Nyrel - Uma História de Amor
13 A Encomenda Inusitada
Notas iniciais
DAREL
A Sydney Tourism era uma das principais empresas responsáveis por fornecer guias turísticos para outras empresas de viagens, grupos de turistas e viagens ao longo da Austrália.
Nossa divisão, embora fosse totalmente legalizada, contava em sua maior parte com bruxos e bruxas que haviam escolhido trabalhar naquele ramo. Um dos donos da ST, Stuart Walker, inclusive, era um grande amigo do Ministro da Magia australiano. Portanto, quase todos os funcionários, até os nonmīharos do serviço de limpeza, sabiam de nossa existência.
Os poucos que fossem se arriscar a contar algo sobre aquilo tinham a memória automaticamente apagada, por um feitiço que era lançado em cada novo contratado, assim que assumia o cargo, como, forma de salvaguardar nosso segredo dos menos confiáveis. Obviamente, tudo combinado com a legislação bruxa.
No entanto, na maior parte do tempo, não tínhamos essas desagradáveis ocorrências. Muitos ali haviam sido indicados por bruxos, ou tinham um parente mágico na família, e encaravam com tranquilidade nosso estilo de vida.
Stuart havia sido um grande amigo do meu pai, desde minha mudança para Sydney, e era especialmente generoso e gentil comigo, quase como se eu fosse um filho para ele. Havia até mesmo me deixado assumir o comando do departamento de distribuição, onde eu trabalhava supervisionando os novos guias, com Beatriz e Russel.
Com quase vinte anos, eu já tinha uma ampla experiência. Havia viajado pelo país, acompanhando turistas, bruxos, biólogos e diplomatas ao redor da Austrália.
Porém, até então, não havia tido coragem de passar pela Austrália do Sul, onde ficava o Deserto de Tirari-Sturt. Mesmo com toda a benevolência de Stuart e minhas oportunidades de viagem, não ousara retornar á Tokonga. A torturante vontade de voltar para minha tribo conflitava com meu medo de relembrar a morte de meus pais – cuja falta ainda me angustiava — e descobrir o que não queria saber sobre Nyree e Tāwhai.
Para evitar pensar nisso, procurei me dedicar completamente ao meu trabalho, e me sentia grato por Beatriz e Russel terem se tornado como irmãos para mim. Ficava imensamente feliz por ter encontrado amigos tão bons em Sydney.
Ainda assim, a dor da saudade da minha primeira e melhor amiga ainda me massacrava.
Alguns dias após meu aniversário, eu estava analisando as novas solicitações de guias em minha mesa, vendo quais delas seriam prioridades para a divisão.
— Honey... you... are... my shining star...
— CALA A BOCA, BEATRIZ! TEM GENTE TRABALHANDO AQUI, SUA PRAGA!
Comecei a rir do meu lado da divisória, enquanto Beatriz fazia um som grosseiro com a língua e continuava a cantar Shining Star, agora batucando as mãos na escrivaninha para acompanhar.
— Darel! – guinchou Russel, ganindo como um cão cuja cauda alguém pisara.
— Beatriz, coitado do menino – murmurei, passando a mão nos papéis.
— Não gosta de The Manhattans? Tudo bem... então vou cantar Garota de Ipanema.
— Essa não.
— Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...
Ouvi Russel bater na sua divisória, cujo som foi seguido de algo caindo no chão e do palavrão de Beatriz.
— RUSSEL, SUA BICHA MAL AMADAA!
Ouvi os estagiários gargalharem, enquanto o novato ao meu lado sorria, revirando os olhos. Sorri de volta, balançando a cabeça.
— Me desculpe por isso – comentei – esses dois ainda vão casar qualquer dia.
— Eu ouvi isso, pulguento! – Beatriz bufou, o que só provocou mais risadas.
— Estão á fim de serem transferidos para a separação de cartas? – resmunguei, ao que Beatriz e Russel pararam de rosnar um para o outro – achei que não. Agora sosseguem.
— Tá bom, chefe.
— Bia...
— Tá, parei.
— Se bem que a Bia é bonita – Russel falou de algum lugar, engasgando ligeiramente.
Beatriz deu um gemido tão longo que fiquei seriamente preocupado com a possibilidade da garota desmaiar com a cara na divisória.
— Bom, voltando ao assunto – arregalei os olhos, fazendo o estagiário dar uma risadinha – não tem muito segredo aqui. Normalmente, eu organizo os envelopes e cartas de pedidos por ordem de prioridade. Diplomatas, governadores, biólogos e estudiosos, por exemplo, são classes prioritárias na ordem dos pedidos, e vão necessitar dos guias mais experientes, que conheçam cada aspecto da extensão australiana. Normalmente, pessoas com magia, que consigam sair de situações de risco que por acaso possam surgir durante a viagem.
— Como você – o estagiário assentiu.
— Isso... mas não é uma regra – pisquei, simpático – nonmīharos também podem assumir... como eu disse, depende muito de cada caso.
— Entendi... – ele esfregou as mãos animadamente.
— Bem, pode começar com esse maço aqui – separei um dos montes de envelopes diante dele – assim que terminar, me dê um toque, e eu verifico se conseguiu acertar a ordem.
O estagiário assentiu, e começou a vasculhar os envelopes.
Peguei minha própria parte e comecei a organizar.
Era fácil identificar os envelopes do governo, tanto bruxo como nonmīharo, sempre com selos oficiais ou o nome de alguma pessoa importante dessa área. Graças aos estudos trouxas, sabia que a mesma Rainha nonmīharo da Inglaterra era a soberana de nosso país, então não era raro ver pedidos com remetentes ingleses.
Então, foi com surpresa que recebi uma das meninas da divisão de separação adentrar em minha divisória, com um sorriso confuso, erguendo para mim um envelope pardo, um tanto grosso, que mais parecia uma encomenda.
— Estava lá embaixo – ela falou – achamos estranho... é tão grande... e parece que o remetente enfeitiçou para que só um dos superiores abrisse.
A funcionária deixou o cubículo, franzindo o cenho.
Sem dúvida, pelos selos de viagem colados ao pacote, o remetente era do Reino Unido. No entanto, para minha curiosidade, não tinha nenhuma assinatura ou selo governamental.
Como a garota dissera, as letras garrafais em vermelho destacavam que era de conteúdo sigiloso. O que mais me encucava era que aquele carimbo era um dos primeiros que eu via em um envelope do exterior, mesmo considerando os documentos oficiais vindos da Inglaterra.
E algo me dizia que tinha sido estritamente endereçada á mim.
— Com licença – deixei o estagiário separando os documentos, e me retirei da divisória.
Recostei-me á uma das mesas da secretária, lendo o papel anexado ao envelope, encarando a elegante letra do remetente com um assomo cada vez maior e inexplicável de ansiedade.
AOS CUIDADOS DO SUPERIOR DA DIVISÃO DE GUIAS DA SYDNEY TOURISM,
HERMIONE JEAN GRANGER
FAZENDA PRÓXIMA Á MORRO STOAT, OTTERY ST CATHPOLE
INGLATERRA,UK
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