Não Conte Nossos Segredos
19 Capítulo 19
Alana não sabia o que fazer, fechou a janela de seu quarto com força e se jogou na cama. Sua cabeça latejava, e a sensação de que já tinha passado por aquilo não a abandonava. De repente, estar naquela cidade tinha se tornado sufocante, queria desesperadamente sair dali, mas algo em seu íntimo dizia que era impossível.
Enquanto tentava se acalmar e fazer todas aquelas sensações passarem, seu celular começou a tocar. Franziu o cenho ao ver quem era, e logo depois sorriu um pouco.
-Pedro? – perguntou com a voz fraca.
-Sou eu! – ele respondeu animado – Sei que sou um chato às vezes, mas eu só queria saber como está se sentindo. – Alana riu.
-Estou ótima, apesar de ainda sentir um pouco de dor e sono, mas vou ficar bem. Sério, Pedro, não precisa se sentir culpado, tudo bem?
-Ah, é só que... – ouviu um barulho ao fundo – Ai! Gabriel!
-Pare de encher o saco dela. – ouvir aquela voz fria e grave, o coração de Alana fraquejou minimamente.
-Cala a boca! – Pedro resmungou – Bom, só liguei mesmo para saber que como você estava...
-Pode ficar tranquilo, estou bem.
-Ótimo! – Alana conseguiu ouvir algo como se fosse um riso – Está bem, então, até amanhã.
-Até.
Assim que encerrou a ligação, um e-mail chegou.
“Irmãos sempre guardam segredos.”
Alana pensou um pouco, o fato de ter achado a pasta nas mãos de Gabriel a incomodavam um pouco. Mas o que mais a deixava inquieta era a reação estranha que ele tivera. Pareceu ficar nervoso e ansioso para mudar de assunto.
“O que você quer dizer com isso, Elvira?”
“Aproxime-se mais dos dois e você vai entender. Isso não deve ser difícil para você.”
Alana ficou alguns segundos olhando para a tela do celular, quando a porta de seu quarto foi aberta. Sua mãe entrou e franziu o cenho ao vê-la.
-Tudo bem, filha? Por que está na cama?
-É que levei uma bolada no intervalo...
-O quê? – perguntou preocupada e sentou-se na beirada da cama – Me explica isso direito!
Alana contou tudo o que tinha acontecido, pulando a parte da pasta de Adriana. Enquanto fazia isso, seu pai apareceu na porta e ela teve que repetir tudo. Eles ficaram mais do que preocupados e a encheram de perguntas como: “ainda está doendo? Está com sono?”
Se dependesse de sua mãe, Alana teria sido levada a um hospital, mas ela insistiu dizendo que estava tudo bem e que apenas sentia uma leve dor. Eles ainda resistiram um pouco, mas depois desistiram da ideia.
Alana desceu e comeu um pouco. Não sentia fome, apenas cansaço e vontade de se desligar daquele mundo, nem que fosse por breves momentos. Despediu-se de seus pais e foi para a cama, não demorando para cair no sono.
Acordou se sentindo um pouco melhor. Arrumou-se para a escola, tomou café-da-manhã e, assim que abriu a porta de casa, deparou-se com Marcos sentado na sua calçada.
-Tudo bem? – perguntou estranhando a presença.
-Tudo! Eu só achei que seria uma boa te acompanhar até a escola. – ele se levantou. Alana riu um pouco com aquilo e fez um aceno com a cabeça.
-Eu estou bem, sério! Mas aceito de bom grado sua companhia, ir para a escola sozinha é muito chato. – “e medonho” completou em pensamento. – Marcos sorriu.
Quando começaram a andar, alana viu, pelo canto do olho, a mãe de Marcos observando os dois da janela da cozinha. Ela mantinha um sorriso no rosto, mas Alana tinha certeza de que, ao invés de simpatia, sua expressão era maldosa.
-Algum problema? – Marcos perguntou.
-Nenhum...
O resto do caminho foi silencioso, mas Alana achou que aquilo era bem melhor do que andar sem ninguém do lado. S possível, ela queria ter uma companhia vinte e quatro horas por dia, só assim não se sentiria tão ameaçada.
Quando chegaram ao colégio, encontraram Mila no portão. Ela os esperou e eles entraram juntos no prédio. Vários alunos já circulavam pelos corredores e Alana tinha que ficar desviando deles.
-Ah, o André está ali. – Marcos falou e apontou para o professor, que estava em frente à sua sala, com uma roda de alunos a sua volta.
-E daí? – Mila perguntou.
-Preciso tirar algumas dúvidas com ele. Encontro vocês depois. – Marcos saiu andando, deixando as duas para trás.
-E então? – a voz de Mila saiu maliciosa.
-O quê? – Alana não tinha entendido.
-Como foi a volta para casa acompanhada por aquelas duas criaturas lindas? – Alana revirou os olhos.
-Legal.
-Legal?! – Mila parecia incrédula – Alana, o cara mais gato da escola te acompanhou até a sua casa e você que foi legal? – Alana riu.
-É! Eles são só meus amigos, principalmente o Pedro! – foi a vez de Mila rir – E como você sabe?
-Isso aqui é uma cidade pequena! Todos já sabem!
-Ah, é... – Alana falou com desânimo e elas entraram na sala.
-Mas então, qual dos dois?
-Mila...
-Vai, qual dos dois você prefere?
-Eu não tenho que preferir nada! – falou entre as risadas.
-Ah, qual é, Alana! Vai dizer que ainda não percebeu que os dois estão afim de você! – Alana ficou boquiaberta ao ouvir aquilo.
-Imagina! Mila, eles são só meus amigos!
-Alana! — aquela voz conhecida a chamou e braços fortes envolveram sua cintura, recebendo um beijo na bochecha logo depois – Como você se sente? – Pedro perguntou.
-Sei. – Mila passou por eles sorrindo e direcionando um olhar de cúmplice para Alana, saindo da sala logo em seguida. Alana a acompanhou com os olhos e viu, no corredor, André conversando todo animado com a tal de Márcia.
-Estranha essa menina. – Pedro comentou – Como ela se chama mesmo...?
-Adriana. – Alana respondeu, distraída. Assim que terminou de falar, percebeu o que tinha feito. Colou a mão na boca e olhou assustada para a sala.
Os alunos olhavam de uma maneira estranha para ela e o silêncio reinou. Pela primeira vez, Alana viu Pedro realmente sério. Sua fisionomia estava fechada e seu olhar tinha um brilho diferente, algo que Alana julgou ser... Raiva...
-Como disse? – ele perguntou com a voz dura.
-Mila... Essa é a Mila. – Alana respondeu rapidamente, tentando concertar o que tinha feito.
O sinal bateu e todos os alunos foram para seus lugares. Pedro passou por ela como se Alana nem existisse, e Gabriel a encarava da maneira mais fria que ela já tinha visto. Ela a seguiu com os olhos até que ela se sentasse.
Enquanto tirava o material da mochila, Gabriel deixou um papel em cima de sua mesa. Alana o abriu o pequeno bilhete e sorriu ao ler o que estava escrito.
“Vamos estudar hoje?”
Ela o procurou com o olhar e, assim que encontrou, fez que sim com a cabeça. Sentiu seu celular vibrar e, imediatamente, voltou sua atenção para o objeto, abrindo o e-mail.
“Boa. Por que não sai por ai gritando o nome dela?”
Alana revirou os olhos e procurou por alguém na sala que estivesse mexendo no celular. Para a sua surpresa, ela era a única ali que fazia isso. Deixou o aparelho embaixo da mesa e tentou prestar atenção no que o professor dizia.
As aulas demoraram para passar, Alana não sabia dizer o porquê, mas estava ansiosa para ir estudar com Gabriel, e a fala de Mila não saía de sua cabeça. Passou o intervalo com ela e Marcos discutindo quem era melhor em um jogo de RPG, e as últimas aulas pareceram durar uma eternidade.
Por fim, o último sinal tocou e Pedro e Gabriel esperaram Alana. Eles saíram caminhando, indo para o lado oposto ao qual Alana estava acostumada a passar. Notou que as casas ali eram um pouco melhores do que as que ficavam perto da sua e deduziu que estavam em um bairro um pouco mais nobre.
-Contou as seus pais o que aconteceu? – Pedro perguntou.
-Claro. – Alana respondeu.
-Nossa, eles devem me odiar agora! – riu com a própria fala. Era como se o momento estranho que acontecera antes das aulas nunca tivesse acontecido.
-Imagina, só acham que você é um perigo para mim! – Alana riu também.
Notando que Gabriel estava calado, ela olhou para ele. Sua expressão era a mesma de sempre, indiferente. Ele a olhou e Alana desviou sua atenção para o chão.
De repente, pararam de andar e Alana se viu na frente de uma casa enorme e linda. Ela devia ser pelo menos quatro vezes maior do que a sua, tinha um jardim grande e era possível ver uma piscina ao fundo.
-É aqui que vocês moram? – perguntou, sem esconder sua surpresa. Pedro riu,
-É sim! – ele deu um tapinha no ombro dela – Vamos.
Gabriel abriu a porta da frente. Pedro passou sem fazer cerimônia e Alana ficou do lado de fora, envergonhada. Gabriel sorriu levemente e fez um movimento de cabeça, fazendo um pedido silencioso para que ela entrasse.
O lugar era lindo. Todo decorado com móveis claros e modernos, a casa ainda passava a sensação de aconchego. Havia várias portas e alguns corredores, e ainda tinha o andar de cima.
-A casa de vocês é linda! – Alana soltou, maravilhada.
-Obrigado! – Pedro respondeu com um sorriso no rosto que logo desapareceu.
Ele olhou para uma das portas mais afastadas. A luz da sala estava acesa e ele trincou os dentes. Alana o olhou sem entender, e Pedro notou. Forçou um sorriso e, com a voz dura, disse:
-Já volto. – e foi em direção à sala.
-Está tudo bem com ele? – perguntou a Gabriel.
-Sim, não liga, não.
-Ah, Gabriel, ainda bem que você chegou! – uma moça morena, de cabelos ondulados e rosto com algumas marcas, que não pareciam ser de sol, apareceu na sala. ela parecia desesperada.
-Oi, Luísa, o que aconteceu?
-Seu gato está preso na árvore de novo. – Gabriel suspirou e revirou os olhos.
-Me espera aqui, Alana. E sinta-se a vontade.
Os dois saíram, deixando Alana sozinha naquele salão enorme. Ela começou a observa cada canto daquele lugar. As estantes tinham várias fotos em família. Gabriel aparecia sempre com a mesma fisionomia, Pedro sorria, um homem alto, moreno e extremamente bonito, quem Alana deduziu ser o pai deles, saía sempre ao lado de uma mulher linda. Ruiva, de olhos da mesma cor que os de Gabriel, ela normalmente estava sorrindo, mas em algumas fotos, seu semblante era tão triste que a ideia que passou pela mente de Alana era que ela não estava nem um pouco bem.
-Para com isso, Pedro! – ouviu uma voz grossa falar.
-Não paro! Você entendeu o que eu disse?
-Isso é ridículo!
Alana, inconscientemente, começou a se aproximar de onde vinha o barulho. Ela chegou próxima à porta entreaberta e encostou-se a parede. Naquele momento, nem lhe ocorreu o pensamento de que aquilo era errado.
-Ridículo o caralho! – espantou-se ao ouvir Pedro falar daquele jeito – Só faz isso e está tudo bem!
-Pare de ser infantil! Me respeite, moleque.
-Eu perdi o respeito por você faz algum tempo, papai. – disse em tom de desprezo.
-Quando foi que você virou essa pessoa problemática? – sua voz saiu desesperada.
-Quando eu a conheci! – Pedro gritou.
-Pedro!
-Adriana Golvei! O meu maior problema!
Alana sentiu uma mão tampar sua boca e um corpo quente se juntar ao seu. Arregalou os olhos e sentiu seu coração disparar de medo.
-Shhhh.
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