Não Me Julgue. - HIATUS
14 Capítulo 13
(Alguns meses depois)
- Como é ter dezessete anos?
Era uma tarde fria, totalmente distinta e mais amena que as outras. Os dedos dos pés do moreno pareciam querer congelar, mesmo com as duas camadas de meias que vestira de manhã antes de sair de casa. Usava uma botina de couro marrom, uma calça de lã por debaixo da jeans, blusa de frio e jaqueta. Tudo para se manter o mais aquecido possível. Odiava ficar gripado, e como já sentia a garganta ficando mais sensível, não queria vacilar.
O céu estava encoberto por nuvens cinzas, algumas mais escuras que outras, indicando chuva conforme a noite ia chegando.
- Responda você. — Retrucou, devolvendo a pergunta. — Como é ter dezessete anos?
Estavam ambos sentados na sombra de um velho carvalho, localizado no topo da montanha mais alta da região, onde podiam ver praticamente toda a cidade de Pittsburgh, enquanto jogavam conversa fora. Era gostoso estarem sozinhos naquele lugar, ao mesmo tempo que nostálgico. Quando crianças costumavam subir aquela montanha, as vezes apostando corridas, só para depois se jogarem na grama alta e verde, para que deitados procurassem formas conhecidas nas nuvens branquinhas do céu. Era um passatempo de criança, meio vergonhoso para ambos, só que ainda assim uma bela lembrança do passado.
- Ainda não constatei diferença. — Confessou sem esconder o desapontamento.
O vento bateu forte contra o rosto bronzeado do ruivo, fazendo seu corpo arrepiar, no que seus ossos finos congelavam pela baixa temperatura. Arrependeu-se de não ter vestido mais uma jaqueta como sua mãe havia lhe aconselhado. Maldita boca de mãe que nunca falha. Ele se encolheu, abraçando as próprias pernas para se aquecer. Estava tão frio que quando falava uma fumaça esbranquiçada saia junto ao seu hálito.
— É porque não há diferença. — Jarrell respondeu sem se importar. — Um número amais, um numero amenos, tanto faz, são só números.
— Engraçado, quando eu tinha uns oito anos tudo o que eu mais queria era ter dezessete. Achava que com dezessete eu seria o rei do mundo e que não teria nenhum problema, mas agora vejo que eu não mudei nada. Continuo morando com meus pais, indo para a escola, não tendo um carro, sem namorada e serviço... Tudo que eu achava que teria com dezessete eu não tenho. Veja o que me tornei. Sou só um zé-ninguém perdido nesse mundo gigantesco. E nem o privilégio de ser o maior perdedor do planeta eu tenho, porque ainda existem muitas pessoas piores que eu, então ao invés de reclamar eu sou obrigado a agradecer, porque podia ser muito pior. Pra você ver, até o direito de reclamar eu perdi.
- Pois é, mesmo sendo o cavalo azarão você é um sortudo.
Marc riu do comentário do amigo.
— Deve ser ruim fazer aniversário no começo do ano. — O ruivo trocou o rumo da conversa, com incerteza referente a afirmação dita no improviso, já que estava prestando mais atenção no pôr-do-sol do que no amigo sentado ao seu lado.
Ambos mantinham os pensamentos distantes dali, mas continuavam dialogando por pura educação.
- Pior você que faz em fevereiro, quando as aulas estão prestes a começar. — Falava entediado.
- Eu gosto da escola...
- Ainda bem que eu passei de ano.
Marc não sabia quantas vezes já tinha escutado essa frase, talvez umas mil.
- É, aquela prova estava tão difícil para você... — Foi sarcástico.
- O que quer dizer?
- Você acha que eu não vi que você passou mais de dois terços da aula desenhando na mesa e que deixou para responder tudo nos últimos minutos? Agora me diz como alguém que faz isso consegue tirar a nota que você tirou? Eu vi, você mal lia as questões e já assinalava as respostas, como uma máquina! Nem eu me sairia tão bem em tão pouco tempo.
- Eu chutei.
- Mentira, você não é tão irresponsável assim.
- E quem te garante que eu não colei?
- E arriscar repeti o ano por causa de outra pessoa? Não, você não confiaria nem em mim para tanto. — O ruivo sorriu desdenhoso — Na noite anterior a prova você disse que ia sair com uma garota, mas eu sei que ficou em casa estudando.
- Até parece. — Cruzou os braços. — Eu não ligo para escola, estou nem ai se repetir de ano.
- Outra mentira. Vejo um hábito se formando. — Riu baixo — Tá certo, deixa pra lá. — estalando os dedos das mãos — Lembra quando fugíamos das nossas casas a noite para vir ver as estrelas aqui de cima? — mudou de assunto — Naquela época eu achava que queria ser astronauta, lembra? Era tão legal. Nossos pais ficavam loucos com a gente.
- Seus pais ficavam loucos com a gente, o meu nem percebia. — Corrigiu, o olhar distante.
- Meu pai também não é um exemplo de dedicação. Raramente ele lembra que tem um filho. A vida dele se baseia naquela maldita concessionária. Essa empresa é o único filho que ele tem, essa é a verdade. Se ela falir, ele morre. Mas tudo bem, desde que eu sou pequeno é assim, então eu não posso reclamar, pois acabei me acostumando desse jeito, não sei como seria se meu pai fosse diferente, acho que eu iria estranhar bastante. Além do mais, é o serviço dele que paga as contas, já que a minha mãe não pensa em voltar a ser corretora, então eu tenho que aceitar.
- Não estou querendo julgar ninguém não, mas eu sempre achei estranho esse negócio do seu pai com a empresa dele... Parece uma obsessão, não sei como sua mãe aguenta. Eu se fosse ela acharia que ele tem uma amante, isso sim. Só isso explicaria ele chegar tão tarde todas as noites...
- Aff... Não diz besteira, meu pai e minha mãe se amam, sem falar que eles se respeitam acima de tudo, e respeitam o casamento e... me respeitam. Eles jamais fariam algo assim sabendo que poderia acabar com a nossa família. O casamento é algo sagrado e meus pais acreditam nisso. São mais de dezoito anos juntos, eles não jogariam isso fora por causa de uma aventura extraconjugal, eu tenho certeza. Então nunca mais repita isso, principalmente na frente da minha mãe! Ela teria um enfarte se escutasse essa sua teoria idiota. Meu pai chega tarde em casa porque trabalha demais e pronto. Não fique inventando coisas onde não tem.
- Agora é a minha vez de dizer "aff". Você é muito inocente, Marc. Já ouviu falar que o pior cego é aquele que não quer ver? Então, depois não diga que eu não avisei.
- Como você é maldoso, Jarrell. — Marc riu descrente. — Credo, quanto veneno. — sorriu amarelo — O que você acharia se eu falasse isso sobre o seu pai?
- Acharia que finalmente o velho voltou a viver. Desde que a minha mãe morreu, ele morreu junto. Parece que queria que tivesse sido ele, ou sei lá. Eu não consigo entender meu pai.
- Mas também nem tenta, né? Talvez se vocês dois conversassem...
- Eu nem quero entende-lo. Já basta ter os meus problemas, só o que faltava é eu ter que aguentar as dores de um viúvo inconformado.
- Mas é seu pai!
- E quem diz que ele se lembra disso? Então é assim? Só somos parente quando é conveniente para ele? Ah, me poupe! Você reclama que o seu pai é fanático por trabalho, mas o meu é pior, porque ele escolheu ser fanático por trabalho para não ter que lidar comigo. Ele fica falando que me criou como pôde, mas ele sempre esteve ausente. Tudo que eu recebi do meu pai foi silencio e abandono! Mas não pense que eu me importo. Quando eu era menor podia ser difícil, porque eu não entendia, mas agora eu quero que ele vá se danar! Estou nem aí para as dores dele, porque ele também não está para as minhas!
O ruivo esperou até que o outro parasse de falar.
- As vezes eu mal te reconheço. — Comentou, olhando-o diretamente, não com olhos julgadores, mas com olhos amigos, conscientes da dor que afligia o coração de ambos. — Quando você era pequeno o que mais me encantava em você era sua timidez... Seu jeito sereno, o modo como você sempre parecia pensar mais rápido que todo mundo... Você sempre foi muito inteligente e eu sempre adorei isso. Você gostava de inventar histórias, gostava de livros e dizia sempre que um dia iria virar escritor, lembra-se? Sei lá, você tinha um brilho especial... Uma luz própria no olhar... Eu sempre ficava encantado com seu jeito de pensar, de sempre querer ir além, quebrar regras, ver o inusitado, o proibido. Você nasceu com alma de artista. Tão sensível... Se eu tivesse um quinto da sua sensibilidade e esperteza eu poderia ser o que quisesse... Fazer o que quisesse. Sabe, Jarrell, você nasceu com um dom, mas de uns tempos para cá tenho te sentido tão amargurado, ressentido.... Acho que você sente dor e transforma essa dor em raiva, porque não sabe lidar com ela, pois nunca teve alguém que te ensinasse a transformar essa dor em força, que te ensinasse a supera-la. Ai você acaba juntando esse sentimentos ruins dentro de si e fica acumulando, mas acho que chegou em um ponto que não tem mais espaço, então você começou a distribuir essa raiva, esse seu rancor. Essa é uma forma de desabafo. Porém, você não pode culpar o mundo por tudo. Isso tá errado. Esse não é você. Eu sei disso porque eu já conheci o que tem ai dentro de você, e posso afirmar com toda certeza que não é esse saco cheio de estrume que você tem se mostrado ser!
O moreno sorriu.
- Marc, Marc, Marc... Sempre tão educado com as palavras. — zombou.
- Não faça piada, é sério.
- E o que você queria? Que eu tivesse oito anos para sempre? Hoje é seu aniversário, esta ficando mais velho, então por favor, não me peça para que eu volte a ser criança.
- Não estou dizendo isso. Até porque eu não acho saudável uma pessoa agir como criança. Todos devemos amadurecer.
- Então?
- Mas maturidade, para sua informação, não é ser um ogro chato que pega no pé de todo mundo.
- Com quem é que você andou conversando? Um psicólogo falido que atende por uma mixaria a hora online pela internet?
- Com ninguém, só estou dizendo.
- Bom, guarde esses seus comentários para você, Garoto Prodígio. Eu não quero saber. Ou então eu vou embora.
O aniversariante grunhiu, odiando ser contrariado.
- Está bem. — aceitou a condição. Ficaram calados por algum tempo, até que Marc voltou a puxar assunto. — Fiquei surpreso quando você me ligou. Faz tempo que não me chama mais para sair, ainda por cima para vir na montanha.
- Acordei de bom humor. — Explicou indiferente.
- Ah. — Mais uma pausa — Minha mãe estava certa, aqui é frio. — Resmungou depois de sentir um calafrio.
- Lógico, Einstein, estamos em uma montanha, o que você pensou? Que por ser mais perto do sol seria mais quente? — riu.
- Não!
- Você deveria escutar mais a sua mãe, ela entende das coisas.
- Nossa, ela vai ficar tão contente quando souber que você disse isso.
- Não diga à ela. — mandou.
- Eu sei, não vou dizer, só estou brincando. Te testando.
- Sua mãe já tem a autoestima elevada demais, não precisamos contribuir para que o ego dela inche tanto ao ponto de explodir.
- Concordo, esse será o nosso segredo.
Os lábios de Jarrell estava secos e a voz rouca quando voltou a falar novamente.
- O futuro é uma droga, o presente é tudo o que temos. — Comentou do nada, deixando o ruivo em dúvida se o moreno estava falando sozinho ou se era para responder.
— O que você pretende fazer depois que nós nos formarmos? Esse é o último ano, depois disso não teremos mais desculpas. Finalmente seremos adultos.
- Eu só serei adulto com trinta, até lá prefiro ser jovem e curtir a vida.
- Como se alguém com trinta anos fosse velho... — resmungou.
- Eu não sei. — respondeu a pergunta que antes o amigo lhe tinha feito — E você? Vai mesmo trabalhar com o seu pai?
- É o que meus pais querem... Mais sei lá.
- Não é isso que você quer? — Indagou.
- Então, o que acontece... é que... Eu acho que sou capaz de fazer mais que apenas vender carros, sabe? Quem sabe fazer faculdade... Virar médico.
- Médico?
- É, pediatra, eu sempre gostei de cuidar das pessoas e adoro crianças... Até acho que levo jeito... Eu não sei, de verdade. Tudo depende dos meus pais.
- Como assim Marc "tudo depende dos seus pais"? Essa é a sua vida, o seu futuro. Se você quer virar médico, então vá a luta e vire! Você tem que sair da aba da sua mãe e do seu pai e viver. Ou nesse ritmo vai acabar ficando igual a eles.
- E qual o problema de ser igual aos meus pais? Eles são felizes.
- Mas você merece ser ainda mais feliz, não acha? Ter a sua própria felicidade. Ou vai viver para sempre da felicidade alheia?
- Eu só não quero decepciona-los.
- Você se preocupa demais com as aparências, cara, é sério. Vê se desencana, ninguém está cobrando nada de você, e se cobrar há sempre a opção de você mandar eles tomarem no cu. — Marc riu.
- Até parece, não sou como você que não tem consciência do perigo.
- Mas uma hora ou outra você vai ter que quebrar a casca do ovo e aprender a voar sozinho. Sua mãe não pode te chocar para o resto da vida.
- Eu sei disso.
- Então prove, diga a eles que quer virar médico e corra atrás do seu sonho.
- Mas e se eles não gostarem?
- Você diz que não vai atende-los no seu consultório, e que foda-se o resto.
- Você sabe que pediatra é o médico que cuida de criança e de adolescentes, não sabe? Porque meus pais passariam no meu consultório? Além do mais, segundo a ética médica, eu não posso atender parentes, isso poderia acarretar em risco para os pacientes, pois envolveria emoção e não profissionalismo.
- Sei, sei. Então neste caso, diga que essa foi uma escolha sua e que eles não tem o direito de se meter.
- Para você é fácil falar... Na teoria tudo é mais simples. Queria ver se estivesse no meu lugar. — cruzou os braços — Mas o que mesmo você pensa em fazer dessa sua vida depois de terminar os estudos? Todos querem fazer faculdade, você também?
- Não me imagino fazendo faculdade.
- E se imagina fazendo o que afinal?
- Sei lá Marc, eu só quero viver. Temos muito tempo para pensar nisso.
- Tínhamos muito tempo quando tínhamos oito anos, mas agora com dezessete não temos mais tanto tempo assim. Esse ano vai passar como um jato, você vai ver. Você precisa se planejar.
- Quando isso acontecer, eu paro e penso, ok? Agora relaxe e aproveite a sua juventude. Eu com certeza estou aproveitando a minha.
Marc descruzou os braços e olhou para os dedos finos de suas mãos, brancos e enverrugados pelo frio.
- Você já imaginou que logo, logo seremos obrigados a formar uma família?
- Obrigados? Por quem? Ninguém vai me obrigar a formar porra de família nenhuma! Tá louco?
- Mas não é isso que todos esperam? Que depois dos estudos o homem arrume um emprego, conheça uma mulher, compre uma casa, um carro, se casem e tenham filhos? É o que todo mundo faz.
- Primeiro, eu não sou como todo mundo. Nem você. Segundo, até parece que eu quero ter filhos.
- E não quer?
- Óbvio que não! Pra que? Eu detesto crianças. Olhe a sua volta, até parece que eu quero colocar um filho nesse mundo violento e revoltado. Já tem muita gente nesse planeta, não precisamos de mais. Além de que, crianças dão muito trabalho e eu não tenho paciência para atura-las. Sem dizer que eu não seria capaz de educar nem um cachorro, quanto mais uma pessoa. Seria um desses pais negligentes que esquecem bebes dentro dos carros.
— Eu já acho o contrario. Adoraria ser pai, vai ser uma experiência única. E não acho que você seria um pai tão ruim assim. No fundo, ainda resta um pouco de humanidade dentro de ti.
- Sei, estou comovido. — sarcástico.
Marc riu.
- Estupido, estou falando sério. Não te imagino como pai do ano, mas também não te imagino maltratando uma criança.
- Então talvez você não me conheça tão bem assim. A maldade está no meu sangue.
- Mentiroso, sua mãe deveria ser uma ótima pessoa e seu pai mesmo sendo um escrivão, faz muito pela nossa cidade.
- Escrivão, eita profissão ridícula, como ele. Todo escrivão é um escritor frustrado, isso sim. E não há definição mais perfeita para o meu pai: frustrado. Ele é um ser humano patético.
- Não diga isso do seu pai, ele é um bom homem.
- Que se dane.
- Sua mãe não iria gostar.
- Minha mãe era uma mulher incrível, não sei o que viu nele.
- Talvez você só não veja também porque não se dá oportunidade. Abra os olhos e enxergue Jarrell. O mundo é maior do que você pensa.
- Diz o homem que nunca saiu dessa droga de cidade.
- Você também não. — retrucou ofendido — Mas um dia você vai ver, vou viajar por todo esse mundo. Não viverei aqui para sempre. Meu destino está lá fora. Quero conhecer tudo que esse planeta tem a me oferecer. Vou ser um viajante, igual o daquele filme que eu te contei. Não ficarei preso aqui por toda a minha vida. Um dia... Um dia, você verá, você e eu daremos a volta nesse globo, como dois aventureiros, destinados a conhecer todas as línguas, culturas e povos. Você vai ver, um dia.
- Não me coloque junto nas suas fantasias, rapazinho. Eu não pretendo ir a lugar algum. E tampouco acredito em destino, mas se ele existir, o meu é apodrecer nessa merda de cidade.
- Tenho certeza que isso não é verdade.
Os dois ficaram em silencio, refletindo, cada um com a própria verdade, até que o dia foi perdendo o brilho e a noite começou a se acomodar, trazendo junto a lua, sua eterna amante, para observar aqueles dois conhecidos meninos, sentados no topo daquela montanha.
- Você deve sentir muita falta da sua mãe — Marc disse, solidário, fitando o garoto dos olhos negros.
- Não há do que sentir falta. Mal lembro do seu rosto, e sua voz há muito tempo também já foi esquecida. Ela é só um borrão na minha mente. — Murmurou, fechando os olhos cor de noite, fugindo dos verdes, entretanto, ainda sentindo o peso do olhar deste em si. — É como se ela nunca tivesse existido.
- Credo, Jarrell, que coisa feia de se dizer, ela é sua mãe!
Ele reabriu os olhos.
- Mas é a verdade. Eu era muito novo quando ela morreu.
- Mas você deve se lembrar de algo.
- Bem... — ele pensou — Lembro do seu perfume, perfume de rosas, pois meu pai guardou o frasco meio cheio. Ele guarda muitas coisas dela, como se achasse que a qualquer momento ela pudesse voltar e querer usar seus pertences. Meu pai é um tolo. E... Eu também lembro do sorriso dela, e da sua gargalhada... — ele sorriu sem perceber quando disse isso — Ela tinha uma gargalhada marcante, era ótima. As vezes eu sonho com o seu sorriso... Sonho que ainda sou criança e que ela está me esperando do colégio. Eu estudava perto de casa, onde hoje é um hospital, sabe? — O ruivo assentiu — Como era mais pratico, quem me buscava na escola era meu pai, pois minha mãe não sabia dirigir... Nunca soube. — riu nervoso — Ela dizia que carros eram perigosos... E por ironia, morreu dentro de um. Olha só como são as coisas, não é mesmo? — Os olhos dele ficaram molhados pela lembrança. — E depois dizem que esse seu Deus é justo... — resmungou, segurando o choro. — Ele matou minha mãe, mas como tínhamos seguro, não cobrou pelo carro. Isso que é justiça?
- Jarrell...
- Estou bem. — Respirou fundo. — É que... — Suspirou — Eu não sei. É que minha mãe foi uma pessoa tão boa, não merecia morrer daquele jeito... Ela tinha que ter tido uma morte digna... Mas nem isso. — Dizia sério, sem fungar ou derramar uma lágrima. Depois de algum tempo ele sorriu sem alegria. — Antes do acidente meu pai era diferente. Ele ia me buscar no colégio e ficava brincando comigo dentro do carro... Ele gostava de conversar comigo naquela época, mesmo eu sendo muito pequeno. E quando nós chegávamos em casa a primeira coisa que eu via era minha mãe nos esperando em frente a casa... Eu saia correndo e ela me abraçava. — Ficou quieto.
- Tenho certeza que ela te amava muito. — Marc tentou ser positivo, mas não pareceu ajudar.
- Claro, ela amava a todos. — Se levantou — Primeiro, amou tanto as águas, a natação, que quase ficou tetraplégica. Segundo, amou tanto meu pai, que dedicou doze anos da sua vida a ele, e acabou tornando-o nesse zumbi sem vida. E a mim... bem, não tem o que falar. Ela doou um pouco de si para todos que ela amava e não sobrou nada para mim. Nem uma lembrança descente eu tenho dela. Meu pai diz que sofre, mas pelo menos ele passou algum tempo com a minha mãe. Eu nem isso.
Marc se levantou, limpou as mãos na calça e caminhou até o amigo.
- Não é bem assim. — Jarrell o encarou. — Ela te deu o mais importante, seu bobo.
- O que?
- A vida. — O moreno ficou em silencio, franzindo o cenho, pensativo. — Isso não é o bastante? — Sorriu. — Talvez você esteja querendo demais. Sua mãe fez tudo que pôde em vida. Foi realizada, até mesmo famosa na profissão que escolheu, e muito feliz no casamento. Não é isso que todo mundo diz? Que quando ela te olhava seus olhos se acendiam de orgulho? Que a sua vida era você? Então pare de ser tão egoísta e hipócrita. Sua mãe foi a melhor mãe que você podia ter. Não é certo reclamar. Ela era tão boa que até hoje todos sentem falta dela. Eu não a conheci, mas tenho certeza que era uma pessoa extraordinária, assim como você. — Mordeu a língua depois de pronunciar a última afirmação, mas não deixou transparecer o arrependimento. Sorriu com simpatia.
- Você me acha uma pessoa extraordinária? — Perguntou, um leve sorriso se formando nos lábios rosados.
- As vezes você é bom. — Foi vago, mas não desmentiu.
- Você também não é ruim. — Elogios não eram o seu forte. O dono dos olhos verdes riu-se, mas Jarrell logo o cortou. — É melhor irmos para casa, está ficando tarde e você não está devidamente agasalhado.
- Mas já? — Questionou decepcionado.
- Sim.
Ambos caminharam até o carro dos Miller. Jarrell dirigiu em silencio, só dizendo algo quando chegaram.
- Amanhã eu te vejo.
- Não quer entrar?
- Não. — Sorriu. — Com certeza não.
- Tá, tudo bem. — Deu de ombros, dando tchau.
Marc observou o moreno atravessar a rua e entrar na sua casa, para só então levar a mão a maçaneta e abrir a própria porta. Estava tudo muito escuro e silencioso. Mas enorme fora o susto que tomara quando acendeu as luzes.
- SURPRESA!!! — Gritaram de uma só vez umas cinquenta pessoas.
A boca do ruivo despencou, ao que o mesmo parecia paralisado e completamente sem reação, enquanto tentava assimilar tudo aquilo. Algumas pessoas riram da sua reação, ou da falta dela.
Uma festa? Sua mãe tinha planejado uma festa? — Foram seus primeiros pensamentos.
Quando a mesma saiu de dentro da pequena multidão, segurando uma taça com vinho, toda sorridente, ele quis gritar de desespero.
- Sorria, você está sendo filmado! — Apontou para o fotógrafo. — Ou melhor, fotografado! — Ela riu, e abraçou o filho, sussurrando em seu ouvido bem baixinho. — Não me mata, foi ideia do seu pai. — Se afastou e sorriu novamente. — Hey, diz alguma coisa! — Falou, quase desesperada.
Marc respirou fundo, vendo todos aquelas pessoas o encarar.
- Ok, vocês me pegaram. Obrigado. — Todos riram. A música começou a tocar e os convidados começaram a dança. Algumas pessoas vieram cumprimentar o ruivo, dando-lhe parabéns. Depois de um tempo, quando finalmente conseguiu escapar daquele bando de desconhecidos que o ficava paparicando, caminhou até sua mãe e a puxou com discrição até um canto. — Mas quem são essa gente? — Sussurrou, revoltado.
- Bom, você não tem muitos amigos, e nem nós muitos parentes, então convidamos alguns amigos do seu pai. — Falou mais baixo — Do serviço. Alguns são bem ricos. — Informou. — Me desculpe querido.
- Estou me sentindo usado. Porque é que você não me avisou?
- Queria manter a surpresa. Não é todo dia que se completa dezessete anos.
- É, e agora vou ter que passar com um monte de estranhos.
- Bom, não seja por isso, cadê o Jarrell? Eu disse que ele podia vir.
- Ele sabia? — Ainda mais surpreso.
- Claro, eu pedi para ele te distrair hoje para que eu fizesse a decoração. — Riu. — Você nem suspeitou, não é? Eu até achei estranho ele aceitar, mas também não reclamei, é tão raro ele fazer um favor para alguém... Só não entendo porque ele não entrou com você. Logo ele que ama festas.
Marc ficou calado.
Porque Jarrell não quis comemorar o aniversário com ele? Talvez porque não se importava. E pensar que o ruivo tinha ficado tão feliz quando recebeu o seu convite para passear hoje de manhã... Tudo tinha sido planejado. Jarrell não o tinha convidado porque queria sua companhia, só estava fazendo um favor. Imaturidade a sua pensar que o moreno se importava com o seu aniversário. Talvez para Jarrell não existem motivos para comemorar o aniversário de Marc, pois o aniversário dele não é uma vitória. Quem sabe, no fundo, ele nem quisesse que ele tivesse nascido...
O ruivo suspirou, cabisbaixo. Percebendo isso a sua mãe rapidamente completou.
- Mas quem sabe daqui a pouco ele não faz uma surpresinha e não aparece? Nunca se sabe. — Levou um dedo para o queixo do filho e levantou seu rosto. — Jarrell é cheio de surpresas. — Sorriu com simpatia.
- Com certeza. — Falou desanimado, sabendo, no fundo, que o moreno não viria. — Surpresa deveria ser seu segundo nome. — E se afastou, indo para o seu quarto.
Katia ficou parada por alguns minutos, olhando com o olhar vago para a festa. Tudo que queria era ver seu filho feliz, ao menos por uma noite, mas nem isso era capaz de fazer. E tudo por causa daquele menino... As vezes tinha medo da amizade do filho com o vizinho. Não era normal. Não era sadia. Katia não era burra. Percebia o jeito que Marc ficava toda vez que via aquele moreno. Os garotos não faziam por mal, talvez nem pudessem evitar, mas como mãe era inevitável não ficar preocupada. Tudo que ela queria era que seu filho fosse feliz, só isso. E no fundo do seu coração de mãe, sabia que ele não seria capaz de ser perto daquele outro garoto, dos olhos cor da noite, que parecia ter tomado posse da mente do ruivo desde a primeira vez que se encontraram, como um demônio que saliva, completamente obcecado pela beleza de um anjo. A loira não queria que isso fosse verdade, mas algo dentro dela dizia que o melhor a ser feito, era esperar e deixar que as coisas se ajeitassem sozinhas, assim como Deus quer.
Colocou uma "máscara" por cima do semblante preocupado e voltou para festa, arrumando qualquer desculpa para a ausência do filho. Tinha pagado muito caro naquele vestido e não iria desperdiça-lo.
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