Notas iniciais
Olá meninas como vão? Obrigado pela paciencia de vcs por esperarem pelo novo capítulo, mas aqui está. Obrigada pelos recados deixados por vcs e saibam que eles são muito importante para mim. Espero que gostem deste capítulo e até semana que vem, bjs

[RECAPITULANDO]

Charles dobrou o guardanapo e levantou-se de repente.

— Se me dão licença, tenho negócios a administrar.

— E a sobremesa? — a mãe perguntou.

Mas ele já havia saído.

Jane gostaria de poder deixar a sala como Charles fizera, mas metera-se naquela situação com os olhos abertos, e agora teria de ir até o fim sem acovardar-se. Observou a expressão determinada de Leda e resignou-se. O mínimo que podia fazer era amparar e ajudar aquela pobre mulher em um mo­mento tão doloroso. Devia isso a ela. E mais...

Afinal, quanto tempo poderia durar um serviço religioso?

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A julgar pelos preparativos, o serviço religioso seria interminável. Na ma­nhã seguinte Mary chegou ao quarto de Jane bem cedo. Juntas elas escolheram as palavras ade­quadas para os convites, e a sra. Bingley mandou Gruver levar o texto ao impressor.

No dia seguinte Virgínia Weaver, uma costu­reira rechonchuda, chegou para tomar as medidas de Jane para os vestidos e outras peças de roupa. A partir de alguns catálogos, ela e Mary escolhe­ram uma armação de metal para as saias e seis espartilhos. Jane assistia a tudo com inquietação crescente.

— Vou precisar fazer pelo menos uma dúzia de saiotes — Virgínia comentou. As mulheres esta­vam reunidas no enorme quarto de vestir que fa­zia parte da suíte de hóspedes.

Saber que o dinheiro dos Bingley comprariam roupas que ela ia vestir a deixava muito nervosa.

— Normalmente não sou tão gorda — disse, es­perando convencê-las de que tantas peças seriam um desperdício depois que recuperasse a silhueta.

— É claro que não, querida. Mas vai levar mais alguns meses para perder todo o peso que ganhou na gravidez, e então os figurinos já serão outros.

Incomodada com os planos, Jane olhou para Mary em busca de auxílio, mas não conseguiu apoio.

— Virgínia está certa. Sabe de uma coisa? — per­guntou à costureira. — Acho que Anne vai precisar de um desses coletes. E vou querer um para mim também. E alguns vestidos para combinar.

— É a última moda — Virgínia aprovou. Jane pensou em todas as roupas que haviam ficado no trem, dentro do baú, e imaginou o que teria acontecido com elas.

Tudo que tinha era o bracelete que costurara no forro da bolsa, e que por algum milagre fora enviada ao hospital com ela. Esperava que a venda garantisse dinheiro suficiente para recomeçar a vida quando deixasse aquela casa.

Virgínia abriu uma valise de amostras de teci­dos. Os novos vestidos seriam pretos, é claro. Mus­selina e algodão para o dia; cetim, tafetá e seda para a noite e os eventos sociais mais requintados.

— Como consegue andar com isso nos pés? — Virgínia perguntou, ajoelhando-se diante de Jane e notando os sapatos de Anne. Ela encaixou um dedo entre o calcanhar e o couro macio. — Não servem em você!

— Bem, eu... ainda não preciso andar — gaguejou.

— Seus sapatos estão grandes? — Mary per­guntou, olhando para os pés dela comcuriosidade.

— Meus pés incharam muito antes do nasci­mento de Helena — tentou explicar, o rosto ver­melho por causa do constrangimento.

— Pobrezinha! — Os olhos da sra. Bingley se encheram de lágrimas. — E então nosso querido Fitzwilliam comprou sapatos novos para você.

— Exatamente. — A palavra foi pouco mais que um sussurro. A sugestão parecia combinar com o com­portamento de Fitzwilliam em relação à mulher que ele havia adorado. Não era algo difícil de acreditar.

— O vestido para o serviço religioso deve ser extraordinário — Leda instruiu com firmeza. — Fitzwilliam teria exigido que fosse assim. Elegante e moderno, apesar do luto.

— É claro. Tenho alguns metros de renda negra da França que guardei para uma confecção especial.

— Mas ninguém verá todo esse luxo. Estarei sentada na cadeira de rodas — Jane argumen­tou, tentando fazê-las ouvir a voz da razão.

— Não importa — Mary respondeu. — Você é uma Bingley. Temos uma posição nesta comuni­dade. Meça os pés dela, Virgínia. Vamos precisar de sapatos novos.

O choro de Helena alertou-as para a hora da refeição. A sra. Gardiner apareceu na porta com o bebê nos braços.

Feliz com a oportunidade de escapar da emba­raçosa reunião, e ansiosa para passar algum tem­po em companhia da filha, Jane abriu os braços para o menino.

— Pode nos empurrar para o quarto, por favor?

A sra. Gardiner atendeu ao pedido.

— Vou aproveitar para lavar as roupas de Helena e almoçar, se não se importa.

— Faça isso.

Sentada ao lado da janela protegida por cortinas de renda, Jane amamentou a filha enquanto entoava uma canção de ninar. Em breve seria capaz de fazer mais por ela, e então se sentiria mais próxima de uma mãe de verdade. Mary e a sra. Gardiner a mimavam, e apesar de re­conhecer a generosidade de ambas, recentemente começara a sentir-se aborrecida com a atenção constante e a preocupação exagerada.

A cada dia contraía mais dívidas com os Bingley, tanto financeiras quanto emocionais. Mas não havia como retroceder, desfazer os laços que a uniam àque­la casa e às pessoas que nela moravam.

Passou o dedo pelos cabelos finos do bebê e sentiu o aroma de leite e algodão seco ao sol. Onde esta­riam, não fosse a bondade de Fitzwilliam e a confiança de Mary? Não fosse a tolerância de Charles?

As possibilidades eram piores do que podia considerar.

Teria de honrar seus benfeitores e o nome dos Bingley. Faria uma aparição adequada diante de seus amigos e associados. Mary e Charles eram os únicos que teriam de saber a verdade. Mais tarde, os pouparia da humilhação da descoberta pública deixando que todos pensassem que Anne voltara a viver com sua família.

Mas, por enquanto, não tinha outra opção que não fosse continuar representando a farsa até a inevitável conclusão.

Charles sentou-se ao lado da mãe no banco da igreja. No corredor, à sua direita, a cunhada per­manecia em sua cadeira de rodas. Manteve os olhos fixos nos vitrais coloridos que formavam um arco sobre a cabeça do clérigo. As palavras doces do ministro flutuavam no ar junto com o cheiro das velas e a água de colônia de violeta usada por Mary. Charles segurou a mão trêmula entre as dele e apertou-a, ignorando o lenço ensopado entre os dedos finos.

Não conseguia superar a revolta causada pela inutilidade da morte do irmão. Por que aquele trem? Por que naquela noite? Se ao menos Fitzwilliam houvesse permanecido na universidade. Se houvesse sido mais sensato. Se tivesse escutado os conselhos de Charles e concluído os estudos, para depois ingressar na fundição da família.

Não fosse por Anne, podiam ter desfrutado da presença de Fitzwilliam durante os meses anteriores. Gostaria que ele não houvesse ligado a família àquela jovem de passado questionável, e ressen­tia-se por ter de partilhar com ela um momento tão íntimo de dor e saudade.

Os olhos encontraram a perna imobilizada sobre o apoio da cadeira de rodas, escondida sob cama­das e mais camadas de tecido negro, e subiram até as mãos apertadas sobre seu colo. Se a mãe não se houvesse mostrado tão determinada em levá-la a Mahoning Valley, Charles a teria dis­pensado com uma boa quantia em dinheiro de volta ao cortiço em Londres onde era seu lugar.

Ela havia passado as últimas semanas com Fitzwilliam. Os últimos momentos.

De repente se deu conta de que nunca mais veria o irmão. Fitzwilliam sempre dera trabalho, mesmo quando ainda era um garoto, e Charles, mais velho e responsável pelos negócios, pela mãe e o irmão, fizera o possível para criá-lo como acredi­tava que o pai teria feito.

Fitzwilliam jamais aceitara sua preocupação, con­siderando-a inconveniente. E fizera de tudo para aborrecer Charles. Anne havia sido mais uma daquelas atitudes de rebeldia contra o que era esperado dele. O casamento teria fracassado em pouco tempo, porque não passado de uma farsa.

E agora Charles se via na obrigação de lidar com aquela mulher.

— Charles? — Mary sussurrou. — É sua vez de falar.

Ele se levantou e foi até o púlpito que o ministro acabara de deixar. A primeira pessoa para quem olhou foi justamente aquela que menos queria ver, mas não podia conter-se.

Anne estava sentada com a cabeça baixa e as mãos unidas sobre o colo, tendo o rosto escondido pela aba dochapéu. Ela levantou a cabeça. O véu negro o impedia de ver os olhos, mas deixava vi­síveis o queixo delicado e a boca carnuda. Os lábios pareciam inchados e mais vermelhos que o nor­mal, como se ela houvesse chorado recentemente. Convincente... para todos os outros. Charles lem­brou que ela costurava para atrizes. Devia ter aprendido um pouco da arte da representação.

Agarrando-se a todos os anos de responsabili­dades e seriedade, Charles começou a falar com voz calma, lembrando a infância e a juventude de Fitzwilliam até chegar à vida adulta. Disse todas as coisas que a mãe gostaria e precisava ouvir. Tudo que a família e os amigos esperavam dele. Tudo em que evitara pensar até aquele momento. E depois retomou seu lugar.

Um grito silencioso rasgava sua alma.

Fitzwilliam. Fitzwilliam! O irmão de espírito livre que sempre amara a vida e a alegria. Quando ainda tinha tanto a aprender e descobrir, sua vida che­gara ao fim... deixando tantas coisas inacabadas entre eles. A dor e o vazio que cresciam em seu peito pareciam intermináveis, incuráveis.

O ministro anunciou o momento de todos se­guirem para o cemitério. Temendo que a mãe su­cumbisse sob o peso do sofrimento, Charles am­parou-a. Fitzwilliam Darcy surgiu a seu lado e ele apontou para a cadeira de Anne.

Não importava quem empurrava sua cadeira. Os pensamentos de Anne giravam em torno do que estava acontecendo e do que havia feito. Al­guém ajudou-a a entrar na carruagem, onde ela se sentou com o pé apoiado em um banco e olhou pela janela, grata pelo véu que cobria parte do rosto e conferia alguma privacidade.

O túmulo. Teria de ver o túmulo de Fitzwilliam. E aceitar a ideia de que ele poderia estar vivo, se hou­vesse viajado em sua cabine na noite do acidente.

Pouco depois a carruagem parou e todos desce­ram. Podia ver o toldo negro poucos metros a fren­te. O coração disparou e o pânico explodiu em seu peito. Em algum lugar, um pássaro entoou seu doce canto matinal.

A chuva da noite anterior deixara a grama mais verde e brilhante. Coroas de flores e buquês variados não podiam esconder a terra revolvida recentemente que cobria o corpo de Fitzwilliam Bingley.