Notas iniciais
Olá meninas, aqui estou eu de novo, com mais um capítulo para vcs, como vcs já sabem, estes são os últimos capítulos desta fic, e matutando esta semana, resolvi providenciar outra fic, sobre orgulho e preconceito, que assim que terminar esta fic, vou começar a postar a outra, e espero que gostem. Gostaria de dar as boas vindas a ClaraRenalice, por acompanhar a fic e deixar comentários assim como todas as outras meninas que o fizeram, meu muito obrigada. Peço ainda que os fantasmas deixem um recado, já que não vai cair o dedo de ninguém né? Bem espero que gostem do capítulo, att.

[RECAPITULANDO]

A jovem virou-se para partir e o bebê tornou-se completamente visível. A cabeça loura e os olhos azuis lembravam alguém... Jane. Helena! A criança era um pouco maior do que se lembrava, mas não a via há semanas.

Sim, tinha certeza de que eram os mesmos olhos azuis. O mesmo queixo. Os mesmos cabelos, em­bora um pouco mais longos.

Charles respirou fundo. O que sabia sobre bebês? Todos haviam sido idênticos até conhecer Helena. Não pensara em outra coisa nas últi­mas semanas, teria começado a ver aquilo que desejava?

A criada chegou ao corredor.

— Senhorita — disse, detendo-a com a palavra.

— Sim, senhor?

— Seu bebê... ela tem lindos olhos azuis.

— Sim, ela tem lindos olhos... mas não é meu.

O coração de Charles parou de bater.

— Não?

— Não. A menina é filha de outra empregada do hotel.

— É uma linda criança. Qual é o nome dela?

— Helena.

***

O coração de Charles disparou no peito. Não sabia se ria ou se chorava.

Finalmente a encontrara! Mas agora tinha que ser rápido, ou iria perder aquela oportunidade para sempre.

Sem perda de tempo, se lavou e trocou-se o mais rápido que pode, desceu até a recepção e pediu para falar em particular com a sra. Hollister.

O recepcionista o encaminhou até a sala da governanta do hotel e o deixou sozinho enquanto foi busca-la.

Charles não conseguiu permanecer sentado e andava de um lado para o outro com o coração batendo forte.

Quando uma senhora com ar severo entrou na sala, ele imediatamente a cumprimentou.

— Sr. Bingley, me informaram que gostaria de falar comigo.

— Isso mesmo, sra. Hollister. O assunto que tenho que tratar com a senhora é de extrema importância para mim.

— Por favor, sente-se, gostaria de beber alguma coisa?

— Não, muito obrigada.

— Então do que se trata?

Ele respirou fundo e decidiu que só diria o necessário, para que a reputação de Jane não fosse abalada.

— Bem, eu estou à procura da minha irmã de criação — mentiu, pois e dissesse que era a sua cunhada seria ainda pior. — Ela ficou recentemente viúva, e teve um desentendimento com a minha mãe, preferindo sair de casa. Então eu estou à procura dela, e eu acho que ela esta aqui trabalhando neste hotel.

A sra. Hollister levantou a sobrancelha, curiosa.

— E como ela se chama?

— Jane Bennet.

— Sim, ela se encontra aqui e poço dizer que ela trabalha muito bem.

— É verdade, o que eu gostaria de pedir a senhora é que pudesse dispensá-la, pois ela não voltará a trabalhar mais aqui, gostaria de voltar para casa com ela, já que minha mãe está morrendo de saudades das duas.

A sra. Hollister ponderou por um momento antes de voltar a falar.

— O senhor gostaria que eu mandasse chama-la agora?

— Não será necessário, gostaria que ela fosse até o meu quarto mais tarde, e que a senhora não dissesse nada a ela, pois Jane ainda não sabe que eu estou aqui. Assim poderei conversar com ela com mais tranquilidade.

— Tudo bem, providenciarei para que isso aconteça.

— Muito obrigado, tenha uma bom dia.

Charles saiu do escritório contando as horas para que pudessem se reencontrar.

***

Na hora do almoço, Jane reuniu-se às colegas na entrada dos fundos, onde costumavam sentar-se para comer. Tinha trinta minutos para des­cansar, alimentar-se e amamentar a filha.

— Eu o vi novamente — Elizabeth contou.

— O hóspede do quarto quatorze? — Sara adivinhou.

— Ele mesmo. Helena me ajudou muito.

— Como?

— Parece que ele gosta de crianças.

Sara havia levado recipientes com água fresca para o lado de fora da cozinha, e Jane bebeu tanto quanto pôde suportar.

Elizabeth brincou com Helena, e quando o in­tervalo chegou ao fim, foi ela quem ajudou Jane a acomodar a criança nas costas.

A tarde foi muito quente, e antes do jantar todos os hóspedes pediram água para banho. Jane ajei­tou o bebê. Ela cochilava, e por isso parecia pesar muito mais.

Não conseguira encontrar Elizabeth depois de receber as instruções para levar água ao quarto quatorze. Sabia que ela ficaria furiosa se não a encarregasse da tarefa, mas não podia deixar um hóspede esperando. Levando os baldes cheios, subiu a escada e bateu na porta do quar­to indicado.

— Entre — ordenou uma voz abafada.

— Sua água, senhor. — Levou os baldes para dentro do quarto e despejou-a em uma banheira de cobre protegida por um biombo. Depois vol­tou ao corredor, onde havia um armário, e re­tornou com toalhas limpas. Tentando manter Helena equilibrada, abaixou-se para pegar os baldes vazios.

— Ela está ficando com cabelos encaracolados. Como os seus.

A voz profunda provocou um tremor que a percorreu dos pés à cabeça. Jane levantou-se e o viu.

Os baldes escorregaram de seus dedos.

Charles!

O coração disparou e o ar ficou preso nos pul­mões. Tentou escapar, mas ele era mais rápido e mais forte.

A mão em seu braço era como uma garra de ferro.

Os olhos encontraram-se, mas ela abaixou a ca­beça sob o peso da vergonha.

— Jane, por favor. Não sei como expressar tudo que tenho para lhe dizer. — A voz era gentil para alguém que havia sido traído.

— Odeia-me por ter mentido. E tem toda a ra­zão. Não precisa segurar-me. Não vou fugir — prometeu, recuperando a compostura.

Ele a soltou.

— Como conseguiu encontrar-me?

— Um detetive da Pinkerton seguiu suas pis­tas até aqui. Vim assim que ele mencionou Fort Wayne. E então, esta manhã, vi Helena e tive certeza de que estava no lugar certo. Vamos nos sentar.

Hesitante, ela o seguiu ao outro aposento da suíte. A ideia de descansar por alguns minutos era tentadora, mas não podia dar-se ao luxo de usufruir desses minutos.

— Tenho de voltar à lavanderia.

— Não.

— Não... o quê? O que quer dizer?

— Falei com a sra. Hollister. Pedi a ela que a mandasse até aqui e avisei que você não voltaria ao trabalho. Nunca mais.

O pânico dominou-a. Zelara tanto por aquela posição! Não cometera um único engano que pu­desse pôr em risco o emprego, e agora... Em poucos minutos, Charles arruinara sua vida.

— Por que fez isso? Não vou conseguir outro emprego onde possa levar Helena comigo.

— Jane, essa vida não serve para Helena. Nem para você.

— Mas é a vida que temos, e ninguém tem o direito de destruí-la. Nem você.

— Eu tenho todos os direitos.

Podia fazer o que quisesse para tornar sua vida miserável. Derrotada, sentou-se na ca­deira mais próxima tentando imaginar o que faria.

— Sim, você tem — respondeu, cansada de tanta vulnerabilidade.

— Deite-a na cama e descanse as costas. — Delicado, ajudou-a a remover a tipoia e acomo­dou Helena sobre a colcha estampada. Depois afagou os cabelos finos e molhados de suor. — Ela cresceu.

Charles tinha uma afeição verdadeira por sua filha. E vê-los juntos provocou uma nova onda de pânico.

— O que veio fazer aqui? Não vou deixar nin­guém tirá-la de mim. Já sabe que ela não é filha de Fitzwilliam. Não tem direito algum sobre Helena e...

— Jane, pare com isso! Não vim para separá-la de sua filha.

Ela respirou fundo e tentou acalmar-se.

— Prometa.

— Eu prometo. Pensei que gostaria de saber que Anne foi sepultada ao lado de Fitzwilliam.

— Você encontrou o corpo? — O alívio inundou seu coração.

— O detetive que você contratou localizou-a. Ela havia sido identificada como Jane Bennet.

Havia pensado nessa possibilidade. Alguém de­via ter entrado em contato com seu pai.

— O que aconteceu?

— Seu pai havia enterrado o corpo ao lado do de sua mãe.

Ela assentiu, lutando contra as lágrimas.

— Pensou que eu estivesse morta.

Charles fez um movimento afirmativo com a cabeça.

— E agora?

— Morris Bennet permitiu que eu transferis­se o corpo.

— Escreveu para ele?

— Fui procurá-lo pessoalmente.

Jane fechou os olhos. Charles conhecera seu pai. Agora sabia como fora pouco importante jus­tamente para o homem que mais deveria tê-la amado.

— Tenho certeza de que o encontro foi bastante esclarecedor.

— Mais do que pode imaginar. Compreendi algo importante enquanto estive com ele.

— O quê?

— Vi o homem em que me estava transformando.

— O que quer dizer?

— Seu pai. Estava ficando exatamente como ele. Tenho rezado muito para que não seja tarde demais para tentar mudar.

A comparação era ridícula.

— Você não é como meu pai. Ele é duro, egoísta e amargo.

— E eu não?

— Não, você não é assim.

— Só me importava com a Fundição Bingley. Ela ocupou todos os espaços de minha vida, até que eu não tivesse mais nada, mais ninguém.

— Você tinha responsabilidades com seu pai. E com sua mãe. E encarou-as com seriedade.

— Tem razão. Levei minhas obrigações tão a sério que não fui capaz de enxergar o que estava fazendo com Fitzwilliam. Queria que ele fosse como eu. E acabei por afastá-lo de nós.

— Você era jovem, Charles. Jovem demais para ocupar a posição de um pai. Fez o que pensou ser melhor para todos.

— Mas não foi o melhor. Se houvesse agido de maneira diferente...

— Todos nós acabamos percebendo em um outro momento da vida que estávamos enganados a res­peito de alguma coisa. Mesmo que seu comporta­mento fosse outro. Fitzwilliam teria seguido um ca­minho próprio, buscando objetivos que ele mesmo teria escolhido. Ele era Fitzwilliam. E você não é responsável pelo destino de outra pessoa, mesmo que seja seu irmão. Mesmo que esse destino tenha sido a morte. Do que se culpa?

— De ter acusado Fitzwilliam, de ter me revoltado quando ele se recusou a me ajudar, a dividir a carga que a fundição representava. Assumi todas as obrigações sozinho durante anos seguidos, só para que ele pudesse concluir os estudos, e espe­rava um mínimo de reconhecimento. Esperava que ele agradecesse e retribuísse o sacrifício. Quando minhas expectativas foram frustradas, fi­quei furioso com ele. E a raiva só cresceu com o passar do tempo.

— Perdoe-o. É só isso que tem de fazer.

— Perdoar... — Charles repetiu. — Eu já o perdoei.

Em todos os meses que passara em sua casa, jamais o vira tão vulnerável. Ele nunca havia per­mitido. E amava-o ainda mais por ter se mostrado sem reservas.

— Agora se perdoe por ser humano — disse. — Charles, você não é como meu pai. Estamos aqui há vários minutos e ainda não mencionou minhas falhas de caráter. Não me acusou por tudo que fiz.

— Isso não tem importância. Não agora.

— Como pode dizer tal coisa? Não está zangado comigo? Desapontado?

— Não. Tive tempo para pensar em tudo o que aconteceu, lembrar cada detalhe, e compreendi porque não conseguiu dizer a verdade.

— Eu queria dizer. Planejava contar tudo desde o início, mas... não pude. E quanto mais esperava, mais difícil ficava.

— Lembro-me do dia em que a vi na carruagem e quis tocar seus cabelos. Mas você era Anne, a esposa de meu irmão, e o desejo me fazia sentir culpado. Naquele dia você usava um brinco de pérolas. Onde estão?

— Eu... vendi.

Uma sombra de tristeza escureceu seus olhos antes que ele se levantasse e fosse até o quarto de vestir, de onde retornou segundos depois.

O objeto que depositou na mão dela era frio e pesado. Jane abriu os dedos e viu o bracelete de esmeraldas que fora da mãe.

— Por que fez isso? — perguntou com um fio de voz.

— Sabia que era importante para você.

— Mas... não posso pagar pela joia.

— A única coisa que quero é a verdade. Sobre sua partida? Por que naquele dia? Por que da­quele jeito?

— Catherine...

A ira iluminou os olhos dele.

— Ela queria dinheiro ou o bracelete em troca de seu silêncio.

— Por isso partiu?

— Não. Parti porque aquele não era meu lugar. Não devia ter ido para Mahoning Valley. Prometo que devolverei cada centavo gasto com comida e roupas, inclusive com as de Helena.

— Não ouviu o que eu disse?

— Não quero nada.

— Mas eu devo...

— Jane, estamos recomeçando do zero. Você não me deve nada.

— Mas o bracelete...

— É um presente. Quero que fique com ele e esqueça essa história de dívida. Foi você quem me ensinou o valor do perdão, lembra? — Apro­ximou-se, segurando suas mãos e levando-as aos lábios. — Volte, Jane. Por favor, volte para casa comigo.

O tom da pergunta a levou a pensar que ainda podia haver uma esperança. Se fosse uma sonha­dora, encontraria todos os significados naquelas palavras. Mas era realista, e dezenas de questões invadiam sua mente. Talvez Charles sentisse pena dela. Talvez fosse apenas um desejo físico. Talvez quisesse puni-la da pior maneira possível.

— Você falou em recomeço — disse. — Em voltar para casa. — Levantou-se e colocou uma distância prudente entre eles. E então fez as perguntas cu­jas respostas talvez não quisesse ouvir. — Por quê? Por que eu voltaria? E por que está me pedindo para voltar?