DAREL

Quando chegamos à Otter Dental Clinic, fomos recebidos por uma ampla fachada negra, com o nome do estabelecimento em letras prateadas.

Onde deveria estar o C, havia uma lontra estilizada.

Arfei, surpreso.

Hermione havia me contado sobre os patronos, e contara qual era a forma do seu. A primeira conclusão que tirei, espantado, era que, de alguma forma, os pais dela ainda sentiam alguma relação com a figura do animal.

Talvez o efeito do feitiço de Memória não tivesse sido tão profundo assim.

Hermione se entreolhou comigo, um brilho de esperança surgindo subitamente nos olhos castanhos.

Ela adiantou-se, batendo na porta envidraçada, e recuou de volta á soleira, esperando.

Alguns segundos depois, a porta abriu-se, revelando um homem de meia idade, com um arrumadíssimo jaleco branco, que sorriu para nós três.

Eu nem precisava confirmar. Eram os mesmos olhos, o mesmo sorriso torto, e até o mesmo tique de dar piscadelas. Sem dúvidas, aquele era o Sr. Granger.

Vi Hermione disfarçar um tremor, enquanto apertava a mão do pai.

— Doutor Wilkins... – cumprimentou-o, forçando um sorriso.

— Senhorita Williams, senhores – ele sorriu de volta, assentindo — sejam bem vindos. Podem entrar...

Entramos na Clínica, decididamente tensos.

Com um aperto no coração, observei minha amiga reprimindo uma ofegada, quando passou pelo sorridente Sr. Granger.

O lugar era confortável, de cor clara, com uma grande sala de espera, onde havia várias crianças brincando com uma réplica estufada de uma dentadura gigante. Os pais, ao redor delas, conversavam animadamente. Vários banquinhos em forma de dentes se espalhavam ao longo do tapete.

Rony segurou a mão de Hermione, que voltou a enrijecer.

— Senhorita Williams – O Sr. Granger disse, indicando o consultório adiante — pode entrar. Já vou atendê-la. Os senhores podem aguardar na sala de espera?

Quase pensei em perguntar se podia acompanhar Hermione, mas decidi que era melhor aguardar do lado de fora. Aquele era o momento dela. Hermione tentaria reverter seu feitiço, e qualquer outra coisa poderia distraí-la de seu objetivo.

E depois, ela merecia aquele momento em particular com os pais, depois de tanto tempo.

Afinal, se algo desse errado, era melhor eu estar do outro lado, para não deixar o pânico se alastrar.

Mas, sinceramente, acreditava que Hermione não teria problemas. Era uma bruxa extraordinária.

No entanto, Rony pareceu entrar em pânico com a perspectiva.

— Doutor Wilkins, eu... gostaria de acompanhar o procedimento da Hermione, se não fosse incômodo... – ele gaguejou, nervoso.

Sufoquei uma risadinha. Pobre Rony... devia estar maluco de preocupação, querendo certificar-se de que tudo correria bem.

O Sr. Granger pareceu surpreso, mas assentiu.

— Claro, senhor...?

— Weasley, Doutor Wilkins. Rony Weasley...

Vi o homem franzir o cenho.

— Esse nome não me é estranho...

Hermione o encarou, perplexa, quando ele sacudiu a cabeça, parecendo incomodado.

— Desculpem... podem vir... é por aqui.

Dei uma última olhada em Hermione. Será que ela estava pensando no mesmo que eu? Havia resquícios de suas antigas memórias por trás do feitiço?

Se estava, nunca saberia, por que foi naqueles momento que os três adentraram no consultório, me deixando na sala de espera.

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Quase meia hora se passou, e nem sinal de Hermione, de Rony ou de seus pais.

Neste meio tempo, eu havia saído rapidamente da clínica, e mandado uma mensagem para Beatriz e Russel, atualizando-os sobre nosso progresso, e, caso tudo desse certo, confirmando que eu retornaria á Sydney em breve, para conversar com Stuart.

Consultei o relógio de pulso, ansioso.

Comecei a me preocupar. Será que algo havia saído errado?

Enquanto esperava, vendo uma mulher bonita, também de jaleco, adentrar no consultório, senti minha mente vaguear, até voltar a pensar em Nyree.

Senti um sorriso brotar em meu rosto. Ah, sonhadora, maluca e maravilhosa Nyree. Devia estar se sentindo eufórica, divertindo-se com todos os apetrechos trouxas do hotel.

Eu ainda não conseguia entender como conseguira viver todo aquele tempo sem ela ao meu lado. Deveria ter sido impossível. Devia ter sido como tentar viver sem oxigênio. Eu tinha que ter sufocado e tido uma morte lenta, a cada dia que passava.

O amor que fora semeado em mim desde a tenra idade havia finalmente crescido, e ultrapassado os limites da sanidade. Era tão grande e profundo que aparentava querer me explodir de dentro para fora. E, se acontecesse, seria a explosão mais fantástica do mundo.

Meus pensamentos foram brutalmente interrompidos, porém, quando Rony finalmente saiu do consultório, resmungando.

— Ok, já vou .

Alguém bateu a porta atrás dele, fazendo-o pular.

Ergui a sobrancelha, mas Rony balançou a cabeça e levantou a mão. Estava na cara que não iria dizer nada por hora.

Olhei-o se acomodar em um dos pufes da sala de espera, interagindo com uma garotinha, que brandiu uma pequena escova de dente em sua direção.

Quase uma hora e meia se passou, e nem sinal de vida de Hermione. Os pacientes – que ironia, impacientes — começavam um rebuliço, reclamando da demora.

Vimos a porta voltar a se entreabrir um pouco. Rony correu para a fresta, cochichando com Hermione.

Em menos de um minuto, ela saiu pela porta, segurou-o e veio em minha direção, saindo do consultório. Parecia meio abalada, enquanto continuava a conversar com Rony, vindo logo atrás de mim. Saí pela porta de vidro, para que pudéssemos conversar do lado de fora.

Com um isto de irritação e diversão, interrompi o mar de cochichos dos dois.

— Dá para os namoradinhos pararem de sussurrar e me contarem o que aconteceu? Isso aqui não é o quarto do amor de vocês para ficarem cochichando – brinquei, quase rindo com a expressão exasperada deles — deu tudo certo?

— Deu – vi Hermione revirar os olhos.

Mas, por trás do aparente desinteresse, eu podia ver o que engolfava aquela garota. Dava para ver o brilho da alegria e do alívio em seu olhar.

Sorri, genuinamente contente.

— Que bom. Fico muito feliz.

Hermione engoliu em seco, baixando o olhar.

Para meu choque, em seguida, a garota se jogou contra mim, me engolfando num abraço apertado.

Ofeguei, agradavelmente surpreso, afagando levemente suas costas.

— Não sei o que teríamos feito sem você, Darel. Obrigada — Hermione choramingou, rindo baixinho.

Vê-la tão vulnerável e emocionada fez meu peito apartar de compaixão.

Pobre Hermione... tão jovem, e já tinha vivido coisas demais.

Balancei a cabeça, assim que ela me soltou.

— Não foi nada, Granger. Eu é que agradeço... sabe... – olhei para o céu, suspirando — por me dar uma chance de recomeçar com Nyree.

O som da porta se abrindo nos pegou de surpresa. De lá, saíram todos os pacientes da clínica, visivelmente irritados, e, por último, o Sr e Sra. Granger – a mãe de Hermione, que entrara no consultório pouco tempo antes.

Pisquei, curioso, quando o Sr. Granger lançou um olhar avaliativo em Rony.

Epa. Alerta de pai ciumento.

— Acho que não nos apresentamos direito, com tudo que... aconteceu – a Sra. Granger falou, sem graça — sou Monica Granger.

Ela inclinou a mão na direção de Rony. Para espanto geral – principalmente de Hermione — o rapaz a segurou, dando um beijo nos dedos da mulher.

— Muito prazer, Sra. Granger... agora sei de onde Hermione herdou a beleza.

Quase engasguei com a força que fiz para não rir. Hermione parecia igualmente congelada.

Já a Sra. Granger parecia maravilhada, esbarrando no marido, com um sorriso encantado no rosto.

— Olhe só isso, Wendell...

— E você? – voltei a estacar quando o impassível Sr. Granger falou — quem seria o senhor?

— Ronald Weasley... acho que Hermione já deve ter comentado sobre mim aos senhores.

— Sim, um de seus amigos, não era, querida?

— Bom... – Hermione parecia decididamente sem graça — na verdade...ele é...

— O namorado dela – cortou-a Rony.

Pronto. Agora tinha lascado.

A Sra. Granger abriu um largo sorriso.

Já o Sr. Granger parecia ter acabado de ouvir que Hermione estava grávida de trigêmeos.

— Oh, puxa – a mulher riu, censurando o marido mortificado com um olhar — é um grande prazer conhecê-lo também, Ronald.

— Só Rony – Weasley murmurou, tímido — esse cara aqui é o Darel, que trouxe a gente até aqui.

Cumprimentei-os, vendo Hermione e Rony voltarem a sussurrar. Caramba... pareciam dois imãs.

— È um prazer conhecê-los, senhores – apertei a mão dos dois, sorrindo.

— Obrigada por trazer Hermione até aqui – disse a Sra. Granger – ela nos falou sobre você lá dentro. É mesmo um rapaz fantástico.

Baixei a cabeça, envergonhado, mas satisfeito.

— Hermione... — Wendell chamou a filha, suspirando.

Hermione interrompeu seu falatório com Rony e voltou-se para o pai.

— Sim, papai?

— Vamos ao centro da cidade resolver as... pendências sobre a... empresa. depois sua mãe e eu iremos ao endereço que você nos deu.

Qualquer um ia achar que o Sr. Granger estava furioso com a filha.

Mas ele não conseguiu ocultar a visível mistura de orgulho, gratidão e amor paternal em seu rosto.

— Tudo bem... -Hermione assentiu, parecendo perceber o mesmo que eu, visivelmente aliviada — nos vemos no hotel, então.

Ambos abraçaram a filha, rindo.

— Até daqui a pouco... não aprontem mais nada, hein...

Sorrindo, os vi deixarem a calçada e virarem a esquina, enquanto Hermione voltava até onde estávamos.

— Parece que tudo está entrando nos eixos outra vez – Rony sorriu para a namorada, abraçando sua cintura.

Hermione pareceu finalmente ceder á emoção, e começou a chora r nos braços de Rony,

Eu teria sido um amigo muito bobo e piegas por ter desejado dar um abraço na coitada também?

Embora soluçasse, eu e Rony podíamos ver o sorriso de felicidade que desviava as lágrimas de Hermione.

Rony beijou os cabelos dela, me encarando. Revirei os olhos, embora eu mesmo estivesse emocionado.

Parecia que, realmente, depois de tanto sofrimento e tensão, tudo estava começando a dar certo para todos nós.

Infelizmente, eu estava muito errado.