tão forçado quanto comer brócolis aos seis anos de idade. — Como um pedido de desculpas formal pela invasão do meu filho mais velho!
Ah, então ele era o mais velho! Olho de volta para Dan que sorri para mim e mexe as sobrancelhas para cima e para baixo. Provavelmente ele é o mais novo. De primeira eu até pensei que eles poderiam ser gêmeos, mas do modo que ela falou não consigo deduzir que seja só porque Max nasceu alguns minutos antes do outro garoto.
Mas voltando ao que realmente importava, uma crise muito importante...
— Não, imagina — jogo minha mãe de lado, deixando claro que ela não precisa se preocupar e ainda não uma risada engasgada. Por favor, não se preocupe — Eu, realmente, não quero atrapalhar!
— Eu insisto! — ela sorri e algo naquele sorriso é tão forte e tão cheio de gentileza, um sorriso de mãe que abraça e traz felicidade que eu tive que fechar os olhos e me ver concordando com um aceno de cabeça.
— Você vai levar algo? — ela dá uma olhada em meu carrinho ainda vazio e eu concordo, me forçando a levar meus amados post its, porque eu estou acreditando piamente que irei precisar deles, muito!
— Preciso apenas pegar uma pequena coisinha — sorrio indicando o corredor a nossa direita.
— Ótimo, nos encontramos no estacionamento, que tal? — dona Sarah inquere e eu assinto, começando a arrastar Sun Hee pela coleira para o próximo corredor, deixando meu carrinho vazio por ali mesmo.
— Eu acho que lembrei de algumas coisas que preciso pegar para a escola, mãe — o irmão mais novo do Lindão, que se não me engano chama-se Dan, fala com sua mãe.
Me repreendo mentalmente por ter chamado Max de Lindão novamente, isso é mais difícil do que parece, após ter o associado com esse adjetivo (que, aliás, eu associo a muitas coisas, como minha banheira), fico com uma enorme dificuldade em desassociar e chamá-lo de Max, droga!, eu preciso dos meus post its, urgentemente! Colar um na testa escrito "O CHAME DE MAX, CABEÇA DE VENTO".
— Claro, querido, nos encontramos depois! — dona Sarah concorda e vai em frente com Max.
Eu espero que eles estejam longe o suficiente e eu já esteja andando em direção ao próximo corredor, com Dan ao meu lado, para que eu me vire e comece a me humilhar.
— Por favor, por favor, por favorzinho, não conte nada ao seu irmão! — eu junto as mãos e pulo sem parar de olhos fechados em frente ao menino, que solta uma gargalhada alta o suficiente para chamar a atenção de funcionários e clientes que passam ao nosso redor.
— Você o chamou mesmo de Lindão, não foi? — ele questiona tentando conter o riso que sai de seus lábios. — Cara, isso foi engraçado!
— Eu achei que tinha pensando, assim, só para mim! —resmungo com uma careta e ele sorri com seus olhos castanhos brilhando em minha direção.
— Você pensa alto, mocinha! — ele diz com um encantador sorriso nos lábios.
— Mocinha — rolo os olhos e coloco minha mão livre na cintura. — Quantos anos você tem, afinal?
— Eu tenho dezesseis, quase dezessete — ele responde cruzando os braços.
— Nossa — chego próximo dele e aperto seu bíceps forte —, sabe quantos garotos gostaria de ter esse braço com sua idade? Menino, você já parece pai de família!
— Mas o quê? —ele volta a gargalhar e eu sorrio com sua espontaneidade. — Deus, você é mesmo engraçada! — ele segura o rosto com as duas mãos e depois retorna a me encarar. — E, não se preocupe, não contarei nada ao Max, pode relaxar!
Bem, uma preocupação a menos...eu acho! Mas algo no olhar dele e no modo que se dirigiu a mim com tanta liberdade me traz um bom sentimento, até agora tudo na família Jerson me faz sentir boas sensações, apenas Max fica em um impasse.
— Agora, já que você é meu parça dos segredinhos — eu seguro em seu ombro e ele só tenta disfarçar um sorriso em seus lábios, tão afinado quanto de seu irmão. — Me conte, porque seu irmão fica me encarando que nem um perseguidor de galinhas?
— De galinhas? — ele ri, agachando-se para acariciar novamente minha cachorrinha.
— É, os caras ficam encarando as galinhas antes de tsc — faço um som com a língua e passo o dedo pela garganta — decapita-las! E, depois, quem sabe, degustar, mas isso depende da sua escolha para comida, enfim.
— Certo, em primeiro lugar, eu nem sabia que ele estava te encarando! — admite e volta a caminhar, e eu o acompanho percebendo que estamos em um corredor de rações pra animais e pego um sachê de guloseimas para Sun Hee já que não vamos tão cedo para casa. — Mas ele diz algo sobre conhecer facilmente uma pessoa com apenas um olhar, parece que era algo que meu pai falava.
— Ele já me deu mais de uma olhada, qual é! — reviro os olhos e me direciono para o corredor a esquerda, onde eu já sabia que encontraria os post its, pego pelo menos duas caixinhas.
— Desvie o olhar se você se sente tão incomodada — Dan sugere jogando os braços dobrados para trás da cabeça. — Ele é meio cabeça dura, quando coloca algo em mente não para até conseguir — o encaro ao mesmo tempo que ele olha para mim. — Eu acho que ele gostou de você!
****
Nos encontramos no estacionamento assim como o combinado, Dan terminou por não buscar nada no mercado, apenas ficamos jogando conversa fora. Preferi me desviar do assunto se tratando de seu irmão, conversamos sobre as aulas e descobri que eles estão matriculados na mesma escola que eu. Dan também elogiou minha blusa, dizendo que também é um fã de animes e me prometendo que me emprestaria alguns DVDs recentes de animações que eu ainda não conhecia.
— Hey, Max — Dan chama assim que alcançamos o carro, onde seu irmão e dona Sarah fecham o porta-malas. — Estudaremos no mesmo colégio.
Dan envolve meus ombros em um tipo de abraço de lado, e me puxa para próximo. Eu me assusto pelo abraço repentino, mas termino sorrindo com a espontaneidade do garoto. Levanto os olhos para Max e ele nos encara, então dispensa nos lábios mais um dos sorrisos simples e concorda.
— Ótimo, já temos uma guia para nosso primeiro dia de aula — Max (não acredito que acertei!) responde e me encara, em meio ao estacionamento lotado e de seu irmão e mãe.
Meu coração dá uma acelerada, de novo!, me fazendo respirar fundo. Se ele acha que eu vou me dar por vencida, ah, não! Ele tá muito enganado, aqui vai ser olho no olho, e mesmo que isso me deixar com sequelas, tipo uma arritmia, não me importo. Se ele não desviar os olhos, eu também, não irei! Pode parecer uma coisa bem infantil, mas a culpa é toda do Max e seus olhos com um magnetismo forte demais para ser ignorado.
— Vamos? — dona Sarah entra na frente de Max e ele concorda, indo em direção ao carro.
— Você viu o olhar dele? — Dan cochicha em meu ouvido. — Cara, isso vai ser divertido!
— Que olhar? — pergunto me virando para ele. — Ele me encarando? É claro que vi! — Dan nega com a cabeça como se eu fosse uma criança e estala a língua.
— Só vamos, Blair! — ele empurra meus ombros e me arrasta para o carro.
Dona Sarah já está no volante, mas vejo que Max vai arrumar algo no porta malas, enquanto isso vou para o banco de trás, mas antes me viro para eles novamente.
— Vocês não ligam de Sun Hee ir no banco de trás? — pergunto, tanto esperançosa quanto temerosa. Talvez eles achassem que eu colocaria minha cachorrinha na mala ou coisa parecida, mas prefiro ir para casa (Deus, eu quero mesmo isso!) a não levar minha cachorrinha no banco junto de mim.
— De quem você está falando, querida? — Dona Sarah se pendura na janela, me observando.
— Sun Hee — aponto para baixo, onde minha cachorrinha solta um latido e põe a língua para fora. Eu preciso, assim que possível, dar água a ela, esqueci completamente de trazer uma garrafinha.
— Oh, mas é claro! Coloque ela aqui — ela aponta para o banco de trás e sorri.
Suspiro, tão resignada quanto agradecida. Eles são pessoas boas, porque, veja bem, se você está sujeito a sujar seu banco de trás com qualquer coisa que um cachorro tenha pisado e, ainda por cima, mantém um sorriso no rosto, cara, você não tem como se uma pessoa tão ruim assim. Risco da mente um sequestro inesperado que eles possam fazer a mim.
Estalo os dedos e aponto para dentro do carro, Sun Hee sobe logo em seguida e então eu entro e me sento ao seu lado, ela cheira meu cabelo e eu sorrio, fazendo carinho nela e prometendo um pouco de água o mais rápido possível.
Então a porta ao lado de Sun Hee é aberta e vejo os olhos de Max me focalizarem e escuto também o ranger de dentes de minha cachorrinha.
— Eu vou na frente — ele fala, amargo e bate a porta.
— Sobrou pra mim — Dan entra se sentando ao meu lado e eu lanço um sorriso para ele.
Não demora para dona Sarah arrancar com o carro e sair do estacionamentos do hipermercado em que nos encontramos. Agora estamos a caminho da casa deles e, pelo lado em que se destinam, vejo que se trata da mesma direção que a minha, talvez sejamos até do mesmo bairro.
— Então vocês irão estudar no mesmo colégio? — Dona Sarah questiona e eu concordo com um movimento de cabeça, enquanto vejo Sun Hee por a cabeça para fora da janela e aproveitar o vento balançando seu pelo.
— É, Blair, alguma dica? — Dan pergunta virando-se para mim e, por um motivo estúpido, na verdade esperava que Max estivesse me encarando, mas ele só olha pela janela enquanto a paisagens vai passando.
— Ahn, bem, o Maria Keent Public School é uma escola bem comum, exigente como muitas outras, a única diferença são seus períodos escolares. — dou de ombros e ele concorda comigo.
— Eu fiquei extremamente empolgada com o período de férias — dona Sarah confessa com mais um sorriso e brilho nos olhos azuis. Ela dá uma curva e seu cabelo preto curto dá uma remexida por cima dos ombros. — Imagine só, ter os meninos de férias durante todo o inverno!
— Sim, é divertido! — dou risada relembrando alguns momentos. — É apenas difícil de explicar para algumas pessoas do porquê de minhas férias diferentes e tudo mais durante viagens, sabe, sempre querido amigo por que uma menor de idade está em uma viagem e não na escola.
— Jake Bloom também estuda nessa escola? — é a primeira vez que Max quebra seu silêncio e faz sua pergunta.
— Sim, ele estuda lá, também! — me viro para Dan com um sorriso. — A parte boa é que Sophia, a irmã dele, também estuda lá, e está no primeiro ano também, talvez vocês possam se esbarrar de vez em quando. Sophia é realmente um amor de pessoa!
— Então ele é a ovelha negra da família? — a mãe deles quem declara e olha pelo retrovisor. — Max me contou sobre os boatos idiotas que ele faz sobre você, querida, e eu sinto muito!
— Não se preocupe, não é algo que realmente mexe comigo! — admito com um meio sorriso. — Não vale a pena se magoar por causa de opiniões de fora, o que preciso é de mim mesma e as pessoas que estão ao meu redor, me amando e me fazendo tão bem que me sinto uma pluma no ar, é que fazem meu mundo girar para o lado certo.
— Isso foi legal — Max é quem fala, olhando sobre o ombro e eu sei que corei com seu olhar. Porque, pelo não ou pelo sim, ele estava fazendo meu mundo girar, mas eu ainda não sabia para qual lado.
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