Não Predestinado

1 Long, Long Way From Home



Jacob correu.

Porque era nisto que ele era bom: fugir.

Quando toda a confusão com os Cullen terminou, o nascimento de Renesmee, a partida dos Volturi, quando tudo isto terminou, Jacob correu.

Correu do imprinting que, no meio da adrenalina do momento, diante de tudo o que acontecia, diante das novidades e das reviravoltas da vida, pareceu uma benção. E então, tudo acabou, tudo acalmou, o drama finalmente chegou ao fim e tudo estava em paz e Jacob percebeu que ele não queria aquele imprinting. Que a opinião dele sobre o assunto não havia mudado.

E, quando ele teve essa epifania, ele correu.

Assumiu a sua forma de lobo e ganhou a floresta, disparando como um borrão entre as árvores, sem rumo, sem destino, ignorando o chamado de seus irmãos, de sua alcateia, ignorando o latejar em seu cerne que era o imprinting, o chamando de volta para Renesmee.

Correu por dias, talvez semanas, correu até as suas patas ficarem dormentes, o seu fôlego ficar escasso, até os músculos gritarem sob a pele e as juntas travarem de exaustão, até a fome virar um buraco cavado no meio do peito e a exaustão finalmente vencer, fazê-lo tropeçar e cair, e então o seu cérebro desligou e ele desmaiou.

Quando Jacob abriu os olhos de novo, estava nu, em sua forma humana, no meio da mata, e era noite. Tudo doía. Doía respirar, doía piscar, doía o simples peso do próprio corpo contra a terra fria. A sua mente ainda nublada, arrastando-se em câmera lenta, lembrava que, quando desmaiou, ainda era claro. Quanto tempo se passou? Poucas horas? Vários dias? Não sabia dizer ao certo, e o não saber o assustava quase tanto quanto o cansaço que lhe pesava sobre os ombros como uma segunda pele.

Cambaleante, tateando mais do que vendo, ele pôs-se de pé com as pernas bambas e desamarrou a muda de roupas que os lobos Quileutes sempre carregavam nos tornozelos. Os dedos, dormentes e desajeitados, mal conseguiam obedecer. Vestiu-se mecanicamente com a bermuda jeans surrada e a camiseta amarrotada e tentou localizar-se, mas os pensamentos escorregavam como areia entre os dedos antes que ele conseguisse segurá-los. O seu estômago roncava, e ele poderia resolver isto com uma caçada simples no meio daquela mata, arrumar algum animal de pequeno porte para comer, mas estava cansado demais, exausto até os ossos, e sem disposição alguma de ceder ao seu lado mais selvagem, sem trocadilhos.

Ainda aos tropeços, incapaz de confiar totalmente nas próprias pernas, e seguindo o seu olfato — porque este era a única coisa em que ainda conseguia confiar — Jacob optou rumar para o sudoeste. Ao longe ele captou o aroma de gasolina e borracha e à medida em que foi se aproximando, conseguiu ouvir o som de motores ronronando.

Uma estrada.

Quando a encontrou, pôs-se a andar no acostamento desta, descalço e sem rumo definido, a mente ainda um nevoeiro espesso onde nada fazia muito sentido. Estradas sempre levavam a algum lugar, não é mesmo? Ele repetiu isto para si mesmo como um mantra, tentando se agarrar a algum raciocínio simples em meio à confusão. E o seu corpo dolorido implorava por qualquer lugar, de preferência um com buffet farto, chuveiro quente e cama macia.

Jacob andou, e andou, talvez por mais uma, duas horas, sem chegar a lugar algum, com as pernas cada vez mais pesadas e a visão embaçando nas bordas. Estava exausto, tão exausto que mal registrava os próprios passos, e a sua forma avantajada era um vulto sob os faróis dos carros, sendo devidamente ignorado por seus condutores, até uma picape passar por ele e então parar no acostamento, poucos metros a frente. Jacob também parou quando viu o carro bloqueando o seu caminho, o corpo balançando de leve, como se o simples ato de ficar parado exigisse um esforço enorme. A porta do motorista se abriu e então uma silhueta desceu do carro e foi caminhando até ele.

A visão de Jacob levou alguns segundos para ajustar o suficiente para ele conseguir identificar a figura — segundos que pareceram longos demais, como se o próprio tempo estivesse nadando em uma piscina de melaço, correndo tão vagarosamente que parecia querer parar.

Era uma jovem, estatura mediana, cabelos longos, escuros e despenteados, usava roupas folgadas, que pareciam querer engoli-la. Calça jeans, camisa de banda, jaqueta e tênis surrado. Era pálida, e a palidez, somada ao cabelo escuro, acentuava a primeira e mais marcante característica dela: os seus intensos olhos azuis.

— Ei, está tudo bem contigo? — O tom dela era acalentador e Jacob cambaleou ao ouvi-lo, como uma criança cansada cambaleava de sono ao ouvir uma canção de ninar. Mãos frias tocaram a sua pele quente. Ou talvez as mãos dela fossem mornas, mas qualquer coisa contra a sua pele sempre quente parecia fria. Os dedos fecharam nos músculos de seus braços, ela tentou mantê-lo em pé, mas Jacob sentia que a qualquer momento as suas pernas cederiam novamente sob o peso de seu corpo.

— Eu… — ele tentou falar alguma coisa, dizer a ela que estava tudo bem, quando na verdade nada estava bem, mas a sua voz não saiu, presa em algum lugar entre a garganta e um pensamento que ele não conseguia terminar.

Por muito tempo tudo o que ele fez na forma de lobo foi rosnar e uivar de desespero, correr em círculos, querendo voltar para Forks e resistindo teimosamente ao instinto, de forma que a sua mente humana esqueceu temporariamente o que era falar, o que era formar uma frase inteira sem que ela se desfizesse no meio do caminho.

Jacob balançou como bambu sob vento forte e então sobressaltou quando sentiu o corpo menor da jovem contra o seu. No segundo seguinte ela estava sob o seu braço, o ancorando e praticamente o arrastando até o carro, onde o acomodou com dificuldades no banco do carona. Em seguida, ela voltou a se posicionar atrás do volante.

— Você precisa de um hospital — ela comentou para ninguém em particular e isto pareceu despertar Jacob o suficiente para segurar o pulso dela com força, a impedindo que desse novamente a partida no motor.

— Não — ele disse, rouco e com a garganta dolorida — Sem hospitais.

— Você está ardendo em febre. Por quanto tempo você andou naquela estrada descalço, e vestindo somente essas roupas? Está uns oito graus lá fora. Você precisa de hospital, pode estar com princípio de hipotermia.

— Não! — Jacob conseguiu dizer com mais ênfase diante da teimosia dela — Sem hospitais.

— Mas… — ela tentou argumentar, mas desistiu ao ver na expressão de Jacob que se persistisse naquele assunto, ele pularia para fora daquele carro e cancelaria todo aquele resgate — Okay, sem hospitais — concedeu com um bufo irritado e ligou o motor do carro quando finalmente viu-se solta do aperto de ferro que eram os dedos de Jacob.

O motor roncou ao dar a partida, o carro retornou para a estrada e Jacob sentiu-se nauseado com o balançar do veículo. Estava exausto e com fome mas, ao mesmo tempo, estava enjoado, e a exaustão e a náusea se misturavam em algo pesado e indistinto, como se o seu corpo tivesse esquecido como separar uma sensação da outra.

— … seu nome? — Ele ouviu ao longe o final da pergunta, com a voz dela chegando distorcida, como se atravessasse água. Os seus ouvidos estranhamente zumbiam e talvez estivesse febril, um estado que ele sentiu pela última vez antes da sua primeira transformação. Quis concentrar-se na pergunta, mas ela escorregou de sua mente antes que conseguisse alcançá-la de volta.

Jacob tentou responder, mas a sua língua pesava e as suas pálpebras também. Adormeceu de cansaço, ou talvez tenha desmaiado de novo — já não conseguia distinguir uma coisa da outra. E, com isto, sonhou. Ou teve um pesadelo, dependia do ponto de vista.

Em seu sonho Renesmee era envolta em uma aura etérea e estendia a mão pequena e pálida na direção dele. O seu rosto anormalmente belo estava contorcido em uma expressão tristonha e ela cantarolava o seu nome repetidamente:

"Jacob, volte para casa. Jacob, volte para mim."

E Jacob, em sua forma de lobo, parecendo tão pequeno e incapaz, gania e rosnava, querendo ir para ela, mas era impedido pelo seu lado humano, que era quem segurava os grilhões presos em suas patas e o arrastava para trás, o afastando de Renesmee.

Jacob acordou em um sobressalto, atordoado, com a mente ainda enevoada pelo pesadelo e delirante com uma febre anormal, incapaz de saber ao certo onde terminava o sonho e onde começava a realidade. A razão de seu despertar havia sido o eco sedo da porta do carro que foi aberta e fechada; a porta do motorista. Através da janela da cabine lacrada, com o aquecedor a todo vapor, Jacob viu um homem descer as escadas da varanda dianteira de uma casa e encontrar-se com a jovem. Ele mirou para dentro do carro e a sua expressão ficou extremamente carrancuda.

— … onde ele saiu? — Jacob conseguiu captar a pergunta além do zumbido em seus ouvidos, os fragmentos de frase chegando picotados, como se alguém estivesse trocando de estação de rádio dentro da sua própria cabeça.

— Ele não está bem — a jovem argumentou.

— Que o levasse ao hospital — o homem rebateu e Jacob remexeu-se, inquieto, tentando soltar-se do cinto de segurança que ele nem recordava ter prendido, mas os seus membros não o obedeciam, os seus dedos trêmulos não o obedeciam. Nada de hospitais. Sem hospital para ele.

— Ele não… — a jovem começou quando Jacob finalmente conseguiu abrir o cinto, e a porta, e caiu para fora do carro como um peso morto, chamando a atenção do homem e da garota. Quando eles inclinaram-se sobre ele, os seus olhos encontraram os azuis da jovem, um vislumbre transformou as íris em castanho-chocolate e Jacob choramingou de forma patética.

— Nessie… — chamou, sentindo-se um imbecil por tamanha fraqueza, com a palavra saindo de sua boca antes que ele conseguisse entender por que a estava dizendo. A jovem estendeu as mãos na direção dele, o tocando nos braços, e o toque dela queimou a sua pele. O toque dela era veneno, e ele não o queria. Ninguém poderia tocá-lo além de seu imprinting.

Jacob debateu-se, estapeou as mãos, chutou o ar, querendo afastar aquele toque indesejado, mas eles persistiam, eles insistiam.

— Calma, garoto — ao longe ele registrou a voz grave e estrangeira do homem pedindo-lhe calma e o toque retornou, e então Jacob rosnou, grunhiu e sentiu os seus ossos estalando e a sua forma mudando.

O homem deu um salto para trás, com os olhos arregalados e a boca entreaberta em choque puro.

— Que merda é essa?! — disse quando o lobo deu as caras, arreganhou os caninos, tentou colocar-se de pé e fugir, mas estava tão fraco quanto a sua forma humana. Atrás do desconhecido, a jovem havia congelado por completo, as mãos ainda erguidas no ar onde antes tocavam pele humana, o rosto pálido de espanto, os olhos azuis arregalados fixos no animal enorme que agora ocupava o lugar do rapaz que ela havia recolhido na beira da estrada, minutos antes.

O homem levantou em um pulo, e uma arma, uma pistola, surgiu em sua mão com um movimento tão rápido e treinado que destoava completamente do choque ainda estampado no seu rosto, e a ameaça eriçou ainda mais o lobo.

— Não! — A jovem protestou, saindo do próprio pasmo, e empurrou o braço do homem, tirando a arma da mira de Jacob, colocando-se entre o lobo e o homem que soltou com um rosnado de frustração:

— Samantha! — Mas Samantha permaneceu no lugar, imóvel, com as mãos erguidas em um gesto de calma, ainda processando, ainda com aquele resquício de espanto gravado nas feições, mas determinada.

— Nós não vamos machucá-lo — ela pediu, e se estivesse em sua forma humana, Jacob iria rir. Eles não eram exatamente uma grande ameaça para a sua força sobrenatural e os seus caninos poderosos o suficiente para conseguirem rasgar a pele de mármore de um vampiro — Nós não vamos machucá-lo — Samantha repetiu e vagarosamente foi aproximando-se de Jacob, ainda alerta, ou o máximo de alerta que ele conseguiu ficar com a sua mente delirante — Vai ficar tudo bem — ela estendeu a mão na direção dele, da mesma forma que se estende a mão para um cachorro cheirar, e Jacob sentiria-se ofendido se a sua parte lupina não tivesse cedido ao instinto de captar aquele novo aroma. E, enquanto ele estava ocupado em apreciar o cheiro de terra molhada que a pele dela tinha, não percebeu quando outra mão lhe tocou atrás da orelha felpuda, e então ele apagou.

❇❇❇

Jacob acordou com uma bruta dor de cabeça, ainda com fome e nauseado, mas muito mais lúcido do que antes — lúcido o suficiente para que o estranhamento do lugar onde estava o atingisse em cheio.

Quando os seus olhos entraram em foco, a sua mente registrou, num misto de confusão e alarme crescente, que estava sobre uma cama estreita de ferro, dentro de um quarto circular sem janelas, com paredes de ferro e uma porta lacrada.

Onde diabos ele estava?

Havia um acesso com soro preso à parte interna de seu cotovelo e agora ele vestia mais do que bermuda e camiseta. Ainda estava descalço, mas agora trajava uma calça de moletom e uma simples camisa de manga — roupas que não eram suas, num quarto que definitivamente não parecia um hospital, nem a casa de ninguém conhecido.

Com dificuldade, sentou-se na cama e retirou o acesso do braço. Ao levantar-se, precisou sentar novamente devido a tontura que o fez ver pontos pretos em frente aos olhos, o corpo ainda gritando de exaustão e cada músculo protestando contra qualquer movimento. Quando recuperou-se, fez uma nova tentativa de colocar-se de pé e, desta vez, teve mais sucesso. Com isto, caminhou até a porta e não se surpreendeu ao ver que ela estava trancada. Espalmou esta com força, fazendo um clanc ecoar por todo o local. Tentou gritar, mas a sua voz não saía e o esforço cansou todo o seu corpo novamente e ele teve que retornar a cama para evitar de cair de bunda no chão.

Fazia tempos que não ficava doente, desde a primeira vez em que se transformou, e nunca pensou que conseguiria ficar doente depois de transformado. Porém, Jacob desconfiava que o que sentia naquele momento não era uma simples gripe.

O imprinting ainda era um mistério para a sua tribo, mas o que se sabia dele é que nenhum lobo tentou recusá-lo, porque as lendas diziam que era impossível ignorar o imprinting. Mas Jacob sempre foi avesso às convenções, mesmo que aquilo, ao que tudo indicava, estivesse cobrando um preço alto demais do seu corpo.

Ainda exausto, ele deitou e novamente adormeceu, acordando, talvez, minutos, ou horas depois, com a pesada porta de ferro sendo aberta. Quem entrou primeiro foi o homem, e a arma que ele carregava eriçou os pelos do corpo de Jacob. A garota que o resgatou na beira da estrada entrou atrás dele, carregando uma bandeja de comida cujo aroma fez Jacob salivar e o seu estômago roncar em alto e bom som.

— Eu disse que ele não era uma ameaça — a jovem comentou com um sorriso, o que fez o homem revirar os olhos para ela, mas não abaixou a guarda — Eu sou Sam — ela se apresentou ao aproximar-se de Jacob e colocar a bandeja com a comida sobre um banco perto da cama — O mal humorado armado é o meu pai, Dean. Só não tive a oportunidade de captar o seu nome.

Jacob piscou, tentando processar aquilo — um quarto de ferro sem janelas, uma pistola, um homem chamado Dean e uma garota chamada Sam que falava com ele com a mesma naturalidade de quem comenta sobre o tempo com um familiar. Nada daquilo fazia o menor sentido, e a confusão só aumentava a sua dor de cabeça.

— E aproveita que estamos nas introduções e nos diga também o que é você — Dean resmungou e Jacob franziu as sobrancelhas, sem entender. Sam pareceu ler a confusão na expressão dele.

— Quando tentamos te trazer para dentro de casa, você começou a se debater e a convulsionar, estávamos quase te levando para o hospital, até que você simplesmente destruiu as suas roupas ao se transformar em um lobo gigante — Sam explicou com um sorriso no rosto, não havia mais surpresa ou medo na expressão dela, apenas o eco distante do espanto que ela sentira minutos antes, agora bem escondido atrás da calma. Ela poderia não ver um homem se transformar em um lobo enorme todos os dias, mas estava claro pela tranquilidade com que ela reagiu e contou a história, que a transformação de Jacob não foi a coisa mais esquisita que ela já viu na vida.

— Meu nome é Jacob — ele finalmente conseguiu dizer após tomar um gole da garrafa d'água que Sam havia trazido — E eu sou um lobisomem — explicou, no que Dean disse:

— Mentira.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.