Não Sou Quem Você Imagina!
3 Capítulo 2
Notas iniciais

Recapitulando:
Quando o tal Bingley aparecesse, explicaria a ele o que acontecera. Certamente seria mais fácil argumentar com alguém de fora a convencer o médico e as enfermeiras.
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Jane teve uma noite agitada, acordando com freqüência, sonhando com metal retorcido, corredores escuros e frios e bebês famintos. Finalmente, a manhã chegou e duas enfermeiras apareceram para ajudá-la. Uma lavou seus cabelos e banhou-a enquanto a outra abria uma valise preta e desconhecida.
— Tentamos encontrar algo apropriado para a viagem, sra. Bingley — ela comentou hesitante. — Seus baús já foram enviados no trem de carga, e o sr. Bingley nos incumbiu de comprar novas roupas. — Não podiam estar falando de sua bagagem, pois possuíra apenas um baú. Evidentemente, o nome Bingley carregava muita importância, e estava sendo tratada como se fosse um deles.
Olhou para a saia de lã preta, a blusa de linho e a jaqueta de veludo com delicados e discretos bordados, todos adquiridos com o dinheiro do sr. Bingley.
A enfermeira a estudava com ar inseguro.
— Não gostou do traje? Foi comprado pronto, e a loja não oferecia muitas opções.
— Oh, é lindo, mas...
— O que foi, meu bem?
Não podia deixar o hospital usando a camisola de algodão em que estivera vestida. Teria de aceitar a roupa para a viagem e encontrar uma forma de reembolsar as despesas feitas pelo sr. Bingley.
— Não é nada. Obrigada.
As enfermeiras ajudaram-na a vestir-se, depois a acomodaram numa cadeira de madeira com rodas e foram buscar a bebê. Ela também fora vestida, e chegou acompanhado por uma enorme valise. Jane olhou para os cobertores e roupas com um sentimento crescente de desconforto.
— De onde veio tudo isso?
— O sr. Bingley mandou essas coisas para a bebê, senhora. — A enfermeira abriu uma caixa de formato circular e exibiu o chapéu confeccionado no mesmo veludo da saia e da jaqueta. Um lado da aba era dobrado para cima, adornado com uma fita de seda e penas de avestruz.
— Gostou?
Jane olhou para o artefato e a apreensão oprimiu seu estômago. Onde estava o homem? Fizera toda aquela despesa sem nunca tê-la visto, sem dar a ela uma chance de explicar!
— Não gostou? — A voz da mulher traía um profundo desapontamento.
— Nunca usei nada tão... maduro. — Na opinião das enfermeiras, era uma mulher casada, mãe de uma filha recém-nascida. Não devia ter dito nada.
— Está de luto — uma delas lembrou.
— É claro. — Aceitou o chapéu e virou-se para o espelho que a mulher segurava. Contaria com a misericórdia do desconhecido que a ajudara sem conhecê-la.
Jane sentiu a atmosfera do quarto mudar. Devagar, virou-se e viu um homem alto e vestido com elegância parado perto da porta. Olhos verdes escuros, cheios de questões e incerteza, examinaram a saia e a jaqueta, os cabelos claros sob o chapéu que ela segurava com uma das mãos, e só então a encararam. Jane reconheceu a dor imediatamente. O sofrimento acentuara as linhas em torno da boca firme e pintara sombras escuras sob os olhos opacos.
— Sou Charles, irmão de Fitzwilliam. — A voz era baixa e vibrante, um som profundo que uma mulher podia reconhecer com a alma, além dos ouvidos. Era ruivo e belo, como Fitzwilliam, com o mesmo queixo e o mesmo desenho de testa, mas as semelhanças terminaram aí. O rosto de Fitzwilliam fora aberto e cândido, com um toque de humor iluminando os olhos claros, mas o desse homem era fechado e hostil, sem nenhum sinal de humor.
Por outro lado, ele estivera lidando com tarefas dolorosas. Sem dúvida tivera de reconhecer o corpo do irmão. Teria realizado o enterro? Enviado o corpo para casa? Fitzwilliam, um homem generoso e alegre, fora arrancado da vida ainda jovem. A tristeza penetrou no coração de Jane.
E Anne. A jovem adorável não merecia tão cruel destino. Não quando tinha diante dela toda uma vida de felicidade ao lado do marido e do bebê. Jane piscou para conter as lágrimas.
E quanto ao corpo de Anne? Se acreditavam que fosse ela, o que acontecera com a verdadeira Anne? O medo oprimiu seu estômago. A culpa a inundou como uma torrente violenta. Fora poupada enquanto a família dele morrera! Não era capaz de expressar um único pensamento coerente. As palavras que necessitava dizer não ultrapassavam a barreira formada em sua garganta pela emoção.
Os olhos do recém-chegado encontraram o bebê sobre a cama, e ele se moveu para chegar mais perto. Um instinto protetor brotou no peito de Jane, perdendo intensidade quando ele se virou novamente.
— Mamãe me pediu para dizer que está ansiosa por sua chegada e a da bebê. Ela quer que saiba que terá em nossa casa um lar enquanto quiser ficar conosco.
Precisava dizer alguma coisa, mas não conseguia raciocinar.
— Cuidei da dívida e comprei essa cadeira para você.
— Dívida?
— A conta do hospital e os honorários médicos. Está pronta?
Ele já pagara a conta? É claro. O homem era eficiente, além de decidido. Devia ter cuidado do assunto antes da chegada do desconhecido.
— Quanto... gastou?
— Não se preocupe com isso. Como disse, já cuidei de tudo.
O pânico ameaçou dominá-la e ela respirou fundo, contendo o ódio provocado pela lembrança do pai desalmado. Se pudesse entrar em contato com ele, enviar um telegrama, talvez, teria alguém com quem contar. Mas estava sozinha. Sozinha como jamais estivera antes.
— E então? — Charles perguntou impaciente. — Está pronta? O motorista nos espera lá fora. A viagem levará alguns dias, e tenho negócios esperando por mim.
Não havia como argumentar com aquele homem. A certeza a atingiu como um golpe físico.
Ele jamais entenderia. O que aconteceria com sua filha se Charles Bingley exigisse o pagamento imediato de todas as dívidas, ou se ameaçasse mandá-la para a prisão por falsa identidade?
— Sim, estou pronta. — Olhou para o espelho e usou um grampo para fixar o chapéu na cabeça. Teria de acompanhá-lo e correr todos os riscos até conhecer a mãe dele. Uma mulher era sempre mais compreensiva e generosa. Ela entenderia e aceitaria o pagamento das dívidas quando pudesse dispor do dinheiro.
A enfermeira empurrou a cadeira para mais perto de Charles.
— Resgatei sua bagagem e embarquei os baús em um trem de carga. Não quis fazer a verificação de objetos pessoais sem sua permissão, e por isso pedi às enfermeiras para que comprassem roupas e outras necessidades básicas em quantidade suficiente para a viagem.
— Obrigada — respondeu simplesmente. Como ele pretendia viajar e, ainda mais importante, para onde iam? Encarou-o com as perguntas estampadas nos olhos.
Como se compreendesse sua ansiedade, ele explicou:
— Trouxe minha carruagem e um condutor. Deduzi que preferiria assim.
Felizmente ele não optara por um trem!
A enfermeira pôs o bebê em seus braços e contornou a cadeira para empurrá-la. Charles Bingley apanhou as malas de Jane e de sua filha e seguiu o pequeno grupo. Atravessaram um corredor em direção à porta que a levaria ao exterior e a uma jornada incerta.
Com o coração batendo depressa, Jane apertou a bebê contra o peito. O que quer que o futuro reservasse, não era seu bem-estar que importava. A filha era sua maior preocupação. E faria o que estivesse ao seu alcance para cuidar dela. Ao contrário do pai, pretendia assumir a responsabilidade com seriedade e amá-la sem impor condições.
Mesmo que para isso tivesse de fingir e acompanhar um desconhecido sem sequer saber para onde ia. A sra. Bingley certamente a entenderia. Tinha de acreditar nisso! Fitzwilliam se mostrara generoso e amigo, simpático e caridoso.
Jane rezou para que ele houvesse saído à mãe.
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