Não Tão Estranha Assim
4 Capítulo 3 - Dona Sarah interroga
Capítulo 3
Dona Sarah interroga
Max Jerson
O riso dela vai me acompanhando por todo o caminho. O sorriso dela, o jeito que o cabelo, todo molhado e jogado de qualquer forma, cai sobre seus ombros e as explosões de emoções que ela teve estão rondando minha mente, se repetindo até que eu as saiba de cor. Ela por completo está querendo se fixar em algum canto da minha mente, procurando um vazio para ser preenchido.
O que finalmente me arrasta para a realidade é o Aston Martin prateado do outro lado da rua. Após dois quarteirões andando, encontro Jake encostado em seu carro caro, sua irmã, em muito mais baixa e de cabelos tão loiros quanto ele, me encara mal humorada como se estivesse prestes a pular em minha jugular.
— Nosso mais novo campeão — ele abre os braços com um sorriso festeiro nos lábios. — Gostei do truque com a tranca.
— O que me fez pensar — uma loira, que só percebo agora, encostada no poste em frente ao carro de Jake com funda olheiras abaixo dos olhos que tentaram ser tampadas com quilos de maquiagem, diz —, o que você fazia em New York, garoto novo?
Troco de calçada me aproximado deles um pouco e percebo mais um garoto, ele está reclinado sob a traseira do carro, tem pele escura e esbanja um sorriso de dentes brilhantes. Ao contrário dos outros, esse segura uma garrafa de uma bebida qualquer na mão, o liquido âmbar já se encontra pela metade e o cheiro de álcool vindo de todos eles. Isso me remete a imaginar que estão todos bêbados e não vão realmente lembrar amanhã de minhas respostas, o que é, definitivamente, uma pena.
— Você não vai querer saber — digo para a loira que me lança um olhar de superioridade, mas decido encerrar com algo mais na fala —, garota velha!
— Quem você acha que...
— Vai com calma, Luce — Jake ri entre as palavras e segura o braço da garota, a puxando para perto de si. — Você está um pouco exaltada.
— Tanto faz — ela tira a mão dele de seu braço e vai para perto do menino na traseira.
— Mas, fala aí, foi marcado? — o cara da traseira do carro pergunta com a voz meio grogue enquanto entrega a garrafa para a menina chamada Luce. Nenhum deles parece ser realmente mais velho que eu, mas suas vozes entorpecidas e o rosto de noitadas me fazem pensar que eles poderiam se passar por pessoas mais velhas em qualquer lugar.
— Marcado? — pergunto antes de qualquer coisa porque isso sim me despertou curiosidade.
— Ela sabe karatê ou qualquer coisa desse tipo — Jake explica apoiando os braços no teto de seu carro, sua irmã bufa e sussurra algo que faz ele se mexer desconfortavelmente, mas depois ele completa com um quê de sarcasmo na voz — Tanto faz, karatê ou aikido, é tudo a mesma coisa!
Ótimo, o cara é bêbado e não sabe sobre artes marciais! Bom, o currículo de imbecilidade só continua aumentando. Reviro os olhos não suportando a ignorância dele.
— E aí — o garoto negro se aproxima um pouco e senta no capô do carro — ela bate ou esfrega o taco de baseball na sua cara, obvio que ninguém tenta se defender...
— Eu tentei! — Luce volta a se manifestar após limpar a boca e ser sua vez de se curvar sob o carro — Mas ela me bateu, me deixou com um roxo no ombro e ainda aquela cachorrinha estúpida comeu meu sapato!
— E foi por ser a menos esperta de nós que você tem ficha na polícia — Jake apontou e o outro garoto caiu na gargalhada — E, então, como o Jensen perguntou, foi marcado?
— Não — dou de ombros e tiro minha mão direita do bolso da jaqueta trazendo nela o lápis que Blair me entregou — qual é o seu nome mesmo?
A irmã de Jake demora um pouco a perceber que estou falando com ela, mas quando se dá conta e olha, de boca aberta, para o lápis que seguro, a garota engole com barulho e volta a me mirar.
— Meu nome é Sofia — responde virando os lábios em um sorriso torto.
— Então eu acho que o lápis é seu, certo?! — ofereço o lápis que ela pega deixando um sorriso ainda maior amostra no rosto.
— É, acho que sim — responde me encarando e concordando com a cabeça, parecendo me aprovar pelo ato.
— Vai ser assim, então — Jake enruga a testa e deixa um sorriso zombeteiro aparecer em sua boca. — Se tornou amiguinho da Estranha.
— Não sou o tipo de cara que bronca por causa de um beijo, Jake — dou de ombros e volto a pôr minha mão no bolso da jaqueta e caminho até ele, que continua confortavelmente encostado em seu carro — Só vai com calma, e vê se não assusta outra garota!
Seu sorriso some e seu maxilar se contraí com a evidente raiva dele. Passo por ele, continuando caminhando pela rua. Luce parece soltar alguns xingamentos sobre minha aparência ou coisa assim. O que realmente me surpreende é a vontade imensa que sinto de dar meia volta e acertar todas as contas pela Blair com Jake.
***
— Cheguei! — é como me anuncio assim que entro pela porta de trás da minha casa, que acaba diretamente na cozinha, onde minha mãe se encontra.
A mulher baixa, magra e de cabelo preto com seus brilhantes e raros fios brancos, vem me abraçar. Ela segura meu rosto e sorri, tanto com seus lábios quanto com seus olhos azuis alguns tons mais escuros que o meu.
— O que fez hoje no seu segundo dia aqui, hein?! — ela pergunta com um largo sorriso e um piscar de olhos, segue para o forno verificando sua temperatura com seu costumeiro pano de prato no ombro, ao passo que sigo para a ilha central da cozinha, me sentando em uma cadeira ali e jogo minha jaqueta ao meu lado em outra cadeira.
— Coisas — dou de ombro e enrugo os lábios.
— Isso não me convenceu! — ela volta a olhar para mim com seus olhos azuis bem afiados e prontos para questionar.
Minha mãe sempre foi boa em saber quando e onde não queríamos conversar, ela dava espaço quando precisávamos e apoio com necessitávamos. Foi assim durante todo o nosso período de luto pela morte de meu pai. Dona Sarah é o pilar de nossa casa. Mas no momento não me importo de contar realmente tudo que ocorreu, e ela sabe disso, por isso insiste.
— Bebeu? — ela se aproxima de mim por cima da ilha e dá uma fungada o que me faz rir ao abrir a boca. Ela mesma nega sua pergunta indo até a geladeira e pegando alguns vegetais. — Também não fumou e tomou uma chuveirada na casa de alguém, né?!
— Não — respondo. Dona Sarah é direta e sem perambular, o que me faz rir. Pego um de seus utensílios de cozinha espalhados pelo mármore que forma a ilha. O remexo entre os dedos para ter apenas algo para me distrair.
— Posso descartar as drogas, né, por favor — dessa vez ela me faz gargalhar com o desespero embutido em sua voz. Ela sorri com minha reação.
— Fique à vontade — incentivo e ela sorri.
— Descartado! Bom, você não foi pego pela polícia ou coisa parecida!
— Não, não fui — sei que ela não perguntou, mas não custava nada reafirmar e tranquilizá-la. Sei que tudo faz parte de uma brincadeira para rirmos, mas no fundo tudo tem certa verdade.
— Então não consigo mesmo imaginar mais nada, ah, espera! — ela se lembra de algo, me fazendo voltar meu olhar perdido para o que esta fazendo. Ela agora carrega uma faca em uma das mãos e a outra aponta para mim — Não fez nada de mal para nenhuma menina, não é?!
— Mais ou menos! — confirmo e ela aponta, dessa vez, a faca para mim.
— Me-enino! — ela arrasta a palavra e ergue uma sobrancelha.
— Vai com calma! — levanto as mãos em claro sinal de rendição, mas não seguro o riso que me escapa — Não vai precisar me tirar nenhum órgão importante, juro!
Termino contando toda a história. Informo de que na volta da nova escola onde irei estudar, a qual fui realizar uma visitação, que conheci Jake e de como me meti em uma grande furada. Era minha própria culpa em dar confiança para quem não merecia. Conto também de quando conheci Blair e quase ganhei umas boas mordida de sua cadela...que eu ainda não sabia o nome. Ainda. A palavra que uso me faz refletir, muito mais quando me deparo detalhando como Blair estava e minha mãe me lança um olhar risonho.
— Que dia você teve, não foi?! — ela me olha de canto de olho e eu concordo.
— Mas o nome dela me é familiar — estalo os dedos como se isso me ajudasse a lembrar de onde a conheço.
— Qual o sobrenome dela? —ela pergunta indo até o forno novamente e o abrindo, verificando um assado que fez meu estômago roncar e me lembrar de que fazia um tempo que eu não comia.
— Eu não disse, né? — coço a cabeça e ela assente de costas para mim — É Montello.
— Santo Deus! — Minha mãe grita, fechando a porta do forno com força. Me levanto em um pulo e chego até ela em poucos passos.
— Tá tudo bem? — pego suas mãos nas minhas — Se queimou?
— Não, seu doido! — ela exclamou, puxando o pano de prato do ombro e o levantando e abaixando em minha direção, me batendo com a ponta dele.
— Ei, calma, por que eu estou apanhando? — me defendo com os braços e fui dando curtos passos para trás e para longe dela, não adianta muito para que ela pare o ataque.
— O sobrenome Montello você conhece porque é o nome da família que é dona da fábrica em que comecei a trabalhar, seu...seu — ela trava a língua entre os dentes, parando de me bater e ficando com o rosto vermelho de raiva, ela nunca foi muito boa em xingar os próprios filhos.
— Oh! — exclamo e estalo os dedos duas vezes rápido — Então era daí que eu conhecia o nome!
— É! — Ela me bate novamente com o pano que causa um estalo em meu braço.
— Quanta raiva — esfrego o local com uma careta. Paro um pouco para analisar o momento — Não se preocupa, amanhã eu falo com a Blair, ela parece ser uma garota realmente bacana, não esquenta.
— Você acha mesmo? — ela solta um suspiro — Não acha que eles iriam me demitir na minha primeira semana só por que meu filho é um idiota, né?!
— É, obrigado pela parte que me toca — falo a fazendo rir. Envolvo seus ombros em um abraço — Relaxa, mãe, vai dar tudo certo! Eu não fiz nada de ruim, vai.
— Ainda estou pensando no seu caso! — ela diz emburrada, mas me abraçando e aconchegando a cabeça abaixo de meu queixo. — Vá chamar seu irmão para jantarmos! — completa após um tempo em meu abraço e acaricia com as mãos minhas costas — Você ainda vai me fazer enfartar, moleque.
Saio rindo da cozinha, mas assim que estou no corredor e alcanço a escada, solto um xingamento. Jura, donos da empresa que minha mãe trabalha?! Sério mundo pequeno, mesmo?! Subo cada degrau resmungando como uma criança que acaba não recebendo o presente do gordo que desce pela chaminé, merda!
Quando alcanço o corredor do andar de cima, a primeira porta aberta é a do quarto de casal. Chego até a porta e percebo que apenas o lado esquerdo está desarrumado, provavelmente o lado que minha mãe se acostumou a dormir pelos anos que foi casada com meu pai. Esse foi o motivo de nossa mudança, de New York a Mount Alba, de um extremo a outro. As lembranças em nosso antigo apartamento eram fortes demais e agora, as caixas amontoadas por todo o quarto com pertences dele são pesadas demais.
Me afasto da porta do quarto de minha mãe e sigo pelo corredor até o maior quarto e último, onde eu me acomodo perfeitamente junto de meu irmão. O encontro estendido em sua cama, no lado direito do quarto. Termino sorrindo e caminho até a cama.
— Nossa! — admiro o teto em seu limitado tamanho, reparando em uma tosca mancha que me lembra de um daqueles celulares antigos com antena e tudo mais. Volto a olhar para meu irmão que só se diferencia de mim na cor dos olhos. — Nunca imaginei que um teto seria tão sedutor para você ficar admirando, tipo, o dia inteiro!
— Você nem imagina — Dan responde e bufa —, estou tentando seduzir aquela macha ali, mas ela é muito durona.
— Claro — digo rindo e chuto sua cama com a ponta do pé. — Vamos, minha mãe vai por nossa janta.
— Ela também é minha mãe, sabia, idiota? — ele se levanta e agarra uma blusa qualquer largada em sua cama e a veste. Regra da casa, todos os homens tem que estar devidamente vestido para comer.
— Eu preciso te contar uma coisa, Dan — olho por cima do ombro e ele já me encara com seus olhos castanhos escuros. — Você é adotado!
Nesse momento eu não hesito em soltar uma gargalhada enquanto corro pelo corredor e escada abaixo, Dan me segue bem de perto provando que não parou em nenhum segundo seus treinos de basquete. Mas é engraçado o quanto a cor dos olhos de meu irmão podem virar uma grande provocação entre irmãos, já que ele dentro de nossa casa, sempre foi o único com os olhos castanhos, mas isso é herança de minha avó materna. O que, é claro, não me impede de provocá-lo.
— É melhor vocês sentarem e se aquietarem antes que eu desista de colocar a comida — Dona Sarah fala assim que alcançamos a cozinha e paramos no mesmo instante. Ninguém é realmente louco de arriscar uma noite sem comida.
Os pratos são postos a nossa frente e carregam uma montanha de comida. Não demora muito para que a conversa aconteça entre nós. Mesmo durante o luto não houve sequer uma vez que permanecêssemos quietos na presença um dos outros. Somos mãe e filhos, sentimos a mesma dor e não conseguimos ser egoístas o suficiente para deixarmos de querer que um compartilhe com o outro, que desabafe ou que apenas chore. É difícil a superação, mas não impossível.
Minha mãe conta toda a história para Dan, que apenas resmunga de não ter participado de nada, ganhando um tapa na nuca de minha mãe.
— Vocês acham que estão preparados para a nova escola? — temerosa, minha mãe pergunta. — Eu sei que tudo é novidade, principalmente essa coisa de o ano letivo não funcionar como o nosso.
Quando chegamos a Mount Alba dona Sarah se encantou com as diferentes escolas de diversas nacionalidades existentes aqui. Pelo que parece, um dos prefeitos da cidade foi casado com uma brasileira e pela vontade dela fez uma escola que acompanhava o ano letivo do país de origem dela.
— É um pouco complicado — Dan admite com um dar de ombros —, mas as apostilas que eles me arranjaram são ótimas e já me situei nas matérias, vai dar tudo certo!
— Er... — pigarreio terminando de mastigar um pedaço de carne —, era pra ler aquilo tudo?
Dan solta uma gargalhada enquanto minha mãe tampa o rosto com suas mãos. Não que eu não quisesse aprender as matérias, mas foram quase trinta apostilas que me entregaram, qual é, tudo aquilo?
Depois do jantar todos nós ajudamos na arrumação da cozinha e continuamos nossa conversa na sala de estar, onde assistimos alguns filmes até que minha mãe esteja cambaleando de sono. Eu e Dan a levamos para seu quarto onde ela nos dá boa noite.
— Já vai dormir? — Dan pergunta e eu me jogo em minha cama.
— Quem sabe — respondo em meio a um bocejo —, talvez eu tente seduzir a mancha maluca ali!
Ele ri e senta na cadeira giratória da escrivaninha entre nossas camas, provavelmente para jogar algum de seus vícios online.
Rio sobre isso e fecho os olhos, e a primeira coisa que me vem a mente é o sorriso de Blair. O modo como ela remexe os lábios e se posicionou me desafiando sem nem mesmo hesitar, termino rindo e achando que ela talvez não seja tão estranha assim.
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