Nyrel - Uma História de Amor
9 Separação
Notas iniciais
DAREL
Os dois anos seguintes foram aparentemente sossegados.
Depois do meu desentendimento com Tāwhai, decidi que não voltaria a surtar daquele jeito, nem tentar estimular desavenças com o garoto. Primeiramente por que minha atitude realmente havia sido alarmante, e eu mal sabia dizer por que a tivera. E, em segundo lugar, percebi que aquilo faria Nyree infeliz. E não queria ver minha melhor amiga assim.
Então, como forma de amenizar conflitos, havíamos esquecido aquele incidente e seguido em frente.
Pelo menos foi no que acreditei, até completar doze anos.
Para meu completo choque, meus pais vinham, desde alguns meses antes, discutindo a possibilidade de deixarmos Tokonga e nos mudarmos para uma cidade grande.
Obviamente, só fiquei sabendo disso quando finalmente me contaram, algumas horas após minha haka de celebração.
Lembro-me de ter ficado completamente horrorizado.
— Sair de Tokonga? – arfei – por que, papai?
Papai se entreolhou com mamãe, parecendo muito encabulado.
— Devíamos ter falado sobre isso com você, aroha— mamãe falou – temos parentes maoris em Sydney. E eles nos convidaram para residir com eles num núcleo de bruxos – ela ofegou uma vez, aparentando tensão – é uma oportunidade única, filho. Ofereceram uma oportunidade de você aprender com os nonmīharo australianos. Conhecer seus costumes. Vai explorar o continente... aprender outras magias. Vai ser...
Mamãe engasgou e não continuou.
Não fingi desinteresse. A perspectiva de conhecer o mundo além da tribo – conhecer outras culturas e modos de vida – era algo com que eu sonhara desde sempre. Explorar novos lugares além de Tirari-Sturt seria fantástico.
Porém, naturalmente, o desespero com um fato simples falou mais alto.
— Mas e Nyree?
Papai olhou para a saída da cabana.
— Escute, tama— ele segurou meu ombro – vamos ter que nos despedir de todos que nos são queridos aqui. Não vai ser para sempre – acrescentou, quando me viu arquejar outra vez – iremos voltar, filho.
Mordi o lábio, aflito.
A indecisão me corroía. Mamãe tinha razão... fora de Tokonga, eu aprenderia mais do que qualquer outra criança maori. Poderia até mesmo conhecer outros bruxos de outras sociedades e comunidades. Uma oportunidade de obter conhecimento como aquele era simplesmente imperdível.
Mas aquilo significaria deixar minha melhor amiga para trás.
Olhei para meus pais. Eles pareciam tão animados – mas também divididos – com a iminente partida... como eu poderia estragar aquilo?
Papai dissera a verdade... não seria para sempre. Voltaríamos logo.
— Quanto tempo?
— Quatro ou cinco anos – mamãe suspirou – iremos retornar assim que você completar estes estudos.
Olhei uma vez para o teto de nossa cabana. Nunca tinha reparado o quando nossa casa era acolhedora.
Mas algo me fez finalmente tomar a decisão dolorosa que mudaria minha vida.
Assenti uma vez, selando finalmente aquela questão.
—__________________O____________________
Quando me aproximei da cabana de Puhu, vi Nyree vir correndo em minha direção, com um grande sorriso no rosto.
Atrás dela, vinha Tāwhai – que, para minha surpresa, não esboçava uma contração sequer.
— Você demorou, Darel – ela me abraçou – Puhu começou a ensinar como usar a fogueira de histórias – Nyree se afastou, me encarando – o que houve?
Olhei para Nyree, finalmente sentindo aquele aperto no peito que ameaçava me engolfar desde que concordara com a mudança.
O rosto moreno de olhos amendoados me olhava com ansiedade... ela nem imaginava.
— Temos que conversar – guinchei.
— Diga logo de uma vez, Darel – Tāwhai revirou os olhos – temos que voltar para a aula.
— Calma, Tāwhai – Nyree o censurou – o que foi, Darel?
Baixei a cabeça, apertando os dedos nas palmas das mãos.
Por fim, tomei coragem e contei tudo.
Quando terminei, esperei que Nyree gritasse. Ou me xingasse de todos os nomes maoris pejorativos que poderia se lembrar.
Mas sua reação foi muito pior.
Seu rosto murchou, adquirindo a mesma expressão e dureza de uma estátua entalhada. E vi algo abandonando o olhar vivo e brilhante de Nyree.
— Você vai embora – disse cada palavra lentamente, me fitando com sua máscara. Sua voz não tinha emoção alguma.
— Vou – falei depressa, tentando sufocar o desespero crescente dentro de mim – não é para sempre... eu vou voltar.
Tāwhai me olhou duramente, parecendo surpreendentemente calculista.
— Será que vai, Darel? – falou, estreitando os olhos – quantos Tokonga que partiram daqui voltaram?
— Nenhum .
A resposta não viera de Tāwhai.
Olhei para Nyree, espantado.
Sempre admirara o talento de Nyree segurar as lágrimas quando queria. Mas o fato é que, naquele momento, sem eu olhar, não havia nenhuma para ser derramada.
E aquilo doeu como uma facada.
— Nyree... – arfei, sentindo o nó em minha garganta crescer.
— Melhor você ir. Vai se atrasar – Nyree deu as costas para mim, ainda olhando através da máscara que construíra, e, para minha angústia e horror, segurando a mão de Tāwhai – vamos, Tāwhai.
— Mōkī! – exclamei, agoniado.
Ela me lançou um último olhar.
Mas não havia raiva. Não havia tristeza.
Não havia nada.
— Depois de tudo... achei que seríamos amigos para sempre – ela falou.
E voltou a cabeça para adiante, voltando para a cabana de Puhu. Sem olhar para mim outra vez.
— Pode ir embora, Darel – Tāwhai bufou – prometo que vou ser o verdadeiro amigo que a Nyree merece. E não vou troca-la por nada.
O que fez meu coração se desintegrar não foi o comentário maldoso de Tāwhai. Ali, finalmente percebi o porquê nunca o aturara.
O que me machucou foi Nyree não reagir. Vê-la se aconchegar ainda mais no abraço de Tāwhai.
E nunca mais olhar para trás.
—____________O_____________
Papai e mamãe não se atreveram a dizer nada, quando finalmente retornei á cabana.
Arrumei minhas coisas em silêncio, jogando-as de qualquer jeito na grande bolsa de folhas ao lado de minha cama.
Entre elas, achei um colar de pena familiar.
Um presente, de quando me transfigurara pela primeira vez. Feito por Nyree.
Enfim, algo me engolfou, fazendo meus joelhos cederem e meu corpo desabar na esteira.
Fiquei o que pareceram ser horas encolhido ali, soluçante, revendo milhares de vezes, em minha mente, Nyree se afastando de mim e desparecendo.
Quando consegui me reerguer, voltei a guardar meus pertences na bolsa, decidido.
O último objeto pairou em minha mão, flutuando com minha magia. A enorme pena de emu tremulou ao vento.
Olhei-o por alguns instantes, pensando em diferentes formas de destruir aquela lembrança tão dolorosa de uma amizade que não existiria mais.
Porém, quando meus pais finalmente me chamaram, percebi o que deveria fazer.
E, enquanto eu me afastava cada vez mais da tribo Tokonga, caminhando cambaleante na areia do deserto, era como se o colar de pena em minha bolsa pesasse mais do que eu conseguiria suportar.
E ali, ao contrário do que eu imaginava, começavam os sete anos mais angustiantes da minha vida.
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