Nyx, a Demônio Banida

11 Becos e um Milk Shake


Becos são lugares perigosos, principalmente para humanos, mais ainda pra aqueles que tentam te assaltar pela segunda vez. Alguns ossos quebrados, infelizmente não deu tempo de devorá-lo, a polícia chegou lá, mas eu consegui escapar, obviamente, mas outros \"policiais\" me acharam.

Encurralada naquele mesmo beco com um anjo caído me enforcando com as mãos, e dessa vez não era Gadrel, usava toda minha força, ou pelo menos o que restava dela.

— O que você quer Azazyel? — cuspi essas palavras, afinal não havia outro jeito de elas saírem.

Ele deu um sorriso malicioso e convencido no rosto. Sua face era pálida, possuía cabelo claro e curto. Olhos de anjo caído.

— Só estou sendo um bom servo, obedecendo meu mestre, ao contrário de você.

Durante uns cinco segundos ele diminuiu a força que aplicava nas mãos para me segurar. Aproveitei esse tempo para empurrá-lo com a maior força que consegui, ele bateu com as costas na parede, mas não pareceu ter dado o efeito que eu queria. Azazyel era rápido e me prendeu novamente, ficamos nesse empurra-empurra por um tempinho, mas ele cansou de brincar logo.

— Tá legal, chega de gracinhas, eu já poderia ter te levado pra Lúcifer se quisesse, mas antes quero saber — ele inclinou a cabeça para o lado — Porque você faz isso?

Olhei fundo em seus olhos.

— Porque eu não faria isso?

— Simplesmente porque nós ficaríamos com o céu!

— Você realmente acha que nós ganharíamos isso? Realmente acha que esse é o objetivo?! — dei uma risada irônica — Não mesmo, Lúcifer tem planos maiores, com certeza, ele não é idiota, ah, mas não é mesmo! Ele sabe que não ganharia isso, assim, simplesmente se revoltando de uma hora pra outra.

— Como você é burra!

— Sou mesmo?! Então me explique como ainda estou viva. Porque o grande rei do Inferno me pouparia a vida?! Até onde eu sei, eu não sou nada demais, não sou ninguém para ele, além de mais uma de suas criações. Ele poderia ter acabado comigo no salão, mas não o fez, ele poderia me destruir a qualquer minuto, mas não destruiu. Isso porque eu sou um de seus peões, e quando estiver pronto para dar o Xeque-Mate ele irá matar a todos.

— Isso é ridículo... Você não sabe do que está falando. Mas se tem tanta certeza de que é isso o que diz, qual é o grande plano dele? Qual é a trama por traz de tudo isso?

Balancei a cabeça negativamente.

— Eu não sei, mas... — Azazyel me interrompeu.

— Ah, vá tomar no cu! Você é só mais um demoniozinho que acha que sabe de tudo, e ainda por cima não ta nem ai pra Lúcifer, ele que te poupou a vida, ele que... — dessa vez ele tinha sido interrompido, mas não por mim, e sim por Gadrel, e não foram por palavras, mas um soco certeiro no nariz.

— Da onde você surge garoto?! — perguntei.

— De nada, foi um prazer ajudar! — disse ele ironicamente arregalando seus olhos de anjo caído e inclinando a cabeça.

Virei os olhos e sai do beco. Olhei para trás e o vi conversando com Azazyel, o que falavam eu não sei, e também não me interessei o suficiente para voltar lá para ouvir, mas deveria ser algum assunto entediante de anjos caídos. Não estava curiosa.

— O que vocês tavam falando?

Gadrel olhou para o céu rapidamente e depois se voltou para mim.

— Vai chover.

— É vai sim, mas essa não é a resposta que eu espero.

— É, eu sei. — se virou pra mim.

Notei que Gadrel era alto.

— Você é alto. — comentei.

— E você é feia! — disse ele soltando um daqueles seus sorrisos.

Dei de ombros.

— Fala logo o que ele queria porra!

— O que você acha?! Tem uns 100 demônios, anjos caídos e outras criaturas atrás de você! Acha que ele veio fazer um passeio em São Paulo? Porque não fazer umas compras?!

\" ¬¬ \" foi mais ou menos assim que olhei para ele.

*suspiro* — É coisa nossa, eu conheço Azazyel há um tempão, e nós só estávamos conversando. — disse Gadrel.

Acho que ele esperava que eu perguntasse mais alguma coisa, mas não o fiz, não me interessava a história da bela \"amizade\" daqueles dois.

Continuamos andando. Não sei como, mas fomos parar no shopping Eldorado, lar de muitas pessoas de São Paulo desocupadas e burras. E ricas, ou pelo menos tinham dinheiro para mais de uma casquinha no McDonald.

— Onde você arranja dinheiro? — perguntei para Gadrel enquanto ele pagava um milk shake de morango.

— Dando o rabo. — respondeu ele sério.

Colocou o canudo na boca e tomou um gole daquela mistura de leite com sorvete. Ficou me olhando. Fiz o mesmo, mas com cara de \"que idiota\".

— Nyx.

— O que é? — tomei o copo de mil shake de sua mão.

— Eu acho que descobri como podemos sair, bem, dessa situação sabe, de fugitivos.

Com o canudo na boca, sugando o resto do milk shake soltei um \"hummm\" como se quisesse dizer \"desembucha logo\".

— Não sei se você vai gostar da idéia, mas acho que se desse certo, talvez estaríamos \"livres\".

Parei de tomar o negocio cor-de-rosa.

— Fala logo o que é caralho!

— Bom, eu andei pesquisando, e segundo algumas fontes...

— O que?! O que é?!

— Ah — ele desviou o olhar de mim para outro canto qualquer e coçou a nuca — eu não sou bom com essas coisas...

Ele parecia sem jeito.

Cruzei os braços.

— Vai falar ou não?! — perguntei já nervosa e encarando-o.

Gadrel olhou para baixo e soltou um \"Não! Esquece, era uma idéia ridícula e nunca funcionaria!\".

Descruzei os braços, agora minhas mãos estavam nos bolsos de minha calça jeans. Continuei a andar e Gadrel também, mas ele parecia estar com pressa, foi atravessando a multidão de pessoas e logo não pude mais vê-lo.

Naquele momento, em que vi o quão lotado estava o shopping, notei que era domingo, mas não era um domingo qualquer, era um domingo de \"emenda\" de feriado, 5 de setembro. Se eu fosse um ser humano, nos feriados e emendas eu dormiria durante toda a eternidade de um dia.