Não Escolhi Amar Ele
18 Capítulo 18 - Tortura
Lucas
No momento eu travei. Toda a sensação de alivio que eu já tinha conquistado foi embora. Somente o desespero, o pânico, a insegurança tomava conta de mim.
— Entra e fecha a porta. – Disse ela olhando pra mim.
— Mãe, posso explicar. – Retruquei após me sentar ao seu lado.
— Ótimo, comece então!
Eu não sabia por onde começar, eu não sabia o que falar, como agir. Fui pego desprevenido e em flagrante.
— Vamos Lucas, fale alguma coisa.
— Desculpa mãe. Eu não sei como dizer...
— Dizer o que? Que está se esfregando com seu melhor amigo? Dizer que nos enganou a vida toda? Dizer que você é gay? Por favor filho, me explica, por que não estou entendo. – Uma lagrima escorre em seu rosto.
— Mãe, por favor me perdoe. Eu não escolhi amar ele.
— Amor Lucas!? Você acha que isso é amor? Toma vergonha na sua cara rapaz. – Se exalta elevando drasticamente o tom de sua voz.
— Calma. Por favor. Te imploro mãe. Por Favor
— Não venha me pedir calma, seu delinquente. – O rosto dela já estava todo encharcado por causa do choro. Meu pai após ouvir o escândalo veio correndo para o quarto. Não onde ficou a parte de “ele não precisa saber de nada agora”.
— O que está acontecendo? – Interroga ele após escancarar a porta.
Eu já não estava nem com vontade de viver. Ver minha mãe chorando, chocada, em estado de pura raiva me deixou muito abalado.
— Deixe que seu filho te explica. – Diz ela ainda em prantos
— O que você fez Lucas? Por que sua mãe está chorando desta forma?
— Pai. Foi apenas uma confusão atoa. Eu fiz besteiras e vou concertar.
Minha mãe começa a dar risadas sarcásticas e então diz:
— Espero mesmo que você tome é vergonha na cara, ficar se agarrando com outro homem.
Meu pai ao ouvir essa frase ficou pasmo, Abraçou minha mãe levantando-a da cama e olhou para mim com olhos de desgosto.
— Calma amor, irei conversar com ele depois. Agora você precisa se acalmar.
— Como posso ficar calma sabendo de uma desgraça dessa? Como terei paz de agora em diante? A família toda irá rir da nossa cara. O único filho que tivemos é uma desgraça de homossexual.
Ouvir aquelas palavras partiu meu coração, me deixou totalmente sem esperança alguma. O preconceito e a raiva que ela estava expressando. Estava me matando, me deixando humilhado. Um choro torrencial começou a escorrer em meu rosto e o soluço começou a brotar desenfreadamente.
— Desculpa pai, desculpa. Por favor! – Supliquei dentre as lagrimas de dor que meu coração sentia.
Na minha mente eu só pensava em uma coisa: ‘Parar com todo esse fogo de palha’. A pressão da minha mãe começou a cair, ela foi ficando pálida quase transparente e meu pai tirou ela do quarto. Deu as costas para mim como se eu não fosse ninguém.
Eu não conseguia controlar meu desespero, não conseguia parar de chorar. Amo o Dani, mas também amo meus pais. Não posso ser o desgosto da vida deles. Não posso ver minha mãe sofrendo por minha culpa. Abracei meu travesseiro e chorei. Em poucos instantes havia uma poça salgada criada pelas lagrimas.
Demorei muito para pegar no sono, e por conta do horário em que dormi, quando acordei já era quase meio dia. Andei por toda a casa mas não tinha ninguém. Meu pai estrava trabalhando, mas minha mãe eu não sei. Liguei meu celular que estava sem bateria e começou a chegar dezenas de mensagens avisando que o Daniel havia ligado.
Deixei o aparelho no carregado e fui tomar um banho para despertar melhor. De dentro do banheiro e com o chuveiro ligado, escuto várias palmas e gritos me chamando lá da rua. Rapidamente me enrolei na toalha e fui até o interfone ver quem era.
— Quem é? Pergunto curiosamente
— É o Daniel. Precisamos conversar por favor!
Eu fiquei alguns segundos em silêncio pois não sabia o que fazer. Soltei o botão do Interfone, encostei a cabeça na parede e fiquei cabisbaixo. O barulho da campainha me assustou e então eu mandei com ele entrasse. Apertei o botão que abre o portão e fui até meu quarto me vestir.
Abri a gaveta de cuecas, e estava uma bagunça. Antes que eu pudesse coloca-la, Daniel entra pela porta do quarto me vendo somente de toalha. Ele deu uma paradinha na porta e ficou me olhando com admiração. Em seguida veio até mim e me agarrou. Um verdadeiro abraço de urso, me deixando sem reação alguma.
— Me Desculpa amor! – Disse sussurrando em meu ouvido. – Eu não devia ter ficado com ciúmes bobo de você.
Meu pensamento voou longe quando meus ouvidos absorveram essas palavras doces. ‘ ”amor” sério que ele me chamou assim? ’. Mas não posso me esquecer do real motivo de permitir sua entrada aqui hoje.
— Calma! – tirei as mãos dele de cima de mim e me afastei.
— O que foi? – Perguntou assustado.
— O negócio é o seguinte. Já deu o que tinha que dar entre eu e você!
— Poxa cara, por favor me perdoa? Eu não fiz por querer. – Sua voz entrava na minha mente e abalava meu coração. Mas eu continuei com minha promessa!
— Não é culpa sua cara. Eu apenas não quero ter mais nada com você! – Virei de costas e me vesti.
Meu coração estava dando berros de dor, minha mente estava dizendo que era o correto. E eu... ah eu estava me destruindo por completo. Segurando as lagrimas, tentando ser forte.
— Lucas, não brinca comigo cara! Eu sei que você também me ama.
— Eu não te amo. Você está louco?
— Se você realmente não me ama, olhe em meus olhos me diga isso. – Disse ele começando a chorar.
— Daniel, eu nunca te amei. O que tivemos não passou de uma experiência desagradável para mim.
Ele olhou fixamente para mim enquanto tentava enxugar suas lagrimas e então saiu correndo sem ao menos se despedir. Bateu a porta do meu quarto com muita força, aparentemente insinuando para que eu não fosse atrás dele.
E lá se foi minha verdadeira felicidade, dizem que se a pessoa realmente te ama, ela irá voltar. Mas nesse caso, talvez seja melhor que não volte mais... Por dentro eu não estava mais aguentando segurar tanta magoa, tanta tristeza, tanto ódio de mim mesmo! Mais uma vez. Desabei em prantos sobre meu travesseiro.
— O que aquele moleque fazia aqui? – Pergunta minha mãe, parada na entrada do meu quarto.
— Não se preocupa, a senhora nunca mais irá vê-lo novamente. Como você havia dito, isso foi apenas um “fogo de palha”
— Assim espero, acabei de topar com ele no portão. E o mal educado nem se quer olhou para mim. Garoto nojento!
Ouvir ela difamando a pessoa que eu amo só me deixou pior. Não aguentei ao menos imaginar a presença dela ali comigo e então pedi para que saísse.
— Por favor, pode me deixar sozinho?
Então fechou a porta do quarto e eu fiquei remoendo tudo o que tinha acabado de fazer. Meu pensamento em vez de ajudar, só me deixou ainda mais confuso. ‘ Eram amigos, verdadeiros amigos. Agora, não são mais nada, não passam de simples conhecidos. Tudo isso por causa de uma besteira, uma confusão causada por vocês mesmo! ’
Essa frase impregnou-se em minha mente, e fez eu perceber que havia perdido a pessoa mais importante da minha vida. Talvez a pessoa que me mostrasse o que era ser feliz de verdade. E por falar em felicidade, lembrei de alguns dias com ele. Alguns flashbacks na verdade. ‘ Realmente era me fazia sorrir, apenas abrindo sua boca para me desejar bom dia. Ou segurando minha mão enquanto estávamos no ponto de ônibus. Ah e aquele que ele me jogou no sofá de casa e ficou me beijando... até que a Bruxa Melissa apareceu. ‘
São boas lembranças...
De-repente me assusto com o celular vibrando em cima da escrivaninha. Vou até lá e vejo que é uma ligação da Fernanda.
— Alô.
— Oi Primo, estou ligando por que fiquei preocupada com você ontem.
— Ah sim, está tudo bem. Não precisa se preocupar.
— Lucas, não mente pra mim, eu conheço seu tom de voz e esse que você demonstrou não é nada agradável. Por favor me conta como foi? Oque ela te disse?
— Ai Fer. Não foi nada fácil, minha mãe chorou muito. Me xingou de tudo quanto é nome ruim que existe e depois veio meu pai, me olhando com aquela cara de desprezo.
— Nossa nego. Não fica triste não, logo eles se acostumam, dê tempo para eles “digerirem” toda essa bagunça.
— Não! Eu já me decidi. Não vou nunca mais ficar com meninos. O que eu fiz foi completamente imaturo, isso é coisa que criança de 13 anos faz. Curiosidade idiota! Esse é o nome correto para justificar minha atitude.
— Meu lindo, para de se torturar. Eu sei que foi muito mais que isso, eu vi em seus olhos. Você estava feliz!
— Fernanda. Para vai!
— Tá bom então Lucas, faz o que você quiser. Mas lembre-se seus pais já viveram suas vidas agora cabe a você viver a sua própria e então encontrar a felicidade.
Depois disso ela desligou sem nem mesmo se despedir. Será que ficou brava comigo? Ah foda-se a vida é minha. E eu já me decidi.
Daniel
Depois de ficar horas deitado em minha cama, pensando nas palavras que o Lucas me disse, finalmente resolvi levantar e comer alguma coisa. Eu contei tudo para minha mãe, naquele momento ela estava sendo minha melhor amiga. E suas palavras foram inspiradoras ‘ Filho, há males que vem para nosso bem’. Realmente, posso estar sofrendo agora, mas talvez seja melhor assim.
Fui até a cozinha depois de lavar meu rosto, e comecei a preparar cereal para comer com leite. Ouço alguém chamando no portão por meu nome, uma voz de menina. Mas... que menina?
Minha mãe foi até lá atender e então aparece dentro de casa com a Nanda. Prima do Lucas. Fiquei muito surpreso, pois não imaginava que ela soubesse onde eu moro.
— Oi Daniel, me desculpa aparecer assim de-repente e sem avisar, mas precisamos conversar!
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