Não Estou Com Criatividade Para Títulos...
1 Capítulo 1- Apaixonada por um livro
Notas iniciais
Era uma tarde cinzenta. Lá fora chovia bastante e eu estava sentada sob a janela, lendo um livro, com um short de pijama e meu suéter cinza. Desde a manhã, eu tentava em vão não lembrar daqueles acontecimentos. Já haviam se passado oito meses desde aquele fato, e eu havia criado um bloqueio em minha mente, que me impedia de pensar no assunto. Ou pelo menos impediu até aquela manhã. Pensando nisso, suspirei.
Fechei o livro e fiquei a olhar para a capa. "A dança dos dragões", era o título em alto relevo. Delicadamente, passei a mão sobre as letras, sorrindo e lembrando-me de uma certa tarde, dez meses atrás. Eu lia "A tormenta de espadas" e havia começado a assistir um seriado homólogo ao livro. Acabara de sair de uma prova e estava sentada num banco, ao lado dele, filosofando sobre adaptações cinematográficas de livros e seus defeitos. Eu dizia " o livro é bem melhor que o seriado, por ter os personagens mais perfeitos" e ele apenas ouvia. " é claro que é perfeito. Afinal de contas, é o seu ponto de vista, algo totalmente único. Você pode imaginar os personagens como quiser. E a propósito, os Lannister não são tão filhos da puta assim", ele dissera, sorrindo levianamente, com aquelas covinhas meigas e bochechas enormes que eu adorava apertar, irritando-o. Naqueles dias ainda éramos melhores amigos. Ainda sorríamos, nos xingávamos, brigávamos por qualquer coisa e tentávamos resolver os pequenos problemas uns dos outros. Porém esses dias não existiam mais. A amizade que eu tanto prezara e cultivara estava acabada, e emora eu tivesse criado meus bloqueios, bem no fundo, eu sabia que sentia sua falta.
De repente, meu celular começa a tocar em cima da mesa, me acordando do meu momento Deja-vù. " I kissed a girl, and I liked it..." a voz grave e sedutora de Katy Perry ecoava pela casa, e eu praguejei internamente pela música muito gay que eu havia escolhido. Levantei-me de onde estava e peguei o celular. Era apenas uma mensagem da operadora, avisando que em três dias meus créditos expirariam. Comecei a rir automaticamente, e logo eu estava gargalhando como uma maluca, com minha risada esquisita. Quando me acalmei, tinha lágrimas nos olhos e minha melancolia inicial havia sido substituída por uma felicidade momentânea. Olhei a hora. Já passava das 18:00 e o céu escurecia. A qualquer minuto Annie chegaria e com certeza exigiria algo para comer.
Desde que havia concluído o ensino médio, eu havia ido morar com Annie, minha melhor amiga e a pessoa mais chata da face da terra. Estudávamos na mesma Universidade, porém em cursos diferentes, e enquanto eu havia arrumado um bico na Biblioteca da Unviversidade, ela havia conseguido um bico na secretaria, catalogando documentos dos alunos. Vez ou outra, eu dava uma escapulida da biblioteca e ia até a secretaria, encher o saco dela, e ela me mostrava formulários de alunos com fotos estranhas ou nomes bizarros, e ficávamos rindo e fazendo piadinhas disso. Naquela tarde, eu larguei um pouco mais cedo e ela tinha uma papelada muito grande para organizar, então fui para casa ler meu livro novo e aproveitar meu tempo livre para vegetar até criar raízes.
Respirei fundo e pensei no que fazer para o jantar. De repente, a porta da cozinha abre e Annie entra gritando:
— CHEGUEEEEEEEEEEI QUERIDA! CADÊ A COMIDA? — Olhei-a com uma cara de total desprezo, mas no fim das contas, não pude evitar de sorrir. Aquela imbecil alegrava meus dias e me tirava do sério também.
— Olá, maluca. Espero que tenha trazido comida, porque eu não tô com coragem nenhuma de cozinhar.
— Mas eu já comi, na casa do môr. — Ela falou, com um sorriso idiota na cara, como sempre tinha quando se referia ao namorado. Eu sorri e balancei a cabeça.
— Okay, vou sair pra comprar algo então. — Falei, subindo para o quarto para me vestir decentemente.
— Ah, me traz chocolate? — Os olhinhos dela brilhavam.
— Er... Não? — Falei sorrindo. Tomei um banho e vesti uma calça jeans, uma camiseta azul, e meu all star vermelho. Pus um casaco preto por cima, prendi o cabelo num coque meio desarrumado, pus o celular no bolso e desci as escadas correndo. — JÁ TÔ SAINDO,ANNIE! VOLTO DEPOIS!
— TÁ, TRAZ CHOCOLATE? — Ela gritou, já sentada na frente do computador. Fechei a porta e fui caminhando calmamente pela rua. A essa altura, já havia escurecido e os postes estavam todos acesos. As pessoas caminhavam apressadamente, muitas voltando do trabalho e desejando um voltar para casa, reencontrar a família, tomar um banho e relaxar em frente à TV. Outras aproveitavam a noite, e como em qualquer outra sexta-feira, os bares e restaurantes estavam lotados de pessoas, em sua maioria jovens casais ou gru´pos de amigos, apesar de haver várias famílias por ali também.
Entrei em uma lanchonete que parecia um pouco mais vazia, escolhi um combo de cheeseburguer, batata frita, cookies e um um copo grande de coca-cola. Sentei-me numa mesa próxima à janelae fiquei beliscando as batatas-fritas, enquanto assistia a alguma novela aleatória que passava na televisão. Um grupo de jovens entrou e sentou duas mesas à frente. Eram dois rapazes e três garotas. Não parei para prestar atenção às fisionomias, já que na novela, Antônio Carlos estava numa discussão após ser traído por Dolores Hernandes de alguma coisa. Quando parecia que iria ter pancadaria, uma das garotas da mesa virou e gritou:
— MAAAAAAAARY! — Levei um susto e olhei para trás, achando que não fosse comigo. Como não havia mais ninguém em canto nenhum, concluí que havia sido comigo e olhei para a garota. Baixinha, bochechuda e com um sorriso travesso e infantil. Como eu poderia tê-la esquecido? Ingrid, é claro que eu conhecia aquela nanica! Dei um sorriso idiota e falei:
— Ora, mas se não é Ingrid nanica anã. Está maior que da última vez, quanto mede agora, 1 e 49?
— Você sabe que eu meço 1 e 51, sua imbecil.
— Sei de nada. — Ela se levantou,veio até mim e me apertou num abraço de urso, me sufocando, enquanto eu sorria. Os amigos dela olhavam para mim, e alguns deles eu já conhecia: Ronny, que sorria com suas bochechas enormes, Marianne, que tinha um sobrenome que lembrava marca de pasta de dente, e os outros três eu não conhecia. E no meio deles, um dos garotos me chamou a atenção. Eu não sabia exatamente o porquê, mas não conseguia tirar os olhos dele, foi quando olhei para o livro que ele tinha nas mãos e soube que definitivamente, era amor à primeira vista.
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