Nuvens de Sangue
3 Capítulo 3 - Catástrofe
Notas iniciais

Vozes ecoavam em meus ouvidos, minha visão ainda estava em trevas. Abri meus olhos e senti uma forte dor de cabeça, percebi que estava por instantes, apagado. Cacos de vidros estavam sobre a palma de minha mão, meu corpo dolorido e muito metal retorcido. Minha irmã estava segurando uma de minhas mãos e Luiza segurando minha cabeça, logo voltei em meus sentidos percebendo o que estava acontecendo realmente.
– Estão todos bens? — Léo sorriu em me ver acordado, tentei levantar e abracei minha irmã. Pessoas choravam envolto do que estava destruído, aquelas coisas haviam atingido justo o vagão que estávamos. Agora o chão era as janelas e as portas do lado esquerdo do trem, e o teto o lado direito onde as janelas e portas estavam abertas e destruídas. Haviam pessoas tentando sair do vagão, enquanto Clarice, Léo, Caroline e Luiza encontravam-se junto a mim e mais um policial, todos nós caídos no fundo do que restou do trem.
Ainda estonteado pela batida em minha cabeça, tentava entender tudo aquilo. O que nós atingiu? Seriam misseis terroristas? Meteoritos? Não conseguia deduzir o que aconteceu, apenas sei que teríamos que sair daquele trem o quanto antes, ou, pelo menos, ajudar os feridos, pois nenhum de nós levava ferimentos graves apenas escoriações pelo corpo e alguns arranhões. Em meio a tantos pensamentos escutei a voz fraca do policial ao meu lado.
– Garoto, estou preso! — Rapidamente ergui um banco que estava sobre sua perna, mas ele continuava preso, — Chame pelo oficial Dantas que está ajudando aquelas pessoas saírem do vagão, por favor. — Acenei com a cabeça para Léo, e ele entende antes de eu dizer qualquer coisa. Clarice e Caroline choravam em silêncio, estavam com medo e era normal que agissem desta maneira. Porem Luiza estava ali, para ajudá-las, não largava a mão das duas. Em um instante Dantas estava à ajudar o parceiro de trabalho.
– Você está bem, PM Torres? — Falara Dantas tentando retirar a perna presa do amigo, mas ele não respondeu apenas forçou a perna para escapar do tormento, mas os esforços eram em vão.
– Erguerei este pedaço de ferro, e você puxa o Torres para trás garoto. — Ele falou para mim e obedeci de imediato. Me coloquei atrás do policial, levei meus dois braços para de baixo dos braços de Torres entrelaçando meus dedos e o prendendo.
Porem não chegamos a nós mexermos, outro impacto fora sentido. Fomos jogados para o fundo do que restou do vagão. E uma estrutura de metal caiu sobre o meio de nós, não consegui enxergar direito pela fumaça. Meus irmãos estavam sobre meu peito e eu contra a superfície do trem. Luiza e sua prima do mesmo jeito, e o policial preso, agora estava livre. Mas o seu amigo sumira com a estrutura. Assim que a fumaça se dissipou, quase cai para trás. Além de Dantas mais pessoas estavam mortas, esmagadas pela base de metal que dividiu o vagão.
– Não Dantas, meu Deus! — Gritou Torres, enquanto os outros dois policiais que estavam do outro lado da base de metal também gritavam intensamente. Luiza tapou os olhos das meninas, e Léo entrou em desespero.
– O que faremos? — Ele pegou o celular, — vou ligar para a mãe.
– Eu ligarei para o pai, ele deve estar sabendo do que aconteceu! — Mas os celulares estavam desligados, misteriosamente não ligavam de jeito algum. Olhei para o teto e percebi que o que cairá sobre onde estávamos era uma espécie de torre de energia, ou alguma coisa do tipo. Era uma estrutura de que parecia pesar toneladas. Nosso lado ficou totalmente impossibilidade de alguma fuga, depois da queda da torre as janelas do nosso lado haviam se retorcido, agora estávamos literalmente presos, foi quando Luiza murmurou.
– Estou sentindo calor, do lado de fora deve haver fogo, temos que fugir daqui ou vamos ser mortos. — O Policial gritou para seus amigos e um policial que ficara pálido ao ver o parceiro morto ao chão aproximou-se.
– Me ajude a mover está estrutura, por este lado não tem como sairmos, temos que passar para o lado onde estão. — Todos corrermos para a estrutura tentando movê-la, assim como outros passageiros que estavam do lado que havia saída, mas ao menos moveu.
– O que podemos fazer para sair daqui? — Falei. Mas o inesperado acontece, olhei para as janelas e delas entravam uma espécie de fumaça vermelha. Pessoas que saiam pelas janelas e portas caiam novamente dentro do vagão no instante que entraram em contato com aquela coisa.
– Por que caiu, o que foi Senhora? — Gritou a Policial que estava levantando uma mulher que caia ao contato com a fumaça vermelha. Percebi que algo estava errado e puxei o braço de Clarice e Luiza.
– Vamos para o fundo do vagão, aquela coisa parece perigosa olha o estado da mulher ao respirar aquilo. — Demos alguns passos para trás, Léo segurava firme a mão de Caroline, e juntos encostamos as costas no lado mais afastado possível do que estava acontecendo, enquanto Torres ficava a frente.
A mulher assim como alguns homens que estavam do lado oposto de nós que inalaram aquilo caiam ao chão em berros de dor e desespero. Meu Deus o que era aquilo? Os policiais encostaram as costas na barra que nos separavam, e apontaram suas armas para a névoa cor de sangue. Torres entrava em desespero junto com os outros oficiais. Não tirava os olhos da mulher que retorcia sua face no chão, seus olhos pareciam que iam explodir. As veias de seu pescoço saltaram e roxearam no exato momento, suas veias por fim juntaram-se aos seus olhos e ela e mais dois homens pararam de se mexer, foi quando Torres indagou.
– Não aproximem-se da fumaça, ela é venenosa. — Os que estavam ao chão vomitaram sangue estavam mortos? A névoa se dissipou e não atingiu os policiais.
– Deve ser algum ataque terrorista por causa da copa. Falou a mulher fardada, enquanto viravam e junto com Torres e o outro policial tentavam tirar a barra de ferro e nós libertar, Luiza ia em direção a eles para ajudar, entretanto a seguro e não deixo ela ir. Não tirei os olhos dos que morreram ao chão e enquanto os dois policiais estavam distraídos ajudando Torres, a mulher e os dois homens até então mortos, levantaram de onde estavam. Gritei apontando para trás.
– Eles estão vivos. — O PM aproximou-se e sussurrou para a mulher que cuspia sangue.
– Senhora, irei lhe ajudar. — Mas o surreal acontece. A mulher pula sobre o policial e o morde no pescoço descontrolada.
– Solte-o ou vou atirar, — A PM arma seu revólver e aponta para a mulher que devorava o Policial, mas antes mesmo de tentar algo os outros dois homens pulam em suas costas e atacam a mulher a dentadas sedentas de sangue. Aquela cena pareceu demorar mil anos para se passar, os dentes deles entravam e saiam da carne dos policiais como se aquilo fosse o maior dos aperitivos. O Sangue era tanto que tingia toda a superfície das paredes do vagão, e respingavam sobre nós. Tapei os olhos de Clarice e Caroline que berravam em desespero, gritei como um louco para que Torres fizesse algo, Luiza e Léo também choravam, o policial que estava conosco estava desnorteado. Naquela altura os policiais estavam mortos, suas vísceras, órgãos e restos mortais estavam sobre todos os lugares.
Nunca havia visto nada parecido o que significava tudo aquilo? Eles respiraram aquela névoa e sem explicação agiram como animais. Torres não parava de gritar e apontava sua arma para os loucos que devoraram seus amigos. As meninas choravam e soluçavam, Léo segurava meu ombro, não queríamos aceitar o que víamos em nossa frente. Os descontrolados pararam de comer os corpos dos dois PM's, estavam completamente cheios de sangue, olharam com seus olhos negros sem vida para nós e por um instante tudo se calou.
– Atira! — Gritou Luiza.
– Isso mesmo atira, — indagou Léo franzindo a testa.
Ao escutar os gritos deles os descontrolados pularam na estrutura que nós separavam deles. Eram rápidos e fortes, pulavam de um lado a outro e transmitiam grunhidos horripilantes. Torres tremia apontando a arma e sem esperar, atira. Acertou a mulher que cairá imóvel, mas os outros dois tentavam de todas as formas destruir os ferros para chegar até nossos corpos. Parecia animais sedentos de fome, não eram mais as pessoas que estavam a pouco tempo indo ao encontro de alguém, não eram mais as pessoas que estavam a passeio em um dia normal de sábado. Tudo que eram havia sido apagado quando eles respiraram aquela coisa, tudo o que querem agora é matar. Não deixarei eles tocarem nos meus irmãos, fiz uma promessa para a nossa mãe! Cuidaria de Clarice e Léo e traria eles de volta, cumprirei com minha promessa mesmo que custe minha vida.
Observei o chão e havia uma arma caída, a arma do policial que apouco morrerá esmagado pelo que caiu sobre o vagão. Não pensei muito em fazer, apenas peguei a arma. Apontei para os dois que quase adentravam onde era o nosso refúgio e atirei na cabeça de um. Sua cabeça abria, seu couro cabeludo voava para os lados e o seu sangue tingia mais e mais o local, transformando tudo em um mar de sanguinolência. Ele caiu imóvel, morto por fim.
– Obrigado garoto! — Sussurrou Torres. Derrubei a arma em estado de choque, eu havia matado uma pessoa, eu havia tirado a vida de alguém!
– Calma mano, você matou ele para proteger todos nós. — Falará Léo, Clarice abraçou meu braço com ferocidade.
– Todos para trás, vou acabar com isso. — Gritou Torres, atirando seguidamente no outro homem. Porem não adiantava a mulher que ele havia atirado estava de pé, e ainda mais violenta, os gritos de desespero daqueles mortos sanguinários estavam ecoando em meus ouvidos, fazendo dor na alma. Por que eles continuam mesmo depois de Torres atirar neles, e o que eu matei estava imóvel?
– Torres, atire na cabeça! — falei impactado, — assim eles morrem. — Ele afirmou com a cabeça e não fez outra coisa, atirou no homem que quase conseguia passar para o nosso lado, e fez o mesmo com a mulher destruindo a cabeça dos dois que pararam de mexer-se.
Aquilo estava mais estranho do que parecia, em pouco tempo o passeio de sábado se transformava em um martírio, um desespero sem igual. Corpos por todos os lados e muito sangue, se realmente existir um inferno estávamos pisando nele. Clarice sentou sobre o chão destruído e abraçou os joelhos, chorava muito. Mas agradecia intensamente por todos estarem bem, olhei para Luiza e aquele olhar me confortou de alguma forma. Seus lindos olhos estavam lagrimejados, no entanto, não perdia seu brilho maravilhoso, sorri para ela e a abracei.
– Como sairemos daqui? — Vociferou Léo em estado de pânico.
– Vamos passar por este canto da torre de metal e sairemos pela janela. — Concluía o policial que mantivera seu olhar nos corpos dos seus amigos.
– Você ficou maluco? Olhe o que eles fizeram com os outros policiais que estão em pedaços por todos os lados, se sairmos deste vagão quem garante que não terão mais e mais pessoas descontroladas. — Caroline berrava engasgando-se com suas próprias lágrimas.
– Estou escutando os gritos de pessoas lá fora, estou escutando. — Minha irmã disse correndo e me abraçando.
– Está ficando quente aqui, se não sairmos iremos morrer queimados, temos que tentar. — E o PM pegou as armas dos seus amigos e jogou uma para mim e uma para o meu irmão. — Use-as se precisar.
– Não, Léo não pode usar uma arma, nem eu mesmo posso!
– Garoto, se seu irmão não pode usar uma arma, ele acabará como estes aqui, é isso que quer? — Encarei meu irmão e ele apertou o revólver em seu peito.
– Vamos, temos que sair daqui e ir ao encontro do nosso pai, depois iremos até a nossa casa, abraçaremos nossa mãe e ficaremos lá até que tudo termine. — Estou realmente orgulhoso dele, mas com muito medo que aconteça algo.
Então saímos pela brecha sobre os ferros, pisando em sangue e pedaços de corpos. Olhamos para a janela e a porta acima, respirei fundo, como se meu coração saísse pela minha boca. Subi, com dificuldades, pois ainda doía meu corpo, fui o primeiro a subir no vagão, olhei para todos os lados e em cima do trem nada acontecia. Fiz um sinal para que todos subissem, e enquanto eles saiam do trem, observei o que estava acontecendo.
Era um tenebroso conflito. Pessoas corriam para se salvarem de outras pessoas que as perseguiam, corpos mutilados e dilacerados por todos os lados. Algumas esferas que caíram do céu por alguns lugares e sangue, muito sangue. O que era tudo aquilo? Não conseguia entender, preciso de respostas. Foi quando uma mão tocou meu ombro.
– Nicolas? Venha comigo, traga todos. — Não acredito que era aquele cara.
– Maycon? Você é o cara roqueiro do banheiro.
– Vamos logo, antes que os Aliens subam no trem e nos peguem.
– Aliens? — Murmurou Léo, e todos já estávamos sobre o trem.
– Achei que conseguiria fugir, mas é impossível. Tinha um cara comigo ele deve ter morrido.
– Você sabe o que está acontecendo rapaz. — Torres chegou perto do rapaz de cabelos de palha, e ele encarou o policial e deu de ombros.
– Não existe maneira de explicar, mas no último vagão está um senhor que tem todas as respostas, agora me sigam, ou querem ficar ai para morrer?
Fale com o autor