Nuvens de Sangue
9 Capítulo 9 - Crença
Notas iniciais

"E da fumaça vieram gafanhotos sobre a terra; e foi-lhes dado poder, como o poder que têm os escorpiões da terra.
Apocalipse 9:3"
Passamos por entre as portas de vidro e metal da delegacia, pisando firme em um porcelanato claro e harmonioso, em frações de segundos a porta era fechada a chaves. Torres estava diante de nós, estava coberto por sangue e muito suado ofegando sua respiração, parecia ter chegado a pouco tempo. Coloquei minha mão sobre meu peito e senti uma dor forte, me apoiei a um balcão grande que ficava ao lado de cadeiras e quadros da polícia, estávamos na recepção. Nos assustamos quando a fumaça bateu entre os vidros do lugar e diante de nossos olhos alguns monstros tentavam entrar batendo violentamente nas portas, fiquei em alerta.
— Não se preocupem, essas portas foram feitas para aguentar ataques de facções, então garanto que são muito resistentes. – O PM indagou sentando no banco da recepção enquanto Luiza e Clarice me seguravam pela dor em meu corpo.
— Onde estão os outros? – Perguntei.
— Estão lá dentro, mas...
— Encontrei com Jhon, ele está morto.
— Não pude salvá-lo, eram muitos e o avião nos atrapalhou, – Torres me encarrou. – Desculpe não ter esperado vocês, quando tentamos sair do carro, Jhon foi atacado e Helena ferida no pescoço. – Arregalei meus olhos e antes de dizer algo, Clarice suspirou em lágrimas.
— Dona Helena está bem? – Torres não respondeu e já sabíamos o que aconteceu com a pobre idosa.
— Venham até a cozinha da Delegacia, podem estar com fome e sede! – Com dificuldades andei seguindo Torres, aquela repentina dor poderá aparecer pelo impacto da ambulância com o muro. Mas aquilo não importava, conseguimos chegar até o nosso destino.
Andamos por um corredor onde escritórios eram avistados com computadores, papéis e moveis destruídos e jogados por todos os lados. Parecia que uma intensa luta tinha acontecido no lugar, pois a destruição era notável. Não pude perguntar, o silêncio reinava entre as paredes sujas de sangue. Rastros de morte estavam por todos os lugares, uma trilha do líquido viscoso foi deixada ali como se corpos fossem arrastados, aquele sombrio clima me deixava pior, as dores em meu corpo até desapareciam pela tensão causada em minha mente. Entramos em uma porta onde se encontrava Maycon, Marry e um homem careca de meia idade, segurava uma bíblia em suas mãos.
— Então conseguiu Nicolas.
— Maycon é bom te ver também. – O rapaz de olhos fundos e cabelos rebeldes chegou ao meu encontro e deu a palma de sua mão para um amigável cumprimento. A menina de cabelos castanhos sorriu e abraçou Luiza, Marry estava bem, mas coberta de sangue assim como Torres.
— Fico muito feliz por estarem vivos.
— Obrigada Marry digo o mesmo. – Luiza respondeu.
— Quem é o médico? – Perguntou Torres, e não precisamos responder, Bruno deu a voz.
— Que descuido não me apresentar, me chamo Bruno, Nicolas me salvou na estação de trem.
— Prazer cara. – Conclui Torres e os outros ficaram quietos. Percebi o olhar do homem que segurava a bíblia estava em choque e chorava muito, parecia descontrolado, isolado no canto da cozinha não falara nenhuma palavra.
— Quem é o homem da bíblia? – Léo murmurou curioso como todos nós.
— Ele estava no meio da rua quando conseguimos sair dos trilhos e encontrar um carro, trouxemos junto conosco. – Parecia muito desnorteado.
Os gritos ainda eram escutados do lado de fora, o caos se instalava e parecia que não acabaria de maneira alguma, não tenho certeza se vamos ver o dia amanhecer. A madrugada mais lenta de toda minha vida, mas aquela cena era a mais próxima de ser uma cena feliz desde que tudo começou. Clarice bebia uma garrafa de aguá no bico quase se afogando, Léo e Caroline se deliciavam com pães sobre a mesa, Luiza me puxava e retirava da geladeira mais uma garrafa de aguá. Peguei e levei o líquido da vida até minha boca, aquilo era maravilhoso parecia que minha alma retornava ao corpo a cada gole. Torres erguia uma de suas sobrancelhas, sentado em uma cadeira de madeira que estava no centro da cozinha, todos bebíamos e comíamos como se aquilo dependesse de salvar o que restava de nossas forças.
— Onde está o Seu João? – Perguntou Clarice, ele não estava na cozinha.
— Desde que chegamos ele está ao lado de Helena, ela foi mordida no pescoço e não faz nem cinco minutos que veio a falecer, quis ficar sozinho para se despedir de sua amada. — Marry esclarecia.
— Não vai comer e beber Senhor? – Maycon perguntou para o homem que não respondeu, — aproveite por que não sabemos quando poderemos comer novamente. – E nada, ele não falava apenas sussurrava palavras e apertava sua bíblia no peito.
— Não perguntaria, mas estou curioso Torres, o lugar estava vazio? Onde estão os oficiais e as pessoas que trabalhavam no lugar? – A curiosidade era grande, ele levantou-se da cadeira segurando sua arma que ficava em sua cintura.
— Rapaz, quando chegamos isso aqui estava mais para um inferno, haviam alguns deles dentro da delegacia, tivemos que matar todos e jogá-los em uma sala, trancamos a porta e estão todos mortos.
— Como conseguiram matar todos?
— Não eram muitos e Maycon me ajudou, ele é um garoto corajoso. – Maycon pegou em meu ombro e gargalhou.
— Sempre quis estourar os miolos de alguém, sabe, era como uma tara! Como não existem mais leis matei um homem a pauladas e para melhorar minha fantasia, espirrei seu sangue em um policial. Não acha isso fascinante?
— Menos Maycon! – Torres encarou o rapaz.
— Vai fazer o que, me prender? – Vociferou enquanto eu estava achando aquela conversa estranha. Bruno comia, mas reservado não dizia uma palavra estava pensativo em meio aquela conversa, gostaria de saber o que pensava, pois ele era estranho sei que tenta esconder algo em seus olhares penetrantes. Por instantes pareceu que estávamos seguros, mas não seria por muito tempo. Sobraram algumas garrafas de água, as torneiras derramavam um pouco do líquido que parecia acabar, haviam alguns pães e derivados, entretanto não poderíamos ficar aqui, tinha que seguir até o abrigo.
Um susto... Seguido de um estrondo enorme que vinha do andar de cima, o que estava acontecendo? Prateleiras e objetos caiam sobre o chão ecoando sobre nós.
— Fiquem aqui! – Berrei para todos. Maycon e Torres seguiram porta à fora e fui atrás deles. O barulho vinha do local que João estava, o que poderia ser? Será que existem infectados dentro do prédio? Maycon estava com um pedaço de metal nas mãos e Torres segurava sua arma, estava com minhas mãos nuas, mas o impulso em ajudar era grande.
Subimos uma escada caracol de granito branco chegando até o andar de cima. Saímos de cara com um escritório onde João ficou com o cadáver de Helena, a porta continuava trancada, mas pelas janelas amplas e largas de vidro podemos ver o que estava acontecendo. Meus olhos negaram o que acontecia, mas era a pura realidade. Helena estava sobre o pescoço de João tentando cravar seus dentes no homem que compartilhou sua vida inteira com ela. Meu Deus o que era aquilo? Seus olhos estavam negros como os deles, sua mandíbula parecia estar deslocada pela enorme abertura que tentava consumir a carne do velho. João lutava com todas as forças contra o amor de sua vida.
— O que é isso João? – Torres indagou tentando abrir a porta.
— Ela respirou a névoa? – Disse desesperado sem saber o que fazer. Maycon encarou a situação e pegou um vaso enorme que estava no chão e jogou no vidro da janela fazendo-a quebrar em milhares de pedaços. Helena soltou João ao chão que caiu respirando ofegante, olhou para nós e gritou grunhidos cuspindo sangue de sua boca.
— Ela vai nos atacar. – Velha e decrepita, mas ágil, saltou sobre a janela e quando ia nos atacar um tiro passou por detrás de sua cabeça destruindo seu couro cabeludo e metade de seu rosto, a velha senhora caiu sem vida sobre a janela com metade do corpo do nosso lado e a outra metade do lado da sala. João havia atirado em sua mulher.
O que fazer quando tudo parece derreter? Toda a esperança se desintegrar em um mundo insano e diabólica? Onde um homem que amava a mulher mais que tudo teve que atirar na cabeça da pessoa que mais importava para ele, apenas para salvar estranhos que conhecerá há horas, realmente é isso que teremos que enfrentar? Cai de joelhos no chão enquanto via o sangue de Helena pingar sobre o solo gelado de cerâmica. Não entendia mais nada, a nevoá transforma os humanos em monstros de imediato, eu vi com meus próprios olhos.
— Ela era um zumbi. – Maycon concluiu falando com seriedade.
— Zumbi? Não diga besteiras. – Torres respondeu.
— Nunca assistiu filmes de terror, Senhor Policial? Ela estava ferida, um deles mordeu o pescoço dela quando estávamos fugindo por consequência morreu, depois retornou infectada, isso não soa familiar como nos filmes? – Fazia sentido o que Maycon falará, mas João saia do escritório com um pano branco em seus braços, pegou o corpo de sua mulher e enrolou no mesmo.
— Não chame ela de Zumbi, não são Zumbis, são Zoens.
— Zoens? – Perguntei assustado.
— Logo quando começou tudo isso, havia explicado para os amigos que fiz no vagão. Eles são alienígenas garoto, que através da névoa invadem os sentidos das pessoas, destroem o cérebro e depois passam a controlar o corpo. Assim dominando o corpo podem usufruir disso para passarem para outros corpos, encontraram um meio de economizar esferas e espalhar mais rápido a destruição do nosso Planeta
— Então se formos mordidos por essas coisas ficaremos infectados? – Maycon diz enquanto eu tremia tentando ligar vários pontos.
— Sim. – Torres pegou no ombro do velho
— Você sabia que ela voltaria dominada por eles não sabia? Por isso quis ficar sozinho.
— Sim sabia, não poderia arriscar a vida de vocês, mas apenas eu poderia acabar com a dor da minha querida Helena.
— Sinto muito Seu João, mas temos que descer, pegar as armas e sair deste lugar. — Torres tinha razão, mas João balançou a cabeça negando o que o policial havia falado.
— Vamos esperar, descansamos um pouco e depois seguimos. – Não conseguimos dizer não para o coitado que ficou olhando o corpo sem vida de sua esposa. Descemos as escadas e deixamos ele a sós novamente.
Como iriamos ficar um tempo na delegacia, migramos para o andar de cima caso acontecesse algo os Zoens por assim chamar, não conseguiriam subir no andar superior. Tapamos com mesas e armários as passagens das escadas para dificultar qualquer um que tentasse subir. Nossos corpos estavam cansados e doloridos, descansar um pouco era a opção segura de continuar nosso destino. Improvisamos lugares para descansar, puxamos sofás que ficavam em salas de espera e juntamos cadeiras com toalhas de mesa para deitarmos, mas antes de tudo Torres nos mostrou um lugar para tomarmos banho e relaxar.
Ver todos reunidos era como ter um raio de esperança, era saber que teria que viver para ver o rosto de todos, enquanto alguns tomavam banho nos quatro chuveiros que haviam em um vestiário pequeno, provavelmente para estagiários que ficavam fazendo hora extra no trabalho, eu olhava para a janela grande que dava no corredor. Observava prédios em chamas, muitas pessoas correndo por todos os lados provavelmente infectadas pelos Zoens, carros em chamas e aviões rasgando os céus em uma velocidade inimaginável, os militares estavam realmente agindo, mas provavelmente estavam indo até os estádios de futebol. Imagino o caos que poderia ocorrer naquele lugar com milhares de pessoas por todos os lados. Em meio aos meus devaneios escuto a voz de Léo saindo do banheiro com os cabelos molhados, me entregou uma toalha.
— Você precisa de um banho, lave suas feridas mano e tire esse fedor de gente morta de sua pele, todos já tomamos banho falta você.
— Obrigado Léo!
Segui até o banheiro, que tinha algumas divisórias sem portas e junto a elas os chuveiros. Fui até o último chuveiro, me despi e entrei sobre aquela água morna, por incrível que pareça a energia ainda não sucumbiu, mas não creio que fique ligada por muito tempo. Levantei a cabeça e senti aquela água sobre meu rosto, era relaxante. Sentir... Saber que ainda estou vivo, consegui despertar alguma coisa dentro de minha mente que ainda não conhecia, a coragem. Escutei alguém entrando, — acho que deve ser o Torres ou o Maycon, — pensei. Logo escutei o chuveiro ao lado ligar, murmurei batendo na parede opaca que nos dividia.
— Torres, não tomou banho ainda?
— O que? Meus Deus é você Nicolas, não saia dai! – Porra era Luiza, corei no exato momento, ela estava tomando banho ao meu lado.
— Lu-u-iza!
— Achei que fosse Caroline que estivesse tomando banho, ela desapareceu e o Léo também.
— Não se preocupe eles devem estar conversando em alguma sala. – Saia pensamentos impuros de minha cabeça, só consigo pensar em seu corpo molhado, como eu queria abraçá-la e sentir o calor de sua pele...
— Espere meu banho terminar antes de sair, tudo bem? Se ficamos onde estamos nada vai acontecer.
— Tudo bem. – Concordei desanimado. Encostei minhas mãos na parede que nos dividia, e deixei a aguá me molhar enquanto pensava naquele beijo.
— Desculpe Nicolas por te beijar. – Ela sabe ler pensamentos?
— Não, por que se desculpar?
— Você pode não ter gostado.
— Não, eu gostei sim.
— Sabe Nicolas, eu gosto de você me sinto segura quando você está por perto. – Ela gosta de mim e está demonstrando, o que posso dizer?
— Eu gosto de você e sempre vou te proteger, mesmo sabendo que posso falhar.
— Obrigada.
**
Conseguimos descansar por algum tempo, todos reunidos em uma sala descansávamos enquanto Torres e Seu João mostravam o arsenal de armas que conseguiram no depósito da delegacia. Eram armas de calibres diferentes: revólveres, pistolas semi-automáticas e automáticas, espingardas calibre doze, coletes a prova de balas e o mais importante mascarás de gás. Colocaram tudo sobre uma grande mesa e João começou a falar.
— Desculpe, mas não sairemos daqui até todos saberem usar essas armas, por este motivo eu e Torres ajudaremos para que todos consigam atirar na cabeça dos alienígenas malditos. – Torres puxou uma arma e apontou na cabeça de Maycon.
— Essa é uma espingarda calibre doze, se atingisse sua testa não sobraria nem mesmo os ossos de seu crânio para contar histórias. – Gargalhou, Maycon pareceu não gostar da piada de Torres, e João continuou.
— Essas são mascarás usadas por policiais em manifestações como ocorreu ano passado, ela se chama “Ar Condicionado Particular”, esse filtro na ponta da mascará filtrará o gás venenoso e nada passará por ele, usem quando estivermos do lado de fora, essas mascarás de gás serão seus pulmões a partir de agora. – Estávamos todos prestando atenção no que o ex-general falava, mas uma voz em meio ao silêncio veio a ecoar, o homem que segurava a bíblia, por fim, gritou em um tom de desespero.
— Não adianta, nada disso vai nos ajudar! Não são alienígenas, é o fim dos tempos, Jesus está descendo para punir o ser humano pelos seus atos.
— Que tolice, ridículo. — Vociferou Caroline torcendo o lábio.
— Garota, você não sabe o que diz, mas Jesus salvará os homens mais uma vez. Quando escutei o som torturante percebi que estava certo.
— Aquele som é feito quando os feixes de luzes saem das naves para abduzir os Zoens. – Conclui, mas ele estava decidido em pregar sua palavra, abriu sua bíblia e começou.
– Provarei que estou falando a verdade, está em Apocalipse 9: 1-3. “E o quinto anjo tocou a sua trombeta, e vi uma estrela que do céu caiu na terra; e foi-lhe dada a chave do poço do abismo.
2 – E abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço, como a fumaça de uma grande fornalha, e com a fumaça do poço escureceu-se o sol e o ar.
3 – E da fumaça vieram gafanhotos sobre a terra; e foi-lhes dado poder, como o poder que têm os escorpiões da terra." – Todos voltamos nossa atenção para suas palavras, e Léo indagou.
— Se tem certeza que isso é obra de Deus, por que tem medo?
— Não enxergam, estamos perdidos, ele não nos escolheu, pude perceber agora, mas existe uma chance. Está tudo no versículo, a trombeta no ar como um agudo som, as esferas de fogo que caiam do céu como estrelas, o céu que não se vê mais sol, a fumaça que trouxe a praga e transformou todos em mortos com poderes de escorpião, não enxergam?! – Berrou.
— Calma Senhor, está assustando. – Tentei acalmá-lo, mas não adiantou ele andou até a mesa e com rapidez pegou uma arma.
— Vamos todos juntos para o lado do Senhor todo poderoso, ele nos espera.
— Solte essa arma! – Aquele maluco apontava a arma para todos, ele vai atirar?
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