Quando o estresse da mudança passou, restou o peso da vida adulta oficialmente começando. Não me entenda mal, eu me sentia realizada com a compra bem-sucedida do apartamento, ainda mais por ter alcançado esse sonho fazendo o que sempre gostei — e conseguindo tornar isso rentável. As lives e o conteúdo de jogos que eu criava para a internet haviam estourado alguns anos antes, mas esperei até ter certeza de que meus investimentos não me deixariam na mão para, só então, deixar a casa do meu pai no interior do estado e me mudar para Seattle.


A alegria pela conquista só não era maior do que a sensação de liberdade que eu sentia sempre que encarava a vista do apartamento. Uma relíquia entre tudo o que eu havia conquistado, capaz de me arrancar, sem esforço, um suspiro satisfeito sempre que o pôr do sol tomava o céu. Assistir à noite cair sobre a cidade era um momento de reflexão e relaxamento — essencial para colocar minha cabeça no lugar antes do tormento começar.


Tomei um gole do café sem açúcar na minha caneca de O Senhor dos Anéis, encarando o crepúsculo no horizonte enquanto ouvia os primeiros barulhos vindos do andar de cima.


Era sempre difícil distingui-los e, depois de um tempo, eu simplesmente parei de tentar entender o que acontecia lá em cima. Ainda assim, os horários se repetiam quase sem nenhuma variação, o que obviamente chamou minha atenção. Só não chamou mais do que a aparência do homem que morava lá — sozinho.


Ele era lindo, para dizer o mínimo, mas igualmente esquisito. O olhar vítreo, as íris douradas, a pele pálida e a voz grave fizeram meu coração disparar desde a primeira vez que o vi no hall de entrada do prédio: ele saía apressado, usando um sobretudo preto chiquérrimo; eu entrava, molhada de chuva da cabeça aos pés, com as compras do mercado nos braços depois que as sacolas rasgaram no caminho.


Seus olhos me fitaram com tanta intensidade que senti o mundo desacelerar ao redor nos poucos segundos em que nos cruzamos. Era como se ele me folheasse como um livro, tentando ler algo além do que eu mostrava — como se quisesse acessar minha alma. O arrepio que percorreu minha espinha veio acompanhado de um aperto incômodo na boca do estômago.


No dia seguinte, perguntei ao porteiro quem era o homem que morava no apartamento acima do meu. Desde então, Edward Cullen se tornou minha obsessão secreta, aquela que eu experimentava com um prazer culposo e que, aos poucos, passou a ocupar meus pensamentos sempre que eu não estava em live.


Pesquisei tudo o que pude sobre ele e me frustrei ao perceber que as buscas não levavam a nada relevante. Edward Cullen era um fantasma: não tinha vida online, nenhuma menção pública, nenhuma foto. Aquela ausência absoluta só alimentava minha curiosidade — e o desejo de descobrir qualquer coisa que me ajudasse a elaborar uma vingança.


Mas não havia nada. Nenhuma ex escondendo um passado sombrio, nenhuma ficha criminal, nenhuma dívida, nenhuma citação suspeita em fóruns de moradores da cidade. Nada.


A frustração era tão amarga quanto o café que eu bebia para me manter acordada por mais tempo. Havia duas noites que, além de ouvir os barulhos vindos do apartamento superior, eu também os anotava.


Os ruídos surgiam sempre depois que o sol desaparecia por completo. Não importava se o dia fora claro ou cinzento; a rotina se mantinha intacta. Passos atravessavam o teto acima da minha sala com uma cadência precisa demais para serem casuais. Firmes. Regulares. Nem apressados, nem arrastados. Repetiam o mesmo trajeto, no mesmo ritmo, e os intervalos entre um som e outro passaram a ser cronometrados no meu celular antes mesmo que eu percebesse que aquilo havia se tornado necessário.


O que me perturbava não era exatamente o barulho, mas o vazio ao redor dele. Nunca ouvi água correndo pelo encanamento. Nenhuma televisão ligada. Nenhum telefone. Nenhuma outra voz. Tampouco a porta do apartamento abrindo ou fechando. Nenhuma visita. Nenhuma variação. O homem do andar de cima parecia existir apenas dentro daqueles passos noturnos, restrito ao espaço exato que se estendia sobre o meu teto.


Tentei racionalizar. Insônia crônica, talvez. Algum trabalho remoto em horário alternativo. Exercícios. Uma esteira explicaria a repetição quase geométrica do percurso. Qualquer hipótese servia, desde que coubesse dentro do plausível.


Passei a observar também os horários. Havia uma constância incômoda, minutos que se repetiam com variação mínima, obedecendo a uma lógica que eu não conseguia desmontar. E, todas as noites, pouco antes da meia-noite, o silêncio descia sobre o apartamento acima do meu com uma brusquidão desconcertante. Não diminuía aos poucos. Simplesmente cessava.


Foi nesse ponto que a irritação deu lugar a algo mais difícil de nomear. Enquanto eu acreditava estar mapeando os hábitos do meu vizinho, crescia a sensação de que aquele padrão não era apenas rotina.


Ainda assim, naquela noite, repeti o ritual. Café forte, caderno aberto, caneta alinhada à margem da página. Sentei-me à mesa feito quem espera a confirmação de uma teoria.


Às 18h06, os barulhos começaram, como de costume, mas, misteriosamente, cessaram antes das 18h30. Fiquei longos minutos imóvel, em completo silêncio, tentando captar qualquer indício de movimentação no andar de cima. Nada.


— Excelente, senhor vizinho. Tenho uma live às oito e seria péssimo precisar aguentar seus “efeitos especiais” de novo. — Vociferei, atirando o caderno sobre a cama.


Eu estaria mentindo se dissesse que não fiquei decepcionada com a repentina mudança de hábitos do Sr. Cullen. Odiava admitir, até para mim mesma, que observar e registrar aqueles barulhos estranhos havia se tornado um passatempo instigante. Minha criança interior se sentia dentro de um conto de Arthur Conan Doyle, ávida por desvendar mistérios e fazer descobertas grandiosas, à altura de Sherlock Holmes. Por isso, o silêncio daquela noite caiu sobre mim como um balde de água fria.


Perto das 19h, não ouvi mais nenhum ruído suspeito e decidi começar a me preparar para a live que havia programado para atravessar a madrugada. O jogo da vez era um terror em primeira pessoa, ainda em acesso antecipado, e muitos inscritos do meu canal estavam ansiosos para acompanhar tudo em primeira mão.


Tomei um banho demorado e tentei relaxar usando meus produtos favoritos, deixando que o vapor quente aliviasse a tensão acumulada do dia. Vesti um pijama confortável, organizei a mesa de transmissão e ajustei câmera e microfone com a precisão de sempre. Pedi delivery — não estava com ânimo para cozinhar naquela noite, apesar de ser algo que normalmente me trazia prazer.


Vinte minutos depois de finalizar o pedido, a campainha tocou.


— Já vai!


Calcei as pantufas e fui até a porta. Ao abri-la, não havia ninguém no corredor. O saco marrom com o balde de frango frito repousava sozinho sobre o capacho, ainda quente.


Inclinei o corpo para fora, olhando para os dois lados. O elevador permanecia fechado, as luzes estáticas, nenhum som de passos se afastando.


Franzi a testa, mas peguei a sacola. O pagamento havia sido feito pelo aplicativo, era sexta-feira, e entregadores costumam acumular corridas nesse horário. Repeti essa explicação mentalmente enquanto entrava e fechava a porta com cuidado — cuidado demais, talvez, para alguém que insistia em tratar a situação como banal.


O ruído surgiu no instante exato em que a fechadura girou.


Não parecia vir da madeira, nem do mecanismo da porta. Soou do lado de fora, próximo o suficiente para fazer meu corpo enrijecer antes que qualquer pensamento coerente se formasse: um som breve, seco, difícil de classificar, que poderia ter sido algo roçando a superfície, um passo contido ou um objeto tocando o chão com força mínima.


Permaneci parada, a mão ainda apoiada na maçaneta, contando os segundos na esperança de que o corredor oferecesse alguma continuidade ao que eu ouvira. Nada aconteceu. O silêncio voltou a ocupar o espaço com uma naturalidade quase provocativa, e foi essa normalidade repentina que me inquietou mais do que o próprio ruído.


O som da minha própria respiração começou a se destacar no silêncio do apartamento, alto demais, irregular demais. Um suor frio se acumulou na minha nuca, escorrendo devagar pela coluna, enquanto eu engolia a saliva com dificuldade e apertava a maçaneta com uma das mãos, amassando o saco de papel do delivery com a outra, força desnecessária que só denunciava o quanto eu estava tensa.


Abri a porta de uma vez, num movimento único e precipitado, movida mais pelo impulso do que pela coragem — e o grito escapou antes que eu pudesse contê-lo.


Edward Cullen estava parado do lado de fora.


Impassível. Como se estivesse me esperando.


O susto me fez cambalear para trás, e por pouco o balde de frango não foi ao chão, equilibrando-se de maneira precária entre meus dedos trêmulos.


— Porra! Você não cansa de ser esquisito, Cullen?! — disparei, tentando recuperar algum resquício de dignidade. — Qual é a sua, hein? Veio finalmente se desculpar por ser um cuzão?


Ele não pareceu minimamente afetado pelo meu ataque.


— Isabella, certo?


Meu coração falhou numa batida, tropeçando no próprio ritmo. Ouvir meu nome na voz dele — grave, baixa, controlada — provocou um arrepio involuntário que percorreu minha pele com intimidade indevida. Engoli em seco outra vez e apenas assenti, odiando o quanto meu corpo reagia antes da minha razão.


— Peço desculpas por aparecer assim, só…


Enquanto falava, ele inclinou levemente o rosto e lançou um olhar para dentro do meu apartamento, examinando o espaço atrás de mim com descarada naturalidade. Não tentou disfarçar. Aquilo me irritou instantaneamente.


— O que foi? — rebati, movendo-me sutilmente para bloquear a visão. — Eu não vou convidar você para entrar, se é isso que está esperando.


Para minha surpresa, Edward riu. Não foi alto nem espalhafatoso; foi breve, quase contido, mas suficiente para revelar dentes brancos e perfeitamente alinhados. O som era agradável demais para alguém que claramente estava se divertindo às minhas custas, e isso me deixou ainda mais irritada.


— Seria sua maior perdição, se o fizesse — respondeu, retirando uma das mãos do bolso do sobretudo preto para passá-la pelos cabelos dourados, num gesto displicente que parecia ensaiado pela própria arrogância. — Vim apenas checar se está tudo bem.


— E por que não estaria?


A pergunta saiu firme, mas a verdade é que eu temi a resposta antes mesmo que ele abrisse a boca.


— Porque você tem cheiro de quem atrai problemas.


Ele inspirou o ar de maneira quase imperceptível, como se confirmasse a própria teoria, e voltou a sorrir.


O silêncio que se instalou entre nós não foi constrangedor; foi denso. Ele permanecia imóvel na soleira, ocupando o espaço com uma confiança desconcertante, enquanto eu lutava para ignorar o quanto sua presença desorganizava meu equilíbrio.


— Tenha uma boa noite, Srta. Swan — disse por fim, a voz novamente controlada. — Tentarei não atrapalhar seu trabalho com meus barulhos desagradáveis.


Eu estava tão afetada que mal esperei que terminasse. Bati a porta com força demais, o impacto reverberando pela madeira e pelos meus nervos. Minhas mãos tremiam quando girei a chave e acionei as travas extras, uma após a outra, como se o excesso de metal pudesse compensar a sensação de vulnerabilidade que ele deixara para trás.


— Que psicopata — murmurei, afastando-me aos tropeços, sentindo as pernas tão instáveis quanto meus pensamentos. — “Cheiro de quem atrai problemas”? Que porra é essa?


Fiquei parada por alguns segundos, tentando regular a respiração, mas a verdade incômoda se insinuava na minha mente: o ruído no corredor não parecia mais tão aleatório.


Demorei mais do que deveria para voltar à mesa de transmissão. Larguei o balde de frango sobre o balcão da cozinha sem sequer abri-lo e fui direto para o quarto, onde a iluminação já estava preparada, a câmera posicionada no ângulo habitual e o computador exibindo a tela de “Aguardando transmissão”.


Sentei na cadeira gamer e permaneci alguns segundos imóvel, encarando meu próprio reflexo no preview da câmera. Eu parecia normal. Um pouco pálida, talvez. O cabelo ainda levemente úmido do banho. Nada que denunciasse que meu coração continuava acelerado ou que cada estalo do prédio agora soava suspeito demais.


Respirei fundo, ajustei o microfone e forcei um sorriso treinado.


Cliquei em Iniciar transmissão.


A contagem regressiva apareceu na tela, três, dois, um… e lá estava eu, ao vivo para centenas de pessoas esperando por sustos virtuais, sem imaginar que eu já tinha levado o meu.


— Boa noite, chat… — comecei, a voz levemente mais baixa do que o habitual. Limpei a garganta e tentei de novo, mais animada. — Boa noite, meus corajosos! Hoje a gente vai testar aquele terror em primeira pessoa que saiu em acesso antecipado. Prometo que não vou gritar… muito.


As mensagens começaram a subir rapidamente no canto da tela.


“ELA TÁ ESTRANHA OU É IMPRESSÃO MINHA?”

“Tá tudo bem?”

“Cara de quem viu fantasma”

“Bella, você tá branca!”


Forcei uma risada curta.


— Gente, eu sempre fico branca em luz fria, vocês sabem disso.


Outra mensagem piscou.


“Teve barulho aí atrás?”


Meu estômago se contraiu. Por um segundo, achei que fosse paranoia coletiva, mas o chat começou a repetir.


“Eu ouvi também.”

“Som de batida?”

“Parece que alguém mexeu na sua porta.”


Virei levemente o rosto, olhando para trás de mim. A porta do quarto estava fechada. Nenhum movimento. Nenhum som.


— Vocês estão muito sugestionáveis hoje — respondi, tentando soar divertida. — O jogo nem começou ainda.


Cliquei em “Novo Jogo”. A tela escureceu, revelando o personagem acordando em um apartamento vazio, com ruídos distantes ecoando pelos corredores do prédio fictício.


Meu maxilar tensionou.


O áudio do jogo reproduziu um arrastar abafado, quase idêntico ao que eu ouvira minutos antes do lado de fora da minha porta.


O chat explodiu.


“MEU DEUS, FOI IGUAL!”

“Não foi do jogo”

“Isso foi antes do loading”

“Bella, olha atrás de você!”


Senti o sangue escoar do meu rosto, mas mantive os olhos fixos no monitor. Se eu olhasse de novo, estaria admitindo que estava com medo.


E eu me recusava a dar essa satisfação — ao chat, ao jogo ou ao homem de sobretudo preto que morava alguns metros acima de mim.


— Relaxem — murmurei, mesmo que ninguém ali parecesse relaxado. — É só coincidência.


Mas, enquanto o personagem na tela caminhava por um corredor escuro, tive a nítida sensação de que aquela noite não seria apenas entretenimento.


O jogo prosseguiu, apesar do desconforto que ainda reverberava sob a minha pele. Ignorei as mensagens mais alarmistas do chat e passei a me concentrar na jogatina, agarrando-me à lógica simples de que ali tudo era programado, previsível, controlado. O medo pertencia à tela, aos gráficos renderizados, aos corredores digitais que existiam apenas em linhas de código. São só pixels, repeti mentalmente, tentando convencer a mim mesma de que aquilo bastava. Pixels não atravessam portas. Pixels não respiram do lado de fora do seu apartamento.


Foi então que tudo apagou.


A mudança foi tão abrupta que levei um segundo inteiro para compreender o que havia acontecido. A iluminação do quarto morreu de uma vez, a tela perdeu o brilho intenso e mergulhou numa penumbra azulada. O computador permaneceu ligado graças ao nobreak, que emitiu um bip agudo e contínuo, irritante, enquanto o ícone da conexão desaparecia do canto da tela. A transmissão caiu.


— Merda!


A palavra escapou carregada de frustração, mas não era apenas a live interrompida que me incomodava. Era a coincidência. Era o momento.


Tateei a mesa em busca do celular, certa de que o havia deixado ao lado do teclado, como sempre fazia. Meus dedos tocaram o mouse, o copo d’água, o apoio do microfone — mas não encontraram o aparelho. Inclinei-me para frente, depois para os lados, afastando objetos, sentindo o ritmo do meu coração acelerar outra vez.


Eu tinha certeza de que o deixara ali.


Levantei da cadeira com cuidado, como se um movimento brusco pudesse ativar algo invisível ao meu redor. O apartamento estava mergulhado numa escuridão quase total, exceto pela luz fraca do monitor sustentado pelo nobreak. Sem a energia, os sons habituais cessaram por completo: nada de geladeira vibrando ao fundo, nenhum zumbido elétrico, nenhum ruído distante de televisão em outro apartamento. O silêncio deixou de ser pano de fundo e passou a ocupar o centro da cena.


Era um silêncio espesso, que pressionava os ouvidos.


Fiquei parada por alguns segundos, forçando a audição, tentando captar qualquer indício de movimento no corredor ou no andar de cima. A ausência de som, no entanto, parecia calculada, extensa demais para ser natural, e foi justamente essa falta que alimentou o pânico crescente, lento e sufocante, espalhando-se pelo meu peito como uma certeza indesejada de que eu não estava tão sozinha quanto deveria estar.


E, naquele instante, a lembrança do celular fora do lugar pesou mais do que a queda de energia.


Continuei imóvel no meio do quarto, forçando a visão a se ajustar à penumbra azulada do monitor. Meu cérebro tentava organizar explicações racionais para o celular fora do lugar — talvez eu o tivesse levado para a cozinha quando fui pegar o delivery, talvez tivesse deixado no banheiro antes do banho, talvez estivesse apenas caído atrás da mesa. Pequenos descuidos acontecem. Nada além disso.


— Você não tem medo do escuro desde os dez anos de idade, Bella — murmurei para mim mesma, tentando sustentar a própria lógica.


Comecei a caminhar em direção à porta do quarto, tomando cuidado para não esbarrar nos móveis nem tropeçar no tapete. A cada passo, o desconforto crescia, e a ideia de que Edward Cullen estivesse brincando comigo deixava de parecer exagero para se tornar hipótese plausível demais.


— Isso não tem graça nenhuma, Edward! — gritei ao atravessar o corredor e alcançar a sala. — Eu vou chamar a polícia e prestar queixa contra você!


A ameaça soou mais frágil do que eu gostaria.


O silêncio que se seguiu foi absoluto.


Então veio a vibração, curta, contida e impossível de ignorar.


O som ecoou abafado, distante o suficiente para me obrigar a girar lentamente o rosto na direção da cozinha. Reconheci o padrão: duas vibrações rápidas, uma pausa, mais uma. Notificação de mensagem.


Engoli em seco, tentando lembrar quando, exatamente, eu teria deixado o celular tão longe. A lembrança não veio. Em vez dela, surgiu a imagem mental da porta fechada, das travas acionadas, do corredor vazio segundos antes.


A vibração repetiu-se.


Dessa vez soou mais nítida, vindo sem dúvida alguma da cozinha.


Cada passo que dei naquela direção foi calculado, cuidadoso demais para alguém que dizia não ter medo do escuro. O apartamento, privado da energia e dos ruídos habituais, parecia maior do que realmente era, e a ausência de qualquer outro som fazia a vibração do celular assumir proporções quase indevidas dentro do silêncio.


Quando alcancei a cozinha, forcei os olhos na escuridão até que distingui o brilho suave do visor do meu smartphone. O alívio que quase senti morreu no mesmo instante, porque o aparelho não estava apoiado na bancada.


Ele estava na mão de alguém.


A máscara preta ocultava completamente o rosto, absorvendo a pouca luz que vinha da tela, mas a silhueta deixava claro que se tratava de um homem alto — pelo menos um metro e oitenta — com ombros largos o suficiente para bloquear parte da passagem. Vestia roupas escuras que o faziam se fundir ao ambiente, transformando-o numa presença sólida e silenciosa no meio da minha própria cozinha.


Na outra mão, segurava uma das minhas facas.


Reconheci o cabo imediatamente. Era a que eu usava para cortar legumes, a que ficava sempre no suporte magnético ao lado do fogão. A lâmina refletia um fio pálido da luz do celular, revelando que ele a mantinha firme, não como quem ameaça de forma teatral, mas como quem sabe exatamente para que serve.


Meu corpo reagiu antes da minha mente. O ar ficou preso na garganta, meus dedos se contraíram inutilmente ao lado do corpo, e por um segundo absurdo pensei que aquilo ainda pudesse ser parte do jogo, uma sobreposição cruel entre realidade e ficção.


Mas o cheiro não era digital. A presença dele também não.


Ele inclinou levemente a cabeça, observando-me por trás da máscara, enquanto o celular vibrava mais uma vez entre seus dedos.


— Quem é você?


Minha voz saiu tão baixa que mal parecia minha. Dei um passo para trás no exato instante em que ele avançou um na minha direção, reduzindo a distância com uma calma que me aterrorizava mais do que qualquer investida brusca.


— Se não responder, eu vou gritar…


Ele não respondeu. Apenas deslizou o celular para dentro do próprio bolso e girou a faca entre os dedos com destreza, num movimento fluido demais para ser improvisado. A familiaridade com que segurava a lâmina fez um frio percorrer meu corpo inteiro.


— Eu não tenho dinheiro, mas você pode levar meus equipamentos… — ouvi-me dizer, a voz quebrando. — Só, por favor, não me machuque.


As lágrimas vieram sem que eu conseguisse impedir, quentes e rápidas, enquanto ele continuava avançando devagar, obrigando-me a recuar até que minhas pernas encontraram o limite invisível entre a cozinha e a sala.


O pânico travou meus músculos por um segundo fatal. Só compreendi o que estava acontecendo quando a mão enluvada dele se fechou ao redor do meu pescoço e me empurrou com violência. Fui lançada para trás e atingi o chão da sala com força, sentindo o tornozelo torcer de maneira errada antes mesmo de o grito escapar da minha boca.


A dor explodiu aguda, mas o instinto falou mais alto. Estiquei o braço às cegas e agarrei o abajur ao lado da poltrona, puxando-o comigo e girando o corpo para usá-lo como arma improvisada.


Ele veio sobre mim sem hesitar, pressionando o peso do próprio corpo contra minhas pernas para impedir que eu chutasse e usando a mão livre para apertar meu pescoço com força crescente. Consegui acertar o abajur contra o lado do seu rosto uma, duas vezes; o impacto o fez cambalear por um breve segundo, mas não foi suficiente para afastá-lo. Ele voltou a me dominar com rapidez irritante, ajustando o joelho sobre minhas coxas para imobilizar meus movimentos.


O ar começou a faltar de verdade.


Continuei lutando, arranhando, empurrando, tentando atingir qualquer parte exposta enquanto manchas escuras ameaçavam invadir minha visão. Minhas unhas encontraram tecido, depois pele, e no desespero puxei com toda a força que ainda tinha. A balaclava cedeu de uma vez, saindo junto com meu movimento brusco.


O rosto revelado sob a luz fraca que atravessava as janelas, filtrada pelos postes da rua, não era o de Edward.


Era o de um completo desconhecido.


E havia algo nele — algo nos olhos — que deixava claro que aquilo não era um roubo improvisado.


A revelação do rosto o desnorteou por um segundo precioso. Aproveitei a falha, ergui o tronco com o pouco de força que me restava e projetei a cabeça para frente, acertando o nariz dele com tudo o que consegui reunir. O impacto reverberou pelo meu crânio, mas funcionou. Ele caiu para trás com um gemido rouco, e o cheiro metálico de sangue imediatamente se espalhou pelo ar.


Rolei para o lado, tossindo e puxando o ar com dificuldade, sentindo a garganta arder onde os dedos dele haviam pressionado. Engatinhei pelo assoalho, tentando ganhar distância, ignorando a dor lancinante no tornozelo. Cada centímetro parecia uma vitória.


Não cheguei longe.


Uma mão agarrou um dos meus pés com força e me puxou de volta, arrastando-me pelo chão como se eu não pesasse nada. O pânico retornou com violência renovada, e gritei o mais alto que consegui, um som cru, rasgado, que doeu tanto quanto a falta de ar.


Ele se lançou novamente sobre mim, tentando me imobilizar, mãos ásperas procurando controle, domínio, qualquer ponto que me impedisse de reagir.


— Não! — o grito saiu quebrado, carregado de terror.


Continuei me debatendo, atingindo-o às cegas, recusando-me a ceder mesmo quando meus músculos começavam a falhar.


Foi o som de vidro estilhaçando que arrancou a atenção do invasor. O ruído cortou o ar com violência, espalhando cacos pela sala, e nós dois viramos o rosto ao mesmo tempo na direção da sacada.


A porta de vidro estava destruída.


Entre os fragmentos espalhados pelo chão, uma figura alta permanecia imóvel do lado de fora, recortada contra a luz pálida da rua. O sobretudo preto ondulava levemente com o vento noturno, e mesmo à distância era impossível não reconhecer a postura ereta, a presença controlada e a beleza quase irreal de Edward.


Ele não olhava para mim.


Seus olhos estavam fixos no homem sobre meu corpo.


— Me convide para entrar, Isabella.


A voz grave atravessou o ambiente com uma firmeza que não deixava espaço para hesitação. Não havia ironia, nem deboche, nem o tom insinuante de antes. Havia urgência.


O invasor apertou meus braços com mais força, como se tentasse decidir se corria ou terminava o que havia começado.


— Ande logo! — Edward ordenou, a voz elevando-se de um jeito que eu jamais o imaginaria capaz. — Me convide para entrar, Isabella!


O grito reverberou pela sala, carregado de algo que não era apenas impaciência, mas fúria contida.


Eu não senti alívio ao vê-lo ali. Senti medo de uma natureza diferente, mais antiga, mais profunda. Ainda assim, ele era a única possibilidade de sobrevivência naquele instante.


— Está bem! — berrei, a garganta ardendo, as palavras saindo entrecortadas pelo choro. — Você pode entrar, Edward! Entre no meu apartamento! Me ajude… por favor!


As últimas palavras saíram quebradas, quase inaudíveis.


E, no segundo em que o convite foi formalizado, algo na expressão dele mudou.


Não era mais o homem controlado do corredor.


Era outra coisa.


Em menos de um segundo, Edward já não estava mais na sacada.


Ele surgiu diante de nós com uma velocidade que meus olhos mal conseguiram acompanhar. A mão dele se fechou ao redor do pescoço do homem que ainda me prendia contra o chão e o ergueu com uma facilidade perturbadora, como se estivesse levantando algo sem peso algum. Os pés do invasor deixaram o assoalho, debatendo-se no ar enquanto seus dedos tentavam inutilmente soltar o aperto implacável.


A expressão de Edward não era humana.


— Eu queria fazer você sofrer… fazer isso durar — murmurou, a voz baixa e controlada, carregada de uma promessa sombria.


Um sorriso curvou seus lábios, mas não havia traço de charme nele. À luz fraca que atravessava as janelas e se misturava aos reflexos do vidro estilhaçado, seus caninos pareciam mais longos, mais afiados, revelando algo predatório que até então eu só havia intuído.


— Mas creio que não terei tempo para me divertir com você, Mike Newton.


O nome caiu como outra pancada.


Edward falou próximo demais do rosto do invasor, mantendo os olhos dourados fixos nos dele, e havia ali uma intensidade silenciosa que dispensava qualquer demonstração exagerada de força. Mike — porque agora ele tinha nome — emitiu um som engasgado, incapaz de responder.


Eu me afastei como pude, arrastando-me pelo chão até encostar as costas na parede oposta da sala. Meus músculos ainda tremiam, o tornozelo latejava, e minha garganta ardia a cada respiração, mas nada disso parecia tão absurdo quanto a cena diante de mim.


Eu estava vendo.


Eu sabia que estava vendo.


E ainda assim, uma parte da minha mente se recusava a aceitar o que meus olhos confirmavam.


Mike Newton. O garoto que sentava duas fileiras atrás de mim no ensino médio. O que me convidou para o baile de formatura e recebeu um “não” educado porque eu nunca fui fã de festas formais. Depois disso, ele virou apenas mais um nome recorrente no meu chat, um inscrito constante, sempre comentando, compartilhando, reagindo com entusiasmo demais a qualquer coisa que eu postasse.


Agora estava na minha sala de estar, suspenso no ar pelo meu vizinho, prestes a morrer.


Mas Mike ainda segurava a faca.


Num impulso desesperado, ele reuniu o pouco de mobilidade que lhe restava e golpeou Edward no peito, cravando a lâmina até o cabo com a esperança evidente de se libertar. O som da perfuração foi abafado, úmido, real demais para que minha mente tentasse transformá-lo em ilusão.


Mas nada aconteceu.


Edward baixou os olhos para a faca fincada em seu tórax e a observou por um segundo quase curioso. Com a mão livre, segurou o cabo e a arrancou do próprio peito sem qualquer demonstração de dor, deixando-a cair no chão com um ruído metálico, a lâmina suja de sangue escuro.


— Minha vez, Newton.


Não houve pressa, nem hesitação. Em um único movimento preciso, Edward girou o pulso e torceu o pescoço de Mike com um estalo seco que ecoou pela sala. O corpo perdeu toda a tensão imediatamente, tornando-se peso morto antes mesmo de tocar o chão.


O baque foi surdo.


Levei as mãos à boca para conter o grito que ainda assim escapou abafado entre meus dedos. Meu estômago revirou quando ele soltou o corpo inerte no meio da sala e, com uma calma perturbadora, voltou-se para mim.


Seus olhos brilhavam em um dourado mais intenso do que eu jamais tinha visto, quase luminoso na escuridão. À medida que me encarava, os caninos alongados começaram a recuar lentamente, retornando à aparência comum como se nada extraordinário tivesse acontecido.


— Ele machucou você.


A afirmação veio baixa, mas carregada de algo que eu não soube nomear.


— Está tudo bem… eu estou bem… — menti, tentando sustentar firmeza.


No instante em que apoiei o peso no pé direito para me levantar, a dor no tornozelo explodiu e arrancou um gemido involuntário da minha garganta.


Edward se moveu antes que eu pudesse protestar. Em velocidade impossível de acompanhar, ele estava diante de mim outra vez, deslizando um braço sob minhas costas e outro sob meus joelhos para me erguer do chão com cuidado surpreendente. Seu olhar percorreu meu pescoço com atenção sombria, detendo-se nas marcas que certamente começavam a surgir.


— Você é um… — comecei, a voz quase falhando. — O que você é?


Eu mal percebi que ele já atravessava o corredor em direção ao quarto, guiando-se na escuridão como se a ausência de luz fosse irrelevante.


— Você sabe o que eu sou. Está com medo de pronunciar em voz alta?


A pergunta veio sem provocação, quase paciente.


Ele me colocou sobre a cama com cuidado surpreendente, como se temesse me causar mais dor do que a que eu já sentia. No instante seguinte, desapareceu do quarto e retornou tão rápido que mal pude acompanhar o movimento. As luzes se acenderam logo depois; a energia havia voltado. A claridade revelou o estrago em sua camisa preta — um rasgo irregular bem no centro do peito, ainda manchado de sangue.


— Meu Deus… você foi esfaqueado.


— Não se preocupe.


Ele abriu os botões da camisa com calma deliberada e afastou o tecido, revelando a pele lisa onde antes a lâmina havia penetrado. Diante dos meus olhos, o corte se fechava gradualmente, a carne se recompondo como se o ferimento jamais tivesse existido.


Meu queixo caiu.


— Eu não acredito… Eu devo ter batido a cabeça quando caí. Isso não é possível. É impossível que meu vizinho de cima seja um…


— Diga, Isabella.


Ele se aproximou o suficiente para que eu sentisse o frio que emanava de sua pele. Olhei diretamente em seus olhos dourados e, apesar do terror acumulado nas últimas horas, havia algo ali que me puxava de forma inevitável.


— Vampiro.


A palavra soou absurda no quarto iluminado, infantil demais para explicar o que eu tinha acabado de testemunhar. Ainda assim, era a única que fazia sentido.


— Isso mesmo.


A mão dele subiu até meu rosto, o toque frio contrastando com minha pele quente e úmida de lágrimas. Seu polegar deslizou pela minha bochecha e recolheu um traço de sangue que não era dele. Ele levou o dedo aos lábios e o lambeu devagar, os olhos fixos nos meus durante todo o gesto.


— E eu estou faminto demais para ficar perto de você agora.


Ele fez menção de se afastar, mas eu segurei sua mão antes que pudesse se levantar.


— Não!


Nossos olhares se encontraram novamente. Ele desceu os olhos para minha mão agarrada à dele e depois voltou a encarar meu rosto, avaliando algo que eu não sabia decifrar.


— Por favor, não me deixe sozinha — pedi, a voz falhando. — Eu acabei de sobreviver a um stalker que estava prestes a… — engoli em seco — a acabar comigo. Eu não consigo ficar sozinha agora. Por favor.


A tensão que eu vinha reprimindo desde o início da noite finalmente rompeu. O choque, o medo, a dor no tornozelo, a imagem do corpo na sala — tudo desabou de uma vez. Solucei sem conseguir controlar, tremendo da cabeça aos pés, incapaz de sustentar qualquer resquício de orgulho.


— Você está com fome, certo? Eu… eu comprei frango frito. Você pode comer tudo.


A risada dele me deixou constrangida, como se a constatação de que ele era um predador ainda não tivesse se assentado por completo.


— Os alimentos que você ingere não matam a minha fome, doçura.


Meu coração acelerou com o “doçura” e, ignorando a dor que ainda percorria meu corpo, sentei-me no colchão para ficar mais perto dele. Inclinei o pescoço, afastando os cabelos castanhos para que tivesse uma visão clara da minha pele.


— Tudo bem. Você precisa de sangue. Eu entendi. — Fechei os olhos. — Pode se alimentar de mim…


O silêncio se prolongou, fazendo-me abrir os olhos para ter certeza de que eu não tinha feito nada de errado ao me oferecer.


— Você não precisa fazer isso…


— Eu quero fazer isso, Edward. Você me salvou. É o mínimo que posso fazer.


Ele negou com a cabeça, como se tentasse afastar a tentação.


— Isabella, você não sabe como é ser mordida.


— Me chame de Bella. E eu realmente não sei… vai ser a primeira vez.


— Bella… A mordida de um vampiro é…


— Altamente dolorosa? Tudo bem. Eu aguento.


— Não. Na verdade, é o exato oposto.


Mordi o lábio, um pouco receosa.


— Você quer dizer que causa… prazer?


Ele assentiu.


— Bom, então não vejo desvantagens. — Dei uma risada nervosa, sentindo o rumo da conversa me deixar inquieta.


— Seu coração está acelerado. Sua pele está mais quente. Seu cheiro está diferente. Você já está atraída por mim, Bella. Não é justo que esteja tão vulnerável e eu me aproveite disso.


Balancei a cabeça veementemente.


— Se aproveitar de mim? Você fala como se eu fosse virgem e inocente.


Meu comentário arrancou uma risada dele, e me senti melhor por tê-lo feito rir. Segurei seu rosto entre minhas mãos e o obriguei a me encarar.


— Eu vou me sentir bem sabendo que pude agradecer pela ajuda de hoje. Tudo bem que você matou um cara na minha sala de estar e quebrou a porta da minha sacada, mas você também me salvou de um dos pesadelos mais assombrosos que uma mulher que vive sozinha pode enfrentar.


Eu estava sendo brutalmente sincera. Estava aliviada por ter sobrevivido, por estar falando com ele e por ainda estar viva.


— Beba do meu sangue, Edward. Por favor.


Ele fechou os olhos.


Por um instante, pareceu em guerra consigo mesmo. A mandíbula rígida. Os dedos contraindo-se levemente sobre o colchão. O ar do quarto ficou denso, pesado, como se o mundo inteiro estivesse aguardando a resposta.


— Bella…


Ele abriu os olhos outra vez. O dourado havia escurecido, ameaçando um tom mais profundo, mais perigoso.


— Se eu fizer isso… não poderei parar com tanta facilidade quanto você imagina.


Engoli em seco. Meu coração disparou, traindo qualquer aparência de coragem.


— Eu confio em você.


Aquelas palavras pareceram atingi-lo mais do que qualquer lâmina poderia. Seu olhar percorreu meu rosto, como se procurasse dúvida, medo, arrependimento. Não encontrou.


Com movimentos lentos ele se aproximou. O peso do corpo ao lado do meu afundou o colchão. Seu rosto ficou a poucos centímetros do meu pescoço, e a simples proximidade fez minha respiração falhar.


— Última chance de mudar de ideia — murmurou contra minha pele.


O calor da sua voz arrepiou cada centímetro do meu corpo.


Balancei a cabeça em negativa.


Ele ergueu a mão e segurou meu pulso, posicionando meus dedos contra o próprio peito, frio, sólido, imóvel.


— Sinta — disse. — Nada bate aqui.


A constatação deveria me assustar. Em vez disso, só tornou tudo mais real.


Então ele inclinou o rosto. Primeiro, seus lábios tocaram minha pele. Foi um toque quase carinhoso, um aviso silencioso do que viria. Meus dedos se fecharam na camisa rasgada dele. E então eu senti.


Foi um choque quente que percorreu meu corpo inteiro, rápido demais para ser nomeado. Minha respiração se partiu em um som que não reconheci como meu. Meus músculos se tensionaram e relaxaram ao mesmo tempo, como se algo dentro de mim tivesse sido ativado.


Gemi de puro deleite.


Os dedos de Edward apertaram minha cintura, não para me prender, mas para me impedir de cair.


Ele bebeu com cuidado


Eu sentia a pressão, o puxar ritmado, a estranha onda de calor que se espalhava por minhas veias. Minha cabeça ficou leve. O mundo, distante. Tudo o que existia era o ponto onde ele me tocava e a maneira como meu corpo respondia.


De repente, ele parou.


O afastamento foi quase brusco, como se tivesse se forçado a isso. Seus lábios estavam manchados de vermelho. Os olhos mais dourados do que antes. A pele ruborizada e quente pelo sangue ingerido.


— Chega.


Sua voz saiu rouca.


Ele pressionou a língua contra a pequena marca em meu pescoço, selando a pele. O formigamento diminuiu, restando apenas um cansaço profundo e uma estranha sensação de… perda.


— Eu disse que não era justo — murmurou, passando o polegar pelo meu rosto. — Você não fazia ideia do que estava pedindo.


— Eu ainda confio em você.


Dessa vez, ele não sorriu, mas algo em seu olhar mudou.


Eu ainda tentava recuperar o ar quando percebi que ele não havia se afastado completamente. Edward permanecia perto demais, a mão firme na minha cintura como se ainda avaliasse se eu conseguiria me sustentar sozinha, como se calculasse cada respiração minha. A outra mão subiu devagar até o meu rosto, afastando uma mecha de cabelo que havia grudado na minha pele aquecida, e o gesto foi tão cuidadoso que contrastava violentamente com o que ele havia acabado de fazer.


Seus olhos estavam diferentes. Já não havia fome neles, nem o brilho quase selvagem de instantes atrás, mas algo mais profundo e inquietante — atenção, intensidade, talvez até culpa. Ele me observava como se eu fosse ao mesmo tempo frágil e irresistível, como se ainda estivesse decidindo qual dessas duas coisas pesava mais.


— Você deveria estar com medo de mim agora — disse, a voz baixa e rouca, carregada de um controle que parecia custar caro.


Eu sabia que ele estava certo. Sabia que qualquer pessoa sensata estaria apavorada depois de ver um homem morrer na própria sala e outro revelar presas contra sua pele. Ainda assim, quando meus dedos deslizaram pela abertura da camisa rasgada dele e tocaram o peito frio e imóvel, não encontrei medo algum. Encontrei apenas a estranha constatação de que aquela ausência de batimentos já não me assustava.


— Eu deveria — concordei, quase num sussurro. — Mas não estou.


O silêncio que se formou entre nós não era vazio; era espesso, carregado de tudo o que não estávamos dizendo. Eu sentia o contraste entre o calor persistente da minha pele e a frieza do corpo dele, e essa diferença não criava distância. Ele inclinou ligeiramente o rosto, aproximando-se a ponto de nossas respirações se misturarem, embora apenas a minha fosse irregular e trêmula.


— Bella… — meu nome saiu de seus lábios como advertência e desejo contido na mesma medida.


Eu não recuei. Ao contrário, aproximei-me o suficiente para que a decisão deixasse de ser apenas dele. Havia algo quase solene naquele momento, estávamos atravessando uma linha invisível. A mão dele deslizou até minha nuca, sustentando-me ali com firmeza suficiente para que eu soubesse que ele poderia se afastar, mas não estava escolhendo fazê-lo.


— Você quer que eu vá embora? — perguntou, oferecendo-me uma última chance de segurança, uma última saída para a normalidade que já não existia.


Balancei a cabeça lentamente, sustentando seu olhar.


— Não.


A resposta não foi impulsiva; foi consciente. E foi isso que dissolveu o resto da hesitação. Quando seus lábios tocaram os meus, o gesto não foi faminto nem apressado, mas cauteloso, como se ele testasse os próprios limites antes de ultrapassá-los. O frio do seu toque contrastou com o calor que ainda corria pelo meu corpo, e essa diferença acendeu algo que não tinha relação com sangue ou sobrevivência. Minhas mãos subiram até seus ombros e senti a tensão controlada em cada músculo do seu corpo imóvel.


O beijo aprofundou-se com intensidade medida, contida demais para ser descuido, mas forte o suficiente para embaralhar meus pensamentos e afastar por alguns segundos a lembrança do corpo na sala, da porta quebrada, do caos que ainda nos cercava. Quando ele finalmente se afastou, nossas testas permaneceram encostadas, e a proximidade parecia mais íntima do que o próprio beijo.


— Isso é um erro — murmurou, embora sua voz não carregasse convicção suficiente para me afastar.


Eu sorri, ainda respirando com dificuldade, sentindo que a escolha já havia sido feita muito antes daquela frase.


— Então é um erro compartilhado.


Ele não respondeu de imediato. Seus olhos percorreram meu rosto como se memorizassem cada detalhe, e a mão que repousava em minha cintura apertou-se levemente. Se havia perigo ali, não vinha mais da sede. Vinha do fato de que, apesar de tudo, nenhum de nós parecia disposto a recuar.


Não é exagero dizer que foi a melhor noite da minha vida — não apenas pelo prazer, mas pela intensidade crua de estar viva depois de quase não estar. Havia algo de urgente em cada toque, como se estivéssemos tentando apagar o horror da noite com a própria pele.


Antes que o primeiro indício de luz surgisse no horizonte, ele deixou o apartamento para se livrar do corpo de Mike, carregando consigo o peso sombrio do que havia acontecido. Pediu que eu ficasse em repouso, limpou os vestígios da luta e insistiu em arcar com os custos da porta da sacada, como se pudesse reparar com dinheiro aquilo que a noite havia rasgado.


Despediu-se junto à porta do quarto, os olhos dourados e insondáveis, dizendo que, quando o crepúsculo tomasse conta do céu de Seattle, estaria me esperando no andar de cima. Não como um vizinho ou um salvador. Mas como algo que agora fazia parte da minha história.


Afinal, eu o deixei entrar.

Notas finais
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