Notas iniciais
Fic escrita com as sobras de O Perfume das Rosas que achei no meu repositório de rascunhos.

Todos os dias, religiosamente, ele despertava antes da alvorada, sem o auxílio de um despertador ou qualquer outro dispositivo. Provavelmente era o primeiro dos residentes daquele santuário a abrir os olhos e se colocar de pé.

Após uma ducha rápida, Afrodite vestia seu uniforme de treinamento, fazia um alongamento e calmamente descia as escadas, passando por cada um dos onze templos abaixo do seu.

Ao deixar a casa de áries, iniciava uma caminhada, que aos poucos se tornava em uma leve corrida. A velocidade ia aumentando até chegar ao ponto em que se tornava apenas um borrão para olhos não treinados de pessoas comuns. Em questão de instantes o santuário de Atena e a vila de Rodório rapidamente para trás.

O caminho seguia a forma de uma elipse e terminava no imponente paredão de rochas localizado na exato lado oposto as doze casas zodiacais. De lá, o pisciano tinha uma visão limpa e perfeita de um dos maiores espetáculos naturais que um homem poderia ter em sua vida.

A primeira vista, muitos o achavam um homem vaidoso por razão de sua aparência. Um fato curioso, segundo o próprio, uma vez que nunca fizeram nada para ganhar essa fama, ele apenas era ele mesmo. Nada mais, nada menos. O pisciano sabia que desde que o mundo era mundo, as pessoas julgavam umas as outras dessa forma. Segundo ele, isso as impedia de enxergar a verdadeira beleza. Não a passageira dos homens, mas uma que é especial e imutável.

Alguns poderiam dizer que era loucura fazer aquilo todos os dias. Ele, pelo contrário, argumentava que assim como nenhum dia é igual ao outro, o seu início também não era

Com olhos atentos, observava o véu negro da noite se levantando aos poucos, e dando lugar a um azul vibrante. As estrelas que iluminavam o céu iam se apagando como se fossem velas sendo sopradas. As nuvens cinzas e sem vida começam a tomar um tom forte de vermelho alaranjado a medida que a esfera amarela surgia no horizonte. O efeito de contraste criado por onde a luz passava pelos espaços entre as nuvens, faziam os olhos de qualquer um brilhar.

Existiam dois nomes para aquele fenômeno. Um deles era forro de prata e o outro era fios de esperança. Embora, a situação não fosse a apropriada, o raiar do sol carregava esse sentimento. Depois da noite que parecia interminável, um novo dia sempre surgia trazendo consigo a esperança de algo melhor.

Para Afrodite de Peixes, a beleza da natureza superava a de qualquer pessoa.

Com mais da metade da estrela já a vista, o sueco fechou os olhos, respirou fundo e recebeu de bom grado os raios que vinham fortes direção ao corpo. Eles sempre lhe traziam uma energia diferente, um calor revigorante e uma sensação de bem estar que às vezes era até difícil de explicar.

Naquele dia porém, algo diferente aconteceu.

Por uma fração de minuto, o brilho ficou mais forte do que o comum, era quase cegante. O calor beirava o insuportável. A sensação de relaxamento que sol trazia parecia um entorpecente forte o suficiente para derrubar um animal de grande porte.

Alguém estava ali e isso fez Afrodite imediatamente assumiu uma postura de combate. Ele não sabia a sua real identidade, contudo, tinha uma palpite sobre sua real natureza.

— Não tenha medo. — Uma voz suave e ecoou pelo ambiente.

— Essa é a primeira coisa que os anjos costumam dizer quando se apresentam aos mortais nos tempos antigos. Por acaso você é um anjo? — Questionou enquanto usava a mão para proteger os olhos.

— Isso responde a sua pergunta?

A luz diminuiu de intensidade e, como uma cortina que se abre no do palco, o espaço se sobrou e a figura de uma mulher flutuando surgiu a sua frente.

Sua pele era clara como as nuvens cirrus e seus cabelos dourados como os raios de sol. Vestia roupas leves e largas de tons claros. Sua característica mais marcante, porém, eram as exuberantes asas de penas em suas costas.

— Sabia que os anjos descritos por Ezequiel eram bem diferente disso?

— Se esse é o caso, percebo que não conseguirei te enganar assim tão facilmente, cavaleiro. — Disse com bom humor.

— Exatamente. Não é todo dia que uma deusa passeia casualmente nas proximidades do santuário de Atena. O quer aqui?

A mulher alada sorriu com a afirmação do pisciano. Ele conseguiu perceber de imediato a sua natureza divina. Certamente aquele cavaleiro era diferenciado. Exatamente do jeito que ela apreciava.

— Se sabe disso, acredito que talvez já até tenha descoberto o meu identidade. — Ela lhe mostrou os dedos.

Afrodite parou por alguns segundos, reparando nas feições e nas características daquele ser. Muitos eram os que portavam asas em suas costas, mas nenhum deles ostentava dedos róseos.

— Eos, deusa da Aurora.

— Ė uma surpresa agradável ser reconhecida por um homem de beleza tão rara como você. — Abriu um sorriso.

— Surpresa maior é você ter se manifestado na frente de alguém com um nome como o meu.

— Vejo que conhece minhas história com Afrodite. Pode relaxar, não busco conflito.

— O que procura então? Esse não é o caminho que tem que percorrer se quiser falar com Atena. Mesmo uma deusa terá que passar pelas doze casas.

— Não quero nada com Atena. O motivo de eu ter vindo aqui, cavaleiro, foi inteiramente por você. Eu estou interessada em você. — A mulher abriu um sorriso misterioso.

O tom da voz dela foi bem ambíguo, notou o sueco. Ele conhecia bem o mito da deusa da alvorada. Ela era uma deusa livre de qualquer moral ou inibições, bem parecida com os de sua espécie do sexo oposto. Sempre em busca de jovens de beleza acima da média, teve inúmeros amantes para satisfazer seus caprichos ao longo dos anos. Quando não conseguia o que queria, era comum a recorrer a atos desonrados como sequestro. Deuses não gostavam de ser contrariados, e ela não fazia exceção a regra.

— Lhe procurei porque tenho uma proposta para você, Afrodite.

A deusa voava de um lado para o outro como uma borboleta, sempre com inabalável um sorriso sincero.

— Fico honrado que uma deusa de sua estirpe tenha se interessado por mim. Contudo, receio que terei que recusa-la.

— Não quer nem mesmo ouvi-la? — A voz completamente suave, sem qualquer traço de agressividade fez o cavaleiro abandonar sua postura de ataque e relaxar um pouco.

— O que quer que seja, ainda sou um servo de Atena. Seria deselegante de minha parte prestar serviço para qualquer outra divindade sem autorização dela.

— Isso é uma pena...

A deusa parou o voo e aterrissou suavemente trás do cavaleiro. As mãos com os dedos rosas tocaram bem de leve os ombros do sueco, deixando claro que tinha mais intenções do que queria revelar.

— Porque eu sei muito bem o que o um homem como você quer. — Sussurrou ao pé do ouvido com a voz que fez inúmeros homens caírem aos seus pés.

Assim que o sol se revelou por completo, os poderes da deusa se expandiram. A sensualidade chegou a um nível tão alto que era palpável. Naquele momento, Afrodite percebeu o motivo de tantos homens terem cedido facilmente as suas investidas. Era preciso muita força de vontade para resistir os efeitos da energia peculiar de Eos. Ele, felizmente era um desses.

— É mesmo? — Ele cruzou os braços sem virar os olhos azuis celestes para a mulher — O que um homem como eu quer? — Desafiou.

A mulher bateu as asas e parou bem de frente para o cavaleiro. Ela enroscou os braços no pescoço do homem e aproximou o rosto do dele, quase fazendo suas testas se tocarem.

— Um homem especial como você quer… — Sua expressão mudou em uma fração de segundo. Não era mais calmo e suave, era intenso como chamas ardentes. — Justiça, ordem e paz. A qualquer custo.

A voz sensual foi substituída por uma com intenções maliciosas.

— Já faz tempo que venho lhe observando, cavalheiro. Sei que não está satisfeito com a situação atual, com sua deusa. Você acha que Atena não tem a mão firme para dar a esse mundo a justiça que ele merece. Não existe rebelião no inferno porque Hades é absoluto no submundo. Aqui na Terra, as pessoas fazem o que querem, destroem sem se preocupar com nada. E nada, absolutamente nada é feito.

Eos aproximou novamente a boca do ouvido do guerreiro dourado.

— Você acha que ela não é digna do cargo que ocupa. No fundo, bem lá no fundo, você gostaria que outra pessoa tomasse o controle da Terra para trazer a paz para esse mundo, mesmo que a força.

Afrodite nunca exporia tais pensamentos. Certas coisas ele nunca transformaria em palavras, nem mesmo para as pessoas mais próximas. Nunca iria confessar ali na frente dela e nem iria admitir que ela tinha razão. Ele estava insatisfeito com o estado atual em que se encontrava a terra e com Saori. Seria uma tarefa extremamente fácil para qualquer cavaleiro dourado subjugar, por exemplo, governantes que atacam o próprio povo. Ainda assim, eles estavam expressamente proibidos de interferir em qualquer assunto do tipo. Os cavaleiros treinavam por toda a vida para proteger a Terra dos outros deuses. Mas poderiam eles proteger a terra de seus próprios habitantes?

— Não sei de onde tirou essa ideia, Eos. É normal existir desavenças de pensamentos. Nós não somos cegos que seguem sem questionar tudo o que ordenado. Eu e todos os outro cavaleiros somos e sempre seremos leais a Atena.

— Está tentando me convencer ou a si mesmo com essa afirmação.

— Suponhamos que o que está dizendo é verdade, o que isso tem a ver com você?

— A resposta é simples, cavaleiro. — A deusa se afastou do sueco. — Assim como você, eu também aprecio o belo. — Fez um gesto com as mãos pelo horizonte.

— Eu não suporto a ideia de ver tudo isso se perdendo. Aos poucos o planeta vai sendo torturado, assassinado sem qualquer piedade. É questão de tempo até que tudo o que temos aqui se transforme em escombros, fogo, cinzas e fumaça. Se algo não for feito o quanto antes, não haverá mais nem mesmo a alvorada.

— Então faça algo você mesmo. — Retrucou. — Recrute guerreiros, monte um exército e faça-os lutarem por sua causa. Tenho certeza que existem muitos desses por aí. Nada disso diz respeito a mim. Não até uma guerra ser declarada.

— Aí é que você se engana, cavaleiro. No caso de um possível conflito, você é uma das peças mais importantes. Muitos podem não lhe dar o devido crédito ou talvez sequer tenham percebido a sua importância. Mas você pode decidir os rumos da guerra melhor do que qualquer outro cavaleiro. Pense bem, Afrodite.

Eos bateu as asas, subiu aos céus e seguiu na direção oposta ao sol, iluminando o espaço que ainda coberto pela noite. Seus olhos, porém em nenhum momento deixaram de encarar o cavaleiro, que fez o mesmo.

— Eu sei quem e o que você é. Você e eu, lado a lado, podemos fazer muito por esse mundo que amamos. Pense bem, Afrodite.

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Afrodite balançava uma taça de vinho entre os seus dedos, observando com desinteresse o líquido grená girar de um lado para o outro. Seu dia foi tão ruim que nem mesmo um gole de sua bebida favorita ao entardecer foi capaz de mudar seu humor. As nuvens carregadas no horizonte, sinalizando que logo, logo uma tempestade iria desabar também não ajudou muito.

Não era de ficar emburrado, preferia sempre manter a altivez e o bom humor, mesmo que às vezes ácido. O que aconteceu naquela manhã, no entanto, lhe abalou de um jeito que não esperava.

“Eu sei quem e o você é.”

Aquela sentença lhe trouxe memórias de que quase havia esquecido naqueles tempos de paz. A primeira vez que a ouviu foi no dia em que recebeu a armadura de ouro. Na cerimônia, o Grande Mestre lhe perguntou:

“Afrodite, você sabe quem é o cavaleiro de ouro de peixes?”

Naquela época ele não entendeu a pergunta, por isso o patriarca teve que explicar.

“O cavaleiro de Peixes é o mais importante dentre todos os 88. Em uma invasão ao santuário, se todos os outros cavaleiros falharem, a missão de deter o inimigo será inteiramente sua. Pois entre você e Atena não há mais ninguém. Você é a última esperança. Não somente isso, mas o Cavaleiro de ouro de Peixes deve ser o guerreiro mais confiável de Atena, ele precisa ser o mais leal de todos pois é quem mais está próximo a ela. Percebe agora o fardo que terá que carregar como cavaleiro de peixes?”

— Lealdade…

Afrodite suspirou profundamente antes de beber todo o conteúdo da taça em uma única golada.

— “...Justiça, ordem e paz. A qualquer custo.” — Repetiu as palavras dela — Qual será o plano real dela? Eos não é uma deusa guerreira, não faz sentido ela querer entrar em guerra contra Atena. Será que ela está trabalhando com alguém ou isso tudo é ambição própria?

Afrodite não teve muito tempo para ponderar sobre essas questões. Sentiu o cosmo de Saori sair da casa de aquário e vir em direção a sua. Embora não fosse uma exigência da deusa, o Grande Mestre orientava para que todos os cavaleiros recebessem Saori e ajoelhassem em sinal de respeito durante sua passagem.

Naquele anoitecer, por um motivo que não soube explicar, Afrodite não sentiu vontade de realizar tal ato. Contudo, também não queria abertamente desrespeitar Atena. Por esse motivo, preferiu se esconder entre as sombras dos pilares de sua casa e ocultar totalmente sua presença.

— Afrodite?

O homem prendeu a respiração e fechou os olhos ao ouvir o nome ser chamado. O coração apertou por um momento, sentiu como se estivesse cometendo um crime grave. Ainda assim manteve-se firme nas suas convicções.

— Afrodite?

Novamente não respondeu. Ele não conseguia afirmar com toda certeza, mas anos de treinamento e sentidos aguçados o diziam que Saori por um momento olhou na direção onde estava escondido. Isso era mal. Ele não queria dar explicações de o porque estar fazendo aquilo. O silêncio no seu templo o fez ouvir passos suave e incertos como se quisesse ir em ir aonde estava. O coração disparou e uma gota de suor surgiu em sua testa. Seu dia estava a ponto de terminar da pior maneira possível. No último momento, porém, a sorte decidiu lhe mostrar seu sorriso. Aparentemente, Saori deu meia volta e seguiu caminho até seus aposentos uma vez que som de seu calçado batendo no chão foi se distanciando.

— Essa foi por pouco. — Suspirou aliviado.

Mesmo que tivesse evitado Atena daquela vez, sabia que haveria outros momentos. Ele não poderia fugir daquilo para sempre, um dia teria que tomar sua decisão.

Manter lealdade a Atena ou a suas convicções pessoais?

“Porque eu sei muito bem o que o um homem como você quer.”

— O que é que eu quero? — Indagou.

Infelizmente, ele não tinha a resposta.

Notas finais
Dii laat tey.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!