Não Há Erro em Amar
10 Capítulo 9: Louca tempestade
Notas iniciais
Capitulo 9: Louca Tempestade
Narração do Tom
Ah, se arrependimento matasse... Provavelmente já estaria em estado de putrefação, se eu pudesse adivinhar que Bill sofreria um acidente, se eu pudesse prever, se eu só... Mas eu não pude. Ansioso de mais para viajar em família, aproveitar minha esposa o larguei a própria sorte. Por que eu não fui só um pouquinho menos egoísta? Por que eu não estava aqui naquela hora? Eu teria morrido por ele se isso o salvasse.
O pior de tudo era saber que ele estava ali, inerte, sem sentir, sem sonhar. Era só um corpo de coração pulsante deitado em uma maca de hospital, nada alem disso.
Há algumas horas atrás não pude evitar chorar, aconchegado ao ombro de minha mãe, chorei como um bebezinho. Minha mãe, minha doce e querida mãe. Bill, em toda sua doçura e romantismo era exatamente como ela.
Toquei a mão de meu irmão, fria de mais para alguém que estivesse vivo, mas quente de mais para um morto. Olhei para o quarto para o qual fora transferido há cerca de 2 horas, era exatamente como meu irmão mais novo odiava. Absurdamente branco, claro de mais, doentio de mais. Olhei para os vários aparelhos ligados ao meu irmão mais novo.Levei as mãos aos ouvidos na esperança de que aquele bip monstruoso parasse de soar, foi em vão. Aquele barulho invernal que dava o ar da graça a intervalos regulares invadia a minha mente, deixava meus olhos turvos, me obrigava a ver cenas que não queria ver.
Éramos Bill e eu, crianças, sentados na sala de TV brigando pelo controle remoto, queríamos desenhos diferentes. Logo depois lá estávamos nós, abraçados, encolhidos no quarto, ambos chorávamos, era mais uma briga entre papai e mamãe. E então estávamos emburrados, Gordon havia se apresentado, seria nosso novo pai. Mas ninguém perguntou se queríamos um! Então fomos conquistados, nosso pai numero dois nos comprara com musica. As nossas brigas, as pegadinhas com os professores na escola. Éramos uma dupla inseparável e terrível. A formação da banda, o sucesso repentino, muitas outras brigas, e enfim, Julia.
Agitei a cabeça na tentativa de parar as lembranças, não queria lembrar-me de Julia, mas era em vão, aquele bip... bip... bip continuo parecia obstinado a forçar-me a lembra do rosto alegre de Bill. Um dos melhores aniversários dele, Julia era doce, querida, compreensiva, engraçada. Meu irmão viveu ao lado dela um romance digno de novela, lindo e puro. Foi o ano mais feliz da vida dele com toda certeza. Nunca havia visto-o compondo letras tão belas, tão cheias de amor. Mas veio a tragédia, e meu querido irmão pareceu morrer junto de Julia.
Dois meses após a morte dela ele ainda não havia se recuperado, pelo contrario, a piora era evidente. Bill se equilibrava entre um cigarro e um copo de bebida. Estava quase sempre sujo, mal vestido, os cabelos desgrenhados, bêbado.Eu sofria por vê-lo daquela maneira, e sofria ainda mais quando ele negava minha ajuda. Meu irmão que era doce e quase sempre calmo de repente estava agressivo. E sua alegria foi-se, como se estivesse sido sugada pelo tumulo de Julia.
Com muito custo conseguimos levá-lo ao psicólogo, com o tratamento, aos poucos, Bill foi melhorando, cerca de dois anos depois estava melhor, mas ele não conseguiu retomar a vida antiga, era absolutamente difícil para ele, a musica, as letras, os lugares, os fãs, tudo lembrava Julia.
Foi quando chegou à terrível hora: O que se faz quando a banda termina? Como continuaríamos a viver, já que tudo o que sabíamos era sobre musica? A idéia veio de Georg, iríamos montar uma loja especializada em musica, logo, a loja de Hamburgo ganhou fama pela Europa e da Europa, fama mundial, tudo se repetia, o sucesso, a fama, e prêmios, agora de propaganda ou de empresa do ano. Após um tempo Bill e eu montamos nossa coleção, baixei os olhos e olhei para minha blusa, Bill havia desenhado-a.
Perguntei-me se ele tinha a mínima idéia do quanto me machucava vê-lo naquele estado, meu coração gritava para o dele a perguntar se ele sabia que se ele resolvesse parar de bater o meu também pararia, mas não havia resposta. Meu corpo estava em estado deplorável, aquela altura era carcaça apenas, sem alma, sem nada, pois tudo isso estava em coma junto de meu irmão.
Não agüentava mais ficar ali, sai do hospital as 02h00min da madrugada, sai correndo, e correndo continuei. Corri metros, corri quilômetros, e antes que o cansaço pudesse estancar a dor o sol raiou. Cedo de mais para que eu pudesse suportar tanto brilho quando tudo era escuro, alegre de mais para que meus ouvidos se adaptassem a tantos sorrisos, quando tudo que eu tinha eram lagrimas. Quente de mais para que eu, tão morto, pudesse agüentar.
Caminhei a esmo por alguns instantes, ate que achei um taxi, adentrei o carro e pedi que me levasse ate a minha casa, só percebi o quanto havia corrido quando me sentei no banco de couro do veiculo e senti minhas pernas doerem e meus pulmões arderem. Levei a mão no rosto e enxuguei lagrimas recentes. Mas quando foi que comecei a chorar? Levei 2 horas e 15 minutos para chegar em casa, eram 8:30 quando adentrei a mansão. Por que uma casa daquele tamanho? Tanto dinheiro não traria meu irmão de volta, traria? Eu sabia que não.
Logo meus filhos desceram as escadas correndo, pularam em meus braços e falaram enumeras palavras, mas não escutei nada. Só os sentia, abracei os corpinhos magros e pequenos de meus pequenos grandes tesouros. Foi só quando os abracei que percebi que eu tinha de agüentar firme. Eu precisava de Bill, mas meus filhos precisavam de mim.
_Tudo bem? – minha esposa perguntou, mas ela já sabia a resposta.
Fiz um gesto qualquer com as mãos pedindo que ela se aproximasse, e ficamos os quatro, ao pé da escada juntos, unidos, meus pequenos estavam ali me dando força, minha amada me implorava com os olhos para que eu continuasse. E eu ira persistir, por eles, por Bill e por mim.
Tomei uma ducha rápida comi qualquer coisa antes de voltar ao hospital, Clara quase implorou para que eu dormisse um pouco apenas, mas eu não conseguiria. Meu coração se apertava. Algo iria acontecer.
Para o meu desespero, logo que empurrei a porta do quarto onde meu irmão estava não ouvi o bip continuo, mas apenas um prolongado piiiiiiiiiiiiiiiiii, ainda mais aterrorizante.Aos berros chamei os enfermeiros, Bill não podia ir, não naquela hora, não naquele instante. Eu não resistiria se ele fosse.
Cerca de meia hora depois Bill estava deitado naquela maca com o dobro de aparelhos, havia sofrido uma parada cardíaca. Os enfermeiros saíram do quarto com expressões carregadas de pessimismo, como se alegassem que meu irmão não sobreviveria. Desesperado com essa possibilidade agarrei o corpo de meu irmão, tão pálido, tão mole. E debruçado sobre ele chorei por horas a fio apenas implorando entre sussurros desesperados que ele voltasse para mim.
Notas finais
Beijo de cereja!
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