Nárnia Além Da Vida Parte II
22 Decepção
Notas iniciais
Se Rabadash pensa que vou cair em mais uma de suas armadilhas, ele está muito enganado. Uma simples carta não pode apagar tudo o que Susana e eu vivemos. Se fosse verdade ela me diria na cara, mas eu sei, e acredito fielmente no amor dela por mim. Não vou nem dizer à ela que por um momento até acreditei naqueles absurdos, ela se magoaria muito, e aquele infeliz ficaria satisfeito. Se tudo aquilo que li nessa carta fosse verdade eu... eu... certamente morreria de dor e desgosto. Se não fosse minha Susana eu até acreditaria, mas é impossível, aquela história sobre meus filhos então... que mentira mais nojenta, Anna e Carlos são meus filhos, eu sei disso, meu coração sempre soube. Desde o dia em que os vi pela primeira vez, eu soube no fundo do meu coração que eles eram meus e que eu os amaria para sempre incondicionalmente. Robert é um homem de bem, se não fosse assim, ele não teria entregado Susana a mim. Minha mulher me ama, vejo em seu olhar, tudo o que vivemos não pode ser mentira. Não faz o menor sentido – dizia Caspian para si mesmo, caminhando lentamente até o castelo. Colocou a mão no bolso e pegou a carta novamente, mais uma vez a leria, mas agora já não era mais tão torturante quanto da primeira vez. Após ler tudo de novo, uma coisa o deixou intrigado, a letra era a de Susana, tinha o mesmo perfume dela... Caspain foi quase parando a caminhada, olhando para o papel confuso, com medo, mas tinha que prosseguir e tirar logo essas dúvidas de sua cabeça ou ficaria louco. No seu interior o rei acreditava que tudo não passava de um terrível engano e então se agarrou nessa esperança.
Robert chegou e novamente encontrou Susana no jardim. Se cumprimentaram e ele foi logo perguntando o motivo de estar ali.
– Me desculpe Susana, não é que eu me incomode, mas posso saber por que me chamou aqui?
– E-eu quero te pedir uma coisa Robert. – dizia Susana de uma forma enigmática e com a expressão vazia.
– Se eu puder ajudar, me diz o que é? – Bob tentava decifrar Susana.
– Me perdoa? Eu não quero estragar sua vida...
– Como assim? – interrompeu franzindo o cenho – Você não me fez nada de mal. – terminou com um leve sorriso.
– Eu espero que você também não passe a me odiar, mas é necessário, e você precisará ser muito superior para me perdoar. Não estou te pedindo que me defenda, ao contrário, confirme as pessoas certas, aos que me amam.
– Não entendo Susana. — dizia perdido.
Caspian achou estranho não ter sido barrado pela segurança do castelo. Não disse nada, não perguntou por ninguém, apenas a procurava, até que finalmente a encontrou. Perto de um arbusto Caspian viu que Susana não estava sozinha. Ao ver que a amada estava acompanhada por Robert, seu coração acelerou.
– Não, por favor não... – dizia dentro do seu coração.
Susana que estava de frente para Robert, viu Caspian que estava atrás dele. A rainha fingiu não ter percebido nada e respondeu a pergunta do cunhado.
– O que você tem que fazer Susana? – Susana agarrou a gola da camisa de Robert e sem demora respondeu.
– Isso... – a rainha o puxou fortemente para um beijo apaixonado, deixando Bob atordoado e pasmo, completamente inerte aos movimentos da rainha. Susana o beijava com desespero de forma que... Caspian pudesse ver tudo. Ela segurou com força os braços de Robert que ficou sem reação, e continuou beijando-o de forma intensa. E Caspian, bom, o coitado morreu por uns instantes. O seu rosto se desfigurou para uma expressão séria e dura, não conseguia acreditar no que via, em poucos segundos todas as palavras da carta apareceu em sua mente. Suas pernas ficaram bambas e ele sentiu uma terrível náusea, parecia que toda a cena se passava em câmera lenta, sua Susana, sua amada esposa, estava abraçada completamente a Robert que estava envolvido no beijo. Caspian não aguentava assistir mais aquele espetáculo de terror, saiu do esconderijo interrompendo-os com uma enorme vontade em seu coração de matá-los.
– Parabéns – gritou tremendo e aplaudindo a cena, dando um grande susto em Susana e Robert, que com brutalidade afastou a rainha de si suando frio.
– Susana o que foi isso? – perguntou desnorteado.
– Eu não queria atrapalhar um casal tão belo. – Dizia Caspian completamente alterado, ou melhor, gritava.
– Caspian isso tem uma explicação. – dizia Robert assustado com o estado de Caspian. Do jeito que ele estava parecia que poderia agredir Susana.
– Tem uma explicação sim, e eu quero que você me deixe sozinha com ele amor. – Respondia Susana secamente, alterando a voz do mesmo jeito que Caspian.
– Mas Susana... – Robert parou ao ver os olhos suplicantes de Susana e se retirou.
– O seu amante é bem obediente. – esbravejava furioso.
– Amante? – perguntou Susana sarcástica. – Amante, o único amante que tive foi você.
– Então era tudo verdade não é? Aquela carta, tudo o que dizia era verdade!
– Não me diga que é tão estúpido, a ponto de perceber só agora que eu nunca te amei.
Caspian puxou Susana com força e apertou seus braços com grande violência, como se quisesse descontar neles toda sua raiva e frustração.
– Sim. – respondeu duramente tentando conter o choro que entupia sua garganta. – Eu realmente fui um grande imbecil, um verdadeiro idiota por ter acreditado em você todo esse tempo. Por nunca ter visto a... vagabunda que você é. – cuspiu as palavras com total desprezo.
– Eu sempre soube disso. Como você é ingênuo Caspian, achou que eu realmente te amava? Por você eu só sinto desprezo, e me arrependo profundamente por ter passado tanto tempo ao seu lado. – Atuava Susana com maestria o papel que a vida havia lhe dado.
– Você sempre foi amante dele não é? – dizia ofegante esmagando os braços dela em suas mãos. – Sempre o amou. Me enganou todo esse tempo, sem nem se importar com o meu sofrimento.
– Sofrimento? Fui eu que sofri tentando manter as aparências. Tentando esconder meus verdadeiros sentimentos. Longe do homem que eu amava. Eu amo o Robert sim Caspian, e me sinto muito feliz por... por botar tudo pra fora. O que você veio fazer aqui? Eu mandei você sair da minha de uma vez por todas. Ficou feliz em ver com seus próprios olhos? Me deixe em paz Caspian, não arrume problemas para meus filhos, com suas brigas com Rabadash.
Caspian colocou as mãos em volta do pescoço de Susana com muita vontade de enforca-la, mas conteve-se. Tudo o que ele conseguia sentir naquele momento era ódio, muito ódio.
– Me fala a verdade Susana. Não minta pra mim – dizia entredentes segurando o rosto de Susana. – Espero que diga a verdade.
– O que mais você quer saber? – tentava ser mais grossa que ele.
– A Anna e o Carlos... – falava devagar com o coração na mão, e Susana pôde sentir que ele tremia como um papel ao forte vento. – Eles, eles são meus filhos não são? – perguntava com os olhos já brilhando por causa de uma lágrima que queria brotar.
Susana olhou fundo em seus olhos, por dentro era ela quem estava morrendo, sentia que ia desabar a qualquer momento, queria contar a verdade à Caspian e beijá-lo, abraça-lo e acabar com todo aquele teatro, mas sabia que escondido Rabadash observava tudo da sacada do quarto.
– Não Caspian, eles são meus, meus e do Robert. Ele é o verdadeiro pai.
Caspian a soltou e gemeu como se tivesse sido ferido por uma lança, o rei deu um suspiro forte e foi sua vez de falar.
– Como você é desprezível Susana. Como pôde? – perguntou desolado balançando a cabeça.
– Eu...
– Cale-se! – gritou como nunca havia gritado antes, fazendo Susana estremecer. – Eu te odeio... com todas as forças da minha alma. Eu odeio você mais do que tudo nessa vida. Eu tenho nojo, nojo por todas as vezes que eu te toquei, sinto nojo por todas as vezes em que disse que te amava. Nojo por todas as vezes que meus lábios e meu corpo encontraram o seu. Você é uma miserável, a pior de todos eles, pior que todos juntos. Como pôde fazer isso com seus filhos, sua família, seu povo e o Aslam? Por que veio nos destruir? Por que? – voltava a gritar. Tudo de ruim que está acontecendo com toda essa gente inocente é sua culpa, sua e daquele miserável que é louco por você. Sabe de uma coisa? Você e esse Rabadash se merecem. Por que não vai embora com ele de uma vez? Não era a mim que você queria destruir? Já conseguiu. – dizia sem pausas conseguindo destroçar o próprio coração mais do que já estava destroçado. E Susana, pobre Susana, morria a cada palavra de Caspian, ela já esperava tudo aquilo, mais estava sendo mais duro do que ela pensava, e de longe Rabadash sorria vitorioso.
– Maldita a hora. Maldita a hora em que conheci você. Você foi minha maior desgraça e minha maior ilusão. Eu passei a vida inteira te amando e esperando por você, esperando uma mulher que não existia. Tudo era mentira, você era a minha vida Susana, e minha vida é uma grande mentira, sempre foi. E eu acreditei em tudo – dizia puxando os cabelos com força.
– É Caspian, tudo o que eu disse naquela carta foi muito pouco. Mas acho que você já entendeu tudo, não é? Entendeu que tudo está acabado, para sempre. Só te peço uma coisa, por favor não deixe meus filhos saberem de nada sobre isso. Principalmente sobre o Robert...
– Eu nunca vou dizer nada. – dizia fungando. – Eles já estão sofrendo demais, muito mesmo. E se depender de mim, eles nunca vão descobrir toda essa verdade imunda. Nunca saberão a mulher podre que você é. Eles são meus Susana, não importa que esse seu... marido tenha os gerado, eles são meus filhos e sempre será assim. Se Robert tentar se aproximar deles ou contar alguma coisa, eu o mato.
– Já estou farta dessa conversa. Saia daqui... vá embora da minha vida pra sempre – dizia com o coração encharcado de tanto sangrar.
– Não se preocupe Susana... você nunca mais olhará na minha cara de novo. Não quero te ver nunca mais, nem morta, nem em sonhos. Nunca mais quero ouvir o seu maldito nome. E saiba de uma coisa, não se preocupe, nunca mais vou te incomodar, todo o amor que eu senti durante toda a minha vida por você, morreu agora e não vai reviver nunca mais.
– Sai daqui, sai daqui... – gritou Susana arrasada, pois já não aguentaria levar outro golpe. E Caspian foi embora, sem olhar para trás.
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