Era quase fim de tarde e todos estavam lá, em frente à Estação de Shibuya, como sempre. Shiryu, Shunrei, Shun, Seika e...

Seiya?

Saori pensou, estranhando a presença do rapaz ali. Há anos ele deixou de frequentar os mesmos locais que ela. Parando para pensar, apesar de terem praticamente o mesmo círculo de amigos, eles só se cruzaram uma vez, no casamento de Shiryu e Shunrei, desde aquele traumático término, que acabou com o romance e com a amizade entre os dois.

Foi tudo repentino e estranho. Em uma semana, na festa de aniversário de Shun, Seiya tomou algumas taças de vinho, coisa que ele não era acostumado. Naquele dia, pediu ao DJ que tocasse “Tasogare wo Matazuni”, da dupla Chage and Aska, uma música antiga, mas que era a preferida da herdeira de Kido. Eles dançaram e, em um determinado momento, o rapaz sussurrou o tão esperado “eu te amo” na orelha dela. Ela estava no paraíso para, poucos dias depois, praticamente descer ao inferno com um término por mensagem de texto. Ela passou muito tempo questionando o porquê daquilo, até que desencanou e decidiu seguir sua vida. No casamento dos chineses — a última vez que o viu – usou a desculpa de que seus amigos estavam lindos para explicar a Julian, seu namorado na época, as lágrimas que desceram de seus olhos. Naquele dia, decidiu trancar ele no fundo de sua mente, enterrar aquele sentimento para sempre e seguir sua vida. Seus amigos compreenderam e, a partir de então, nada sobre o irmão de Seika era citado. Até que, próximo do nascimento de Ryuho, Shiryu mandou uma derradeira mensagem a Saori:

“Eu sei que prometemos não falar sobre o Seiya, mas preciso te contar uma coisa. Algo que escondi por anos, mas que não consigo mais”

Shiryu então contou que Seiya terminou com ela por causa de Jabu, seu melhor amigo, que era apaixonado por ela. Na época, o garoto de cabelos dourados andava com eles e chamou Seiya para dizer que iria se afastar devido seus sentimentos, mas que estava feliz por ver a garota que ele amava feliz ao lado de quem ela amava.

Ela demorou um tempo para digerir aquilo, até que compreendeu. Foi um bonito gesto de amizade, que talvez, em algum momento, ela mesma viesse a praticar. Com isso, deu o assunto por encerrado. Entretanto, ao notá-lo afastado do grupo em um encontro que ela não lembrava ao certo quando programou, percebeu que, para ele, ainda era estranho ficar no mesmo ambiente que ela.

A empresária conversava animada com os amigos, até que Seika interrompeu tudo:

—Chega dessa palhaçada, né? – Percebendo que ninguém entendeu nada, ela caminhou até o irmão, pegando-o pela mão e o arrastando até Saori – Eu tô falando de vocês dois! Poxa, eu cansei de acompanhar vocês até esse mesmo parque. Vocês sempre tiveram uma sintonia incrível, fosse como amigos ou como casal! – Inspirou e juntou a mão dos jovens – O negócio é o seguinte: nós vamos comer na Subway, como sempre, mas vocês vão na frente, conversando como os dois amigos que são e sempre foram, beleza? Ótimo, que bom que não ouvi protestos.

E foi para o lado de Shun antes que Seiya e Saori pudessem falar algo. O ex-casal, não vendo outro jeito, deu de ombros e seguiram em passo lento até a lanchonete, conversando sobre diversos assuntos, até que o antigo relacionamento veio à tona:

—Eu... peço desculpas a você, Seiya – ela começou – Eu fui egoísta, caprichosa e, até um pouco, mesquinha em alguns momentos. Fora o tanto de indireta que eu te dei nas redes sociais né? Que mico...

—São águas passadas, Saori-chan. E eu também fui um tanto egoísta e caprichosos, mas éramos dois babacas de 18 e 19 anos, né? A gente comete muita idiotice quando é jovem.

Ele sorriu e a abraçou. Um pouco mais distante, Shiryu, Shunrei, Shun e Seika deram pulos e aplausos silenciosos em comemoração à reconciliação dos dois, mesmo que fosse apenas amizade. Por fim, se aproximaram:

—Finalmente, o “Sexteto do S” voltou as boas! – foi Shun quem falou – Não tinha graça nenhuma ser um quinteto horas com Seiya, horas com Saori. Os passeios no Miyashita ou no Yoyogi só têm graça quando feito em seis.

—Agora chega de falatório, que estou com a fome de dez tigres – Shunrei falou – Acho que hoje encaro um sanduíche de 30 cm!

—Ih, Shiryu – Seika debochou – Tô achando que tem mais um chinesinho vindo aí!

—Ahahaha, tão engraçadinha quanto o irmão – o rapaz de cabelos longos resmungou – eu quero é saber quando você e o Shun vão assumir logo que estão namorando.

—Ah cala essa boca.

Saori e Seiya estavam alheios, ainda conversando durante o pedido do sanduíche:

—Posso te perguntar uma coisa, Saori-chan?

—Claro

—Você ainda tem alguma das coisas que eu te dei?

—Sim – ela ergueu o punho e mostrou a pulseirinha de couro trançada, com um pingente de ouro com o símbolo do signo de virgem – o ursinho de pelúcia eu acabei dando para a Mimiko em um surto do Julian. Acho que você sabe que ficamos juntos uma época – o viu balançar a cabeça em concordância – e você, ainda tem alguma coisa que eu te dei?

—Guardei uma camiseta, mas a pulseira de contas que você comprou no Brasil, a Shina arrebentou quando soube que era um presente seu – riu com uma das mãos atrás da cabeça – Mas eu consegui salvar duas contas e fiz isso aqui – puxou um cordão de dentro da camiseta, onde havia um pingente de cristal ladeado pelas duas sementes de jarina. O Pegasus de pelúcia acabou na mão do Makoto... – hesitou por alguns instantes. Ela pensou que era devido ao lanche estar pronto, porém foi surpreendida por uma pergunta – E teve algum presente que você comprou e não me entregou?

—Bom, eu sei o tanto que você gosta de futebol, né? Consegui uma camiseta do Barcelona autografada pelo elenco todo... mas eu fiquei com tanta raiva daquela mensagem de texto, que joguei ela na lareira. Só depois pensei na burrada que fiz – deu um risinho sem graça – E você, por acaso comprou algo que nunca me entregou?

—Bom, eu comprei seu perfume preferido, ao menos ele era naquela época, o Olympéa... mas aí aconteceu o que aconteceu. Eu até pedi para o Jabu te entregar, mas ele disse que, se eu queria te dar um presente, o fizesse por mim mesmo, pois ele não aceitaria ver seu sorriso de felicidade se tornar choro quando dissesse que o presente era meu.

—Isso realmente teria acontecido

—Eu sei... – ele puxou a mochila para frente e começou a procurar uma coisa. Ela acreditou que era a carteira, até que ele tirou uma caixinha embrulhada em celofane roxo desgastado – Eu acho que já venceu há um tempo, mas você pode guardar de recordação.


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Saori abriu os olhos de uma só vez. Claro que aquilo era um sonho. A jovem suspirou, alisou o lado da cama vazio, pegou o celular e abriu o Facebook. Pesquisou pelo nome do ex-namorado... A foto era a mesma de 8 anos atrás, ele com Akira no colo, será que ele ainda usava aquele perfil? Decidiu arriscar:

“Oi, bom dia. Antes de mais nada, isso não é uma mensagem do tipo ‘oi sumido’. Eu não sou esse tipo de garota kkkkk, enfim... são 5:35 da manhã e eu acabei de sonhar com você. Estávamos com Shiryu, Shunrei, Shun e a sua irmã em frente a estação de Shibuya, mas você estava afastado, até que a Seika fazia a gente conversar como sempre fizemos, enquanto caminhávamos até a Subway. Dentre inúmeros assuntos, eu te pedi desculpas sobre ter sido completamente mesquinha e caprichosa com nosso relacionamento. Eu acabei de perceber que sinto sua falta. Sinto falta do meu amigo, aquele que me enviava e-mails bobos, com o qual fazia pic-nics aleatórios no Yoyogi, que me levava para ver o crepúsculo no pier perto do seu apartamento... Percebi que sinto falta do “Sexteto do S” sendo um sexteto. Bom, é isso. Talvez você ignore essa mensagem, talvez você responda... A única certeza que tenho é que me arrependerei de enviar quando acordar direito. Me perdoe. Tenha uma boa vida”

Ela sentiu frio. A fina camisola de cetim azul não era suficiente para a temperatura do outono japonês. Ela se embolou em seu edredom e tornou a adormecer.

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Setsunai mūdo no naka de tasogare matazuni I Love you (I love you). Tsugi no kābu ga kitanara kisu o kurenai ka ♫*

O despertador trouxe a jovem empresária de volta a realidade. Mesmo sendo a dona da Fundação GRAAD, gostava de chegar cedo ao trabalho, para ver se tudo estava funcionando bem. Mais pontual que ela e seu despertador, apenas Tatsumi trazendo seu café da manhã:

—Posso entrar, senhorita?

—Claro... Eu já acordei.

—Eu ouvi o despertador – falou entrando – Será que algum dia a senhorita vai enjoar dessa música? – O criado atreveu-se a perguntar, apoiando a bandeja na mesinha que havia no quarto, pois Saori nunca foi fã de comer na cama.

—Sabe que eu a coloquei como despertador justamente para isso acontecer? Mas são quase 10 anos acordando com ela.

—Quase dez anos acordando com uma música que têm bem mais de trinta – ele riu.

—Não enche, Tatsumi – ela levantou da cama e estranhou – Você viu a hora que eu vim me deitar ontem?

—Sim. Eu trouxe sua xícara de chá, como todas as noites. Por quê?

—Eu estava com esse mesmo pijama ou estava de camisola?

—De pijama mesmo. Estava reclamando da noite fria.

—Ah, é verdade... – abanou com as mãos – Pode sair. Logo mais desço para irmos à Fundação.

Ele apenas a reverenciou e saiu fechando a porta do quarto. Foi um sonho dentro de um sonho, porém algo fez o sangue dela gelar. Pegou o celular e inspirou profundamente antes de desbloquear e ver que a mensagem já havia sido entregue, impossibilitando-a assim de apagá-la:

—Ah, eu odeio minha capacidade de ter sonhos conscientes... e só uma virginiana mesmo para escrever uma mensagem com a gramática e pontuação perfeita, mesmo estando sonâmbula – deu de ombros – Não dá mais pra voltar atrás, né? O jeito é aguardar cenas do próximo capítulo.

Três dias depois, Saori tinha acabado de sair de uma longa reunião, quando tirou o celular do silencioso e ele notificou uma nova mensagem. Ela resolveu ir a cafeteria dentro do prédio da empresa para ler tranquila – não apenas aquela, como todas as outras mensagens que recebeu. Já estava sentada com uma xícara de café com leite, quando viu que Seiya havia respondido:

“Oi Saori-chan, como vai? Desculpa a demora, quase não olho o Facebook. Quanto ao que aconteceu conosco, acho que eu também fui bem egoísta e não levei seu pensamento em consideração, mas são águas passadas, vida que segue. A gente é meio imbecil quando tem 19 anos, né? Como você está? Eu estou nos Estados Unidos, agora. Estudo gastronomia e trabalho em um Sushibar, é como chamam os restaurantes de comida japonesa aqui”

A partir desse momento, tudo voltou a ser como sempre foi entre os dois. Oito anos foram meros oito dias, um período sem internet, por assim dizer. O primeiro bom dia de Saori era de Seiya e o último boa noite de Seiya era de Saori. O fuso horário não era um empecilho para que eles conversassem como sempre conversaram. A única diferença era que trocaram o e-mail pelo WhatsApp. Apesar disso, a herdeira de Kido tinha os pés firmes no chão:

—Eu não vou sonhar com um romance. Não tenho mais idade para isso. Parei de pensar em contos de fadas aos 15 anos. Porém não nego meus sentimentos. Eu o amo... E nunca deixei de amá-lo – repetia para si mesma, encarando o celular – Só que, mais uma vez, suspirarei em silêncio, pois não quero, novamente, perder um amor e, principalmente, perder um amigo.

Notas finais
*"De mau humor, esperando o crepúsculo, eu te amo (eu te amo). Se a próxima curva vier podes dar-me um beijo"

O trecho é da música Tasogare wo Matazuni. Sim, ela é antiga pra caramba, mas eu simplesmente amo essa música e decidi usá-la. A referencia a ela também está na sinopse (A curva do S) e no fato do grupo de amigos ser composto por seis pessoas cujo os nomes que começam com a letra S (Alguém sabe o porque do Kurumada ter uma aparente obsessão por essa letra? Deuses, o S da discórdia também está presente em Saint Seiya e eu nunca percebi isso...)
Link do MV para quem quiser assistir https://www.youtube.com/watch?v=QbQeqVVHG2U

Espero que tenham gostado.
Dulces Besos de Chocolate
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!