Nunca É Tarde Demais
1 Será?
Notas iniciais
Tic Tac. Tic Tac. Tic Tac.
Os olhos do Cascão haviam se fechado há muito tempo. Estava exausto. Acabara de sair da casa de Cascuda depois de uma interminável discussão que começou com uma reclamação da parte dela sobre seu desleixo com o material escolar. E como a maior parte das discussões, um assunto foi puxando o outro e virou uma bola de neve, rebatendo assuntos já discutidos de novo e de novo. Estava cansado dessa rotina. Ele só tinha pedido para a Cascuda ajudá-lo a passar em matemática, só isso. E acabou que não conseguiu passar do terceiro exercício.
Derrotado, deixou a namorada falando sozinha e se arrastou por debaixo da chuva até o ponto de ônibus mais perto. Engraçado não? Anos atrás ele se desviava de qualquer pingo de água, e agora andava devagar e todo encharcado.
“Olha só o que você fez comigo Cascuda! Acabou com a minha essência!”
Apesar de a distância ser razoavelmente curta até sua casa, tinha que ficar um tempo sozinho e nada melhor do que a velha cena melodramática de refletir olhando através da janela do ônibus enquanto as gotas batiam contra o vidro.
Chegando no ponto, encostou na parede a espera do primeiro ônibus. Nem se importou muito de não ter nenhuma cobertura ou lugar para sentar, a chuva fria batendo contra seu rosto dava uma surra em sua pele, e Cascão esperava que com ela fosse embora todas suas angústias. Levantou o capuz do seu casaco, enfiou as mãos no bolso e aguardou.
Passado um tempo, Cascão pulou de susto quando percebeu que havia cochilado. Havia três pessoas no ponto de ônibus agora, e nenhuma parece ter percebido o susto do menino.
“Eu dormi na chuva!!?? Quem sou eu?”
Conferiu sua mochila ensopada, e graças à alguma força impermeabilizante do universo, seus cadernos estavam intactos. Pegou seu fone, escolheu uma playlist, e deixou tocando no último volume. Se endireitando no lugar, Cascão viu seu ônibus chegando, deu sinal e subiu. Foi direto para os últimos lugares e percebeu que as pessoas desviavam seus olhares. Desde sempre foi assim, sua cara de mau encarado com capuz levantado não atraía muitos olhares e ele até que gostava assim. Não se sentia na obrigação de satisfazer ninguém.
Abraçou a mochila e descansou a cabeça. Seus olhos estavam quase se fechando de novo, quando reconheceu os cabelos negros da pessoa a algumas cadeiras a sua frente.
“Magali?”
A morena estava de olhos fechados com fones de ouvidos. Estava com um moletom preto de alguma série famosa bem maior que o seu corpo. Nos pés, um par de coturnos amarelos. Trazia consigo uma bolsa em forma de gatinho. Cascão sorriu. Apesar da cara cansada e dos cabelos desarrumados, parecia em paz. E foi a visão mais linda que Cascão teve no dia.
“Pelo menos ela nunca perdeu a sua essência!”
De cabeça erguida e capuz abaixado, Cascão começou a analisar sua amiga. Magali nunca fora como a maior parte das meninas que perdiam horas fazendo as unhas, os cabelos, indo ao shopping, se juntando em panelinhas, fazendo apenas o que suas amigas faziam. Ela era do tipo que te chamava para ir comer na lanchonete da esquina com a maior alegria e que topava qualquer esporte radical. Claro que isso nunca a deixou menos feminina, Magali era definitivamente o símbolo de meiguice e feminilidade para Cascão, na dose certa. Nenhum dia estava nublado para ela.
Mesmo depois que o Quim mudou-se para Portugal com o pai, seu humor não mudou. “Não estava dando certo mesmo, foi o melhor que podia ter acontecido. Assim nenhuma parte se magoou com a outra.” Disse ela para Cascão dois dias depois do ocorrido, quando ele chamou a amiga para tomar um sorvete e tentar dar um apoio nessa situação.
Cascão admirava Magali. Uma ótima amiga, sempre elevando a alegria da turma, sempre dando o seu melhor para ajudar seus amigos. E aquele perfume de seus cabelos, aqueles olhos de amêndoa, aquela voz suave.... Ahhhhhhh! Cascão não sabia lidar. Há tempos olhava diferente para a amiga, mas era fiel demais para tentar algo. Magali começou a ser tudo o que o jovem procurava. Muitas vezes sendo o oposto de sua namorada.
Cascão chacoalhou a cabeça com a memória de sua namorada. A carranca veio automática. Caramba, um namoro não poderia desgastar tanto assim! Tinha que ter compreensão, amor, carinho, companheirismo, respeito. E ultimamente nem lembrava do último encontro legal que tiveram.
“Acho que preciso tomar alguma atitude sobre isso, antes que não sobre nem a amizade da Cascuda. Ai ai, sei que é errado, mas vamos lá ver se funciona essa história do Cebola de ‘deixar umas pontas soltas’. Só espero que não seja mais um de seus planos infalíveis!!”
Com agilidade, pegou seu celular e mandou uma mensagem para sua amiga comilona. Cascão observou a amiga abrir os olhos com certo desgosto. O sorriso de Cascão diminuiu. Magali tirou o celular do bolso e acendeu a tela, dando um belo sorriso. Digitou rapidamente e voltou a fechar os olhos. O celular vibrou, “Oi Cas! Tudo bem?”.
Cascão corou na hora. “Ah mais ou menos Maga. Fui estudar na casa da Cascuda e acabamos brigando de novo! O pior é que eu estou mais triste por não conseguir terminar de estudar e não pela briga em si, isso é ruim?”, respondeu. Agora Cascão estava pedindo conselhos sobre seus problemas? Ah, e se estava. Se tinha alguém maduro e sincero para dar um conselho digno, esse alguém era a Magali.
A amiga despertou de seu transe, logo sorrindo. Mas esse sorriso diminuiu ao ler a mensagem que recebeu. A amiga corou e deu um suspiro, desviando o olhar para a janela por alguns instantes. Cascão observava atentamente cada detalhe. Magali parecia indecisa, mas parecia bem mais cansada do que estava, como se lembrasse de algo ruim. “Claro que é ruim, ela sabe desde o início sobre nossas brigas! Ai ai ai, não devia ter mandado nada, ela deve estar cansada de ouvir sobre meus problemas!” pensou Cascão chateado.
Logo depois, Magali respondeu “Cas, não sei se deve ser eu a te perguntar isso, mas você já parou para pensar no seu relacionamento com a Cascuda? Se vocês dois ainda têm algo pelo qual lutar, se vale a pena continuar investindo? Eu sei como é estar em um relacionamento no qual você prefere mentir do que entrar em brigas desnecessárias. A pergunta que eu te faço é: você ama a Cascuda ainda?”
Cascão ficou paralisado com a resposta. Nunca tinha se perguntado se ainda queria a Cascuda como sua parceira, porque já estava confortável com sua presença. “Confortável não”, pensou Cascão, “conformado”. Caramba, que choque a comilona deu ao sujinho. Não amar a Cascuda? Como é não amar alguém que você sempre amou? Ou melhor, como saber? Cascão sabia a resposta em seu interior, só não admitia. Há meses que não pensava mais na Cascuda daquele jeito. E ele tinha certeza que a mesma já não olhava para ele da mesma forma.
Cascão olhou para a amiga, vendo a mesma ajeitar os seus cabelos. “Será que a Maga tem razão sobre estar em um relacionamento desgastado?”.
Com a expressão séria e todo o pesar do mundo, começou a digitar a resposta, “Há tempos que não vejo mais ela dessa maneira”. Resolveu que não iria mais ver nenhuma mensagem, precisava se concentrar em achar uma solução, por mais dolorosa que fosse. Mas mudou de ideia assim que viu uma cara de sapeca estampada no rosto da amiga. Ficou confuso. A amiga tinha ficado contente com sua resposta? Afinal, ele admitiu um fato que não admitiria para mais ninguém, ela deve ter ficado feliz com a confissão pessoal. Ou seria outro motivo?
“Pode parar já de se iludir garoto!” Cascão deu uns tapinhas no seu rosto para ver se despertava para a realidade. “Na primeira briguinha com a Cascuda você já começa a fantasiar com a primeira garota que cruza seu caminho? Ah, bem, não foi a primeira não é? E definitivamente não vai ser a última. E também não é qualquer garota. É a Magali poxa! A garota que perde tempo de estudo para fazer aquele bolo de chocolate belga para mim quando estou na bad! A garota que sempre me apoiou. A que sempre topou ver E participar dos meus esportes radicais. A que me ajuda nos estudos a qualquer momento. A que tem os olhos mais lindos do mundo. A que tem os cabelos mais cheirosos. A que eu.... FOCO CASCÃO!”
Estava perdido. Não estava mais se reconhecendo. Além do que, do que adiantaria ficar pensando nela quando nem sabia se ela gostava dele também? Não queria ter outra ilusão amorosa. Não agora.
Com a mochila e as roupas encharcadas, demorou para perceber que tremia de frio. Parece que seu plano de não morrer antes de concluir a lista de lugares que queria saltar de paraquedas estava dando errado. Precisava urgente se trocar. Pensando nisso, seu celular vibrou. “Acho que está na hora de você seguir em frente. O novo nem sempre é ruim. O desconhecido pode ser melhor do que o atual, é só você saber procurar!”
Desviou o olhar da tela para a amiga. Ela ficou de pé, pronta para descer na próxima parada. Cascão não deixou de notar sua aparência. Apesar das roupas não tão favoráveis, Magali tinha esculpido seu corpo logo depois do término. Precisava de algo para se ocupar, e se inscreveu em todos os tipos de esporte. E obviamente, acabou coincidindo com os de Cascão, e assim os amigos se aproximaram muito.
Cascão foi muito protetor, afastando todos os marmanjos que tentavam se aproximavam da amiga. No início era pela fragilidade sentimental de Magali, mas depois foi mais ciúmes. Não aguentava ver os olhares em cima dela, principalmente na aula de natação. Com o tempo, Magali foi ficando cada vez mais em forma, deixando os garotos e o pobre Cascão transtornados.
“É só você saber procurar?” refletiu Cascão, “Procurar onde?”. Sua mente já divagava com inúmeras possibilidades, todas terminando em um vislumbre do que seria um novo começo. A maior parte terminava com Magali em sua vida. Todo mundo sempre brincava já que a Mônica e o Cebola estavam juntos, sobravam Cascão e Magali, e por que não juntar de uma vez? C e M. Cascão sorriu com a hipótese. “Quem sabe?”
Ele levantou sorrateiramente e esperou a amiga descer do ônibus para ir atrás. Afinal, suas casas ficavam uma do lado da outra. Magali usava um guarda-chuva de melancia. Típico. Cascão pensou que quem olhasse, nunca iria suspeitar que essa doce menina já derrubou grandalhões com o dobro de seu tamanho nas aulas de artes marciais. Ele se orgulhava muito ao ver os caras cheios de roxos causados pela comilona. Mas aparentemente, a amiga não notou um cara seguindo ela. Isso era preocupante. “Vou ter que nos inscrever em alguma aula que apure os sentidos! Imagina se ela é assaltada ou pior?” temeu o sujinho.
Mesmo com a chuva caindo em seus olhos, não pode deixar de abrir o sorriso mais feliz do mês ao ver que em sua bolsa de gatinho havia um chaveiro de um porquinho de madeira que ele mesmo fez. Cascuda tinha recusado por nem parecer um animal, e na época, Cascão tinha jogado contra a parede o chaveiro. Magali estava ao seu lado e serviu como um ombro amigo, mas nunca tinha imaginado que ela guardara o porquinho. Seu coração começou a bater forte. Isso só poderia ser um sinal! Ou uma ilusão quentinha saindo do forno.
Só iria descobrir se tentasse, não é?
A casa de Cascão havia chegado e ele parou no portão, esperando a amiga entrar em casa segura. Acompanhou aqueles cabelos dançando ao vento chegarem até a porta. A melancia sumiu de sua vista e amiga estava abrindo a porta, quando parou, olhou para trás, e acenou para o Cascão. E com um grande domínio da arte de deixar o Cascão sem graça, Magali fez um tchau com a mão.
Cascão ficou parado, com os olhos arregalados pela astúcia da menina ao perceber sua presença. Ninguém pegava o Cascão desprevenido! Ainda em choque, levantou a mão e tentou acenar de volta. A garota deu uma risadinha e apontou pro céu, com a expressão “Seu mané, você está na chuva!”. E Cascão correu para dentro da sua casa, vermelho até a ponta do pé por parecer tão idiota parado na chuva observando sua amiga.
Quando estava entrando, olhou para sua amiga para se despedir, e como sempre, Magali já estava a dois passos na frente. Deu uma piscadela que desestabilizou por completo o pobre Cascão e sumiu de vista. Ele ficou parado uns segundos antes de entrar em casa. Não ficava nesse estado emocional há tanto tempo, que demorou para perceber o que estava acontecendo.
Deixou sua mochila no chão, e mesmo encharcado, se jogou no tapete da sala. Ficou olhando para o teto e tentando absorver todos os sentimentos que acabou de sentir. Seu celular voltou a vibrar e já ansioso achando que era a morena, correu para ver a mensagem. Era a Cascuda, pedindo desculpas pelo ocorrido e pedindo para remarcar os estudos para amanhã, sendo grossa na maneira de admitir seus erros. Como se a culpa fosse dele em tempo integral. Foi um balde de água fria no Cascão. A realidade voltou com tudo, e viu que em primeiro lugar, deveria dar uma última chance a ela, apesar de saber que quebraria a cara mais para a frente.
Levantou correndo para o banheiro já tirando as roupas congeladas, e ao passar pela mesa do seu quarto, não pode deixar de notar o bilhete que havia grudado ali. Era um desenho de um sol sorrindo, com a frase “Eu sei que você consegue!”. Seu coração falhou ao lembrar de achar o bilhete no seu estojo, na hora que foi pegar a caneta para a prova, depois de passar horas revisando o conteúdo com a comilona. Seu peito aqueceu, e ele sabia que a amiga desejava o seu bem sempre, talvez até demais para uma amiga.
Com um sorriso no rosto, olhou para a foto do quarteto de amigos, mais especificamente para a Magali. Tinha sido tirada depois de seu campeonato de skate. Os três levantavam o amigo e seu troféu, e não pode de deixar de notar que seu olhar estava preso no da Magali, e vice e versa. Como se só estivessem os dois ali.
—Ah Magali, eu vou te esperar. E espero que você me espere também. Porque eu vou chegar para você. Hoje não, mas quem sabe amanhã?
FIM
Fale com o autor