Notas iniciais
Perdoem pelo tamanho do capítulo, mas se não fosse assim, o Caspian não descobriria a verdade nesse e eu já tinha prometido.

Nárnia já havia sido bastante assolada e desestabilizada, seus inimigos com grande êxito, alcançaram todos os seus objetivos. Jadis foi a primeira a cair, mas isso não diminuiu a força dos outros inimigos de Nárnia, mesmo que eles não estivessem mais com Tash, este último estava preparando o terrível castigo de Susana, não admitiria perder ninguém. Seu único e temível rival era Aslam, e este jamais poderia reagir contra as investidas de seus comparsas.

Miraz descobriu que Alice era sua filha, e que Victor era seu neto, nem isso amoleceu o coração do antigo rei, se é que ele tinha um. A ordem agora era destruir tudo o que vissem pela frente, mas os herdeiros de nossos antigos heróis não deixariam isso barato, o sangue guerreiro de Benjamim e Liliana os fizeram pressentir que o mal atacaria com todas as suas armas, mas eles também tinham as suas, graças à Lúcio, e se fosse preciso, também um esconderijo.

– Posso saber por que convocou essa reunião Rabadash?

– Claro querida Tirza, chamei todos vocês para avisá-los que a hora chegou, vamos mostrar para eles quem é que manda. Então mostrem o seu melhor, acabem com eles.

– Mas já? — questionava Miraz – Pensei até que ficaríamos por aqui mesmo.

– Também cheguei a pensar o mesmo. Mas prefiro destruir esses imbecís, primeiro matarei Caspian e aquele fedelho do Charles, aí sim só depois usarei a palavra execrável.

– O que? Você conhece a palavra execrável? Acreditava que só a Jadis conhecesse.

– Essa maldição está escrita em um pergaminho.

– Rabadash a palavra execrável destrói a todos, menos quem pronuncia, se você usá-la não só Nárnia perecerá, como nós também.

– Não se preocupe Tirza, quando eu usar as palavras vocês não estarão mais aqui.

– E o que faremos?

– Miraz você cuidará dos Cooper. Capture a caçula deles, a sereia, Emeth se encarregará de trazê-la até Tirza. Você deve matar aquele manco e os pais dele que certamente reagirão. Quando Tirza tiver Roberta em suas mãos, a garota será a isca para atrair Rilian, aí será fácil enganá-lo, acorrente-o naquela cadeira que ele tanto teme. Com certeza alguns daqueles moleques tentarão ajudá-lo, acabe com eles. Contarei toda a verdade à Caspian para desestabilizá-lo, aí atacarei a filha e o neto dele, com certeza isso chamará a atenção do traidor do meu filho e também o matarei, aí sim acabarei com Caspian e depois Nárnia.

– Mas e o rei Pedro? Ele é forte Rabadash, quando era só um menino ele acabou comigo, imagina agora que é um homem. Ele atacou toda a nossa segurança, libertou o irmão e ainda matou Jadis.

– Não tenha medo deles Miraz, apesar de sermos poucos, somos mais fortes, antes mesmo desse reizinho tentar algo, Nárnia não terá nem ruínas para contar história. Alías Tash estará conosco.

– E sua mulherzinha querido? Vai matá-la também?

– Bem que ela merecia Tirza, depois que você me disse que a viu em meu quarto com Caspian eu iria mesmo fazer isso. Se ela não tivesse fugido essa noite, teria amanhecido morta. Mas não haverá pior castigo para ela do que viver para sempre comigo.

– E quem você vai atacar primeiro?

– Minha cunhadinha Lúcia Pevensie. E você André roubará meu neto.

O castelo foi evacuado para todos colocarem seus planos em prática. Susana tentava se libertar de sua prisão quando foi surpreendida pelo terrível Tash. Ficou arrepiada dos pés a cabeça, todos sem exceção o temiam e com Susana não era diferente, Tash a tinha em suas mãos e poderia fazer o que quisesse com ela e ninguém poderia intervir. A tomou em seus braços e a levou para seu inferno que também se chamava abismo. Um lugar muito pior do que bismo, o local onde Rilian passou longos anos.

Depois de fazer os curativos adequados em Alvaro, Cornélio foi com Tumnus na casa de Lúcia, tinham sérias desconfianças e precisavam tirar suas dúvidas.

– Aconteceu alguma coisa?

– Aconteceram sim Lucy, mas viemos tratar de algo mais sério, pressinto que não teremos muito tempo.

– De que se trata Cornélio? Está me deixando nervosa, é com a Roberta?

– Não. Mas é com você, sua saúde e queremos te ajudar.

– O que eu tenho? É grave? — perguntou se abraçando a Tumnus.

– Não é nada grave. Mas Cornélio precisa fazer alguns exames.

Lúcia achou tudo aquilo muito estranho, Cornélio com êxito conseguiu ter um bom diagnóstico e contou a novidade que pegou Lúcia de surpresa, agora tudo estava esclarecido para ela. Os três comentavam sobre o assunto, quando do lado de fora a rainha fora solicitada. Cornélio abriu a porta e quando viu de quem se tratava imediatamente se retirou temeroso.

– O que faz aqui seu...

– Cale-se fauno. Não vim ver você, meu assunto é com ela.

– Vá senhor Tumnus, quero saber o que ele quer.

– De jeito nenhum Lúcia, não vou te deixar você sozinha com ele.

– Obedeça seu reis animal imundo. — Rabadash jogou uma cadeira longe.

– Você não é meu rei!

– Deixe o Tumnus em paz Rabadash, aqui você não é nada.

– Mais respeito rainha de araque. Vim ter uma conversa séria com você sobre seu marido e sua irmãzinha.

– Lúcia não dê ouvidos à ele. — pediu Tumnus, mas Lúcia curiosa o pediu que se retira-se.

– O que tem para falar comigo? — dizia tão autoritária quanto ele.

Lúcia foi ficando perplexa com cada palavra dele, não conseguia acreditar como ele poderia ser tão frio e cruel, enquanto Rabadash lhe dizia a verdade e contava cada detalhe de seu plano terrível, Lúcia lembrava das palavras de Robert e todo seu corpo doía ao pensar no quanto foi injusta com seu marido e sua irmã. Pensou que tinha perdido Robert para sempre, e tudo o que mais queria naquele momento era pedir perdão, ficou extremamente chocada com os absurdos ditos por Rabadash. Se a tontura forte e a dor de cabeça não a tivessem feito desmaiar, com certeza ela lhe mostraria quem é a rainha valente.

Lúcio assim como seu pai passava as manhãs apenas observando Roberta, a sereia não gostava de conversar, era muito mais anti-social que a antiga Sunamita, o jovem ficava horas pensando em como a tiraria daquela situação. O clima tinha mudado bruscamente de uma hora para outra, parecia que em pouco tempo haveria uma tempestade e Lúcio diante de todo aquele tédio, decidiu ir embora. Aproximando-se de Bri que o aguardava à poucos metros, montou no cavalo e partiria se não tivesse escutado gritos de sua irmã.

Lúcio pulou do cavalo e quase caiu pelo desiquilíbrio, seu corpo doeu como se tivesse levado um coice, mas uma fera foi despertada dentro de si, e isso se deu quando ele viu Miraz e Emeth capturando Roberta com uma rede. Contando apenas com o apoio de sua bengala e a espada que ele nem sabia manusear, ele foi correndo, a sua maneira, até Miraz. O tirano deixou que o traidor calormano levasse a menina sozinha e mordeu o lábio até sangrar, como se quisesse sentir o sabor do sangue, de Lúcio, seria a segunda vez que ele lutava com um garoto, e agora estava disposto a tudo para ganhar, conhecia muito bem a fraqueza dele, e o atacaria somente pelas pernas.

Quanto mais Lúcio corria atrapalhadamente, Miraz sorria de satisfação e deboche, o garoto sorriu de ódio, e com a força desse ódio fingindo que atacaria com a espada, cravou a ponta de seu cetro no rosto de Miraz, a parte que tinha o grande diamante encrustado se enterrou na bochecha esquerda do vilão, Lúcio usando a força de seu braço quebrou o cetro deixando dentro do rosto dele o diamante. Miraz furioso e morrendo de dor pela audácia do menino, tentou decapitar sua cabeça com um generoso golpe, mas Lúcio pôs o resto de seu cetro na frente, quebrando apenas a bengala e não seu pescoço.

– Pensa que vai me ganhar? É só um garoto... manco.

– Posso até ser um garoto, e manco ainda por cima, mas te deixei um mês de cama.

– E eu vou te colocar em baixo da terra.

– Minha hora ainda não chegou mom ami, mas a sua e a de seus amigos de boteco sim.

– E quem vai nos deter? Uns adolescentes na puberdade?

– Uma vez quatro adolescentes destruíram um império que você levou toda a vida para construir em uma semana.

Lúcio conseguia atacar e encurralar Miraz com destreza, parecia até que não era manco e tinha nascido para ser espadachim, pois ele dançava no mesmo ritmo e com a mesma sintonia de sua espada. Em certo momento Miraz tentou cravar a espada em sua perna, mas ao se abaixar por pouco sua cabeça não rolou no chão. Lúcio ficou indignado pela tentava cruel de seu oponente, ele sofreu muito por conta de sua perna e agora seu inimigo queria destruí-lo através de sua maior fraqueza, isso alimentou ira da fera e da rebeldia que morava dentro de Lúcio e ele avançou com mais rapidez e sucesso, deixando Miraz cada vez mais assustado. Seus movimentos superavam o de Pedro no duelo e Miraz com medo de mais uma vez ser derrotado vergonhosamente tentou fugir, montou em seu cavalo e disparou na frente de Lúcio que tentou seguí-lo com Bri e eles quase alcançaram seu inimigo. Lúcio não entendeu o motivo da parada de Bri, mas seu relincho chamou sua atenção e ao olhar para trás, para as patas do cavalo, Lúcio viu um tigre que com seus enormes dentes e suas garras tentava quebrar as patas de seu amigo. Um forte estalar ossos fizeram os dois caírem no chão e Bri agonizava de dor.

– Vá embora alteza, acabe com aquele maldito. — pedia sentindo suas patas serem destroçadas pelo feroz animal.

– Não Bri, não vou te deixar.

– Corra, vá atrás dele, se continuar aqui essa fera também o matará.

– Me desculpa Bri, me perdoa por não poder te ajudar. — Lúcio pedia chorando, queria ir atrás de Miraz, precisava matá-lo, mas estava se acabando por dentro ao ver seu amigo ser devorado aos poucos pelo predador.

– Lúcio, por favor, se tem alguma consideração por mim, me mate logo. Apenas um golpe de sua espada bastará.

– Não eu não posso fazer isso. — Lúcio agarrava o pescoço de Bri, lutar contra o tigre seria loucura.

– Eu não aguento mais meu mestre, preciso ser sacrificado, eu lhe imploro.

Lúcio com um nó em sua garganta golpeou Bri fortemente, e com apenas aquele golpe em sua boca, o cavalo morreu. Lúcio correu chorando, as lágrimas embaçavam sua visão e o sufocavam. O tigre vendo o animal morto, desistiu de devorá-lo, tinha destroçado as patas traseiras de Bri, se o cavalo tivesse sobrevivido, nunca mais poderia correr ou simplesmente ficar de pé, Lúcio amenizou sua dor o matando.

Miraz comemorou a evidente vitória, e decidiu parar de correr para zombar de Lúcio, agora conseguiria matá-lo. Ainda em cima do cavalo ele avançou para cima do garoto, e o animal batendo nele com seu queixo, jogou Lúcio no chão. Miraz desceu do cavalo e tentaria contra a vida de Lúcio, mas o garoto tomado pela adrenalina, apesar de estar todo dolorido se levantou o mais rápido que pôde e voltou a duelar com Miraz, baixando a guarda por um milésimo de segundo, Lúcio deu o maior grito de sua vida, ao sentir a espada de dois gumes de Miraz atravessar sua coxa, na mesma perna que mancava, após tirar com uma brutalidade imensa sua arma branca da coxa do rapaz e ver como o rosto dele perdeu a cor, Miraz por pura maldade deu um chute letal na coxa de Lúcio, fazendo o mundo em volta do rapaz girar.

Sua perna sangrava como se nunca mais quisesse parar, Lúcio teve a certeza de que nunca mais andaria, preferia morrer ali mesmo do que passar o resto de seus dias paralítico, sentindo que poderia morrer a qualquer momento, o guerreiro e a fera que habitavam dentro dele clamavam por justiça, então com seu pensamento focado apenas em seu maior herói, Aslam, o fizeram ter forças para se levantar, Miraz montou em seu cavalo novamente, Lúcio sabendo que só seria possível dar mais um passo, num pulo jogou seu corpo para cima do animal, tentando apunhalar Miraz pelas costas, mas o bicho por instinto levantou suas patas traseiras jogando Miraz no chão e acertando diretamente os olhos Lúcio. O rapaz caiu novamente, derrotado e humilhado, mordeu a lingua de tanta dor a fazendo sangrar, não gritaria para dar gosto ao seu inimigo. A pancada do coice em seus olhos foi tão grande que caído no chão, Lúcio foi perdendo a visão, o céu que era cinza e nublado, ficou branco, ele então percebeu que além de estar aleijado, estava cego e isso era pior que a morte. Entendeu também, porquê Bri preferiu a morte e adoraria alcançar sua espada para ter o mesmo fim de seu companheiro de cavalgadas.

Robert que também iria visitar Roberta, se apavorou ao ver Bri naquele estado deplorável, avançando mais alguns metros contemplou seu filho no chão em volta de uma poça de sangue, o rei também se desesperou, mas não estava desesperado para se render e se entregar a tristeza, e sim para acabar com a vida de Miraz. Correu dando apenas uma olhada para Lúcio, nem sabia se ele estava vivo, seu rosto ficou vermelho de raiva e mesmo sem estar armado ele decidiu que daria um fim as maldades e a vida de Miraz. O falso rei montou seu cavalo assustado e partiria se Robert possesso de ira não tivesse se agarrado ao pescoço de seu cavalo na tentativa de quebrar. Uma luta para derrubar o rei do cavalo começou, Miraz estava preocupado já que tinha perdido sua espada. Robert era muito forte e Miraz viu as veias de seus músculos, músculos que quebraram os ossos do pescoço do cavalo, Miraz ficou horrorizado, pois nunca tinha vido uma aberração daquelas, isso se deu porque o corpo pesado de Robert se jogou no chão quebrando então o pescoço do animal. Os olhos do rei estavam vermelhos, o ódio saía de suas narinas porque ele pensava que seu filho estava morto, então puxou Miraz pelo pescoço como se ele fosse um boneco de plástico, o apertou até o vilão ficar vermelho assim como ele, e seguida que deu um soco tão intenso que quebrou o nariz dele o atirando no chão. Miraz quase perdendo as forças puxou um punhal de seu cinturão, estendendo para acertar o peito de Robert, mas os reflexos do rei traíram seus planos, porque Robert jogou seu corpo para o lado, e viu que Lúcio estava de pé com a espada estendida para frente, mesmo sem enxergar nada o rapaz seguia seu instinto, Robert levantou Miraz pelo colarinho, tomou o punhal de sua mão, e o jogou contra o corpo de Lúcio.

O garoto caiu no chão sentindo apenas um corpo pesado em cima de si, e algo quente e melado que escorria por seu corpo. Pensou que a morte o tinha derrubado, mas sentiu alguém saindo de dentro de sua espada. Robert estendeu Miraz com apenas uma mão, o rei já estava aparentemente morto, mas para não correr riscos, e por puro prazer, Robert enfiou o punhal na cabeça de Miraz.

Bob jogou o vilão morto no chão, e se ajoelhou ao lado de Lúcio, tocou na perna do garoto lhe arrancando um grito e um forte suspiro.

– Lúcio fala comigo. Você está bem? — perguntava com o menino em seus braços.

– Eu não posso enxergar mais pai – dizia gemendo – eu estou cego, cego e certamente paralítico, pois já não sinto mais nada da cintura para baixo, não sinto mais nenhuma das duas pernas, e não consigo mais ver o azul dos seus olhos.

– Não, não, não você não merece isso, não pode ficar assim. Eu não quero que você sofra mais.

– Eu não quero viver assim pai, eu prefiro morrer, com certeza será melhor do que ver nossa derrota.

– Mas nós não seremos derrotados. Não me diga que lutou até agora para se entregar assim.

– E a Roberta? O que vão fazer com ela?

– Vou buscá-la, mas antes eu preciso cuidar de você. Essa perna não pode infeccionar. Eu prometo que eu vou te curar Lúcio.

Desde o desastre do casamento Sunamita andava bem triste, haviam se passado quatro meses e até agora Caspian não voltava a falar em casamento. Na verdade ele tinha ficado muito estranho e Sunamita achou que era por causa de Susana. Ficou triste ao saber que tinha convidado e ex esposa de seu marido para ser sua madrinha, percebeu que aquilo machucou os dois e se deu conta que não deveria ter falado para Caspian o que Tirza tinha dito para ela. A jovem amava Caspian e estava certa disso, mas sabia que ele ainda amava Susana e não queria vê-lo sofrer, se ele decidisse voltar com a esposa, ela aceitaria. Ultimamente não deixava de pensar no filho de seu rei, o príncipe Rilian, ela só o tinha visto em duas ocasiões, no jantar e no casamento e ainda sim não deixava de pensar no que ele disse sobre estar apaixonado por ela. Sunamita fazia um enorme esforço para se lembrar do rapaz, mas não conseguia, achou que se tivesse o amado teria se lembrado.

Sentada em um tronco na aldeia, foi surpreendida pelo rapaz em que acabara de pensar.

– O que quer comigo? Veio falar com seu pai? – se levantou assustada.

– Por que fez isso comigo Sunamita? Sabia que eu te amava e ainda sim quase se casou com meu pai.

– Mas eu nem sei quem você é, acho que não lhe devo fidelidade.

– Como me esqueceu? — perguntou segurando-a pelos ombros.

– Você mesmo me disse que eu não te amava. Se você realmente fosse alguém importante em minha vida eu teria recordado.

– Talvez eu não tenha sido importante para você, mas ainda posso ser e isso pode te ajudar.

– Isso o que... — Rilian a agarrou pela cintura e lhe deu um beijo de tirar o folego, a moça não sabia como reagir, mas não conseguia resistir, há muito tempo não recebia um beijo daqueles, na verdade Caspian nunca a beijou assim, e achou que aquele fosse um beijo de amor.

Rilian ficou muito mais atordoado que ela e resolveu fugir, mas seu beijo teve um efeito esperançoso, já que Sunamita se lembrou de algumas cenas com o rapaz e com sua amiguinha Roberta, seu coração gelou ao lembrar do grande erro que cometeu e induziu a menina a cometer também, soube que a garota corria perigo.

Robert entrou em sua tenda com Lúcio desmaiado em seus braços, e teve uma surpresa ao encontrar Lúcia lá.

– O que aconteceu com nosso filho Robert? — perguntou ajeitando a cama.

– Ele e Miraz se enfrentaram... mas nós o matamos.

– E por que ele está sangrando tanto? — Lúcia pensou que não choraria tão cedo.

– Por favor não fique nervosa. Me ajude a cuidar da hemorragia na perna.

– Claro!

– Lúcia sente-se e se acalme, eu nem sei como dizer isso mas... o Lúcio está paralítico.

– Como isso aconteceu Robert? — perguntou se abraçando a ele.

– Miraz o golpeou com a espada, em apenas uma perna, mas depois Lúcio disse que não sentia mais nenhuma das duas, além disso...

– Além disso o que?

– Calma, já disse para ficar calma. Ele... o nosso filho está cego Lucy.

– Não Robert, não me diz isso. O Lúcio ele não tem estrutura para suportar isso.

– Os olhos dele estão roxos, me disse que foi um coice do cavalo. E ainda por cima encontrei Bri morto. Nem sei como vou contar isso ao Cor.

Robert fez um curativo para a perna de Lúcio, e Lúcia se acalmou um pouco, precisava conversar com ele, apesar de não ser um bom momento, não aguentava mais aquela angústia.

– Robert acho que precisamos conversar. — dizia sacudindo as mãos em gestos nervosos, em pé em um canto.

– Foi para isso que você aqui?

– Foi sim, exatamente para isso.

– Acho que não é um bom momento para isso, Lúcio precisa...

– E o que nós precisamos Robert? E nós?

– Não existe mais nós Lúcia, acabou. Como já disse não é hora para conversar.

– Mas nós precisamos, eu não posso mais adiar isso.

– Olha bem, eu não quero discutir. Quero pelo menos ter ainda um pouco de carinho por você.

– É só isso que você sente por mim? Um pouco de carinho? — perguntou sentida.

– Eu não sei – disse passando as mãos no rosto – você não deixou que eu soubesse o que estava sentindo, não deixou nem eu entender o que eu mesmo estava sentindo.

– Talvez porque eu também não soubesse. Mas agora eu sei.

– Precisou de um ano para descobrir? Me desculpe, mas eu não tenho tanta paciência assim Lucy.

– Você pode pelo menos me escutar? Já sabe o que vim fazer aqui não mesmo Robert? Você tinha razão.

– Razão de que?

– Que eu... que eu sinto muito a sua falta – Lúcia começou a chorar e achou que não sairiam mais palavras de sua boca, Robert também não disse nada, apenas deu tempo para ela. — Eu sinto falta da nossa família.

– Da nossa família não restou mais nada Lucy. Olha – disse apontando para o Lúcio – olha só para o nosso filho, eu nem sei o que fazer com ele, e a Roberta? Eles a levaram e eu estou tão só e tão confuso, não sei nem o que fazer para ajudá-los.

– Eu cometi o maior erro da vida acreditando que poderia viver sem você Bob. Mas foi você que se separou de mim Robert.

– Eu só fiz com gestos o que você queria fazer com palavras. Você só sabia me machucar com suas acusações o tempo todo, foi tão fria, deixou bem claro que já não me amava e que não me queria mais. Eu só fiz o que você queria não é verdade?

– Não. Eu queria que você lutasse por mim.

– Uma luta dessas não se vence sozinho Lúcia, e você, foi você o meu inimigo. Você se trancou no seu mundo e não deixou que eu me aproximasse.

– É que não me dei conta do quanto te machucava e nem que isso iria trazer danos pra mim mesma. Mas agora entendo tudo Robert.

– Entende o que?

– Que você sempre foi inocente não é? Você e a Susana, nunca me traíram, eu descobri.

– Mas você deveria saber disso desde o começo. Não acreditou em mim Lúcia.

– É que eu sentia muito ciúmes, porque eu te amava muito. Eu não podia controlar Robert. Só você pode nos dar a solução.

– Solução? Solução para que?

– Para... para o nosso amor. Eu ainda te amo Bob e eu te quero de volta, mesmo não merecendo, eu tenho consciência disso. Me dá uma oportunidade por favor, eu nunca mais vou te decepcionar, sei que tem razão para não me aceitar, mas eu faria qualquer coisa pra mudar o passado. Você me avisou que esse dia ia chegar e no fundo eu sabia disso, mas ainda não sei a sua resposta. Então você me perdoa?

Robert olhava para Lúcia e tinha tantas lágrimas nos olhos quanto ela, na verdade ele achou que esse dia nunca mais chegaria, mas ficou contente e emocionado por Lúcia ter deixado o orgulho de lado, por ter cedido. Ele sentia falta dela, agora estava dividido porque prometera para si mesmo que nunca mais a perdoaria e que jamais voltaria para ela. Alguns minutos aterrorizantes para Lúcia serviram de reflexão para Bob, ele ainda se sentia muito magoado, mas seu coração se derretia fácil diante de um pedido de perdão, ainda mais de alguém tão importante em sua vida como Lúcia.

– Não vai me responder Robert? — perguntou conseguindo controlar um pouco do nervosismo, mediante ao silencio.

– Eu estava aqui pensando nas alternativas possíveis. Fazendo um balanço da nossa vida.

– E a que conclusão chegou? — perguntou baixo e preocupada.

– Que eu só tenho duas saídas Lucy. Ou eu posso ficar com meu orgulho e passar o resto dos meus dias remoendo tudo o que aconteceu e vivo eternamente infeliz, ou eu posso passar por cima disso tudo e ficar com a mulher que eu tanto amo e que não esqueci nem por um dia. Eu não quero mais viver assim Lucy, quero a nossa vida de volta. — disse a envolvendo em seu braços. Lúcia secou as próprias lágrimas e depois segurou o rosto dele, o beijou sendo amavelmente correspondida, o beijo foi ficando mais intenso e Lúcia sentiu que toda sua dor tinha ido embora, apesar de estar chorando e de todos os problemas que eles haveriam de enfrentar quando aquele beijo acabasse. Uma saudade imensa invadiu o corpo de Robert e eles queriam recuperar todo o tempo perdido ali mesmo. Se separaram do beijo frenético rindo e Lúcia ainda secava suas lágrimas que molhavam seus lábios sorridentes.

– Não podemos ir longe demais, Lúcio está aqui.

– É uma pena – riu novamente. — Robert eu tenho explicações para te dar.

– Vamos esquecer tudo isso, vai ser melhor assim – disse segurando as mãos dela.

– É algo muito sério, algo que nem eu mesma sabia e não entendo muito bem.

– Então me explica direitinho. — Robert se sentou na cama e a puxou para seu colo, Lúcia envolveu seus braços no pescoço dele e suspirou tentando achar as palavras certas.

– Todas as minhas atitudes tem uma explicação. Eu nem sei como dizer isso Robert, descobri a pouco, estou nervosa ainda, foi o senhor Cornélio que me disse. — Robert prestava atenção em cada palavra dela, mas não se atrevia a dizer nada. — Eu... eu estou grávida Robert — Robert não compreendeu muito bem, ficou com medo, pois a barriga de Lúcia ainda não aparecia e eles estavam separadas há um ano.

– Não precisa me olhar assim amor, sei o que deve estar pensando, mas deixa eu explicar.

– Tudo bem eu... não importa o que seja, eu estou com você.

– É que o nosso bebê não é comum Robert, é seu filho, ou melhor sua filha. Eu estou esperando uma... uma fada.

– O que Lucy? Uma fada?

– Não existe barriga ainda porque ela não cresce, a gestação de uma fada dura um ano. Quer dizer que já está perto de nascer.

– Lúcia é uma notícia maravilhosa, mas muito difícil de entender, nós somos humanos, como esse bebê pode ser mágico?

– Não sei explicar, Cornélio disse que isso é muito raro, também é muito difícil de descobrir. De uns tempos pra cá ele e Tumnus tiveram suspeitas, por causa dos sintomas.

– Que sintomas você teve?

– Não são sintomas de uma grávida normal, por se tratar de uma fada, meus sentimentos e minhas emoções foram quase nulas. Quero dizer, as fadas não tem emoções, assim como as sereias e algumas criaturas de Nárnia, por isso eu fiquei indiferente. O ciúme, a indiferença, o mau-humor são os únicos sintomas.

– Ah então...

– Por isso fui tão dura com todos vocês. Eu praticamente não tinha mais emoções, acho que por isso estava tão confusa.

– Por que não me disse isso logo Lúcia?

– Eu precisava saber se você ainda me amava o suficiente para me perdoar, não queria que ficasse comigo só porque estou grávida.

– Nada poderia me fazer mais feliz do que ter outro filho. Mas acho que agora está na hora de recuperar nossa família, vou atrás da Roberta e prometo que trarei nossa filha a salvo. — Eles deram mas um último beijo e Robert trataria de procurar Roberta.

Caspian estava no Peregrino da Alvorada, preparava coisas para levar a cabana, quando percebeu que seu navio foi invadido por seu pior inimigo.

O que faz aqui? — Caspian puxou a espada rapidamente e apontou para o rival.

– Abaixe isto, ainda não é hora, haverá muito tempo para um banho de sangue.

– O seu sangue, só pode ser. — Caspian bufava e Rabadash via como o peito dele arfava de ódio.

– Guarde sua fúria para o que vem pela frente. Esse sangue que será derramado, mas não será o meu e sim do nosso grande amor.

– Cale sua boca imunda. Você não ama a Susana, não como eu amei.

– Tem certeza que a ama? Se a amasse não teria feito o que fez com ela.

– Eu não fiz nada com ela.

– Esse foi seu erro, não fez nada para ajudá-la, nada para salvá-la.

– Não entendo onde quer chegar. É melhor sair daqui, acha que esqueci o que quase fez com meu neto?

– E com Susana também não é mesmo.

– Não mencione mais o nome dela. Eu a odeio tanto quanto à você. Não me importo mais com ela.

– É verdade majestade? Odeia e despreza a mulher que salvou sua vida? A mulher que foi humilhada para que todos vocês ficassem bem? E olha o que fizeram em troca? a destruíram.

– Onde quer chegar com isso Rabadash? Não entendo. Como assim me salvar? Susana me salvou de que?

– Vim te contar toda a verdade Caspian. Abrir seus olhos, mas acho que já é tarde demais.

– Que verdade? Tarde para que? Pare com esses joguinhos Rabadash.

– Você odiou a mulher que te amou acima de todas as coisas. Quem dera se eu tivesse todo o amor dela.

– Não foi a mim que ela amou. Ela ama o Robert. — disferiu um golpe com a espada quebrando a mesa de centro.

– Isso foi o que eu fiz você acreditar. E vi que você é mesmo um verdadeiro idiota Caspian.

– O que quer dizer com isso? — perguntou congelando de tanto nervosismo.

– Fiz você acreditar que Susana amava o Robert. Era tudo mentira Caspian, foi um plano meu para separá-los. Susana nunca te traiu, eu a obriguei a escrever a carta, eu armei tudo para que você os visse junto, eu mandei a Susana dizer todas aquelas coisas. A Anna e o Carlos são seus filhos, sua mulher nunca te traiu. Susana só me obedeceu porque eu disse que te mataria, e como te amava tanto e tinha medo de te perder ela fez tudo do jeito que eu pedi, fingiu amar o Robert e ser sua amante só para preservar sua vida. Ah Caspian se você tivesse visto o quanto ela sofreu, se visse o quanto ela chorou, você foi duro com ela meu rei, sua mulher fez tudo por você e em troca você quebrou seu coração. Quem fez mal a Susana não fui eu Caspian, foi você.

Caspian se desesperou e as lágrimas saíram de seus olhos como uma cachoeira, seu coração ficou apertado e ele colocou sua mão no local que sentimentalmente estava ferido. Se arrependeu profundamente por tudo que disse a Susana, Rabadash tinha razão, quem fez mal à ela, foi ele mesmo. Caspian deveria estar feliz por saber que sua mulher realmente o amava e que tudo o que o fez sofrer não passava de mentiras, mas ele foi cruel com Susana e não confiou nela, se ele se sentiu mal por tudo o que aconteceu imagine ela, pois sofreu pela ameaça, sofreu por sua interpretação e sofreu por seu desprezo. Também se lembrou da maldade que fizera com Rilian, praticamente tirou a mulher que seu próprio filho amava. Se afastou dele, e o mal estar piorou por lembrar que não só afastou e feriu Rilian, como Benjamim também, seu filho tentou abrir seus olhos, mas ele foi duro, e não perdeu só Susana, mas os dois também. Sua grande sorte foi deixar o amor por Anna e Carlos falar mais alto, pensou no que teria sido se também tivesse desprezado seus dois filhos, se atormentava pensando no porquê não deixou seu coração falar alto também com Susana. Também recordou o mal que fez com a família de Robert, foi muito injusto e aquilo estava o corroendo por dentro, estava tão debilitado que se Rabadash quisesse poderia matá-lo, não sentia ódio de seu inimigo, mas de si mesmo por ter se deixado levar por aquelas mentiras.

– Não acredito que você foi capaz de fazer isso. Nunca vi tamanha crueldade.

– Mas acreditou que a Susana foi capaz não é? Preferiu acreditar em mim do que na mulher que viveu ao seu lado tanto tempo. Eu consegui Caspian, consegui me vingar e sabe quem foi meu maior aliado? Você mesmo. Eu sim já vi tamanha crueldade e ela veio de você para com a Susana. Aquela desgraçada está pagando por tudo o que me fez sofrer, por culpa dela eu nunca fui feliz e ela não será também, nem ela e nem você.

– Você é o pior dos monstros. Não deveria temer à Tash e sim a você. — Caspian queria se vingar de Rabadash, mas o que ele precisava fazer era muito maior e mais importante do que qualquer coisa. Precisava pedir perdão e recuperar sua mulher.

– Aonde pensa que vai Caspian? — Caspian parou na porta para responder.

– Vou atrás da minha mulher. Preciso desfazer a burrada que eu fiz, preciso recuperá-la.

– Agora é tarde demais meu rei. Não vai conseguir, qualquer esforço será impossível.

– Eu sei que a magoei muito, mas Susana me ama e vai me perdoar. Você não vai me impedir de tê-la de volta.

– Eu não. Mas Tash sim.

– Como assim Tash...

– Nossa amada Susana está no inferno agora. Ela foi para o abismo, onde passará o resto de seus dias comigo e o asqueroso Tash.

– N-não posso acreditar nisso, deve ser uma mentira sua. Como pode fazer isso? Você prometeu que se ela ficasse com você estaria sempre bem.

– Foi ela mesma quem decidiu isso – diante da cara assustada de Caspian ele resolveu explicar – Anna teve um parto muito complicado, certamente ela morreria e o bebê também, mas para salvá-los Susana entregou sua alma ao grande e poderoso deus dos calormanos. E hoje decidi entregá-la a ele.

– Maldito miserável – Caspian voou em cima dele, mas a espada de Rabadash se defendeu contra a de Caspian. Isso não foi o suficiente para deter a ira que estava acumulada dentro de Caspian, ele derrubou a espada de seu inimigo e começou uma luta corpo a corpo.

Caspian estava em cima de Rabadash e lhe dava mais socos do que o tisroc podia suportar. Com o rosto escarlate de tanto apanhar, o calormano ainda amaldiçoou o telmarino então Caspian colocou suas duas mãos dentro da boca dele, tentando separá-las fazendo a boca de Rabadash sangrar com ferocidade. Caspian se levantou e deu vários chutes na cara de Rabadash, não ficando satisfeito o rei pulava e pisoteava a barriga de seu mais odiado rival. Caspian o puxou pelos cabelos e a jogou contra a mesa uma grande mesa de jantar, boa parte do vidro se enterrou no rosto dele.

– Por que você fez isso? Por que? — Caspian apertava o pescoço dele com muita fúria, mas não queria matá-lo de uma vez. Queria na verdade que ele sentisse toda a dor que Susana sentiu.

– Vai pagar por isso? — mal conseguia dizer.

Caspian ainda não satisfeito mandou que ele se levanta-se e lhe deu outro chute na sua boca, seu chão parecia um acervo de artes inspirado na cor vermelha, já que o chão estava bastante sujo de sangue e dentes. Caspian não acreditando que Rabadash fosse capaz de fazer uma maldade daquelas com Susana resolveu ir no castelo atrás dela, constatando que não havia ninguém lá se desesperou, pois não sabia como a salvaria de seu cruel destino. Antes de sair tinha amarrado Rabadash com três fortes e resistentes cordas, uma nas mãos, outra nos pés, e outra no tronco. Ele não contava que os parceiros de seu inimigo cumpririam suas missões e quando retornou ao navio levou um grande susto.

Rabadash apesar de estar muito ferido estava solto, sentado no sofá da sala, ele tinha uma espada no pescoço de Anna que estava deitada em sua perna, imóvel e amedrontada, não por ela mesma, mas por charles que tinha uma corda em seu pescoço. A corda estava presa no teto, posta como uma forca, o bebê estava em pé, sendo sustentado pelo braço de Rabadash, se este soltasse o bebê ele morreria enforcado.

– Agora me diga onde está sua valentia meu rei.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.