Notas iniciais
Amores da minha vida, mil perdões pela demora. Depois de algumas - outras - ameaças, finalmente resolvi postar. Esse capítulo, mostra um pouco mais do passado da Manu ^^ Espero que gostem! Próximo capítulo (Se eu não me engano), vocês vão surtar de emoção *-*

Alice correu até mim e me envolveu num forte abraço. Senti meu corpo tremular um pouco, talvez pela surpresa proporcionada. Eu não a havia visto novamente desde o dia seguinte da fatídica noite no bar, anos atrás.

Ela me soltou dos seus braços e se envergonhou um pouco pela atitude. Se eu ainda a conhecia bem, Alice nunca foi dessas de mostrar muito sentimento. Abraços, beijos e declarações como “eu te amo” nunca foram características marcantes na nossa amizade. Era tudo bem implícito e contido.

– Desculpe por isso...

– O que você está fazendo aqui? – Minhas emoções estavam completamente divididas. Claro que parte de mim estava imensamente feliz por vê-la, mas a outra se corroía de ódio por saber que ela me deixou sozinha depois do ocorrido.

– Eu precisava te ver, me sinto muito mal desde tudo aquilo. – Ela mudou sua expressão e não pude deixar de sentir certa compaixão.

– Bem, agora é tarde demais, não acha? – Começamos a caminhar lado a lado nos afastando da escola.

– Não, Manu, eu nunca quis me afastar de você! Minha mãe me obrigou alegando que você era uma péssima influência. Depois que houve aquela discussão entre nós, eu fui obrigada a me mudar pra uma outra cidade e só retornei no início desse ano. Daí pensei em te mandar mensagens mas eu nunca pude deixar claro que era eu, já que a minha vida virou um inferno e minha mãe fica bisbilhotando toda a minha vida, meus amigos, meus telefonemas, minhas mensagens. Ela só aceitou eu voltar para a cidade se caso eu prometesse a ela que jamais voltaria a te ver ou entrar em contato com você. Eu prometi, é claro! Só que eu jamais cumpriria essa promessa porque sinto muito a sua falta. Foi então que pedi um amigo para bloquear meu número, para que você não pudesse responder minhas mensagens e nem tentar me ligar quando eu desse sinal de vida, com medo de que minha mãe viesse a descobrir. – Eu a olhava, incrédula. Afinal, não sabia bem se devia acreditar nessa história. Neste momento, recordei aquela última discussão que tivemos.

* Flashback

Eu estava ainda na cama do hospital e sentia que não havia muitas opções a não ser contar a pouca verdade que me lembrava do dia anterior. Eu tinha matado um homem – isso era algo que eu não podia negar –, mas o motivo para tal ação ainda era desconhecido e eu deveria dizê-lo, embora fosse embaraçoso.

Ouvi um grunhido na porta e olhei diretamente para ela, onde vi Alice e Amanda entrando. Ambas pareciam ter chorado bastante, os olhos inchados não poderiam negar.

– Vocês estão bem? – Perguntei em meio a tom de preocupação.

– O que você foi fazer? Você matou um cara! – Amanda se exaltou. – Qual é o seu problema, Manu?

– Eu não o matei porque estava bêbada, como todos estão pensando que foi. Alice, você estava lá na porta do bar! Você viu o que houve, não viu? – Indaguei a esperança de ter uma confirmação de Alice. Ela apenas balançou a cabeça de um lado para o outro e fitou o chão.

– Eu só a vi matando o cara. Vi você, enfiando algo no pescoço dele! – Ela engasgou com as palavras. – E ele morreu tão rápido, em suas mãos. – Lágrimas brincaram nos meus olhos. Minha única chance de confirmar o que realmente havia acontecido naquela noite tinha ido por água a baixo. Eu imaginei que Alice pudesse afirmar que viu o cara tentando arrancar minhas roupas. Ela seria minha única prova.

– Gente, ele tentou-me...

– Não venha com essa que ele tentou te estuprar, Manuela! – Amanda me interrompeu furiosa. – Você estava tão bêbada que não conseguia discernir nada. – Senti minha face ficando úmida. Nem minhas próprias amigas acreditavam em mim. Uma sensação de pânico percorreu minhas veias, me deixando desesperada. Sentei na cama encarando ambas as garotas.

– Vocês acreditam mesmo que eu matei aquele cara sem motivo?

– Você sempre foi a mais maluca de nós três, Manu.. Lógico que em sã consciência você não faria isso, mas você estava completamente bêbada. – Alice soltou. Ela ainda não conseguia me olhar nos olhos, fazendo meu coração arder.

– Você meteu a gente numa encrenca muito feia! Nossas mães estão “uma fera” conosco... Melhor a gente se afastar, ok? Esperar a poeira abaixar.

– Agora a culpa é toda minha?! – Minha garganta se contorceu ao dizer aquelas palavras. Amanda e Alice foram caminhando para fora do quarto ignorando minha pergunta. Antes que elas tivessem atravessado completamente a porta, Amanda virou-se para mim.

– Por favor, não tente mentir dizendo que ele tentou algo contigo... Vão apenas sentir nojo de você! Não tem ninguém pra confirmar essa sua versão e você só vai se encrencar mais.

Ela saiu do quarto e um ataque de fúria me dominou. Peguei o travesseiro e arremessei o mais forte que podia na porta. Abafei um grito no colchão juntamente com meu choro. Em parte eu sabia que Amanda tinha razão, não havia ninguém para confirmar a minha história; eu seria a única culpada por aquilo durante muito tempo. Eu só não sabia até onde minha vida se transformaria.

*Fim do flashback

– Você nunca acreditou na minha história, então você ainda acha que eu sou a culpada. O que te fez voltar até mim? – Perguntei à Alice, lançando para ela um olhar sincero.

– Eu sempre soube da verdade. – Ela diminuiu o tom de voz, como se envergonhasse de dizer aquilo. Eu simplesmente parei de andar e logo em seguida ela fez o mesmo. – Eu assisti toda a cena do lado de fora do bar, mas eu estava tão bêbada e tão confusa que fiquei com medo de aquilo ser algum truque da minha mente. Eu só fui saber a verdade no dia seguinte quando você confirmou que ele realmente havia tentado... Você sabe... – Uma energia estranha me fez explodir.

– O quê? Você viu tudo? E por que não disse pra mim que sabia? Você podia ter me tirado de toda essa situação... – Gritei.

– Manu, e-eu... – Ela gaguejou tentando me interromper.

– Deixe-me terminar de falar! – Gritei assustando alguns poucos alunos que passavam por ali. — Você viu o que aquele idiota tentou fazer, você viu que eu estava me defendendo. Eu passei oito meses trancada numa reabilitação por algo que eu não fiz. E eu não podia dizer nada, porque eu não tinha ninguém para me apoiar. Amanda ainda disse que todos sentiriam nojo de mim se eu contasse uma história dessas! Ela também sabia? Vocês duas me deixaram sozinha mesmo sabendo da verdade? Por que você fez isso? Você sabia que se a situação fosse inversa, eu jamais ficaria contra você! – Minha respiração não estava nada tranquila e muito menos a dela. Fitei seus olhos e vi que ela se sentia com remorsos e sinceramente arrependida. Por um lado, quase me senti culpada por ralhar com ela desta forma.

– Amanda não sabia... Não contei a ela. Ela nem sabe ainda que estou aqui de volta e nem que voltei a falar contigo. Eu não te disse nada porque eu estava com medo, porque achei que talvez pudesse trazer problemas para minha família. Minha mãe também não havia me deixado contar...

– Espera... A sua mãe sabia? – Massageei as têmporas.

– Eu contei pra ela que aquilo poderia ser verdade, mas ela me proibiu de contar. Afinal, eu estava tão bêbada que não poderia ser considerada uma fonte confiável e talvez até fosse pega por ser cúmplice sua! – Olhei pra ela indignada. – Manu, eu sei! Eu fui egoísta, eu não te ajudei e nem fiquei do seu lado. Grande parte disso foi culpa da minha mãe, mas também sei que foi culpa minha. Mas eu vim aqui para mudar tudo isso, eu sinto tanto remorso por ter feito as coisas dessa forma... Se quiser, eu dou o meu depoimento e acabamos com isso. A única coisa que eu te peço, é a sua amizade de volta. – Balancei a cabeça diversas vezes de um lado para o outro.

– Isso já está encerrado... Eu nunca cheguei a contar a verdade pra ninguém! Nem para os meus pais, nem para minha família e nem para a delegacia. Foram oito meses da minha vida jogados fora. E esses últimos anos, não foram fáceis também. Eu fiquei sozinha passando por uma assassina aqui e em todo lugar. Talvez parte disso também tenha sido minha culpa, já que eu não contei nada a ninguém, mas teria ajudado se eu tivesse apoio pra isso. – Respirei fundo tentando me acalmar. Ficamos encostadas em um muro, na rua, em silêncio durante alguns minutos. Ouvi Alice choramingar diversas vezes, sinal de que talvez ela estivesse realmente sofrendo por ter feito aquilo comigo. Apesar de tudo, eu ainda não me sentia preparada para perdoá-la e voltarmos a ser melhores amigas como se nada tivesse acontecido. – Alice, eu preciso de tempo, ok? Não consigo te perdoar assim, tão de repente. Eu estaria mentindo se dissesse que não senti falta de você e da Amanda, mas agora eu não posso. Não dá! Precisamos conversar mais e em outro lugar de preferência. Só nos duas, para podermos resolver tudo isso. Se é que vamos resolver.

– Tudo bem, eu te entendo! – Ela mordeu o canto da boca.

– Bom, eu vou ir para o colégio. Preciso me dedicar aos estudos e a gente se encontra melhor outro dia!

– Pode ser esse final de semana? No sábado?

– Tudo bem, sábado então. Encontre-me aqui na porta do colégio e daqui nós vamos para outro lugar. – Ela assentiu e eu voltei para o colégio antes que ela pudesse se despedir.

*

– Está tudo bem? – A voz de André me despertou. Eu me encolhi um pouco mais no chão do corredor da biblioteca. Eu tentei disfarçar minhas preocupações com a visita inesperada de Alice, mas aparentemente André sempre sabe o que eu estou sentindo. – Ficou quietinha desde que chegou. – Ele sentou-se do meu lado.

– Ah, é que hoje tem mais pessoas na biblioteca. Fiquei com medo de eles perceberem algo...

– Princesa, essa desculpa duas vezes no mesmo dia? Não cola, não... – Ele comprimiu um pequeno sorriso. – Pode confiar em mim, o que houve? – Desprendi o ar dos pulmões.

– Encontrei a Alice...

– Sua “ex-amiga”? – Ele franziu o cenho. Assenti e alternei meus olhares entre o chão e André.

– Ela era a dona dos sms misteriosos, ela era o número bloqueado.

– Espera, eu não estou entendendo. Como você descobriu isso? – Ele me lançou um olhar confuso.

– Recebi uma mensagem ontem de madrugada, do número bloqueado, marcando um encontro aqui em frente ao colégio. E eu fui.

– E não te ocorreu a idéia de que fosse perigoso? Você devia ter me chamado! E se desse algo errado? Uma armadilha? E se te sequestrassem? – Suas expressões variavam de preocupação a nervosismo.

– Eu sabia que ia agir assim... – Não me dei o trabalho de me defender. Eu sabia que estava errada em ter ido sozinha.

– Olha — ele se acalmou –, o importante é que você está bem. Eu acho que o ponto a se preocupar não é esse então, só não se arrisque mais assim, ok? – Compreensivo como sempre foi.

– Desculpe...

– Tudo bem! Mas, agora me diga o que realmente aconteceu?

Expliquei toda a situação ao André, tudo o que dissemos uma para a outra. Detalhei também o que eu sentia sobre o ocorrido. Por um lado, eu sentia certo alívio por saber que alguém tinha visto tudo e poderia confirmar o que eu fiz; por outro, percebi que o que eu tinha passado desde então, não era só por culpa do meu silêncio e era isso que me deixava irritada.

– Então você chegou a contar a elas o que aconteceu? – André parecia indignado.

– Bem, eu tentei. Mas como elas não acreditaram em mim e nem afirmaram nada, era a mesma coisa de não ter contado a ninguém!

– Princesa, o que elas fizeram foi errado. Muito errado. – Ele me olhou apreensivo. – Mas entenda, elas estavam assustadas e com medo. Vocês eram crianças, com o que? Quatorze anos? E tinham acabado de presenciar um assassinato.

– Você está do lado delas? – Encarei-o descrente.

– Não! – Apressou em dizer. – Elas estão completamente erradas. Não deveriam ter te abandonado e a garota que sabia da história não deveria ter mentido ou omitido tudo. O que eu quero dizer é que você não sabe o que teria acontecido se tivesse sido o contrário. Se fosse você a pessoa que tivesse visto alguma das duas fazendo tal ato. Você nunca vai poder saber como é que teria reagido no lugar delas. – Ele tinha razão em um ponto. Eu nunca iria saber se realmente iria ficar do lado da minha amiga e a defender contra todos. Olhei o chão por alguns segundos e depois voltei os olhos para André.

– Mas eu sempre vou saber como é ser a culpada da história. Como é perder todo mundo e ficar sozinha. E principalmente, eu sempre vou saber qual é a sensação de ter matado alguém. Pode até ser que talvez ele fosse alguém muito ruim e merecesse, mas não é nada bom quando isso acontece pelas suas próprias mãos.

André se aproximou de mim e me abraçou. Um conforto percorreu minha espinha tranquilizando-me. Fechei os olhos e apoiei a cabeça em seu ombro. Tudo o que senti foi paz e alívio, afinal, uma parte daquela noite finalmente estava encerrada.

– Alguns alunos estão nos encarando... – Eu disse quando finalmente abri os olhos e notei algumas caretas em nossa direção.

– Não me importo. Deixa esses “manés” invejarem a minha namorada.

– Eu acho que aqueles dois ali estão é invejando você! – Eu apontei discretamente para dois garotos que sentavam numa mesa próxima ao corredor.

– Fazer o quê? Eu disse que eu era irresistível! E pra todas as espécies! – Soltamos um riso travesso e nos levantamos do chão. – Eu tenho que fingir que trabalho agora... Mas você vai ficar bem?

– Vou sim, aliás já me sinto bem melhor agora.

– Sua boba! Odeio te ver tristinha, me sinto mal. – Ele beijou minha testa. – Eu amo você, tá? – Disse sussurrando. Aquelas palavras fizeram todas as borboletas do meu estomago dançarem valsa. Talvez eu demorasse a me acostumar com ele dizendo isso.

– Eu também te amo! – Corei levemente.


Notas finais
^^ Vocês sabem que o baile promete muita coisa né??? Uau, e coisa que vocês nem imaginam! Quero agradecer a mais um recomendação linda que ganhei *-* Obrigada gente e até o próximo!