Nyrel - Uma História de Amor
7 A Aula Mais Trágica de Tirari-Sturt
Notas iniciais
NYREE
Tāwhai, eu e Darel finalmente começamos a nos dar bem, depois da malfadada e tenebrosa experiência com os dingos.
A transformação de Tāwhai foi o que mais surpreendeu. De um garotinho ansioso e tímido, ele se tornou um garoto muito seguro e destemido. Ter, mesmo que por alguns segundos, lidado valentemente com os animais pareceu resgatar todo o potencial que Tāwhai tinha.
Ele era tão parecido com Darel nesse aspecto... ambos eram mais corajosos do que quaisquer outros maoris que eu já conhecera. E eu nunca poderia saldar a dívida de vida que tinha com aqueles dois rapazes malucos.
No entanto, as semelhanças entre Darel e Tāwhai paravam por aí. Enquanto Darel era gentil, humorado e compreensivo, Tāwhai era teimoso, afiado, com uma personalidade muito forte para uma criança de oito anos.
Alguns anos mais tarde, eu iria me perguntar se todo aquele episodio com os dingos não teria lhe subido á cabeça.
Quando fiz oito anos – Darel tinha dez, e Tāwhai nove – fui iniciada na educação mágica maori, algo pelo qual todas as crianças ansiavam desde o momento em que se descobriam como bruxos.
Num futuro não muito distante, eu descobriria que a educação em magia, em outras sociedades, não era nada parecia com a nossa. Em Tokonga, não havia padronizações, penas, pergaminhos ou qualquer outra coisa semelhante. Tampouco existiam varinhas. Nossa magia emergia de dentro de cada um, e era moldada de acordo com nossa concentração, talento e potencial. Não há magia igual, assim como não existem bruxos iguais. Cada um tem seu próprio cerne mágico.
– Mōkī, presta atenção – bufou Darel, rindo – vai queimar a saia toda assim.
– Estou prestando – revirei os olhos, enquanto Tāwhai me dava uma piscadela.
As aulas eram presididas por Puhu, uma maori bonita e um tanto animada, que ensinava as magias básicas de nossa idade. Ela tinha uma filha, chamada Mere, que era seis anos mais velha do que eu, e acompanhava a mãe em todas as lições.
Naquela aula em questão, estávamos aprendendo a usar nossos poderes para produzir fogo. Não o fogo comum, de chamas quentes e vermelhas, mas um fogo azulado, frio, que não queimava – exceto quando o lançávamos em algum alvo, onde arderia em chamas verdes incandescentes.
Não era todo mundo que conseguia. E era aí que entrava a tal individualidade na aprendizagem. Quem conseguia, ia para o próximo “passo”. Quem não conseguia tinha opção de descartar a aula consequente e esperar uma nova lição. O conteúdo, por assim dizer, dependeria dos resultados e afinidades da criança.
Isso quase sempre garantia que um maori não tivesse os exatos talentos e poderes do outro, o que, á meu ver, tornava cada um único e especial. Nada era obrigatório, e a pessoa só aprendia certo macete se assim quisesse. Numa explicação bem sucinta, era uma educação quase autodidata.
Eu mesma não estava conseguindo produzir o tal fogo, por isso Darel havia comentado sobre minha falta de concentração. As chamas miseráveis em minha palma nem sequer alcançavam um ou dois centímetros de altura. De qualquer forma, não estava tão entusiasmada com a ideia de sair queimando tudo por aí. Eu já era uma ameaça á tribo simplesmente quando estava andando por Tokonga.
– Não consegue, iti? – Puhu afagou meu braço, bondosamente.
Balancei a cabeça em negativa, desanimada.
Ela olhou de mim para Darel.
– Bem, vocês já são Kāhuarau, não são? – Puhu perguntou – podem aguardar a aula da próxima lua. Os pequenosKāhuarau da aldeia aprenderão a controlar e desenvolver suas formas animais. E talvez até façamos um desafio para eles. O que acham?
Olhei para Darel, sorrindo.
– Sim, senhora Puhu!
Darel assentiu animadamente, dando um grande sorriso.
– Mas e eu?
Olhamos de supetão para Tāwhai, que exibia uma expressão contraída e espantada.
– Bem, querido – a mestra se virou para Tāwhai – você conseguiu fazer uma bela chama ali – ela indicou o cacto que ardia em chamas na esteira de bambu dele – poderá desenvolver ainda mais nas próximas aulas. Quem sabe, até lá, você também não se torne um Kāhuarau e possa participar da lição.
– Mas eu quero esperar com eles! – Tāwhai zangou-se, cruzando os braços.
– Sinto muito, Tāwhai – Puhu suspirou – só os animagos da aldeia poderão participar desta lição. Vai ter que esperar.
– E eu não vou poder ficar com eles?
Darel se pôs de pé de repente, encarando Tāwhai.
– Claro que não! Você não é um Kāhuarau – e acrescentou, para nosso choque – quem sabe nunca vá ser!
Puhu se reergueu, olhando escandalizada para meu melhor amigo furioso. VI a turma inteira se virar para ele.
– Darel! – exclamei, escandalizada.
Tāwhai arfou, voltando a contrair o rosto, mas agora numa expressão de raiva e mágoa. Para a surpresa da turma, ele se virou e saiu correndo da cabana.
– Tāwhai! – gritei, virando-me violentamente na direção de Darel – o que deu em você? Como pôde?
Darel também deu meia volta, e chutou o cacto da própria esteira, saindo em seguida.
Olhei para Puhu e as demais crianças, sem saber o que fazer. Finalmente, depois de alguns segundos, Puhu balançou a cabeça e me olhou.
– Não vai adiantar se eu tentar falar com eles, não é?
Murmurei ininteligivelmente, completamente perdida. O que havia acontecido, afinal?
Mere saltou do banquinho e se aproximou, meneando a cabeça para a mãe, com uma expressão exasperada. Teria achado engraçado vê-la tomar a rédea da situação no lugar de Puhu, se eu não estivesse tão abalada.
– Qual deles precisa mais de você? – ela indagou.
Franzi o cenho para Mere, absorvendo sua pergunta. Eu mal sabia o que é que dera naqueles dois.
Garotos... que raça impossível.
Mas quando relembrei da figura desolada de Tāwhai correndo cabana afora, percebi com quem tinha que falar primeiro.
Não ia ir atrás de Darel para fazê-lo crescer. Não agora.
Infelizmente, eu não fazia ideia do quanto essa decisão afetaria algumas coisas em minha vida.
E talvez tivesse tomado outra decisão se soubesse o que estava por vir.
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