Nunca mais me deixe
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Estevão pegou Maria nos braços e a levou para o carro. Deitou-a no banco traseiro com cuidado, e correu até o banco do motorista e deu a partida. Acelerou o quanto pode. Não tardou a chegar ao hospital que Dr. Rubens trabalhava. Tirou Maria do carro e correu com ela para dentro do hospital. O atendimento foi rápido, por ter tal porte o hospital.
Dr. Rubens – Estevão? O que faz aqui?
Estevão – Maria, Rubens, Maria – chorava – Ela estava desaparecida e eu a encontrei a pouco, ela não está bem, meu amigo, não está.
Rubens abraçou Estevão na tentativa de confortá-lo – Eu vou cuidar do caso dela. Espere um pouco aqui que já volto – separaram-se e o médico foi atrás de sua paciente.
~ Hotel Pontal Plaza ~
Alba estava em seu quarto no luxuoso Hotel, com uma taça de vinho tinto nas mãos e andando pelo seu quarto. Poderiam sim, algumas coisas terem deslizado por entre seus dedos, mas ela era Alba San Roman e o vento ainda sopraria a seu favor.
Alba – Isso não poderia ter acontecido. Como aqueles policiais e Estevão me encontraram e me deixaram sob aviso para não sair da cidade... Pelo menos não desconfiam de nada e Bruno... Ah Bruno não irá abrir a boca porque tem mais medo que um cachorrinho que é separado da mãe... Amanhã vou acordar bem cedo e ir até Maria e acabar com ela de uma vez. Ah Maria, espero que vá para o inferno e isso vai acontecer logo, logo. – riu sarcasticamente enquanto tomava seu vinho.
~ Hospital Central ~
Passou-se uma hora desde que Estevão havia chegado ao hospital e com a falta de notícias, estava ficando cada vez mais impaciente. Ele sabia que sua Maria não estava bem, as condições em que a encontrou não mentiam a ele. Estevão andava de um lado ao outro, bagunçava ligeiramente seus cabelos em sinal de nervosismo. Seu corpo estava naquela sala de espera, mas seus pensamentos e coração estavam junto a Maria. Quando um médico apareceu, Estevão correu e ficou na frente do mesmo.
Estevão – Dr. como está minha esposa? Ela está bem?
Dr. Lopez – Desculpe-me senhor... – disse o médico sem entender
Estevão – Perdão, Dr. Meu nome é Estevão San Roman. – disse se acalmando – Minha esposa deu entrada há algum tempo e... estou sem notícias. Preciso vê-la.
Dr. Lopez – Bom qual o nome da sua esposa?
Estevão – Maria, Maria San Roman. — seus olhos foram enchendo-se de lágrimas — Eu te peço, por favor, se eu não puder vê-la que pelo menos me traga notícias. – sentou-se na poltrona e chorou – Ela é minha vida, sem ela não posso existir.
Dr. Lopez – Acalme-se Sr. San Roman. Não sou eu quem está cuidando de sua esposa, mas eu vou ver o que posso fazer pelo senhor. Peço que tenha calma, não demoro a voltar. – o médico saiu deixando Estevão de cabeça baixa e lágrimas nos olhos.
Dr. Lopez era um médico experiente. Tinha pra mais de 50 anos. Comoveu-se com o que viu há poucos minutos. Um homem que chorava como uma criança, ao ter por circunstâncias uma possível perda de sua esposa. Dr. Lopez ou Eduardo Lopez, era um homem viúvo que vivia com uma culpa em seu coração: não conseguiu salvar a própria esposa do Lúpus, descobriram a doença em um estágio mais avançado e já era tarde demais... Desde então se ocupava ao máximo em seu trabalho e tentar esquecer a dor de perder quem mais amava.
Dr. Lopez foi atrás de informações para ajudar Estevão. Procurou saber tudo o que pode e ainda mais, o que não pode ou não deveria saber, sobre aquela paciente. Encontrou seu quarto e a viu com Dr. Rubens a examinando juntamente com uma enfermeira.
Dr. Lopez – Rubens?
Dr. Rubens virou-se e viu o médico – Como está Eduardo? – eles tinham certa intimidade para tratarem-se pelos primeiros nomes.
Dr. Lopez – Estou bem... – observou Maria por cima dos ombros do colega – essa é Maria San Roman?
Dr. Rubens – Sim. Por que a pergunta?
Dr. Lopez – O marido dela, o senhor San Roman, está lá fora desesperado por notícias. Ele me parou no corredor querendo saber notícias e prometi levá-las.
Dr. Rubens – Bom Eduardo, sou médico da família a mais de 20 anos e... Realmente não sei como vou dar essa notícia a Estevão. Ele é completamente apaixonado por essa mulher...
Dr. Lopez – O que houve com ela?
Dr. Rubens – Maria têm muitos inimigos e a sequestraram. Ficou cerca de 24 horas desaparecida. Nós fizemos muitos exames e, pelo estado em que ela chegou com todas estas marcas em seu corpo, nós fizemos o exame de Corpo de Delito e – deu um longo suspiro — foi constatado que ela sofreu abuso sexual. Nós entramos vestígios de sêmen em seus genitais. Eu mandei refazer todos esses exames, mas tudo indica que o resultado será o mesmo.
Dr. Lopez – Meu Deus, o senhor San Roman...
Dr. Rubens – Ele vai procurar quem fez isso até o último dia de sua vida se for preciso. Eles têm uma história muito bonita, que rompeu e ainda rompe barreiras, Estevão preza tanto por sua família, por ela...
Enfermeira – Dr. já terminei que colocar o soro. Vou ver os outros pacientes, com licença. – a enfermeira deixou os médicos a sós com Maria.
Dr. Lopez – Temos que contá-lo Rubens.
Dr. Rubens – Eu sei, mas pelo fato de ser meu amigo é mais difícil, mas ao mesmo tempo mais fácil... Vamos esperar o resultado do segundo teste para falarmos com Estevão.
Dr. Lopez — Se assim deseja, respeitarei e não lhe direi nada.
Dr. Rubens – Obrigada. Vamos conversar com ele agora? Estevão é impaciente e já deve ter abordado mais pessoas...
Os médicos saíram do quarto de Maria, deixando-a com ligada a um fio que levava soro ao seu corpo, pelo fato de estar desidratada. Maria tinha algumas marcas roxas pelos braços, causadas pela brutalidade que Bruno sempre a pegava. Maria estava fraca, seu corpo não tinha estímulos para reagir. Continuava dormindo sob efeito de um remédio e assim permaneceria por toda a noite.
~ Recepção – Hospital Central ~
Estevão andava de um lado ao outro. Não havia quem passasse e não notasse seu sofrimento. Quanto levantou a vista, encontrou os médicos vindo em sua direção.
Estevão – Como está minha esposa Rubens? Dr. Lopez ela está bem?
Dr. Rubens – Estevão fique calmo, nós vamos lhe dizer tudo o que está acontecendo.
Estevão tentou se acalmar, passou as mãos nos cabelos pelo nervosismo – Podem falar.
Dr. Rubens – Maria está bem. Ela só necessita de cuidados pela sua desidratação e pelos hematomas no corpo... Eu pedi alguns exames e amanhã eles ficam prontos – olhou para o outro médico que estava ao seu lado – Quando os resultados saírem, eu venho informá-lo.
Estevão – Eu quero vê-la. Quero ficar ao lado da minha esposa.
Dr. Lopez – Acho que há nenhum inconveniente. Sua esposa está dormindo e provavelmente não acordará até amanhã. – Rubens concordou.
Estevão – Muito obrigado. Muito obrigado aos dois. Sei que estão fazendo mais do que devem por Maria e eu agradeço imensamente por isso.
Estevão abraçou os médicos, emocionado e foi para o quarto de Maria. Abriu a porta calmamente e entrou no quarto. Maria estava serena, calma, mas ainda com um semblante triste e distante. Estevão aproximou-se e tocou com a ponta dos dedos no rosto de Maria. Deixou escapar algumas lágrimas, mas logo às enxugou. Puxou a poltrona para perto da cama e sentou-se apegado as delicadas mãos de sua Maria.
Estava distraído, admirando Maria, quando ouviu seu celular tocar. Afastou-se um pouco para atender. Olhou o visor e repreendeu-se ao ver que era seu filho Heitor, e que tinha, com toda aquela confusão, esquecido de avisar a seus filhos.
– Ligação on -
Estevão – Heitor, filho.
Heitor – Papai, alguma noticia da mamãe?
Estevão suspirou forte e disse – Eu a encontrei, estamos no hospital.
Heitor – O que aconteceu? Ela está bem? – disse apreensivo e alertando Estrela que estava ao seu lado.
Estevão – Eu estou com ela, mas ela está dormindo. – suspirou forte.
Heitor – Papai...
Estevão — Filho venha com sua irmã para o Hospital Central e aqui nós conversaremos melhor.
Heitor – Está bem, daqui a pouco estamos aí.
– Ligação off -
~ Mansão San Roman ~
Estrela – O que aconteceu, Heitor? O papai conseguiu notícias da mamãe?
Heitor – Ele a encontrou, Estrela. Eles estão no hospital, me parece que nossa mãe não está bem.
Estrela – O que estamos esperando para ir ao Hospital então?
Heitor e Estrela saem rapidamente da mansão e vão para o hospital Central.
~ Mansão Mendizábal ~
Bruno estava sentado um seu cigarro em uma das mãos e um copo de uísque quase no fim na outra. Seus pensamentos estavam em desordem. Tudo o que não podia acontecer estava prestes a acontecer. Bruno só tinha certeza de uma coisa: ele não iria tomar a culpa sozinho. Se algo acontecesse, Alba cairia junto.
Bruno – Se Alba pensa que receberei a culpa sozinho, ela está completamente enganada... – deu uma de suas risadas – Alba, Alba, você não sabe o que está por vim... Amanhã será o dia propicio para eu fugir. Já tive Maria em meus braços, esse era meu grande desejo, mas nada me impede de fazer uma última visitinha a ela. Ahh Maria, amanhã vai ser minha como nunca foi de ninguém... – sorriu de canto de boca, cinicamente, enquanto remexia o resto de uísque no copo.
~ Hospital Central ~
Estrela e Heitor chegaram às pressas ao hospital. Logo adentraram a recepção do local, onde pediram informações.
Estrela – Boa noite.
Recepcionista – Boa noite. Posso ajudar?
Estrela – Pode sim. Gostaríamos de ver a paciente Maria San Roman – disse escorando-se no balcão.
A recepcionista digitou o nome de Maria em seu computador, onde apareceu todo o seu prontuário médico.
Recepcionista – Me desculpem, mais além de ser tarde da noite, a paciente não está em condições de receber visitas.
Estrela – Como é?
Heitor – Estrela, por favor... Desculpe-me por minha irmã, mas precisamos saber como está nossa mãe. Nosso pai está com ela no quarto. Não temos notícias e estamos angustiados. Deixe-nos vê-la só por um instante, depois iremos embora, eu prometo.
Recepcionista – Eu não posso. São normas do hospital.
Dr. Rubens que passava pela recepção viu os filhos de seu amigo e foi até eles – Heitor, Estrela...
Estrela – Dr. Rubens, que bom que o senhor está aqui. Essa senhora não quer deixar nem eu e nem o meu irmão entrarmos para ver nossa mãe.
Dr. Rubens – Meninos, a mãe de vocês precisa de alguns cuidados, mas ficará bem. Nós não estamos em horário de visitas. Ela está dormindo e não acordará hoje...
Estrela – Por favor, Doutor, nós precisamos ao menos vê-la, ter a certeza que ela está bem... Minha mãe estava desaparecida...
Dr. Rubens – Eu sei o que aconteceu Estrela... Está bem, está bem. Eu vou leva-los até Maria, mas vocês não podem dormir aqui. – Heitor e estrela sorriem entre si – Venham...
Heitor — Obrigado Dr. Rubens, sei que isso não é o certo.
Dr. Rubens – Não seria certo, eu deixar vocês dois aqui fora sem saber notícias da mãe de vocês.
Os dois acompanham o médico, mas não antes de agradecer a recepcionista. Heitor e Estrela caminham cheios de esperanças pelos corredores daquele hospital. Logo estão no quarto onde dentro estavam seus pais. Eles dão alguns toques na porta e a abrem. Rapidamente, Estevão, que estava com suas mãos grudadas nas de Maria, direcionou seu olhar para a porta e viu seus filhos correrem até ele.
Estrela – Papai... – abraçou seu pai
Dr. Rubens – Vou deixar vocês.
Heitor – Obrigado, doutor.
Dr. Rubens os deixou no quarto e foi examinar seus pacientes mais graves. Estrela desprendeu-se do abraço dado ao pai e olhou sua mãe. Parecia tão frágil, tão indefesa, não aparentava ser aquela mulher forte e batalhadora.
Estrela – Como aconteceu isso, mamãe? Como? – chorou apegada as mãos de sua mãe.
Heitor – Estrela...
Estevão – Deixe-a Heitor. Estamos todos abalados.
Heitor – Ah papai. Mamãe não merece sofrer dessa forma. Mas diga-me como a encontrou? Sabe quem a manteve presa? – disse enquanto distanciava-se de Estrela para poder conversar mais confortavelmente com seu pai.
Estevão – Bom, o delegado havia dado por encerradas as buscas e não achei certo. Depois que saí da delegacia, fui procurar mais um pouco. Saí da cidade e quando já estava afastado, eu a vi caminhando lentamente. Ela estava bem debilitada, não tinha forças. Quando a abracei, ela desmaiou em meus braços, rapidamente eu a trouxe. – suspirou e deixou as lágrimas rolarem – Filho... Estou tentando ser forte pra você e sua irmã, mas... eu estou com medo. São muitas coisas acontecendo na vida de Maria, na nossa vida, que tenho medo...
Heitor – Papai vai dar tudo certo... Confie... Mamãe irá recuperar-se e poderemos viver em paz.
Estevão – Em paz eu só viverei depois que tiver em minhas mãos o idiota que fez isso com sua mãe. Olhe seus braços Heitor, estão marcados, ele usou sua força contra ela.
Estrela – O que tanto conversam? – disse ficando na frente do pai e irmão.
Estevão – De sua mãe, mas vamos descansar um pouco depois voltamos com esse assunto.
Mesmo sabendo que não poderia dormir no hospital, Estrela e Heitor permaneceram por lá toda a noite. Dormiram espremidos em um mini sofá que havia no quarto. Estevão sentou-se novamente na poltrona ao lado de Maria e agarrou-lhe a mão. Não conseguiu dormir. Só pensava em quem poderia ter feito algo assim a sua esposa.
Não tardou a amanhecer, Estevão ainda observava Maria dormindo. Levantou-se e foi para fora do quarto. Quando fechou a porta atrás de si, Dr. Rubens estava indo chama-lo para terem uma conversa.
Dr. Rubens – Bom dia, Estevão.
Estevão – Bom dia Rubens.
Dr. Rubens – Quero conversar com você.
Estevão – Aconteceu algo com Maria? O que mostraram os exames? – disse já nervoso e preocupado
Dr. Rubens – Vamos para outro lugar para podermos conversar com mais tranquilidade.
Estevão – Não Rubens. Diga-me o que aconteceu, eu preciso saber agora.
Dr. Rubens — Estevão...
Estevão – Pela nossa amizade Rubens...
Dr. Rubens suspirou sem saída – Ontem fizemos em Maria uma bateria de exames e...
Estevão – Diga Rubens, o que há com minha esposa – disse com lágrimas nos olhos.
Dr. Rubens – Não sei como dizer-te isso, nos exames que fizemos, foi encontrado sêmen, foi constatado que Maria... que Maria foi abusada sexualmente quando ela esteve desaparecida.
O mundo de Estevão parou naquele instante. Palavras repetiam-se em sua cabeça. Estevão chorou. Seu rosto foi tomado por incansáveis lágrimas que insistiam em cair.
Estevão – Não pode ser... Os exames deram errado Rubens. Eu exijo que vocês repitam e corrijam este erro.
Dr. Rubens – Eu mesmo mandei refazê-los. Os resultados foram os mesmos. Eu sinto muito Estevão. – tocou o ombro do amigo.
Estevão – Rubens, este sêmen, ele poderia ser meu. Maria e eu nos relacionamos antes de... – o médico o interrompeu
Dr. Rubens – Eu sinto, mas não poderia Estevão. Não haveria mais vestígios e ela está machucada. Maria foi forçada.
Estevão escorou-se na parede e chorou.
Dr. Rubens – Nós vamos começar a fazer tratamentos com psicólogos para que sua recuperação seja mais rápida. Maria é uma mulher forte. Ela irá superar mais essa barreira.
Estevão – Não, não... A culpa é toda minha. Eu sempre prometo cuidá-la e protegê-la, mas nunca cumpro. Eu sou um idiota.
Dr. Rubens – Não foi sua culpa. Agora você terá que dar apoio a Maria, ela precisará de você agora mais do que nunca.
Estevão – Eu irei até no inferno se for preciso pra achar quem abusou de Maria, eu te juro Rubens, eu iriei ao inferno, mas eu o acho. – disse sério, com algumas lágrimas pelo rosto.
Heitor que havia acordado depois de ouvir algumas vozes levantou-se, olhou Maria e beijou-lhe a testa. Subitamente abriu a porta e chegou a ouvir a última parte da conversa do pai.
Heitor – Pai, o que disse?
Estevão olhou pra trás e viu seu filho com lágrimas nos olhos e uma pergunta que gostaria que lhe fosse respondida.
Estevão – Heitor...
Heitor chorando – A minha mãe foi abusada? Respondam-me – disse um pouco mais alto.
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