Não Toque na Minha Maçã
1 Prólogo
Notas iniciais
Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis. Para que não morrais.
Gênesis, 3.3
E, sendo sincera, eu não queria morrer. Não mais do que as pessoas querem ficar gripadas ou pisar em excremento de cachorro.
Ao que parece, porém, negar a morte não era uma alternativa no momento.
Influenciados pela indústria cinematográfica, livros e experiências de quase-mortes genéricas, a maioria das pessoas pode pensar que nos momentos finais, o que passa pelos nossos olhos são flashes; um resumo simplificado dos momentos importantes de nossas vidas. Agora, eu podia claramente desmenti-los. A verdade era que, às vesperas da morte, eu só conseguia reunir uma série de pensamentos aleatórios.
Por exemplo, há dois tipos de pessoas: aquelas que vivem a vida tranquilamente como se tudo o mais não importasse e aquelas que pensam diariamente em como irão morrer; se irá doer, se será rápido ou se exigirá um tempo de convalescença.
Eu sempre pensei em como morreria – embora nos últimos meses, esses pensamentos tivessem ficado muito mais frequentes por motivos óbvios –, mas nunca imaginei que seria dessa forma. Um assalto, talvez? Parada cardíaca aos oitenta anos? Engasgada com uma toranja? Todas essas pareciam alternativas sadias e moralmente normais, mas não era o que estava acontecendo. Nem de longe.
Olhei fixamente, puxando o ar em grandes golfadas, sentindo a bile em minha garganta. Através do grande salão, encarei dentro dos olhos escuros do caçador e ele retribui o meu olhar, satisfeito, como se pensasse que eu era uma porção de rosbife ou algo tão saboroso quanto.
Sem dúvida, era uma péssima maneira de morrer. Eu já conseguia ver minha morte estampada nos jornais da cidade com os seguintes dizeres “filha de xerife é encontrada morta por suposto ataque de macho escroto que não sabe segurar seus próprios instintos assassinos". Talvez, substituíssem isso por uma morte causada por ataque de animal.
Em suma, era uma morte nada nobre, mas pelo menos, eu poderia me gabar disso no além – uau, você morreu comido por um tubarão? Fantástico. Fabuloso. Mas, eu morri dissecada por uma criatura mítica que brilha no sol.
Isso devia contar para alguma coisa. Isso certamente deveria me conceder um ingresso para a parte VIP do Paraíso, longe dos organizadores de ONG's e fanáticos religiosos.
Suspirei. Eu sabia que, se nunca tivesse ido a Forks, agora não estaria diante da morte e esse pensamento era o suficiente para me deixar apavorada. Se eu nunca tivesse me envolvido com vampiros, poderia ter morrido de parada cardíaca bem velhinha e ter feito sexo, sentido a euforia de visitar Vegas e tudo que eu nunca mais poderia fazer.
Por outro lado, eu não teria conhecido o amor em seu significado mais complexo e abrangente. É difícil decidir se me arrependo ou não.
Quando a vida lhe oferece apenas uma opção, é irracional se lamentar quando você acaba optando por ela e eu tinha escolhido o meu destino.
O caçador sorriu de um jeito simpático enquanto avançava para me matar e extinguir todas as minhas chances de transar antes de partir dessa para a melhor.
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