Nuvens de Sangue

12 Capítulo 12 - Maycon


Notas iniciais
Galera, tentarei postar normalmente os capítulos, mas poderei demorar um pouco mais do que o normal. Pelo fato de eu estar reescrevendo 16 capítulos da continuação do meu livro já publicado. Enfim, espero que gostem. Boa leitura :D



"Mas e agora que não existe mais leis? Uma mente justiceira se transformará em que? Maycon era a pessoa mais perigosa que poderíamos ter ao nosso lado"

~~

O sangue fora respingado por todos os lugares. A fria e sufocante face do homem algemado mesclava-se em um dolorido grito de desespero antes de sua morte. Sua cabeça aberta por uma bala não existia do nariz para cima. Meu corpo ficou gelado com tamanha crueldade. Maycon mantinha uma feição de desespero, seu rosto sujo de sangue e seus olhos lagrimejados. Suas pupilas dilatadas e seus lábios trêmulos denunciavam um alguém fora da realidade. Apontei minha arma para ele, a arma que ele usara para matar o homem estava à metros de sua mão. Por que ele fez isso? Devagar levantou a sua cabeça e olhou para o teto, sorriu um sorriso ralo e desgostoso.

— Sabe Nicolas, antes de tudo isso começar, aquela hora que te encontrei no banheiro eu tentei avisar...

— Avisar o que? – Vociferei tentando chegar até a arma dele.

— Os estádios lembra? – Ele ameaçou pegar a arma. Uma vasta recordação passou pela minha cabeça.

— O que tem a ver com o que você fez com este homem?

— Assim que te vi gostei de você, um cara de boa fé. Você não me conhece, e não tem ideia de quem são as pessoas que estão dormindo do lado de sua irmã ou de sua namoradinha.

— Maycon, você está fora de si. Se drogou?

— Desculpe não me encaixar no grupo de sobrevivência de vocês e daquele policial. Antes de tudo isso começar eu odiava a raça deles, policiais de merda que seguem regras.

— Então você era uma pessoa ruim antes disso tudo? — Ele me olhou com olhos de um demônio. Levantou cambaleando, não abaixei minha arma que apontara para sua cabeça.

— Não, eu não era uma pessoa ruim. Mas sim, alguém que lutava por direitos. Quer saber onde eu estava indo quando tudo isso começou? – Minha testa suou, realmente não conhecia ninguém ao meu redor. Mas gostaria de saber quem era aquele rapaz de olhos fundos e misteriosos que andava de um lado a outro pisando com as solas do seu tênis sujos o sangue do cadáver ao lado como se aquilo fosse a coisa mais normal.

— Então me diga quem é! – Gritei.

— Sou um simples organizador de manifestações, um homem que odeia o governo e que detesta a forma que esse país de merda é governado. Sou o líder do Black Bloc de São Paulo. Visto minha mascará negra e vou destruir tudo que essa filha da puta da Presidenta investe.

— Isso não explica a sua atitude desumana.

— Desumana? Não existe mais humanidade cara, olhe ao seu redor. Tudo acabou, as leis foram extintas e apenas os mais fortes sobreviverão neste mundo devastado. Apenas dois dias se passaram desde que tudo começou, mas essas quarenta e oito horas abriram meus olhos.

— Esse movimento Black Bloc não é justiça, odeio admitir diante de uma pessoa descontrolada, mas o governo estava desnorteado.

— Nicolas vi o potencial em seus olhos. Tentei avisar para não ir em direção aos estádios, esses malditos Aliens absorveram todo o crédito.

— Do que está falando?

— Eu e meu grupo iriamos explodir o Estadio do Corinthians, o Itaquerão não existiria mais.

— Ficou maluco tinha noção de quantas pessoas mataria?

— Tudo em prol do raciocino do ser Humano, caro Nicolas. O direito do cidadão que era esmagado, o diluvio de vítimas de hospitais mau organizados, tudo por um luxuoso show internacional de futebol. Eu seria uma lenda nesse mundo, mataria para que eles caíssem na real, mas não deu tempo...

— Você é maluco, agora não se mexa e vamos resolver isso calmamente. Sei que não faria isso por vontade, não mataria pessoas inocentes, olhe em seus olhos está arrependido e nervoso por matar este homem. – Ele sentou na cadeira e olhou para mim.

— No começo pensei em sobreviver com vocês, ajudar todos com meus dons de percepção. Mas esse homem sem rosto em sua frente me fez pensar de forma diferente. Ele me contou tudo sobre o Deus dele, mas me chamou de maluco e cuspiu em meu rosto, quando eu disse que tudo não passava de palavras sem sentido sendo cuspidas por um alguém que não acredita nos próprios discursos, e sabe o que ele me fez quando cheguei perto dele? Me mordeu.

— E por isso enfiou uma bala em sua cabeça?

— Foi!

— Você deve estar tão drogado que não pensou em seus atos.

— Sim, usufrui de provas apreendidas pela polícia, essa era da boa. Não pense que sou um viciado, mas uma forte pode te tirar da maldita realidade que estamos vivendo.

— É impossível sua personalidade mudar tão drasticamente.

— Não mudei, apenas não havia mostrado este meu lado.

— Quando eu contar o que você fez para todos, não será tão legal como diz ser.

— Nicolas, largue a arma e aceite a situação, seja forte como eu. Mate se precisar, respire fundo...

— Realmente essa droga que cheirou era forte, suas palavras estão saindo sem sentido algum.

Olhar aqueles olhos que me observam de canto era aterrador. Me lembrei desse olhar, era realmente um olhar de maldade. Era os mesmos olhos de um assassino quando era preso. Olhos de um culpado, o olhar assustador de um psicopata. Maycon era tudo isso? Ou aquele mundo o mudara dê um jeito devastador.

Lembro-me como se fosse hoje, um homem que fora baleado pelo amante de sua esposa. Ele dava entrevista em um canal de jornalismo. Seus olhos eram o mesmo de Maycon, um homem vitima de seus próprios devaneios que queria a justiça a qualquer custo. Esse homem baleado jurou se vingar. A notícia do dia seguinte fora pior, o homem se matará junto com o amante e a mulher.

Lembrei do ocorrido, pois o rapaz que está diante de mim não era uma má pessoa, mas sim, uma vítima da sociedade. Um militante que por meios surreais procurava vingança em cima do governo. Mas e agora que não existe mais leis? Uma mente justiceira se transformará em que? Maycon era a pessoa mais perigosa que poderíamos ter ao nosso lado, claro. Um justiceiro perdido em um mundo impuro. O que eu faço? Não posso matá-lo, mas se ele fizer mal a alguém que está conosco? Minhas mãos tremiam no ritmo que Maycon se mexia, não poderia atirar, mas se fosse preciso.

— Lembro de Alicia, minha namorada que me encontraria na praça da Sé. Lembro do último sorriso que ela e meus amigos me deram, você sabe como estou me sentindo Nicolas? – O perturbado começou a se agitar, estava ficando perigoso. Levava meus olhos ao lado esquerdo onde ficava a porta e janelas, mas ninguém chegara.

— Acalme-se e vamos resolver as coisas.

— Todos estão mortos agora. — Ele berrou descontrolado, seus lábios rachados e sua boca seca pelo efeito da cocaína ajudou na situação caótica.

— Muitos que amamos morreram, mas temos que... – Tentei acalmá-lo.

— Não me diga o que fazer, lembra que tinha dito sobre a tara de matar alguém? É, eu gostei sim. – Maycon estava tendo alucinações? Agachou ao chão e sujou a sua mão com o sangue do homem que matou, — esse sangue ainda está quente diferente do sangue dos infectados lá fora, é bom sentir o sangue percorrer seus dedos, ainda mais nesta temperatura.

— Não diga isso cara!

— Seu viadinho desgraçado, já disse para olhar ao seu redor seu filho da puta. Estamos em um mundo de merda e não sabemos quando estaremos no lugar deste infeliz no chão, não sabemos quando vamos morrer.

— Por isso temos que ficar vivos, unidos para que conseguirmos...

— Ah cale essa maldita boca. – Em frações de segundos sinto um impacto tremendo em minha barriga, e caio instantaneamente ao chão, — avisei para me compreender, mas não Nicolas... – Maycon havia atirado em minha barriga, mas quando? Droga, quando agachou e sujou sua mão de sangue o seu objetivo era pegar a arma sem que eu percebesse.

— Maycon...

— Tenho que sair daqui, desculpe Nicolas! – Era uma dor tremenda, sentia como se os meus órgãos encolhessem pelo impacto, entretanto era apenas uma dor passageira, pois o que me salvara naquele momento era o colete à prova de balas que estava usando por de baixo da camisa. Aquele mesmo colete que usei para treinar no tiro ao alvo, e ele não sabia.

— Desculpe seu maldito, mas... – Estiquei meu braço ainda deitado e acerto sua perna com um tiro, Maycon cai no mesmo instante.

— Seu desgraçado, como?

— Colete, — puxei minha camisa surrada e rasgada pelo tiro. — a merda que você fez foi estragar minha camisa que nem mesmo os Zoens conseguiram estragar.

Passos rápidos escutei em meio aos berros de Maycon com sua perna banhada em seu próprio sangue, se retorcia no chão de dor. Tentei levantar mas senti meu corpo dormente pelo tiro que havia levado a pouco. Virei a cabeça para a visão da porta e me deparei com Torres e Léo. Eles abriram a porta violentamente e me ajudaram a levantar, Torres gritou em êxtase.

— O que foi? Por que o homem algemado está morto e Maycon ferido?

— Ele matou o homem sem motivo e tentou me matar, só que estou com o colete que me deu. — Por segurança peguei a arma de Maycon jogada ao chão, e ele gritou.

— É mentira, ele me atacou e Nicolas tentou me matar, eu apenas me defendi. – Maycon estava louco, Torres foi até a escrivaninha do escritório e passou os dedos sobre uma substância em pó.

— Cocaína?

— Peguei um pouco, vai fazer o que me prender policial? – Berrou o rapaz sangrando ao chão. Torres já sabia em quem acreditar.

— Como adivinhou? – O PM me ajudou e nós três saímos do escritório.

— Não me deixem aqui! – Maycon não podia levantar por sua perna estar destruída, olhei fixamente para ele e falei com um tom de desanimo.

— Desculpe não quero colocar meus amigos e minha família em risco Maycon, vou trancar a porta por segurança para que os Zoens não alcance você, tente sair e encontrar um lugar seguro.

— Não Nicolas seu filho da puta, me leve com vocês, não me deixem aqui.

— Adeus Maycon.

— Não! – Tranquei a porta de chave e colocamos uma mesa para dificultar que alguém entrasse e matasse o rapaz. Joguei a arma que era dele no corredor para caso ele precisasse se tentasse sair.

Fiquei com os berros de Maycon de desespero e dor em meu consciente enquanto corremos pelo corredor, aquilo me derrubou de uma maneira que jamais havia me derrubado. Eu poderia ter deixado ele para morrer. Parei de pensar assim que sua voz não alcançou meus sentidos.

Escutei muitos grunhidos e muita movimentação no andar de baixo, era assustador e pela feição dos dois ao meu lado eram notícias ruins. E assim que viramos o corredor minha hipótese de desgraça havia tido uma confirmação triste. As escadas que bloqueamos estavam cheias de pessoas infectadas querendo subir e nos pegar. Era um cheiro tenebroso de sangue misturado com decomposição. Por um segundo encarei um deles que se batia sobre uma mesa, um homem calvo de meia idade, seus dentes banhados de sangue e seus olhos negros que tentava de todas as formas sugar nossas almas. Não conseguiremos sair por ali, e agora?

— Como eles entraram na delegacia?

— O tiro que Maycon deu no homem algemado chamou atenção dos Zoens e um número enorme conseguiu invadir a delegacia.

— Que porcaria! – Enquanto falamos um dos Zoens atravessou a nossa barreira.

— Droga ele passou a mesa. – Torres indagou, e Léo se pôs a frente e atirou.

—Merda! – Atingiu o pescoço do homem que caiu, mas já se levantou, Torres terminou e acertou com outro tiro o infectado centralizando em sua cabeça.

— Para onde vamos? – Perguntei.

— Vamos subir no telhado e descer para um banco que tem atrás da delegacia, lá tem um carro-forte que podemos usar na fuga. – Torres respondeu.

Meu corpo dolorido fazia meus músculos contrair a cada passo rápido que dava. Subimos a escada de pisos brancos até o último andar. Porem aumentamos o ritmo quando um estrondoso barulho de moveis de madeira se diluindo fora escutado. Corremos o mais de pressa possível até a porta de ferro que dava para o teto da delegacia. Torres atirava contra os Zoens que correiam atrás de nós. Léo passou por mim e abriu a porta. Não pude fazer outra coisa, virei de costas e atirei sem nem mirar, atirei com todo o gosto conseguindo atingir um na cabeça. Espatifei seus miolos por todos os lados atingindo Torres com os restos do morto.

— Obrigado Nicolas. – Falou irônico.

— Depressa vocês dois. – Dizia Léo acenando com a mão e segurando a porta de metal antichamas.

Passamos pela porta de metal e trancamos. Apenas escutei o barulho deles se debatendo contra a porta. Pensei logo em Maycon, será que conseguirá sobreviver? Foi um erro ter deixado ele para trás, não poderia conviver com esse peso na consciência. O que fazer nessa situação? Virei para trás e lá estavam, Luiza, Clarice, Caroline, Bruno, Marry e João nos esperando. Era essa nossa família que deveríamos proteger não quem tenta nos matar, tenho que aceitar que Maycon era uma ameaça.

— Cade o Maycon? – Perguntou Marry, quando ia dar a voz Torres bateu em meu peito e indagou.

— Morto, Maycon morreu. – Todos olharam chocados, e percebi no exato momento que Torres falara. Queria proteger-me, queria que todos pensassem que Maycon era um amigo não um homem louco e egoísta.

— Para onde vamos? – me aproximei de Luiza perguntando e Marry concluiu olhando para baixo.

— Vamos para o mercado mais próximo.

— Por que?

— Eu trabalhava nele.

— Mas deve estar destruído, não acha que muitas pessoas pensaram em se instalar em um lugar onde existem milhões de suprimentos? – Deduzi.

– Com certeza, entretanto um dia antes disso acontecer o mercado estava fechado e trancafiado. Houve um assalto aos caixas eletrônicos do estabelecimento e para a segurança dos clientes o mercado foi fechado no fim de semana, então se houver alguém nele são alguns funcionários que estavam limpando a bagunça de quinta-feira.

— Se é assim, vamos tentar chegar até lá. – Falou João segurando uma mochila cheia de armas.

— Coloquem as máscaras de gás e segurem firme suas armas. — Suspirou. — Vamos tem um longo caminho pela frente. — Torres alarmou. Enquanto abaixo de nós milhares de pessoas sedentas de sangue tentavam de todas as formas subir nos muros para nos matar.

Notas finais
Agora que leram deixe seu Review! O que acharam?? Gostaria muito de saber XD