Onze anos atrás, Midoriya podia imaginar com clareza aquele momento em que vivia, mas, há dez anos ele havia deixado esse sonho de lado, fazendo com que se surpreendesse quando notara com estranheza que, depois de tudo, Bokugou ainda estava ali à sua frente.

O trabalho fora intenso por muito tempo; com vilões aparecendo até mesmo durante a madrugada. Como herói, Deku esteve presente em todos os momentos, preocupado demais com as vítimas do que com a própria exaustão. A empresa montou um sistema para que os seus heróis tivessem seus horários de trabalho, porém, ainda assim, Izuku esteve pontualmente em todos os resgates e combates, assim como Bakugou, que mesmo com os anos amenizando sua personalidade explosiva, não aceitava que o outro pudesse trabalhar mais do que ele.

Eles ainda disputavam pelo título de herói número um. Era como se pouco tivesse mudado desde a academia, mas ao mesmo tempo muito havia sido deixado para trás.

Os amigos ainda eram os mesmos, apesar de se verem tão pouco por conta do trabalho, mas sua relação com Todoroki e Asui era ainda mais próxima do que antes. Ambos entraram para o time poucos anos após Midoriya, que se animou em ter faces conhecidas e amigáveis para trabalhar junto, já que Bakugou só carregava o título de conhecido desde a academia.

O clima entre eles era muito mais tranquilo, se comparasse ao passado, mas o interior de Izuku ainda teimava em balançar toda a vez em que estavam no mesmo ambiente. O beijo caloroso que haviam trocado há tanto tempo ainda estava grudado em sua mente, e a aparência sedutora e provocante que o antigo amigo adotara com a idade só o provocava ainda mais.

Ele se sentia bobo por não conseguir se livrar daquele sentimento, que prometera que deixaria para trás no exato momento em que viu Bakugou dar as costas, o rejeitando após acender o amor que até aquele momento era completamente desconhecido. Izuku desejou que nunca tivesse notado o que realmente sentia pelo rapaz que só sabia se irritar o tempo todo, mas ele não podia voltar no tempo e empurrá-lo, quando avançou em seus lábios subitamente no meio de uma discussão carregada apenas por Bakugou. E a maneira com que o acontecimento foi completamente ignorado nos anos que passaram, mostrou a Midoriya que não tinha opções além de fazer o mesmo, enquanto tentava colocar aquele sentimento para adormecer novamente.

A relação entre eles melhorou de forma estranha depois do ocorrido, pelo simples fato de Bakugou o ignorar na maior parte do tempo, e ao ingressarem na mesma empresa, as palavras trocadas eram apenas sobre o trabalho. Ainda que de uma forma ríspida, era melhor do que os gritos que faziam os seus ouvidos doerem.

Mas era claro que ele ainda continuava o mesmo em alguns aspectos. A irritação era cutucada por coisas pequenas, e os xingamentos saíam com naturalidade, mas em tom mais baixo e controlado demais para quem parecia tão nervoso. Acho que ele tenta se controlar agora. Midoriya segurou um fraco sorriso enquanto pensava, e o via não muito longe, preparando o café.

— Mas que porra! — Bakugou exclamou ao colocar uma xicara de lado. Ele olhou para trás, encarando os colegas que já estavam bastante acostumados com o seu jeito. — Por que ninguém troca essa merda logo?

Ele se referia a cafeteira, que sempre vazava um pouco do líquido escuro. Era só pegar um pano ao lado e limpar a bancada, o que Midoriya e os outros faziam todos os dias sem problema algum, porém, Bakugou sempre escolhia reclamar enquanto esfregava o pano no mármore com força exagerada.

— Trocaram semana passada, Bokugou — um dos heróis que já se retirava o notificou. — Esta é a nova.

O olhar que provocava, como se dissesse que era ele quem não sabia fazer café, irritou ainda mais o outro herói, como já era o esperado, e todos ouviram um suspiro alto e impaciente.

— Foda-se — Bokugou pegou a xícara com impaciência enquanto murmurava. — Continua a mesma merda.

Os olhos furiosos se estreitaram na direção do sorriso que Deku deixou escapar, mas nenhum xingamento veio desta vez. Ele se retirou para a própria sala, se controlando para não começar uma briga por algo tão bobo.

Bakugou se esforçava para não passar dos limites como antigamente; isto era algo que Midoriya podia ver claramente, mas ele ainda se incomodava com a relação de ambos. Podia ser menos barulhenta, mas ainda havia discussões por coisas maiores, mas que poderiam ser resolvidas com palavras menos ofensivas. A convivência com Bakugou o fez aprender a rebater algumas delas, e sempre se sentia mal, segundos depois de perder o controle. Midoriya não queria ser daquela forma, e desconfiava que Bakugou também, e o pensamento o fez analisar a situação na empresa com cautela.

Os murmúrios que vinham com as milhares de possibilidades em melhorar o clima entre eles no trabalho chamou a atenção de todos, porém, apenas Asui teve coragem de se aproximar.

— Sua cabeça vai explodir com tantos pensamentos, Midoriya — a heroína sentou na cadeira à frente de maneira confortável, colocando os pés sobre o móvel, um pouco antes de fazer o mesmo com as mãos. — Qual é o problema?

Deku sorriu fraco antes de pegar sua xícara sobre a mesa redonda e desviou o olhar para o líquido escuro.

— Sei que já está de saco cheio de ouvir isso, mas, é o Kacchan — ele a ouviu soltar um suspiro, e sem ter do que reclamar, fez o mesmo ao voltar a olhá-la. — Mas não quero reclamar desta vez, está bem? Eu só quero uma solução. Quero dizer, nós trabalhamos juntos há anos, e continuamos com esse clima estranho.

— É o Bakugou, você não deve esperar mais do que isso — Asui deu de ombros, também acostumada com o jeito do colega, apesar de nunca ter sido alvo de seus xingamentos. — E ele até que melhorou um pouco com o tempo. Lembra como ele agia na academia? Dava medo.

— Eu sei, eu sei — Deku suspirou outra vez. Ele, mais do que ninguém, se lembrava como era o passado, e se perguntava como pôde se apaixonar por alguém como Bakugou. — Sei que ele melhorou e não quero mudar quem ele é agora, não mesmo. Mas, queria que fôssemos diferentes um com o outro, sabe?

Asui estreitou o olhar em sua direção, interpretando as palavras da maneira exata com que Midoriya não queria mostrar.

— Não é disso que estou falando! — Ele balançou a cabeça de um lado para o outro com urgência. — Eu falo sobre o trabalho. Brigar só nos atrapalha. Eu queria que fôssemos mais profissionais um com o outro.

Ele falava com sinceridade sobre suas preocupações com o trabalho, mas a breve ideia da amiga o fez sentir o rosto corar levemente. Eu não quero me dar bem com ele por assuntos pessoais. Deku repetiu em sua mente, enquanto contava a ela como discutiram no último resgate que fizeram juntos. As vítimas sobreviveram ao incêndio, porém, o sentimento incômodo de que poderiam ter resolvido aquilo mais rápido, se não tivessem perdido tempo com a discussão, ficou em seu interior, como em todos os momentos passados.

— Você é mesmo um ótimo herói, meu amigo — Asui o olhou com orgulho, o envergonhando por outro motivo desta vez. — E sabe de uma coisa? Eu acho que desta vez tem toda a razão sobre vocês dois. E tenho um conselho, se quiser — ela sorriu da maneira com que Deku se arrumou na cadeira e a olhou atentamente enquanto balançava a cabeça. — Vocês não vão mudar da noite para o dia, isso é impossível. Então, terá que começar com coisas pequenas — ela levantou o indicador. — Primeiro, se quer ser mais profissional, tem que aprender a ser mais formal com ele. Sei que se conhecem desde a infância, mas são adultos e que trabalham seriamente juntos. Tem que tomar cuidado com o jeito que fala, e isso serve para os dois.

Deku assentiu seriamente, em seguida pegou um guardanapo sobre a mesa e tirou uma caneta do bolso, para anotar cada palavra da amiga, que se divertia com o seu jeito ávido pelo aprendizado. Ele circulou o sobrenome de Katsuki, o destacando no meio de seus rabiscos, e sorriu empolgado, ainda que achasse estranho mudar sua fala depois de tanto tempo.

— Mas, também não precisa ser sério demais. Tem que ser tranquilo, amigável, e respeitoso — ela cruzou os braços enquanto balançava a cabeça, orgulhosa de suas próprias palavras. — Use sua relação com Todoroki como exemplo. Vocês são exatamente assim.

Ele a olhou menos sério enquanto encostava a caneta nos lábios. Ele e Todoroki se davam bem desde a academia, e era fácil conversar e até mesmo para discordarem um do outro. Ele via Todoroki e Bakugou como completos opostos, mas, ao ver o seu próprio jeito de agir com cada um deles, Deku concordou com Asui. Eu preciso ser menos eufórico com ele, mais despreocupado com o que vai achar de meu desempenho, como sou com Todoroki-kun.

Ele queria muito poder terminar uma conversa com Bakugou sem precisar ouvi-lo suspirar com impaciência ou se sentir enraivecido por não ser compreendido. A relação que tinham antes do outro despertar a individualidade já havia sido aceita como parte do passado, mas Deku tinha a esperança de ao menos poderem ficar um ao lado do outro como duas pessoas normais.

Deku agradeceu a amiga pelo conselho e com confiança, se levantou para voltar ao trabalho.

Bakugou não foi visto pelo resto do dia, pois ambos foram enviados para direções opostas em todas as missões do período de trabalho. Passando do horário, Midoriya foi gentilmente obrigado a voltar para casa pelo chefe, mas na manhã seguinte, ele fora o primeiro a chegar, e diferente de antes, se animou ao receber o relatório das rondas daquela tarde e ver que seu nome estava ao lado do herói explosivo.

O olhar sério que recebeu quando se viram pela primeira vez no dia fora o mesmo de sempre, assim como o seu sorriso natural, mas o coração acelerou de maneira diferente ao se aproximar.

— Bom dia, Bakugou.

O nome soou tão estranho em seus lábios, que por um momento não reconheceu a própria voz. Ele segurou a expressão, para que continuasse a mesma, mas sentiu-se agitar com o olhar em sua direção.

Bakugou parecia tão chocado que nem ao menos o respondeu, nem mesmo com o gesto com a cabeça, como ele sempre fazia quando trabalhavam juntos daquela forma. O incômodo do herói fora grande, mas foi camuflado tão bem, que Izuku pensou ter apenas o surpreendido, e pior ainda, o irritado como sempre.

Deku soltou um baixo suspiro antes de seguir os passos firmes do outro herói, imaginando com tristeza se realmente não havia jeito para eles se darem bem. Eu deveria ter desistido disso há anos. Ele pensou com desanimo, mas não deixou a ideia de lado. O dia passou com ambos trabalhando um ao lado do outro, e a falta de brigas e o completo silêncio de Bakugou o fez repensar, achando que havia feito a escolha certa em deixar o “Kacchan” para trás, mas sem imaginar que o outro herói não gostava nada daquela nova ideia.

Notas finais
Há algum tempo, eu disse que jamais postaria mais de uma história ao mesmo tempo, mas aqui estamos. asidhiuashdiuas Essa vai ser bem curtinha, e espero que gostem dessa versão mais velha que imaginei sobre os dois. ♥