Nuvens Brancas
1 Único | Sob o céu azul
Notas iniciais
UM
A clareira no fim do caminho era muito diferente do que Edward Cantor Dean havia algum dia imaginado.
Claro que, em geral, ele nunca havia de fato pensado sobre ela. Certos flashes já haviam passado por sua mente, obviamente, e em certos momentos dentre toda a sua jornada pelo Mundo Médio seu inconsciente projetou uma visão escurecida do que a clareira poderia vir a ser, mas mesmo nos momentos mais difíceis de sua vida
(desde os dias da heroína, em Nova York, até a passagem pela porta e Lud e Blaine e Calla e a batalha de Algul Siento, que eventualmente roubaria sua última respiração)
Eddie não acreditava ter algum dia pensado na possibilidade do que o morrer realmente seria. De qual seria a sensação. Se doeria ou seria algo rápido, quase instantâneo; se teria tempo de ver os olhos de Susannah se arregalando ante a perspectiva de ver o marido morto, ou se sua morte viria apenas após enterrar a esposa. Se haveria tempo para despedidas, ou se o seu ka-tet apenas perceberia que Eddie cruzara o caminho para o outro lado quando seu corpo passasse a ser nada mais que uma concha vazia.
Agora que ele de fato cruzara o caminho, parecia um tanto idiota ele nunca ter se perguntado sobre tudo aquilo antes.
Parecia mais idiota ainda a forma que Eddie Dean morreu. Com uma bala atravessando a cabeça a partir das mãos de Pimli Prentiss
(antes Paul Prentiss, mas que se foda o nome dele)
quando a Torre parecia tão mais próxima. Eddie sabia que as chances de nunca ver a Torre eram absolutas – no fundo, sabia que Roland havia de seguir seu caminho sozinho –, mas esperava morrer de forma mais digna. E, no final, morreu por uma única bala em um único momento de distração.
Henry Dean, o grande sábio e viciado eminente, teria rido de sua cara e dito que ser morto daquela forma era a coisa mais escrota do universo. Eddie não negaria.
Mas assim era o ka, e o ka fazia o que bem quisesse.
Ka-ka, pensou ao dar um de seus primeiros passos na clareira, e não pôde evitar sentir uma torção no estômago com a memória de sua piada interna com Roland.
Se doía pensar nisso?
Doía pra caralho. Mas simultaneamente era algo bom, agora que pisava em terras novas e desconhecidas totalmente sozinho. Lembrava-o de que um dia, por mais efêmero que agora parecesse ser – e por mais eterno que no momento aparentou ser – ele teve um propósito de vida.
DOIS
Ainda assim, nos breves instantes em que sua mente formulava a pergunta de como a clareira poderia ser – de modo tão súbito quanto a velocidade que essa pergunta era então desfeita – Eddie Dean sentia poder tocá-la em seus sonhos.
Não tão frequentes no início de seu trajeto como pistoleiro, mas progressivamente aparecendo com maior constância no fim de seu caminho, principalmente após passarem pela porta que dava à Trovoada. Era quase como se o ka o alertasse, aos gritos, porém tais gritos fossem sufocados – simultânea e inconscientemente – por outras preocupações. A Torre, o Rei Rubro. Mordred. Stephen King.
Para Eddie Dean, a morte nada seria se comparada à Torre. Em seus sonhos, tanto a imagem da Torre quanto da clareira pareciam se misturar, por mais que Eddie não realmente percebesse. Em seus momentos de inconsciência, sonhava com rosas e portas e balas atravessando sua cabeça, tudo junto e misturado e incrivelmente confuso, mas também tão claro! Como a luz do dia despontando em um amanhecer por trás das montanhas que tira sua respiração de tão bonita que é, como as nuvens brancas que parecem seguir uma trilha em uma única direção – o centro do universo, a Torre.
Ou estariam as nuvens indo em direção à porta que se abriria para a clareira?
Eddie não sabia responder.
De qualquer modo, ao finalmente encontrar tal porta – depois de horas de sofrimento agonizante em uma enfermaria melancólica e de paredes brancas em uma terra chamada Céu Azul – não soube a princípio dizer o que estava se passando. Se aquela era a clareira no fim do caminho, não parecia ser, bem, uma clareira. Por mais que Eddie não pensasse com frequência na possibilidade de sua morte – ainda que houvesse estado presente em incontáveis situações de quase-morte – a primeira imagem que vinha em sua cabeça ao ouvir a expressão “clareira no fim do caminho” era de, bem, uma clareira.
E aquele lugar definitivamente não parecia ser uma. Eddie a princípio estranhou; estava dentro de uma construção. Paredes de pedra que faziam um contorno circular a sua volta, o chão também de pedra e frio. O cômodo era vazio e trazia um ar de melancolia.
Havia lá uma janela aberta. De algum modo, conseguiu perceber que estava no alto. Onde quer que ele estivesse – se esse fosse realmente o fim de tudo, o lugar do bater das botas – percebeu que estava no alto. Em um dos últimos níveis de uma elevada construção. Ao alcançar a janela e ver o que havia lá fora, não se surpreendeu ao ver um campo de rosas.
Aquela não era a Torre Negra e Eddie tinha certeza. Se fosse, ele saberia e sentiria. Como intuição (o tipo de coisa que Henry Dean diria ser coisa de bicha), da mesma forma em que sentia o fluxo de adrenalina correr por todo seu sistema ao estar prestes a atirar com sua arma.
(Afinal, Eddie não atira com a mão; aquele que atira com a mão esqueceu a face de seu pai)
Aquela não era a Torre Negra. E então, em um clique, Eddie finalmente percebeu – depois de muitos sonhos confusos e logo esquecidos dentre os cinco minutos logo após despertar – o que o seu subconsciente há muito tentava dizer: a clareira no fim do caminho não era uma clareira, mas uma manifestação e síntese de seu eu completo. Sabia que o pós-vida não se limitaria àquela sala vazia, paródia da eterna Torre; ela era apenas o primeiro nível de muitos. Sabia que, se virasse para trás e andasse em direção à porta do cômodo, se depararia em outros lugares – ou em diversos fragmentos de momentos de sua vida – que para ele um dia foram tão importantes quanto a Torre Negra no fim de sua jornada.
Cruzando as diversas portas que apareceriam para ele conforme andasse mais profundamente para dentro da clareira, Eddie Dean ainda tinha em si a esperança de encontrar não só locais e momentos, mas pessoas também (mais especificamente, sua família. Não no sentido sanguíneo, como o grande sábio e eminente drogado, mas aquela a qual aprendeu tanto a amar).
Com um misto de dor, terror e uma pontada de ansiedade, Eddie percebeu que isso não tardaria a acontecer.
TRÊS
E, de fato, não tardou.
Eddie não sabia dizer quanto tempo se passara desde que lá havia chegado – o que era tempo em um local que nem mesmo a vida parecia ser algo palpável? –, porém, aos poucos sentia sua mente começar a borrar. Sabia que nos últimos anos
(ou teriam sido meses? Dias, semanas?)
de sua vida algo de muito importante acontecera que mudara totalmente seu rumo e perspectivas de mundo, entretanto em dados momentos sua mente parecia um borrão. Mudei o mundo e morri nessa tentativa, pensava ele, mas Eddie não se lembrava do porquê ou do como.
Mesmo na clareira do fim do caminho, tinha sonhos. Com um campo de rosas muito maior e extenso do que aquele que fora sua primeira parada no pós-vida; tal campo de rosas circundava uma imensa e atemporal torre cujas janelas subiam em espiral, quase infinitamente. Ainda assim, não sabia – não se lembrava, porque no fundo ele sabia e Eddie tinha plena consciência desse não-saber – qual era a razão de tal torre aparecer em seus pensamentos. Era importante e havia sido muito importante para Edward Dean, sim, mas esse esquecer que recentemente tanto crescia dentro de si era muito mais forte e deixava-o frustrado. Algo acontecera e a inquietação e sensação de déjà vu parecia pingar em seus ossos, drenando-os da mesma forma que a coisa no centro do universo parecia fazer com as nuvens lá do céu.
De qualquer modo, esquecendo-se ou não de certas coisas, lembrando-se ou não de outras coisas, duas delas eram certas: Eddie Dean estava morto e a clareira no fim do caminho era gigantesca.
Muito maior que todo o caminho entre Calla Bryn Sturgis e Algul Siento
(céu azul, o lugar em que a bala atravessou sua cabeça),
pensava, por mais que agora não se lembrasse mais de onde tais nomes vinham. As memórias aos poucos eram retiradas de sua cabeça sem que ao menos percebesse, e Eddie não sabia como se sentir (como saber, se grande parte de você nem ao menos nota? Aquilo era confuso).
Cada vez andava mais para dentro da clareira, e a cada porta que passava o mundo parecia se estender mais para o infinito.
E foi atrás da décima nona porta – o lugar que Eddie fora parar agora era um reflexo de Nova York, da Quinta Avenida anoitecida e com suas luzes piscando freneticamente, chamando-o, fazendo-o sentir como alguém vivo novamente – que apareceu o menino. Seu nome era Jake e, ao vê-lo, Eddie sentiu outra vez aquela pontada de déjà vu, mais aguda do que nunca. Ele nunca havia o conhecido mas sentiu imediatamente pelo menino uma confiança extrema, um senso de proteção que acreditava nunca ter sentido antes.
Era estranho e simulteaneamente reconfortante. Jake (John Chambers é seu verdadeiro nome, pensou Eddie e soube que aquela era a verdade, mesmo que o garoto nunca houvesse lhe dito tal coisa) aparecera por uma outra porta que Eddie mais tarde percebeu não ser possível abrir. Pelo menos não do lado em que estavam. O pré-adolescente de olhos claros e muito mais maduros do que o esperado para alguém de sua idade parecia tão confuso quanto Eddie esteve em sua chegada. Pôde ver em sua expressão como os pensamentos pareciam se esvaziar, aos poucos, do rosto de Jake. Como se o simples ato de cruzar a porta fizesse sua mente e pensamentos antigos desaparecerem, renovando-o.
A clareira no fim do caminho não era o fim do caminho, Eddie percebeu. A clareira era o recomeço, a possibilidade de redenção.
QUATRO
Após a trigésima oitava porta
(dobro de dezenove)
que Eddie cruzou ao lado de Jake, eles – agora irmãos, porque no fim das contas, era isso que os dois acabaram por descobrir ser, mesmo; a imagem do grande sábio e eminente drogado era nada mais que um vulto na mente do rapaz – se viam novamente em Nova York. Não mais sob as cintilantes luzes da Quinta Avenida, porém abaixo das estrelas em uma noite fria no Central Park.
Eddie estava pensativo e um tanto nervoso, sem saber exatamente a razão. Não sonhava mais com a misteriosa torre há algum tempo. Suas imagens oníricas não mais captavam a adimensional construção com janelas ascendentes em espiral cercada por rosas, ao invés disso, sonhava constantemente com uma mulher. Negra, cadeirante e simplesmente de tirar o fôlego. Apenas pensar na imagem dela permeando seus sonhos já era o suficiente para fazê-lo estremecer. Assim como fora com Jake, a mulher lhe parecia incrivelmente familiar,
(talvez já tenhamos nos encontrado em outra vida)
mas estranhamente distante. Tal pensamento fazia os pelos dos braços de Eddie se arrepiarem e ele ter de aquecer as mãos com a caneca de chocolate quente, com uma generosa camada de chantilly salpicada de noz-moscada. Não iria bebê-la, afinal, não era para ele que Eddie a segurava. Muito menos para Jake, ocupado demais querendo ver mais de perto os ursos polares (afinal, parecia ser Natal).
Era para ela. A mulher que não estava lá e que Eddie não sabia quando apareceria – o que era o quando mesmo, na clareira? –, mas que eventualmente chegaria. Não era a simples intuição que guiava os pensamentos de Eddie. Desta vez, parecia ser mais obra do destino
(ka)
e isso fazia Eddie querer cagar nas calças de nervosismo.
Levantou-se da grama, com uma mão segurando a caneca de chocolate quente e a outra tirando os vestígios úmidos do sereno de seu moletom (EU BEBO NOZZ-A-LA!, dizia). Assim como não tardou para Jake entrar em sua vida – ou melhor, pós-vida – debaixo das luzes ofuscantes na Quinta Avenida, não tardou para a mulher chegar debaixo das luzes das estrelas em uma noite de Natal no Central Park.
Ela sorriu para ele. Eddie entregou-lhe a caneca e, dentre todas as portas que atravessou na clareira, a trigésima oitava foi definitivamente a que lhe trouxe mais alegria.
CINCO
Edward Cantor Dean não sonhava mais tão avidamente com a torre que um dia lhe parecera trazer um propósito de existência assim tão grande. Na realidade, o rapaz agora mal se lembrava do porquê de algum dia ter se importado tanto.
(Não fora ela que o levara à clareira?)
Era até estranho, o modo como tal coisa parecia ter voado de sua cabeça. Não parecia mais ser importante, mas Eddie ainda retinha poucas recordações; de que em vida fizera uma longa busca pela Torre (T maiúsculo, porque era o seu título) e havia algo de triste naquilo.
Era ainda mais engraçado a forma como ele conseguiu construir uma vida dentro daquela realidade que a princípio não devia compreender o viver. Com Jake e Susannah, do modo que deveria ser, do modo que sempre pareceu o mais correto. E, mais recentemente, com o cachorro. O pequeno animal de pescoço comprido e olhos rodeados por uma aura dourada. Seus latidos às vezes lembravam estranhamente a Eddie uma fala.
O cachorrinho se apegara imediatamente a Jake, e foi ele que sugeriu:
– Por que não chamá-lo de Oi?
Em outro lampejo de déjà vu – desta vez não atrelado à estranheza e confusão, mas a uma nostalgia extrema – Eddie concordou. Susannah também.
Momentos mais tarde, Eddie foi à janela do seu quarto com o de Susannah para abri-la e sorver o ar nova-iorquino que berrava ao som de táxis e do mundo seguindo seu caminho. Ao abrir o vidro, Eddie não se deparou com um campo de rosas,
(paródia da eterna Torre)
porém com um céu azul que contrastava com as nuvens brancas, em constante trilha na direção dos pilares do universo.
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